quinta-feira, dezembro 22

O facho

Eu gostava de fazer um pacto.

Consistiria tal coisa em nunca mais falar do passado com os meus amigos - eu diria, por facilitismo - fascistas

São dois ou três, não mais, mas são meus amigos. Por isso lhes dedico esta página.

Já nem falo dos Gulags versus Tarrafais. Dos Auchwitz versus Guantanamo. Isso é verdade, toda a gente sabe.

Falo de uma experiência pessoal que deveria pôr todos os ansiocratas do antigo regime em sentido declarado.

Falo de Peniche.

Acontece que, por azar ou sorte, conheço de gingeira e de aperto de mão negado um torcionário fascista (é o termo) da cadeia de Peniche. O azémula costumava arrematar os mamilos das mulheres a espasmos eléctricos, enquanto paneleiristicamente (como tantas vezes é apanágio dos fascistas) assediava os testículos dos operários da Marinha Grande que porfiavam ter cédula do Partido Comunista. O homúnculo salazarento existe e eu posso apontá-lo a dedo.

Tal personagem (humano, para quem tenha dúvidas) gabava-se nos anos 60 de morder mulheres por cima e de foder homens por baixo. Tinha de curriculum, como todos os fachos, a quarta classe mal feita e três tiros de pistolinha dados na Mocidade Portuguesa.

Para que conste, eu conheci o gajo. O facto de não o ter matado às minhas mãos não abona nada em favor de mim. Consegui, outro sim, impedi-lo de participar no funeral do meu sogro, de quem ele era, aparentemente, amigo. Essa corja de associais (eu nem lhes chamo outra coisa) existiu.

Ele nem sequer é perigoso. Pode ser assassinado a qualquer hora por qualquer cristão de boa vontade e procedimento correcto. Mas o facto de existir (e ser vivo) é uma derrota para a humanidade. Um pecado de um Deus que não nos deixa fazer justiça por mãos próprias.

Era só isto que eu queria dizer.
Saiba o BOS que eu também tenho memórias.

2 Comments:

Prezo muito que tenhas «memórias», mas ignoro por que razão citas o meu nome blogosférico num postal sobre "fachos" e "torcionários fascistas".
"Facho" não sou — e não o sou, segundo o teu próprio cânone, visto que TODOS os fachos teriam de currículo «a quarta classe mal feita e três tiros de pistolinha dados na Mocidade Portuguesa.» Eu, como sabes, tenho a quarta classe mal feita mas (uff!) nunca dei tiros de pistolinha na MP.
Foi muito digno isso de negares o cumprimento ao "torcionário" que gostava de «arrematar os mamilos das mulheres a espasmos eléctricos». Devo esclarecer-te, contudo, que o Forte de Peniche nunca foi uma prisão de mulheres, pelo que as práticas de sadismo do carcereiro devem de ter sido antes utilizadas em alguma pensão absconsa da povoação estremenha, avançando duas ou três décadas sobre as práticas de «bondage» hoje em voga.
Foi o meu postal sobre o PCP que te motivou o texto? Ainda está na moda esta treta de entoar a cantilena de Peniche e do Tarrafal para calar a «reacção» e justificar os abusos da esquerda? Sabes o que penso sobre o tema. Não me tentes 'colar' ao regime anterior, que não apoiei nem vivi. Digo mais: o regime anterior era medíocre. O actual regime é medíocre. Verberar um deles não implica aprovar o outro. Enquanto as opções portuguesas se confinarem a escolher entre o Almirante Tomás e o dr. Soares, eu serei francês. Ou italiano. Ou outra merda qualquer.
Quero saudar, de qualquer modo, o teu regresso em força à blogosfera. Mesmo a maioria dos teus leitores, que não me suporta nem com molho de tomate, há-de agradecer-me a tua chegada. Três dias antes do Menino Jesus e 15 dias antes dos Reis Magos. É obra. E logo depois de tanto tempo... É coisa só ao alcance de um «facho».

