segunda-feira, maio 16
Festival da Eurovisão

Um dos métodos mais eficazes para explicar Portugal aos estrangeiros é dizer-
-lhes que nunca, em 40 anos de participações, ganhámos o Festival da Eurovisão.
Faço aqui um parêntesis para explicar à diminuta audiência – penso que este ponto tem andado algo arredado das conversas que por aqui se têm – que, se eu não fosse o que sou, seria provavelmente músico, usando a voz como um mais que plausível instrumento, já que o saxofone (escolha também possível) nunca me foi ensinado. Dotado de ouvido absoluto, nunca na minha vida errei um tom. Canto do fado ao jazz, passando pela pop toda, lieds da clássica, lírica, etc. Conheço muito pouca gente assim.
No caso de já terem parado de bater palmas, gostaria de passar ao que interessa.
Algumas das canções que a RTP (representando Portugal) levou à Eurovisão nos últimos 40 anos são, não só das melhores melodias que o País criou no tempo entretanto, como também das mais fantásticas que a Europa viu serem-
-lhe apresentadas à época.
Qual a razão porque nunca ganhámos – e, mais do que isso, porque é que raras vezes andámos lá perto, sendo que em segundo e terceiro nunca ficámos?
O motivo para tal facto é de simples enunciação, e chama-se língua portuguesa. A razão porque o Carlos Mendes, a Tonicha, o Carlos do Carmo, a Dulce Pontes, a Nucha, a Sara Tavares, o José Cid, a Adelaide Ferreira, a Anabela, etc. nunca ganharam (nem estiveram lá perto) o Festival da Eurovisão é porque cantaram nessa língua horrível que se chama português. Uma língua fantástica para escrever poesia, para contar histórias, mas impossível de meter num ‘sol-e-dó’.
Só um exemplo: uma das canções usualmente votadas como a melhor da pop urbana de todos os tempos é : ‘Eih, mister tambourine man, play a song for me’. Em português soa assim: ‘Olá, senhor da pandeireta, cante uma canção para mim’.
Acho que está tudo dito.
Mais uma: ‘Yesterday, all my troublous seem so far away’. Que em português é mais ou menos o seguinte: ‘Ontem, todas as minhas perturbações pareciam ter-se afastado’.
Uma última palavra para os gregos, que também nunca ganharam o Festival da Eurovisão. Somos assim, somos diferentes. Bem hajam.
9 Comments:
Caro absolutista de ouvido, não concordo nada com a tua teoria. Não esqueças que Israel já ganhou acho que 3 vezes e aquela língua não é mais cantável do que a nossa.
É óbvio que a questão ultrapassa largamente a língua. Já há muito que se sabe que aquilo é um jogo de influências que nada tem a ver com música.
Um abraço.
By , at maio 16, 2005
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
By PluribusUnum, at maio 16, 2005
"Yesterday all my troubles seemed so far away". Cada vez que tentas falar (escrever) estrangeiro, cada tombo!
Se cada caísses ao chão cada vez que tropeças em estrangeiro (qualquer língua) eras pelo menos um multi-poli-hiper-traumatizado! Não havia hospital que te aceitasse!
Quanto ao falhares ou não as notas, pois presunção e água benta, cada qual sabe da que tem!...
Quanto ao resto estou de acordo que antigamente as nossas canções eram muitas vezes bem melhores que as dos outros. Que as vozes eram de excepcional qualidade (já as orquestrações o mais das vezes não estiveram à altura do resto).
Mas a língua nada tem que ver com a coisa... As palavras e as notas têm que se amoldar umas às outras. Traduz lá "E Depois do Adeus" para inglês e vais ver a cagada que dá. Ou a "Desfolhada"!
O comentário do meu antecessor aqui é certeiro. Aquilo nada tem que ver com música, mas com poder(es) de vária índole.
Tem também que ver com a (falta de) qualidade da campanha (marketing) que a RTP faz junto de quem risca no Festival, da engrenagem. Suspeito que se essa campanha alguma vez existiu - o que duvido - terá sido, no máximo, abaixo de cão.
