quarta-feira, maio 18

A minha farda

Outro dia, antes de ir de férias, li neste blog que amiúde frequento uma catilinária alugada de algum militar de antanho sobre a falta de respeito pelo uniforme que seria característica de certa tropa pós-abrilina.

Andei pelo serviço obrigatório na primeira metade de oitenta, quando ainda se usava farda colonial e a cultura era de guerra. Meio a medo, meio a desnorte, os rapazes da Academia ensinavam aos milicianos uma guerra que já não era a nossa, a meias com uns 'primeiros socorros' sobre uma Europa que ninguém sabia onde ficava. No curso de oficiais fiquei a saber que o meu lugar na 'batalha' era na planície de Brescia, como comandante do Pelotão de Reabastecimento e Alimentação de uma estrutura da NATO comandada por italianos.

(Ora aí está mais uma razão para o fim da Guerra Fria! Eu a alimentar italianos havia de ser bonito! Comiam bacalhau assado e cozido dia sim dia não, e pizzas só se lhes fossem dadas pelo cu acima, com os cumprimentos de um cozinheiro que eu lá tinha, transmontano do Alto do Marão, habituado a convivências prolongadas com ovelhas...)

Mas estou a afastar-me do tema, que esta coisa de italianos sempre me dá ao desnorte.

Dizia o militar citado que os oficiais abrilinos vestiam mal-de-farda. Seja. Sou portador de dois testemunhos diferentes. Um sai à casa, outro ao 'padrinho'. Do segundo, vi e ouvi dizer que era o maior dandy do enfardanço (leia-se, de uma forma livre, o vestir das fardas) do seu tempo. Queque de esquerda, basicamente, ninguém lhe levava a palma nas botas engraxadas e nos vincos das calças.

O outro sou eu. Durante 'catorze-semanas-catorze' comandei um grupo de mal-paridos que nem por uma vez perdeu o direito a saír à frente do regimento em que se encontrava. E porquê?Porque o comandante de então - Coronel Palminha Sacramento de seu nome - tinha instituido o hábito de que o pelotão de recrutas que melhor marchasse, e fardasse, seguindo as normas de pundonor tropício, era o primeiro a dar 'às de vila diogo' à sexta-feira à tarde. Calhou sempre ao 3º da 3ª Companhia de Instrução da gloriosa Escola Prática de Administração Militar. Cujo comandante era aqui o je.

É preciso que se diga que a tropa que frequentei estava cheia de oficiais ex-pupilos do Exército, meninos da Luz e quejandos, que andavam na 'guerra' desde o tempo em que ainda não tinham pêlos na pila (ou se calhar esse género de indivíduos já nasce com eles, sei lá). Reaças aleivosos do antigamente havia uns tantos, embora a maioria absoluta nem sequer soubesse do que falava quando falava de Salazar ou de 'Angola é nossa'. Mas como achavam que lhes ficava bem com a cor dos olhos, pariam umas ideias parvas sobre democracia. Faziam parte daquela direita que acha que se um gajo se peida em público e lava os sovacos com sabão macaco é mais homem que aqueles mariconços esquerdalhos que pedem desculpa quando arrotam ou metem Donna Karen atrás das orelhas. Adiante.

O que importa é que os meninos em causa levaram 'xito' cá do miliciano no que a fardas e brilho concerne (e noutras coisas também, mas isso agora não vem ao caso).

Por isso, meu caro Pena e Espada, com toda a cagança do miliciano honrado que julgo ter sido, aqui fica o testemunho de um militar pós-abrilino que não tinha vergonha da farda, antes a defendia e arrogantemente a expunha perante quem julgava ter mais direito a ela do que eu. E não tinha.

PS -Pluribus, ainda guardo os galões que me deste!

