sexta-feira, junho 24

A Europa (outra vez)

A minha referência pessimista, aí mesmo em baixo, tinha, como quase sempre, aquele remate de esperança que caracteriza não só os optimistas inveterados (entre os quais não me incluo) mas também os Homens que sabem que, sem uma promessa de luz ao fundo do túnel, as energias das comunidades e de cada um de nós são muito mais difíceis de carrear.

Prometi então uma 'solução'. Em vez do tratado de política e economia que se adivinharia depois de tão retórica afirmação - que muito mal calharia num blog e que, por certo, ao presente autor adviria como um passo maior que a perna - escolhi tão só relembrar estruturas lógicas e milenares de afirmação comunitária.

1 - Em primeiro lugar, o rearmamento. Para que a Europa possa escapar ao acervo tutelar e impositório da NATO, bem como às ameaças das culturas limítrofes (de modos, ambos, a poder manter a sua agenda político-social, bem como a estratégia económico-comercial), é necessário que voltemos a ser autónomos em termos de defesa. Isso implica uma retro-acção de mais de um século, mas que é absolutamente necessária. Por fortuna, isso é, aliás, mais possível hoje do que há duas décadas atrás. Basta pensar que a Europa, depois da queda do Muro de Berlim, encara como possível uma reunificação até então completamente impossível. Agora, com mais recursos disponíveis, menos se pede a cada um que invista ou que sacrifique. A reactivação do serviço militar obrigatório masculino, sendo difícil depois das asneiras que se fizeram em anos recentes, é uma decorrência do que se disse atrás.

2 - Em segundo lugar a reafirmação de valores. A Europa - melhor sítio do Mundo para viver - não deve permitir, de nenhum modo, que lhe digam que a competição é mais importante do que a solidariedade, que a família não é mais importante do que o indivíduo, que a Nação não deve afirmar as suas especificidades culturais, étnicas ou religiosas. Isto por um lado. Por outro, devemos aprender a coabitar pacificamente, compreendendo as ideossincrasias que nos unem. Por exemplo, eu sinto-me muito mais finlandês que marroquino, embora Marrocos esteja muito mais próximo de mim. Essa habituação ao 'ser' europeu, que é definida pela raça, pelo passado comum, pela religião, pela cultura e pelos hábitos democráticos (políticos ou outros) é um bem intangível que urge desburocratizar para tornar consumível.

3 - Em terceiro lugar a educação. Os europeus estão anquilosados por séculos de escolástica, por um lado, e de livre-arbítrio, por outro. Nenhuma das práticas nos salva, antes nos encanita. Se é preciso mais experimentação, maior liberdade na aquisição de conhecimento, uma aposta redimensionada na inovação, também é verdade que a licenciosidade com que tratamos a formação dos nossos jovens nos está a atrasar irremediavelmente em relação aos recantos mais competitivos do planeta. Exemplos? Há vários: o ensino da História, por exemplo. Os europeus têm vergonha da sua História, nomeadamente na parte que os levou à expansão além-fronteiras. Não pode ser. Temos que relativizar os excessos evidentes de prepotência e enfatizar as vantagens imensas de ter tornado o Mundo viajável e conhecível. Foi a Europa que fez isso. Outro exemplo: é absolutamente necessário equiparar as mulheres aos homens em termos de capacidade de trabalho sem perder as especifidades femininas e masculinas. Não é preciso ser visionário para perceber que estamos a fazer exactamente o contrário. Ou seja, estamos a desfeminilizar as mulheres (na Suécia só já há 10% que sabem cozinhar) sem, ao mesmo tempo, lhes darmos oportunidades igualitárias em termos profissionais.

4 - Em quarto lugar a investigação científica autónoma. As estatísticas da OCDE dizem que a Suíça - país que está para além do meu escasso entendimento - é o recanto da Europa (?) que mais aposta na investigação. Uma análise mais fina demonstra que, se retirarmos as patentes sobre antibióticos e outros medicamentos, lá vai a Suíça com os cães. O que se passa é que a Europa, pobreta e não alegreta, confia no seu parceiro de sempre (leia-se, últimos 80 anos,leia-se EUA) para lhe cuidar das luzes científicas. Não pode ser. A Europa, de S. Petersburgo a Lisboa, tem que apostar em investigação científica autónoma, sob pena de ficar refém (como hoje está) de estratégias que nada têm a ver com os nossos problemas reais e comuns.

5 - Deixei para o fim deste longo post o verdadeiro cerne da cultura europeia que defendo num futuro próximo. Chama-se protecionismo.
No post em referência atacava-se o proteccionismo como sendo uma medida necessária...mas impossível.
Impossível? Sim, se não se incrementarem as medidas supra-referidas. É óbvio que a Europa está fragilizada nas suas defesas e que, portanto, seria aventureirista se pusesse em prática medidas que, sendo necessárias, muito a podiam penalizar no futuro. Mas - e aqui é que tudo faz sentido - se houver uma política autónoma de rearmamento, se ocorrer uma reafirmação dos valores-base, se a educação passar a ser regulada em termos correctos, se tivermos investigação científica autónoma e apontada para os nossos problemas fulcrais... Então a Europa tem futuro.

Ergo a taça!

3 Comments:

OK!
Ó Clark, quando é que nos dirigimos à sede do PNR para formalizar a nossa adesão?

:))

By Blogger vs, at junho 24, 2005  

Ó caramelo-camarada, achas mesmo que as minhas políticas só têm hipótese de serem concebidas no PNR? Para já há um problema. Se eu e tu aderíssemos 'àquilo' o mesmo ia entrar em polvorosa. Estás a ver os fachos a atinar com um 'ultra-liberal' como tu e com um 'iconoclasta' como eu'?

By Blogger clark59, at junho 24, 2005  

A taça de quê?...De cicuta? :O)

By Blogger dragão, at junho 24, 2005  

Post a Comment

Comments:
OK!
Ó Clark, quando é que nos dirigimos à sede do PNR para formalizar a nossa adesão?

:))
 
Ó caramelo-camarada, achas mesmo que as minhas políticas só têm hipótese de serem concebidas no PNR? Para já há um problema. Se eu e tu aderíssemos 'àquilo' o mesmo ia entrar em polvorosa. Estás a ver os fachos a atinar com um 'ultra-liberal' como tu e com um 'iconoclasta' como eu'?
 
A taça de quê?...De cicuta? :O)
 
Enviar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

´ BlogRating