sábado, maio 28
Como bola colorida
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos
Como estes pinheiros altos
que em verde e ouro se agitam
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento
bichinho alacre e sedento
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel
base, fuste, capitel
arco em ogiva, vitral
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista
Mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança.
Ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança, Colombina e Arlequim,
Passarola voadora, para-raios, locomotiva,
barco de proa festiva
alto-forno, gerador
Cisão do átomo, radar, ultrassom, televisão
Desembarca em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
Como bola colorida
entre a mãos de uma criança.
(António Gedeão)
1 Comments:
É engraçado que me é extremamente difícil ler este poema sem que a música (fraquita) que o Manuel Freire inventou para ele me tolha e condicione a leitura.
Não é que essa música seja feia. Mas é apenas uma leitura possível. Prefiro ler a poesia nua, despida de preconceitos. O estranho é que o meu conhecimento deste poema é anterior à música de M. Freire. Mas a verdade é que, por paradoxal que pareça, a música que Freire lhe colou se sobrepôs à minha própria leitura inical do texto.
Estou bem consciente de como um "diseur" pode influir na percepção que cada um de nós faz de um determinado poema. Por experiência própria.
Porque já li poemas que me impressionaram vivamente logo ao lê-los (no livro) e dos quais ouvi depois interpretações mortiças e/ou desastradas de "diseurs" assassinos. É o que mais há em Portugal.
Felizmente também já me aconteceu o contrário. Ouvir poemas que já conhecia transfigurarem-se e ganharem cores, intensidades e sentidos que eu não lhes tinha descoberto.
Por certo, acho que em Portugal, com a excepção de Villaret e de Mário Viegas (que descansem em paz), não há "diseurs" dignos desse nome, que eu conheça. Em Espanha e na América Latina há "diseurs" portentosos!
By PluribusUnum, at maio 30, 2005
Não é que essa música seja feia. Mas é apenas uma leitura possível. Prefiro ler a poesia nua, despida de preconceitos. O estranho é que o meu conhecimento deste poema é anterior à música de M. Freire. Mas a verdade é que, por paradoxal que pareça, a música que Freire lhe colou se sobrepôs à minha própria leitura inical do texto.
Estou bem consciente de como um "diseur" pode influir na percepção que cada um de nós faz de um determinado poema. Por experiência própria.
Porque já li poemas que me impressionaram vivamente logo ao lê-los (no livro) e dos quais ouvi depois interpretações mortiças e/ou desastradas de "diseurs" assassinos. É o que mais há em Portugal.
Felizmente também já me aconteceu o contrário. Ouvir poemas que já conhecia transfigurarem-se e ganharem cores, intensidades e sentidos que eu não lhes tinha descoberto.
Por certo, acho que em Portugal, com a excepção de Villaret e de Mário Viegas (que descansem em paz), não há "diseurs" dignos desse nome, que eu conheça. Em Espanha e na América Latina há "diseurs" portentosos!
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