quarta-feira, maio 11
O touro de Jesulin
Uma coisa feia, de deixar toda a gente mal disposta. Diestro sem garra (ou num dia mau), não matou o bravo animal. Liquidou-o a ronceiros golpes de espada. Um e mais outro, e ainda um terceiro. A quadrilha num desnorte lá acaba com a má arte num descabello que demorou uma eternidade. Um director benevolente não passou do primeiro aviso e o marrano matador saiu da praça depois de palmas de tango e assobio. Quem morreu foi ele.
Depois veio Jesulin. Capote perfeito, perante um touro de eleição. Capa de ambos os lados a dar sequência à faena. Interpretação correcta de um animal bravo como não se vêem muitos, que investe e dá graça à arte do matador gaditano.
Na tarde festiva de Jerez, em plena Feria del Caballo daquela cidade andaluza, Jesulin d’Ubrique, nascido ali perto vai para 31 anos, é o toureiro que um dia disse que entrou na arena não pelos touros mas pelas guapas. Ninguém sabe onde mais ‘mata’ - se na arena se nas bancadas.
Desta vez faz-se à sorte. Sai à primeira. Palmas e a orelha que já se adivinha. Eram para aí umas sete e meia da tarde.
O touro recebe a espada ali na fronteira entre o sol e a sombra, que esta já invade, por essa hora, um quarto crescente do redondel. Fixa-se na praça por uns segundos. Em seguida avança a passo de compasso, sai do cinzento que lhe confunde o torso e vem ao dourado do astro que lhe aquece a morte. Não pára. Cambaleia um pouco, pouco mesmo. A brevidade adivinha-se. Mas ele continua. Faz a arena toda a trote, e estanca, de cabeça erguida, no lado oposto ao da estocada. Depois, com um gesto lento, vira os cornos, olhando o centro da praça e o matador. O olho fica-lhe baço. Só então se deita, morrendo quase logo.
Como se ciente da sua sorte quisesse comandar os seus últimos momentos.
6 Comments:
Ora aqui está uma coisa nova: o primeiro a comentar o post sou eu propriamente dito. É só para me recordar da falar de forcados (next) e da minha experiência com touros (next next)
By clark59, at maio 11, 2005
Texto fabuloso, ao nível do grande e infelizmente já falecido Vicente Zabala, antigo cronista taurino do ABC, cujas crónicas valiam várias vezes o preço do jornal.
Temos de combinar umas idas à extremadura.
By Luís Bonifácio, at maio 11, 2005
Um texto fantástico sobre um assunto de merda.A.F.S.
By , at maio 11, 2005
Muy buen texto, aunque discrepo de su apreciacion sobre Jesulin de Ubrique. Dista mucho de cualquier estilo parecido al de Don Rafael, el Gallo, o incluso a las buenas faenas de Curro Romero.
Pero no estuve alli ni vi las imagenes, asi que creo a Claque cuando dice que ese dia Ubrique cuajo una buena faena.
Rafael Castela Santos
By , at maio 12, 2005
Apoio inteiramente o nosso comum amigo A.F.S. Um assunto de merda...
Quanto à tua experiência com touros, não estou bem a ver a que te referes...
Talvez ao fazer a barba, será?
Se calhar até gostavas de ser forcado, Superman, Homem-Aranha, Big John Holmes, pois claro. Coisas com que muitos adolescentes sonham.
Eu por mim, se bem me lembro, sonhava tornar-me membro da equipa do comandante Jacques Cousteau ou, mais brevemente, ser astronauta.
Mas isso já me passou há muito tempo...
By PluribusUnum, at maio 15, 2005
Creio que Rafael gostaria de uma prosa sobre 'El pasmo de Triana'. Quiz show: quem era?
By clark59, at maio 16, 2005
Temos de combinar umas idas à extremadura.
Pero no estuve alli ni vi las imagenes, asi que creo a Claque cuando dice que ese dia Ubrique cuajo una buena faena.
Rafael Castela Santos
Quanto à tua experiência com touros, não estou bem a ver a que te referes...
Talvez ao fazer a barba, será?
Se calhar até gostavas de ser forcado, Superman, Homem-Aranha, Big John Holmes, pois claro. Coisas com que muitos adolescentes sonham.
Eu por mim, se bem me lembro, sonhava tornar-me membro da equipa do comandante Jacques Cousteau ou, mais brevemente, ser astronauta.
Mas isso já me passou há muito tempo...
<< Home

