terça-feira, abril 19

Os que não se interessam, os invejosos, os excluídos, os estrangeirados, os que não gostam e pronto, mais aqueles aos quais a coisa não se aplica

O maior título jamais dado a um post escrito aqui neste tasco tem uma motivação cultural. Há pouco, na SIC, e a (des)propósito da entrega dos ‘Globos de Ouro’, perguntava-se o repórter sobre o distanciamento entre os portugueses e a sua cultura autóctone. Pretenciosamente, penso ter uma opinião sobre o assunto.

A razão pela qual os portugueses estão desfasados da sua produção cultural não é unívoca. Há várias espécies de cidadãos afastados dela. Procurarei enumerar as categorias principais.

1 – Os que não se interessam. Por muito que nos custe, há pessoas genuinamente fora dos ambientes culturais. ‘Estão noutra’, como se costuma dizer. Não foram habituados, não sabem que isso existe, dispensam o assunto. Umas bojecas, uma tareia nos filhos de vez em quando, uma ida à terra duas vezes por ano e a leitura de ‘A Bola’ chegam perfeitamente para lhes ocupar o pouco tempo que lhes fica depois de guiarem o táxi doze horas a fio ou de manterem aberta a mercearia aos sábados e domingos, tentando obviar à falência iminente ditada pelo hipermercado da zona.

2 – Os invejosos. Há gente que gostava de… mas não chega lá. Por isso prefere dizer mal, ponto final. Se o Abrunhosa usa óculos escuros é porque esconde a alma que tem, se o Lobo Antunes fuma é para se armar em parvo, se a João Pires vive em Castelo Branco é porque não aguenta a pressão de Lisboa. E se o Padre Borga cheira mal da boca é porque anda a lamber coisas com cieiro. Tudo isto, para um invejoso, é cereja em cima do bolo de quem não gosta porque não está ‘lá’. A estratégia é esta: se ‘eu’ não conto para o totobola, quem conta não presta.

3 – Os excluídos. É o caso mais grave. Há muita gente de talento que nunca chega aos areópagos da evidência. Por timidez, por falta de sorte, por não ter estado no sítio certo à hora certa. Porque o espaço expositório é limitado e porque quem entra tira sempre o lugar a quem está. É evidente, também, que as capelinhas abundam e que quem não reza o ‘terço’ certo arrisca-se a ficar a falar sozinho.

4 – Os estrangeirados. A malta às vezes tem o preclaro juízo, ainda novos ou nem tanto, de que o torrão pátrio não presta. Vai daí, vai p’ró estrangeiro, seja de mala aviada ou de bolseiro da Gulbenkian. Aprende lá coisas. Volta p’ra cá e vê os videirinhos ascensionários, os medíocres à gola, os variados pedintes à mesa do Estado. A primeira reacção é ir-se embora outra vez. Depois pensa-se melhor: o cozido à portuguesa, a Mãe que está a ficar velhota, o impacto das nossas ideias na política local… Fica-se por cá a dizer mal e a trazer livros para os amigos que nunca leram tal coisa. Quando se fala em música portuguesa, por exemplo, é um encher de rir, já que a bagagem está cheia de produtos de primeira qualidade que se fazem lá fora. Não há pachorra.

5 – Os que não gostam e pronto. São o melhor grupo de todos. Há gente que não consegue cantar em português, e tem razões para isso. Só um exemplo: ‘Imagine all the people’, traduzido em português, dá qualquer coisa como ‘Imagine-se todo um povo’. Não é normal. E se passarmos ao cinema o problema mantém-se: vocês estão a ver a Lia Gama (por exemplo) virada para o Fonseca e Costa: ‘senhor Fonseca e Costa, estou pronta para o meu plano fechado!’ Estão a ver? Eu não.

6 – Aqueles a quem a coisa não se aplica. Aqui é que a porca torce o rabo. Há gente que gosta mesmo de cultura portuguesa. Que acha o Paredes incomparável e o Ferro um grande produtor. Que idolatra a Marisa e não teme meças ao Souto Moura. Que é moço de forcados perante qualquer picador e que mostra a Amália onde quer que seja. Que dá alvíssaras a quem gritar mais alto que a Teresa Salgueiro ou a quem for ateu mais que Saramago. A poeta e tradutor de poetas mais que Jorge de Sena ou a descobridor mais que D. Henrique. A Rosália que, não sendo portuguesa, mais que em português escreveu. A Florbela, que sendo alentejana, morreu de amor desdramatizando a virgindade saloia. A Santa Ritta pintor. A Mário de Sá Carneiro. A Fernando Pessoa. A Amadeu. A Manuel Laranjeira, espinhense como eu, e como eu por lá morto, espero eu um dia. A Luís de Sttau Monteiro e a Bernardo Santareno, e à pretensão de ressuscitar a mais ténue das artes lusitanos, a dramaturgia. A José Fonseca e Costa, realizador. Ao Pedro Ayres de Magalhães. Ao Luís Coutinho, meu confrade naquela aventura que se chamou ‘Música na Universidade’. Ao António Gedeão, pela adição da física á poesia mais fácil. Ao Rodrigo Emílio, pela cinética florida das combinações poéticas.