7 Comments:

Em resumo, pá: foste um miserável "padeiro" e estás para aí com essa lábia. Eu, no teu caso, tinha vergonha e nem falava nisso.
Calculo que foi para ficares mais próximo do estádio da Luz.
Mas fica-te bem honrares a farda. Uma das medidas draconianas que estipulo, posso adiantar desde já, não é o SMO de novo: é a Mobilização Geral!

By Blogger dragão, at maio 18, 2005  

Sabes o que é que diferencia um 'padeiro' de um vulgar soldado de infantaria? A gente faz o mesmo que eles e mais qualquer coisa?

E já agora, tu foste de quê?

PS - A minha tropa tinha o defeito de ficar mais perto do Estádio de Alvalade.

By Blogger clark59, at maio 18, 2005  

Lês o meu blogue e ainda não adivinhaste?

E não mintas às pessoas: aquilo na EPAM era uma "peluda". Como, aliás, dita a lógica e a orgânica militar: não se pede aos administrativos que executem golpes de mão.

E o "foste", no meu caso, não é a forma verbal correcta.

By Blogger dragão, at maio 18, 2005  

Sim Dragão?!

ou melhor

Sim, meu General!
:)

By Blogger vs, at maio 18, 2005  

Então o queque de esquerda era eu? É verdade que fardava melhor que qualquer profissional. Isso valia-me que, era eu ainda cadete, as sentinelas faziam-me ombro-arma quanto entrava à Porta de Armas em Mafra (um gajo tão bem fardado só podia oficial - e no mínimo "xico", havia que ter cuidado!). Valeu-me também uma ida à Piscina Ranger no dia em que me apresentei no destacamento de Penude, em Lamego... e isso foi só o princípio da praxe...
Mas nem por isso deixei de usar a farda com cagança!

By Blogger PluribusUnum, at maio 19, 2005  

Your blog keeps getting better and better! Your older articles are not as good as newer ones you have a lot more creativity and originality now keep it up!

By Anonymous Anónimo, at janeiro 06, 2010  

Nice brief and this fill someone in on helped me alot in my college assignement. Thanks you seeking your information.

By Anonymous Anónimo, at janeiro 20, 2010  

Post a Comment

Comments:
Em resumo, pá: foste um miserável "padeiro" e estás para aí com essa lábia. Eu, no teu caso, tinha vergonha e nem falava nisso.
Calculo que foi para ficares mais próximo do estádio da Luz.
Mas fica-te bem honrares a farda. Uma das medidas draconianas que estipulo, posso adiantar desde já, não é o SMO de novo: é a Mobilização Geral!
 
Sabes o que é que diferencia um 'padeiro' de um vulgar soldado de infantaria? A gente faz o mesmo que eles e mais qualquer coisa?

E já agora, tu foste de quê?

PS - A minha tropa tinha o defeito de ficar mais perto do Estádio de Alvalade.
 
Lês o meu blogue e ainda não adivinhaste?

E não mintas às pessoas: aquilo na EPAM era uma "peluda". Como, aliás, dita a lógica e a orgânica militar: não se pede aos administrativos que executem golpes de mão.

E o "foste", no meu caso, não é a forma verbal correcta.
 
Sim Dragão?!

ou melhor

Sim, meu General!
:)
 
Então o queque de esquerda era eu? É verdade que fardava melhor que qualquer profissional. Isso valia-me que, era eu ainda cadete, as sentinelas faziam-me ombro-arma quanto entrava à Porta de Armas em Mafra (um gajo tão bem fardado só podia oficial - e no mínimo "xico", havia que ter cuidado!). Valeu-me também uma ida à Piscina Ranger no dia em que me apresentei no destacamento de Penude, em Lamego... e isso foi só o princípio da praxe...
Mas nem por isso deixei de usar a farda com cagança!
 
Your blog keeps getting better and better! Your older articles are not as good as newer ones you have a lot more creativity and originality now keep it up!
 
Nice brief and this fill someone in on helped me alot in my college assignement. Thanks you seeking your information.
 
Publicar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

´ BlogRating