Estou certo que a delegação da RTP (não os músicos de cantores, mas os outros, os da direcção de produção, etc.) não vai para os festivais para trabalhar duramente como os outros fazem, eles vão é para passear e marcar presença nos cocktails...
Além disso as votações últimamente têm sido merecidas, as canções que levámos nos últimos seis ou sete anos são todas abaixo de cão. Nem me consigo lembrar de nenhuma delas...
By PluribusUnum, at maio 16, 2005
Caro amigo Clark (acho que posso chamá-lo assim :-)), recomendo-lhe a audição de "lied" portugueses, de Croner de Vasconcelos a Filipe Pires, passando por Alfredo Keil, há uma plêiade de exemplos da musicalidade da nossa língua.
By Flávio Santos, at maio 16, 2005
Rejeito a torpe ideia de que o Português seja um idioma "incantável". Da Amália aos Madredeus, os portugueses que singram lá fora cantam na língua de Camões. Os nossos letristas é que, não distingindo as mais das vezes a escrita para canções das demais, escrevem baladeiros e indecifráveis versos, fazendo uso de expressões rebuscadas — a utilização estapafúrdia e exagerada da palavra "corpo", por exemplo —, para além de rimas de vida fácil.
Se os letristas ingleses utilizassem vocábulos raros ("constitutionality", "acetylsalicylic", ou "otorhinolaryngological", por exemplo), as músicas também soariam mal...
Isto de traduzir ou retroverter letras de canções dá sempre mau resultado. Seja de Inglês para Português, ou de Português para Inglês.
A musicalidade do Inglês deve-se em boa parte ao engenho dos letristas. Com poemas do Shakespeare, os gajos agora não se safavam. É uma língua cheia de potencialidades rítmicas, é certo, mas é preciso descobri-las. Se eu escrevo: «He is abstemious» — sou capaz de criar certo efeito sonoro, sobretudo se a interpretação ajudar, porque naquele «abstemious» estão — sem quase nos darmos conta — as cinco vogais pela ordem certa. O ouvido não é insensível a estas coisas. E estes efeitos também podem ser criados em Português. Acontece que os letristas não distinguem entre vogais, desconhecem o que seja uma consoante líquida — entre outras coisas elementares para quem escreve poesia.
Isto tudo para te dizer que o que explica o fracasso luso no Festival da Eurovisão, certame para o qual me marimbo de alto, é mesmo a piroseira dos temas propostos. E não é só de agora, não senhor...! Lembro-me, logo a seguir à revolução, de um festival em que todas as músicas foram interpretadas pelo Carlos do Carmo (decerto para celebrar o pluralismo nascente). Uma grande estopada! O desgraçado cantava. Retirava-se. O público batia palmas. E lá vinham os apresentadores anunciar o título da canção seguinte, invariavelmente interpretada pelo grandíssimo «capachinho vermelho», que entrava de novo ao palco. No final, depois de disputada votação, ganhou o... Carlos do Carmo. Uma surpresa! Lembro-me também de um festival em que ganhou um capitão (de Abril?), moço de bigodaça e arzinho revolucionário. Um fartote.
By Bruno Santos, at maio 16, 2005
É um facto que Portugal, nos últimos anos, tem levado músicas péssimas ao festival da Eurovisão. Mas não é menos verdade que já levámos grandes "malhas", boas em qualquer língua (estou e lembrar-me da "Desfolhada").
O que falta é trabalho de marketing por parte da RTP. Em Espanha, por alturas do festival da Eurovisão há quase um levantamento nacional. Vive-se em função do festival. Por aqui, passa ao lado...
Mas também os espanhóis têm levado grandes melões ultimamente. É que o festival também tem muito que se lhe diga... Há por ali muitos pontos puramente políticos...
By JoaoViriato, at maio 16, 2005
Ouvi ontem a música que a RTP vai levar ao festival deste ano. Acho que a única utilidade dela é fazer com que "Oração" do António Calvário se torne uma excelente canção.
By Luís Bonifácio, at maio 16, 2005
No Eurofestival andam há 40 anos a gozar connosco. Todas as estratégias já foram tentadas e não há maneira de chegarmos ao topo. É tempo de acabar com isto.