E a mim, porque ainda estou por aqui.

6 Comments:

Eu não quero ser chato, mas desta feita é o Inglês... "Imagine all the people", vertido para Português, não dá nada "Imagine-se todo um povo".
Acho que citas os estafados versos de Lennon, que rezam assim: "Imagine all the people living life in peace..." (Julgo que é isto). Na língua de Camões: "Imagina todas as pessoas a viver em paz..." Ou até: "Imagina o mundo inteiro..."
Eu sei que, por culpa de 50 anos de «obscurantismo fascista», os portugueses não sabem falar Sueco nem Norueguês (o que é imperdoável), mas que ao menos se desenrasquem no Inglês, no Francês e noutros linguajares ignotos... E lá virá o dia, enfim, em que — democratizados e iluminados — todos leremos na ponta da unha o Helsingborgs Dagblad e o Dagbladet de Oslo!

By Blogger Bruno Santos, at abril 19, 2005  

Olha, eu não sei porquê, prefiro o Dagens Nyheter de Estocolmo.
Iag elsker dag!

By Blogger clark59, at abril 19, 2005  

Aqui estou eu de novo, desta feita por causa do novo Papa. Saberás porventura que mão ímpia escreveu no passado dia 28 de Março a seguinte catilinária?:

"(...) o inefável Josef Ratzinger. O mesmo que, nesta santa Páscoa, tomou a seu cargo a escreventura do texto papal sobre as catorze meditações da Paixão de Cristo. Numa interinidade galopante (eu diria, alucinada) Ratzinger quer fazer doutrina, no pequeno espaço de tempo que a História lhe deixou para ser ele o primeiro (...)"

«Inefável»; «escreventura do texto»; «interinidade galopante (eu diria, alucinada)». Gosto especialmente deste passo: «no pequeno espaço de tempo que a História lhe deixou para ser ele o primeiro».
Se souberes quem escreveu o citado trecho, para além de lhe entregares cumprimentos meus pela presciência, diz-lhe que se retrate, de joelhos, em oração devota a Bento XVI!

By Blogger Bruno Santos, at abril 19, 2005  

Olha, está-me a querer parecer que ninguém é de Espinho. Nem tu, que és de Moncorvo ou de Paredes (já não me lembro), nem eu, que sou do Funchal, nem mesmo o Manuel Laranjeira é de Espinho, mas sim vergadense dos quatro costados. Claro que vergadense que se preze vem para Espinho e diz que é de Espinho...

By Blogger PluribusUnum, at abril 23, 2005  

De Espinho? Sou eu.

By Blogger Bruno Santos, at abril 23, 2005  

Rosalia. Amadeo.

By Blogger perplexo, at abril 25, 2005  

Post a Comment

Comments:
Eu não quero ser chato, mas desta feita é o Inglês... "Imagine all the people", vertido para Português, não dá nada "Imagine-se todo um povo".
Acho que citas os estafados versos de Lennon, que rezam assim: "Imagine all the people living life in peace..." (Julgo que é isto). Na língua de Camões: "Imagina todas as pessoas a viver em paz..." Ou até: "Imagina o mundo inteiro..."
Eu sei que, por culpa de 50 anos de «obscurantismo fascista», os portugueses não sabem falar Sueco nem Norueguês (o que é imperdoável), mas que ao menos se desenrasquem no Inglês, no Francês e noutros linguajares ignotos... E lá virá o dia, enfim, em que — democratizados e iluminados — todos leremos na ponta da unha o Helsingborgs Dagblad e o Dagbladet de Oslo!
 
Olha, eu não sei porquê, prefiro o Dagens Nyheter de Estocolmo.
Iag elsker dag!
 
Aqui estou eu de novo, desta feita por causa do novo Papa. Saberás porventura que mão ímpia escreveu no passado dia 28 de Março a seguinte catilinária?:

"(...) o inefável Josef Ratzinger. O mesmo que, nesta santa Páscoa, tomou a seu cargo a escreventura do texto papal sobre as catorze meditações da Paixão de Cristo. Numa interinidade galopante (eu diria, alucinada) Ratzinger quer fazer doutrina, no pequeno espaço de tempo que a História lhe deixou para ser ele o primeiro (...)"

«Inefável»; «escreventura do texto»; «interinidade galopante (eu diria, alucinada)». Gosto especialmente deste passo: «no pequeno espaço de tempo que a História lhe deixou para ser ele o primeiro».
Se souberes quem escreveu o citado trecho, para além de lhe entregares cumprimentos meus pela presciência, diz-lhe que se retrate, de joelhos, em oração devota a Bento XVI!
 
Olha, está-me a querer parecer que ninguém é de Espinho. Nem tu, que és de Moncorvo ou de Paredes (já não me lembro), nem eu, que sou do Funchal, nem mesmo o Manuel Laranjeira é de Espinho, mas sim vergadense dos quatro costados. Claro que vergadense que se preze vem para Espinho e diz que é de Espinho...
 
De Espinho? Sou eu.
 
Rosalia. Amadeo.
 
Publicar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

´ BlogRating