By Blogger Bruno Santos, at dezembro 22, 2005  

Porque não esquecer é preciso, gostei particularmente deste teu texto. Sei do que falas. Dois irmãos da minha mãe estiveram em Peniche. São gémeos. Eram iguais. Sairam diferentes (3 anos e medidas de segurança = + 3 anos). As queimaduras de cigarro no corpo e outras marcas não eram simétricas.
O primo da minha mãe, Canais Rocha, (14 dias de tortura do sono)e a sua mulher, também ela presa em PENICHE, também lá estiveram longos anos.
Hoje estão tranquilos, quase como se tivessem esquecido as torturas.
Eu NÃO!

Como também não esqueço a terrível imagem da polícia a bater numa colega minha, da Faculdade de Letras de Lisboa. Estava grávida. O seu bébé não nasceu. Foi em 68.

Se me perguntares se hoje estou bem, dir-te-ei que não. Há desemprego, há essa coisa terrível, chamada 'mobbing'.....

Mas estou certamente muito melhor. Um pequenino exemplo? Estar a relatar aqui apontamentos das minhas memórias e ir dormir descansada. A PIDE não arrombará a porta da minha casa durante a noite.

Bem vindo, Amigo!

By Blogger Afrodite, at janeiro 02, 2006  

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Comments:
Prezo muito que tenhas «memórias», mas ignoro por que razão citas o meu nome blogosférico num postal sobre "fachos" e "torcionários fascistas".
"Facho" não sou — e não o sou, segundo o teu próprio cânone, visto que TODOS os fachos teriam de currículo «a quarta classe mal feita e três tiros de pistolinha dados na Mocidade Portuguesa.» Eu, como sabes, tenho a quarta classe mal feita mas (uff!) nunca dei tiros de pistolinha na MP.
Foi muito digno isso de negares o cumprimento ao "torcionário" que gostava de «arrematar os mamilos das mulheres a espasmos eléctricos». Devo esclarecer-te, contudo, que o Forte de Peniche nunca foi uma prisão de mulheres, pelo que as práticas de sadismo do carcereiro devem de ter sido antes utilizadas em alguma pensão absconsa da povoação estremenha, avançando duas ou três décadas sobre as práticas de «bondage» hoje em voga.
Foi o meu postal sobre o PCP que te motivou o texto? Ainda está na moda esta treta de entoar a cantilena de Peniche e do Tarrafal para calar a «reacção» e justificar os abusos da esquerda? Sabes o que penso sobre o tema. Não me tentes 'colar' ao regime anterior, que não apoiei nem vivi. Digo mais: o regime anterior era medíocre. O actual regime é medíocre. Verberar um deles não implica aprovar o outro. Enquanto as opções portuguesas se confinarem a escolher entre o Almirante Tomás e o dr. Soares, eu serei francês. Ou italiano. Ou outra merda qualquer.
Quero saudar, de qualquer modo, o teu regresso em força à blogosfera. Mesmo a maioria dos teus leitores, que não me suporta nem com molho de tomate, há-de agradecer-me a tua chegada. Três dias antes do Menino Jesus e 15 dias antes dos Reis Magos. É obra. E logo depois de tanto tempo... É coisa só ao alcance de um «facho».
 
Porque não esquecer é preciso, gostei particularmente deste teu texto. Sei do que falas. Dois irmãos da minha mãe estiveram em Peniche. São gémeos. Eram iguais. Sairam diferentes (3 anos e medidas de segurança = + 3 anos). As queimaduras de cigarro no corpo e outras marcas não eram simétricas.
O primo da minha mãe, Canais Rocha, (14 dias de tortura do sono)e a sua mulher, também ela presa em PENICHE, também lá estiveram longos anos.
Hoje estão tranquilos, quase como se tivessem esquecido as torturas.
Eu NÃO!

Como também não esqueço a terrível imagem da polícia a bater numa colega minha, da Faculdade de Letras de Lisboa. Estava grávida. O seu bébé não nasceu. Foi em 68.

Se me perguntares se hoje estou bem, dir-te-ei que não. Há desemprego, há essa coisa terrível, chamada 'mobbing'.....

Mas estou certamente muito melhor. Um pequenino exemplo? Estar a relatar aqui apontamentos das minhas memórias e ir dormir descansada. A PIDE não arrombará a porta da minha casa durante a noite.

Bem vindo, Amigo!
 
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