quinta-feira, maio 25

O pêlo suave dos gatos bravos

Tinha o rosto marcado por uma vida inteira. Nem sequer enorme nas conquistas, apenas inquieta nos conteúdos e estreita nos compromissos. Como se fosse o Homem que sempre quis ser.

Tinha da posição erecta perante a vida a superlativa ideia anónima dos heróis antes do tempo. Porque só eles acertam no tempo certo.

Tinha preconceitos vários, amores a preceito e um extenso rol de trivialidades para contar em mundana conferência.

Tinha sobre os afagos ideias, não apenas à volta do sexo. Mas também.

Tinha o Mundo em seu redor para entretecer vontades nas lembranças. Tinha a raiva e a temperança em doses igualitárias.

Tinha amigos. Tinha cor. Voltava ao princípio sempre por religião informada. E era como um gato bravo eriçado à espera do pentear.

Morreu.

terça-feira, maio 23

Mais ou menos isto

Aqui há uns anos, já não retenho quando, Manuel Maria Carrilho candidatou-se à presidência do seu partido de sempre, o PS. Tratava-se de uma ideia tão cabotina quanto heróica, já que Carrilho, não tendo apoios de base, era um outsider pouco credível, quanto mais não seja pelo percurso mediático que manteve durante anos e anos. Perdeu, como era óbvio.

Tenho a certeza, como de pouco mais, que o que afastou Carrilho das grandes vitórias políticas - que não dos principais palcos mediáticos - foi o seu casamento com Bárbara Guimarães. Recordo a vaia que ele recebeu nesse congresso de má memória (para ele) quando fez a sua intervenção de fundo. É que o povo não esquece. E o que estava em causa, em termos - eu diria - estéticos é que o professor, com fama de homo e com fraca figura física, andava a comer, tão só, a melhor febra do País. E isto, é evidente, é de todo inaceitável. Por quem? Pelo povo. Pelos militantes - e pelas militantes - do PS.

A dor de cotovelo que assolou o partido maioritário da Nação - e o da oposição, pois então - foi de tal modo importante que pôs a 'matilha' de dente em riste contra o candidato. Pode Carrilho não ter substância. Mas que é que isso interessa? A hipótese Bárbara varre isso tudo.

Uma última nota sobre o jornalismo, que Carrilho não entende mas sobre que fala, e às vezes bem. A 'matilha' existe. É absolutamente verdade que há mau jornalismo - eu diria péssimo jornalismo - em Portugal. As conas cotadas na bolsa de Carcavelos, amamentadas por cus de sopranos machos que se estão cagando para a independência fazem as delícias de Pacheco Pereira e outros quejandos.

No fundo, é o mesmo de sempre. Portugal não presta. Não Costa. Não esta.

E eu sou pela Bárbara Guimarães.

segunda-feira, maio 22

Globos

Graças a Deus (a quem mais?) a paneleiragem ainda não manda no País. Já falta pouco, mas para já não. Os Globos de Ouro projectaram hoje maioritariamente os melhores artistas de Portugal. Claro que o Falabella esteve lá, claro que o João Grosso ganhou um prémio. Mas podia ter sido pior. A Marisa, o Solnado, a miuda da moda, o Deco e a peça da Lapa estiveram na linha da frente. Mais um ano ganho. A Bárbara - a mulher mais bonita de Portugal - esteve bem, se bem que o realizador por vezes desatinasse.

Num País patético onde o politicamente correcto é futuro até que não correu mal. Os paneleiros e a fufaria, mais os pretos concomitantes, não subiram ao palco tantas vezes como era previsto. Deo gratias

quarta-feira, maio 17

Brincadeiras III

Portugal não tem emenda. A estilagem beldroega, arrelampada de pérolas, que pontificou o fungagá do la Feria no Campo inadimplente só viu coisas boas. Eu não. A mim faltou-me Paredes, sobrou-me ciganos, faltou-me fado, sobrou-me tacones.

