terça-feira, maio 31

O despesismo anti-tabagístico



Uma das mais louváveis iniciativas do socrático Governo, nesta busca ainda agora iniciada do graal orçamentício, é a promessa de aumentar o preço do cigarrito em 80%. Com um dinamismo só acessível a pujantes mentes totalmente engajadas a um objectivo salvífico, o Governo promete que consegue atingir o desiderato em 4 anos. É obra!

Acreditemos que é capaz, até porque essa função - a de acreditar - é a única que nos é confiada pelo alto magistério de Constâncio, Sampaio, Sócrates & Ca. Essa e a de pagarmos a conta, bem entendido.

Mas acreditar para mim não chega. Rezinga, vaidoso, desconfiado e elitista, arrogo-me a afirmar que estes gestos grandiosos em louvor da causa pública têm consequências cancerígenas.

O aumento dos cigarros em 80% atirará os mesmos para preços perfeitamente proibitivos para a bolsa dos portugueses. Estamos a falar de um maço de Marlboro a 4,60 euros, um valor superior ao que, por exemplo, vigora hoje em dia na Suécia, na França ou na Áustria, para falar apenas de países que visitei recentemente e cujo poder de compra é bem superior ao nosso.

Perante tão alarve sentido de Estado, o que resta aos fumadores fazer?

Em primeiro lugar, podem sempre cumprir a promessa que muitos já fizeram asi próprios vezes sem conta: deixar de fumar. Uns encararão a hipótese como uma rendição, outros como um desafio.

No caso dos primeiros, é provável que substituam o vício por ansiolíticos e anti-depressivos, com todas as consequências para a saúde daí decorrentes. Irão, num futuro próximo, engrossar as filas do Serviço Nacional de Saúde, as mesmas que, muito mais tardiamente, fatalmente frequentariam se insistissem no hábito de fumar. Chama-se a isso, do ponto de vista das finanças públicas, antecipação da despesa. Boa malha!

No caso dos segundos, a situação é mais grave. Se a tendência for para afrontar a autoridade do Estado e, em vez de continuar a fumar, fazer-lhes um manguito e deitar os cigarros ao lixo, então quem sofre é o erário público. Na verdade, uma forte diminuição do hábito de fumar trará graves consequências para os cofres do fisco, pelo imposto que, por essa via, se deixará de cobrar. Boa malha!

Mas partamos do princípio que, mesmo a 920 paus (em notas antigas), o pessoal continua agarrado e não larga o cigarro de modo nenhum. Neste caso, antevejo uma consequência óbvia e outra mais macabra.

A parte óbvia: numa economia onde a retracção do consumo interno pode significar, no curto e no médio prazo (pelo menos) uma recessão económica grave, impor um preço proibitivo a um produto viciante pode ter consequências nefastas. Como os orçamentos domésticos não são elásticos, se o preço do tabaco aumentar muito é certo e sabido que se terá de cortar nalgum lado. Férias, lazer, cultura, despesas do lar, vestuário e calçado, poderão ser os sacrificados. Com uma retracção do consumo haverá mais desemprego, mais conflitos sociais, mais empresas a fechar portas, menos impostos arrecadados pelo Estado. Boa malha!
Se os cortes tiverem que chegar ao nível da alimentação, a debilidade dos fumadores tenderá a agravar-se, o que não é boa notícia para o tal Serviço Nacional de Saúde que se pretende financiar à custa dos fumadores. Boa malha outra vez!

A parte macabra: uma das consequências psicológicas que o vício acarreta é a total dependência do indivíduo no sentido da sua satisfação. No caso do tabaco, hoje em dia, as situações mais caricatas ocorrerão com o fumador que, a meio da noite, sem cigarros em casa, pega no carro e dirige-se à loja de conveniência mais próxima para se reabastecer do produto.
Mas se o preço for um óbice à sua obtenção, a coisa pode mudar de feitio. E poderá começar a acontecer às tabacarias o mesmo que já hoje ocorre em farmácias ou em hospitais. Ou seja, assaltos de gangs armados, que despovoam as prateleiras das lojas, para depois venderem o produto do seu roubo num mercado paralelo e a preços mais baixos. O aumento do mercado paralelo (e nem se fala aqui do contrabando, já hoje existente, e que tenderá a aumentar exponencialmente) acarretará custos fiscais. Boa malha!

A clandestinidade do processo causa ainda outras preocupações. Para além da criminalidade e violência associada (que atulhará ainda mais os tribunais com processos-crime, outra boa malha), é de crer que quem entrar por esta via tenha a tendência gananciosa de piorar o produto. Ou seja, não faltarão cigarros marados que o consumidor desatento, e em estado de necessidade, comprará, atentando assim ainda mais contra a sua saúde do que se fumasse os cigarros autenticados pelas marcas.

É só boas malhas!

9 Comments:

Boa malha!

By Blogger PluribusUnum, at junho 01, 2005  

" O tabaco adverte que o governo prejudica gravemente a saúde".

PS: Quanto ao que nós sabemos, a minha boca é um túmulo.

By Blogger O asdrúbal, at junho 01, 2005  

Brilhante!

By Blogger vs, at junho 01, 2005  

Ó Clark, então e o contrabando, não florescerá?

By Blogger Luís Bonifácio, at junho 01, 2005  

Ó Clark, então e o contrabando, não florescerá?

By Blogger Luís Bonifácio, at junho 01, 2005  

Ó Clark, então não diz nada, homem?!. É que já o tirei do rol dos esquerdistas... :-)

JSarto

By Anonymous Anónimo, at junho 01, 2005  

Luís, ver penúltimo parágrafo

By Anonymous Anónimo, at junho 01, 2005  

Excelente malha.

By Anonymous Anónimo, at junho 02, 2005  

Ganda jogo!

By Blogger Fátima Santos, at junho 02, 2005  

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Comments:
Boa malha!
 
" O tabaco adverte que o governo prejudica gravemente a saúde".

PS: Quanto ao que nós sabemos, a minha boca é um túmulo.
 
Brilhante!
 
Ó Clark, então e o contrabando, não florescerá?
 
Ó Clark, então e o contrabando, não florescerá?
 
Ó Clark, então não diz nada, homem?!. É que já o tirei do rol dos esquerdistas... :-)

JSarto
 
Luís, ver penúltimo parágrafo
 
Excelente malha.
 
Ganda jogo!
 
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