domingo, março 12

A Sérvia

Sempre nutri um especial carinho pelas guardas avançadas. Pouco reconhecidas pelos seus pares, são chamadas à guerra quando necessário e pouco usufruem dos despojos depois dela. É isso que acontece há séculos com os meus irmãos sérvios.

Fazedores do seu próprio território, a que deram início a sul dos Cárpatos no século VII, os sérvios sempre revelaram uma noção de pátria - mesmo que se dela raramente tenham memorizado os contornos, tão fortes sempre foram os vários inimigos que ao longo do tempo conheceram.

Quis a geografia e a história que a Sérvia ficasse situada num terreno de fronteira e de passagem. Às portas de um mundo outro, a Sérvia cedo se manifestou europeia, desde o tempo em que o adjectivo faz sentido. Esteve ao lado de austríacos, franceses, alemães e russos em diversas fases da sua História, nunca comandando a lei da guerra mas dando sempre o corpo ao manifesto quando a velha Europa mandava expulsar turcos. Não raras vezes, quando as potências nobliárquicas se cansavam da batalha, pagou com carne, dignidade e território a factura da paz.

Cansados de ser moeda de troca, os sérvios lideraram outros povos com menor índole nacionalista numa arrancada moderna para a feitura de um Estado. No último quartel do séulo XIX estavam os alicerces lançados para o advento da Jugoslávia, país que viria a ver a luz do dia, a dois tempos, por volta dos anos vinte.

É típico das guardas avançadas ter um olho na fronteira e outro na própria retaguarda. É que nunca se sabe de onde vem o maior perigo - se da missão que nos foi confiada ou se de quem nos confiou a missão. Esta é, em termos breves, a história e a saga de todos os sérvios.

A Sérvia dos dias de hoje sofre as depressões de outros tempos. É um soldado triste com a falta de reconhecimento dos seus comandantes. Fez o trabalho e, no entanto, é apontada a dedo como um mau exemplo. Foi usada, não como prostituta, mas como mulher fiel a quem o marido trai.

A guarda avançada está de luto. Mas sempre alerta.

5 Comments:

Pois, mas o Milosevic destruiu em menos de meia dúzia de anos a unidade construída após a II Guerra Mundial e ciosamente guardada por Tito. E lançou a Jugoslávia pós-comunista, que se arriscava a tornar-se em mais um grande país da UE, numa pavorosa guerra fratricida.
Consideração e apreço pelos Sérvios [pelos séculos de resistência ao avanço do Islão na Europa] sim, sempre!
Luto pelo Milosevic, burocrata comunista ambicioso, mas sem pensamento nem brilho? Nunca, em tempo algum! Nem pensar!

PS: Sei que não falas directamente no Milosevic neste post. Mas pela contiguidade do mesmo com a sua morte, ele não deixa de estar presente, mesmo que isso não fosse a tua intenção - da qual, aliás, não estou certo...

By Blogger PluribusUnum, at março 13, 2006  

Meu caro Pluribus:

É óbvio que este texto não aparece por acaso. Também não é por acaso que não falo do Milosevic porque, desafortunadamente, não conheço o suficiente da sua 'obra' para dizer se sim, ou se não, concordo com ela. Isto que aqui escrevo é - como reconheces - sobre um povo heróico, que com alma e sangue defendeu sempre a nossa identidade europeia.

PS - É ABSOLUTAMENTE mentira que tenha sido o Milosevic a "destruir", em "meia dúzia de anos", "a unidade construída após a II Guerra Mundial". Quem fez isso foi Miterrand, Khol e Reagan. Eu tenho memória!!

PS2- E que tal umas férias em Belgrado? Aguardo resposta.

By Blogger clark59, at março 13, 2006  

Valeu a pena voltar a passar por aqui!

Legionário

By Anonymous Anónimo, at março 14, 2006  

"A guarda avançada está de luto."

Não. Não está.


Uns milhares de 'saudosistas' com com artrose e prótese dentária no meio dos milhões que derrubaram o estafermo em Outubro de 2000.
Ainda me lembro de estar a comer um bife e ver, de súbito, que o parlamento de Belgrado estava a ir p'ró galheiro e que o Slobo estava a dar à sola.

Voava........mas baixinho.

By Blogger vs, at março 14, 2006  

Quem destruíu a Juguslávia foram os alemães de Helmut Kohl com o beneplácito da União europeia e do Vaticano.

By Blogger Unknown, at março 15, 2006  

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Pois, mas o Milosevic destruiu em menos de meia dúzia de anos a unidade construída após a II Guerra Mundial e ciosamente guardada por Tito. E lançou a Jugoslávia pós-comunista, que se arriscava a tornar-se em mais um grande país da UE, numa pavorosa guerra fratricida.
Consideração e apreço pelos Sérvios [pelos séculos de resistência ao avanço do Islão na Europa] sim, sempre!
Luto pelo Milosevic, burocrata comunista ambicioso, mas sem pensamento nem brilho? Nunca, em tempo algum! Nem pensar!

PS: Sei que não falas directamente no Milosevic neste post. Mas pela contiguidade do mesmo com a sua morte, ele não deixa de estar presente, mesmo que isso não fosse a tua intenção - da qual, aliás, não estou certo...
 
Meu caro Pluribus:

É óbvio que este texto não aparece por acaso. Também não é por acaso que não falo do Milosevic porque, desafortunadamente, não conheço o suficiente da sua 'obra' para dizer se sim, ou se não, concordo com ela. Isto que aqui escrevo é - como reconheces - sobre um povo heróico, que com alma e sangue defendeu sempre a nossa identidade europeia.

PS - É ABSOLUTAMENTE mentira que tenha sido o Milosevic a "destruir", em "meia dúzia de anos", "a unidade construída após a II Guerra Mundial". Quem fez isso foi Miterrand, Khol e Reagan. Eu tenho memória!!

PS2- E que tal umas férias em Belgrado? Aguardo resposta.
 
Valeu a pena voltar a passar por aqui!

Legionário
 
"A guarda avançada está de luto."

Não. Não está.


Uns milhares de 'saudosistas' com com artrose e prótese dentária no meio dos milhões que derrubaram o estafermo em Outubro de 2000.
Ainda me lembro de estar a comer um bife e ver, de súbito, que o parlamento de Belgrado estava a ir p'ró galheiro e que o Slobo estava a dar à sola.

Voava........mas baixinho.
 
Quem destruíu a Juguslávia foram os alemães de Helmut Kohl com o beneplácito da União europeia e do Vaticano.
 
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