quarta-feira, abril 19
Há trinta anos
Isto de ainda não ser velho e comemorar datas tremendas é assaz esquisito. A gente lembra-se de episódios brilhantes ou ridículos como se de ontem se tratasse; mas no entanto tudo já se passou há imenso tempo. Nessa altura, por exemplo, aconteceram coisas como o 25 de A., a I. e o J. tiveram uma filha adolescentes, o Algarve ficava à distãncia de um polegar estendido, o 'cavalo' começou-me a matar amigos e o preservativo era uma coisa que os velhos porcos usavam para ir às putas. Íamos, imaginem, ao teatro, e o basquetebol era um desporto de brancos.
Passados os anos, ele há coisas engraçadas. Esta semana recebi um telefonema de uma amiga de sempre, lá da escolinha básica comum, a dizer que vinha a Lisboa. Almoçar? Almoça-se, é claro, 'já não te vejo p'rá aí há uns oito anos'. Ressalvo aqui o desconhecimento que a maior parte dos autóctones têm da capital do País, quando de nortenhos se trata. A camarada é médica de proporções superiores mas não sabe que o Galleto fica na Avenida da República. Eu, que nunca vivi no Porto, sei perfeitamente onde fica o Aleixo e a Regaleira, o que só demonstra o ascendente moral dos nortenhos que colonizaram a cidade moura. Mas o que é facto é que a companheira ainda gastava meias solas, se fosse caso disso, e tem um humor e presença que só os anos entretecem.
Voltando ao tal encontro fixo-me nos meus meninos e penso-os. Com a idade, as ideossincrasias que já se adivinhavam nos 17 anos de existência ficam mais fortes. Os que não gostam de grandes grupos já eram então anarquistas. Os que querem convidar toda a gente eram, por essa altura, solidários. Os que porfiam em liderar a organização estão perto da comenda pública e os que apenas têm por missão escolher o restaurante já não andam longe do milhão na conta. E há ainda os que refinaram a diferença, seja na barba ou seja na música, e os que meteram a quarta mulher ao barulho com a segunda, porque o aspecto de Apolo não veio seguro com a eficácia ou a temperança. A colheita, meus irmãos, tem que ver com a sementeira.
Dito isto, havia no meu tempo coisas esquisitas que não convém deixar em branco. As meninas, se orgasmos experimentavam, faziam-no às escondidas. Quando não delas, pelo menos do parceiro. E se topete havia para nem dele o disfarçarem, tinham pelo menos a decência de que se não soubesse em público. As meninas do meu tempo amavam de preferência um fulano que a urbe aprovasse. As poucas que trocavam o passo tinham pouca sorte.
Se bem conheço a malta, o areópago de Maio nem vai versar sobre filhos, nem da casa grande ou mesmo do trabalho. Vai tudo acabar em Heidegger misturado com a essência da vida, os mitos da felicidade e da transformação social. Alguns terão a veleidade de falar de política e de cultura, tal como ela existe, mas antecipo que serão cilindrados pela 'vox populi' circundante. Na minha geração, a realidade convive mal connosco. E o que está errado é, obviamente, a realidade.
Entre os muitos que serão chamados e os poucos que serão escolhidos arriba a Espinho, por essa data, um escriba de duvidosa craveira muito lá de casa. O qual, maledicente por ética apercebida, não trocava por nada a gente que o viu crescer.
4 Comments:
Deliciosa a tua escrita meu amigo.
Um @bração do
Zecatelhado
By zecadanau, at abril 21, 2006
Eu já noutro dia aqui tentei deixar o recado, mas o teu porteiro mecânico embicou comigo. A ver se consigo agora...
É simples: ainda bem que voltaste a escrever, pá. Esta coisa dos blogues não é grande merda, mas é nos grandes desertos que se dá valor aos oásis.
E o mais espantoso é que apesar desses horríveis handicaps que manténs -seres lampião e jornalista -, mesmo assim, consegues!... Tens a minha admiração.
Que Deus te guarde por muitos e bons anos.
By dragão, at abril 21, 2006
Pois é, meu caro, por alguma razão os anarcas pintaram nas ruas de Lisboa: «acalmem-se, é a realidade que se engana». O problema é quando o poder cai nas mãos de utópicos e aqui começam as nossas divergências.
Um abraço.
By Flávio Santos, at abril 22, 2006
"Na minha geração, a realidade convive mal connosco. E o que está errado é, obviamente, a realidade."
qd te concentras, a coisa dá-se... ahahaha
mentira! continuas a escrever à-la-Homero, que a coisa não se faz por menos e já a lauda fácil me arrefece
;-)
--
Galeto?! ó Clark! get updated, please :-)
By mjm, at abril 27, 2006
É simples: ainda bem que voltaste a escrever, pá. Esta coisa dos blogues não é grande merda, mas é nos grandes desertos que se dá valor aos oásis.
E o mais espantoso é que apesar desses horríveis handicaps que manténs -seres lampião e jornalista -, mesmo assim, consegues!... Tens a minha admiração.
Que Deus te guarde por muitos e bons anos.
Um abraço.
qd te concentras, a coisa dá-se... ahahaha
mentira! continuas a escrever à-la-Homero, que a coisa não se faz por menos e já a lauda fácil me arrefece
;-)
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Galeto?! ó Clark! get updated, please :-)
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