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--- Irmãos Catita à Eurovisão! ---
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By , at maio 19, 2005
Madalena Iglesias merecía haber ganado el Festival de 1966
By , at novembro 10, 2007
É óbvio que a questão ultrapassa largamente a língua. Já há muito que se sabe que aquilo é um jogo de influências que nada tem a ver com música.
Um abraço.
Se cada caísses ao chão cada vez que tropeças em estrangeiro (qualquer língua) eras pelo menos um multi-poli-hiper-traumatizado! Não havia hospital que te aceitasse!
Quanto ao falhares ou não as notas, pois presunção e água benta, cada qual sabe da que tem!...
Quanto ao resto estou de acordo que antigamente as nossas canções eram muitas vezes bem melhores que as dos outros. Que as vozes eram de excepcional qualidade (já as orquestrações o mais das vezes não estiveram à altura do resto).
Mas a língua nada tem que ver com a coisa... As palavras e as notas têm que se amoldar umas às outras. Traduz lá "E Depois do Adeus" para inglês e vais ver a cagada que dá. Ou a "Desfolhada"!
O comentário do meu antecessor aqui é certeiro. Aquilo nada tem que ver com música, mas com poder(es) de vária índole.
Tem também que ver com a (falta de) qualidade da campanha (marketing) que a RTP faz junto de quem risca no Festival, da engrenagem. Suspeito que se essa campanha alguma vez existiu - o que duvido - terá sido, no máximo, abaixo de cão.
Estou certo que a delegação da RTP (não os músicos de cantores, mas os outros, os da direcção de produção, etc.) não vai para os festivais para trabalhar duramente como os outros fazem, eles vão é para passear e marcar presença nos cocktails...
Além disso as votações últimamente têm sido merecidas, as canções que levámos nos últimos seis ou sete anos são todas abaixo de cão. Nem me consigo lembrar de nenhuma delas...
Se os letristas ingleses utilizassem vocábulos raros ("constitutionality", "acetylsalicylic", ou "otorhinolaryngological", por exemplo), as músicas também soariam mal...
Isto de traduzir ou retroverter letras de canções dá sempre mau resultado. Seja de Inglês para Português, ou de Português para Inglês.
A musicalidade do Inglês deve-se em boa parte ao engenho dos letristas. Com poemas do Shakespeare, os gajos agora não se safavam. É uma língua cheia de potencialidades rítmicas, é certo, mas é preciso descobri-las. Se eu escrevo: «He is abstemious» — sou capaz de criar certo efeito sonoro, sobretudo se a interpretação ajudar, porque naquele «abstemious» estão — sem quase nos darmos conta — as cinco vogais pela ordem certa. O ouvido não é insensível a estas coisas. E estes efeitos também podem ser criados em Português. Acontece que os letristas não distinguem entre vogais, desconhecem o que seja uma consoante líquida — entre outras coisas elementares para quem escreve poesia.
Isto tudo para te dizer que o que explica o fracasso luso no Festival da Eurovisão, certame para o qual me marimbo de alto, é mesmo a piroseira dos temas propostos. E não é só de agora, não senhor...! Lembro-me, logo a seguir à revolução, de um festival em que todas as músicas foram interpretadas pelo Carlos do Carmo (decerto para celebrar o pluralismo nascente). Uma grande estopada! O desgraçado cantava. Retirava-se. O público batia palmas. E lá vinham os apresentadores anunciar o título da canção seguinte, invariavelmente interpretada pelo grandíssimo «capachinho vermelho», que entrava de novo ao palco. No final, depois de disputada votação, ganhou o... Carlos do Carmo. Uma surpresa! Lembro-me também de um festival em que ganhou um capitão (de Abril?), moço de bigodaça e arzinho revolucionário. Um fartote.
O que falta é trabalho de marketing por parte da RTP. Em Espanha, por alturas do festival da Eurovisão há quase um levantamento nacional. Vive-se em função do festival. Por aqui, passa ao lado...
Mas também os espanhóis têm levado grandes melões ultimamente. É que o festival também tem muito que se lhe diga... Há por ali muitos pontos puramente políticos...
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--- Irmãos Catita à Eurovisão! ---
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