Brincadeiras II

Agora estou a ouvir o Henrique Feist a dizer bem do Filipe la Feria.

terça-feira, maio 16

Brincadeiras

A RTP está, aparentemente (apanhei o programa a meio), a comemorar a reabertura do Campo Pequeno com um espectáculo do La Feria. É uma coisa que se aplaude.

Mas a função assusta nos pormenores (ou na falha deles). Para começar - como já disse, não sei se perdi 5 minutos ou uma hora de programa - apanho com o Pedrito de Portugal, com traje de luzes de época, numa faena correcta de um touro de boa investida. Tudo bem... não fosse a lide acompanhada de uma cantoria andaluza, lindíssima por sinal, que teria bom lugar em qualquer lado que fosse menos na abertura da principal praça de touros deste País. Deste, e não de outro.

Para que a coisa piorasse veio em seguida a Simone declamar a elegia/pranto (llanto) por Ignacio Sanchez Mejías, do grande Garcia Lorca. Coisa de bom gosto e garbo em qualquer lado do mundo... menos na inauguração da praça do Campo Pequeno.

Mas para que não fique a ideia de que o la Feria se travestiu de Lino (nem precisava, que o nome diz tudo) e abraçou causas que não são as de El-Rei D.João II, aqui se dá nota do supremo pastiche, farófia, merengue, mistela da contrafacção teatral. Uma pequena de bom timbre, de nome Anabela-salvo-erro, arrremete um 'Concerto de Aranjuez' (do grande Joaquin Rodrigo)... em francês.

Eu gosto de tourada à espanhola. Em Badajoz, se faz favor

quarta-feira, maio 10

Recordações de viagem

Impressão positiva: San Sebastian. A baía é fantástica, o povo também.

Recordação positiva; A gastronomia galaica. A Espanha, pese a luta pelas autonomias, é toda a mesma coisa. A única excepção é a Galiza. Mexilhões das Rias Bajas em primazia.

Surpresa positiva: Valladolid. Uma cidade não habituada ao turismo, plena de indústria, que sabe receber os visitantes.

Impressão negativa: os políticos de Navarra e do País Vasco. Devem andar esquecidos de Espanha.

Recordação negativa: a gastronomia basca. Uma merda completa.

Surpresa negativa: a catedral de Burgos. Parece uma velha rica e burguesa com montes de colares ao peito-

As maternidades do Campos

Regresso ao País em cujas auto-estradas múltiplas e bimbas me perco e olho abismado para um antrolho que dá pelo nome de Correia de Campos. O desaborto em causa é ministro da Saúde e quer fechar maternidades. Fosse o partido do baixinho uma agremiação mais tinente e o regabofe dava uma Maria da Fonte.

Resumo o caso, por de todos conhecido. O Campos quer que as prenhas vão parir lá longe, de quando em vez mesmo fora do território historicamente delineado. O Campos, rapaz esculpido na globalização e no internacionalismo envergonhado, quer que a Mãe seja a puta que o pariu em Badajoz. Elvas à vista, o relicário do neo-liberalismo de cor Campos tanto lhe faz que um puto nasça entre nós ou um pouco mais ali ao lado. Trata-se de um tonto, quando não de um salafrário.

Vamos assinalar a hipótese de o Campos saber de contas. É improvável mas que se foda.

Podia este homem, a braços com a liquidez do Sistema Nacional de Saúde, ter que fechar umas oftálmicas urgências ou mesmo uns analistas que fosse. Talvez até pudesse reduzir as urologias, já que os machos lusitanos pouco parecem padecer de doença que um toque rectal adivinhe. Podia, segundo os factos, diminuir despesas na ortopedia, porque o número de bengalas nos nossos é bem menor que na vizinha Espanha. Mas nas maternidades?

O doutor ministro pertence àquela classe social (ou sociopata) em que tanto se lhes dá se o filho nasce em Portimão ou na Azambuja. Se não for demasiado petulante retocar-lhe o peido a que chama sorriso gostaria de lhe recordar que a maior parte do povo gosta de ter filhos onde faz sentido. É um momento alto da existência e da identidade que os governos deveriam deixar de parte das suas costumeiras apropriações de vida.

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