terça-feira, abril 26
O triste povo

A classe dominante, em Portugal, foi quase sempre infame a pelo menos dois títulos. Em primeiro lugar, não promovendo a auto-estima do povo e a sua capacidade para fazer melhor. E, depois, não utilizando o poder para afirmar o Estado e o País em confronto com as demais potências.
Elas próprias iletradas – comezinhas à vez, rústicas quase sempre -, as nossas elites produtivas andaram sempre ao viés do que o País precisava. Medíocres na preparação, entronadas na herança, desconfiaram sempre da revolução social iminente dos mortos de fome a quem davam trabalho. E com razão: é que o nível de pobreza dos assalariados foi sempre tal que só a cobardia associada a um desviante (e induzido) medo do Inferno permitiu aos ricos manter a cabeça em cima dos ombros. Diga-se de passagem que, das poucas vezes que assim não ocorreu, a merda de povo que temos tratou de se entalar sozinha. E viva (por exemplo) a reforma agrária!
Mas os ricos fizeram mais: desconfiaram também da intelectualidade. É que ser intelectual, em Portugal, quase nunca foi mais do que uma fuga para a frente, um modo mais higiénico de se manter por cá sem ter que se dar de trombas com o país pequenino que se desenvolvia ali mesmo ao lado. Virar a cara para o lado, eis o método filosófico que a elite bem pensante adoptou para sobreviver ao estrume do País que lhe coube em sorte.
Intelectuais, povo trabalhador e possidentes da terra e de outros modos de produção, nunca se puderam ver nem pintados. Todos, à sua maneira, contribuíram afincadamente para a pequenez do País e para a boçalidade dos costumes. São todos culpados. Mas uns mais que outros.
Na História de Portugal, há concerteza dois grupos com pecados mais pesados.
Os primeiros são os Braganças e a sua cáfila de porcos consuetudinários e imbecis. Afincados no arroto depois da degustação de torresmos, pobres na compreensão do feminino, pegadores de toiros mas nunca comandantes de homens, os morgados de nome comprido e estudo curto sempre fizeram mal à Pátria. Mas tiveram cobertura política. Salazar, por exemplo, nunca os pôs na ordem. No fundo, o ditador(zinho) de convento achava que essa gente, por ir à missa ao domingo, merecia mais sorte que o povo esfaimado que comungava bolotas. Tivesse ele sido diferente…
Os segundos são os republicanos carbonários e a sua infindável corte de gente pequena. Os grupos que apoquentam o Estado, interiorizando que ele é deles, fazendo dele o que querem sem outra estratégia definida que não seja a sua própria ascensão, acabaram de vez com alguma hipótese que Portugal ainda tivesse de se desenvencilhar no campeonato das Nações. Abancados à mesa do Orçamento, qual clientela que qualquer comerciante enviesa, chuparam o tabelião e o contribuinte sem que – ao menos isso – planteassem de igual para igual com o estrangeiro. São ladrões e têm pouco aforro. Não servem para nada.
Mas por cá, ao que os pés de página da história indicam, sempre houve gente capaz de fazer de modo diferente. Fossem iluministas ou estrangeirados, desinteressados ou heróis latentes, dá a ideia de que o erro maior da Pátria foi nunca ter posto os melhores à frente. Nação de bufos e possidentes relapsos, o 12º ano incompleto sempre serviu para baixar salários e alimentar o modo de produção capatázio. O patrão ausente delega o chicote num mentecapto mediano, capaz ainda assim de apagar a pouca luz que se vislumbre entre a rapaziada a soldo. Esta, mais noite ou menos dia, desemboca numa garrafa de tinto e olvida-se numa cona mal rapada da inveja militante, ou esforçada, que um dia sentiu de outros a quem não reconhece primazia. Morrem, coitados, a dizer mal do que lhes resta em vida.
Impolutos mas impotentes.
E este é o meu texto deste ano sobre o 25 de Abril.
1 Comments:
Mais um texto que justifica a visita.
... Analise impoluta e potente.
By CotadaEmBolsa, at maio 09, 2005
