sexta-feira, dezembro 23

Emigrar é preciso

Um dia, tinha eu desassete anos e um terço, apostei a um livrinho da moda uma nota escrita à mão de que queria, mal fosse grande, ser sociólogo. Eu lia, por essa altura, tudo o que de pós-revolucionário havia para consumo, embora por escolha minha pouco me entrasse na alma.

O que me aconteceu, com livro que não recordo, de autor francês de renome, foi uma premiére reclamante de um sonho que se moldava. Eu queria.

O engenho que estava ao alcance reclamava presença, se bem me lembro, numa universidade belga, loira e morena dos anos 70, que dava pelo nome de Lovaine-la-Neuf. Foi isto que disse ao meu Pai.

Para contextualizar o assunto, sou de Vas.Excias um rapaz de 46 anos. Ou seja, andei pelos 'abris' de pau feito e de coração aberto todos os dias. As musas tiveram algum merecimento por me cantarem a ode de um mundo bom, no qual eu tive que procurar sozinho a razão das coisas más que iam acontecendo.

Ia eu a dizer, então, que pretendi procurar paterno acordo para me baldar da Península estreita rumo ao Condado de Brugges.

O funcionário público impoluto quer me deu vida era de Torga um pouco e no mais arengava que se o homem sonha a obra é néscia. E a cara que ele fez quando me propus de partida ainda hoje a lembro em militar sentido.

Em longa e exasperante contenda, o que fica é a palavra 'não'. Não que eu a ouvisse, já que o fatela era demasiado esperto para mandar.

Mas emigrar é preciso. Portugal, desde sempre, soube comprar ou vender os seus activos humanos. É a hora de vender. Eu não consegui fugir. E vocês?

quinta-feira, dezembro 22

O facho

Eu gostava de fazer um pacto.

Consistiria tal coisa em nunca mais falar do passado com os meus amigos - eu diria, por facilitismo - fascistas

São dois ou três, não mais, mas são meus amigos. Por isso lhes dedico esta página.

Já nem falo dos Gulags versus Tarrafais. Dos Auchwitz versus Guantanamo. Isso é verdade, toda a gente sabe.

Falo de uma experiência pessoal que deveria pôr todos os ansiocratas do antigo regime em sentido declarado.

Falo de Peniche.

Acontece que, por azar ou sorte, conheço de gingeira e de aperto de mão negado um torcionário fascista (é o termo) da cadeia de Peniche. O azémula costumava arrematar os mamilos das mulheres a espasmos eléctricos, enquanto paneleiristicamente (como tantas vezes é apanágio dos fascistas) assediava os testículos dos operários da Marinha Grande que porfiavam ter cédula do Partido Comunista. O homúnculo salazarento existe e eu posso apontá-lo a dedo.

Tal personagem (humano, para quem tenha dúvidas) gabava-se nos anos 60 de morder mulheres por cima e de foder homens por baixo. Tinha de curriculum, como todos os fachos, a quarta classe mal feita e três tiros de pistolinha dados na Mocidade Portuguesa.

Para que conste, eu conheci o gajo. O facto de não o ter matado às minhas mãos não abona nada em favor de mim. Consegui, outro sim, impedi-lo de participar no funeral do meu sogro, de quem ele era, aparentemente, amigo. Essa corja de associais (eu nem lhes chamo outra coisa) existiu.

Ele nem sequer é perigoso. Pode ser assassinado a qualquer hora por qualquer cristão de boa vontade e procedimento correcto. Mas o facto de existir (e ser vivo) é uma derrota para a humanidade. Um pecado de um Deus que não nos deixa fazer justiça por mãos próprias.

Era só isto que eu queria dizer.
Saiba o BOS que eu também tenho memórias.

sábado, dezembro 17

Aurora

E então chegou o eu de mim que já não estava
O possível ai mais uma vez no mar vindouro

Dei-vos tudo, laca celeste no cabelo são
Som subterfúgio de uma existência ténue

Vai musa carreando solos à conquista
Vai Pátria antes da morte que nos dão

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