quarta-feira, abril 13
O maledicente sincero e a sua utilidade
Não há maior graça que um maledicente possa obter do Altíssimo do que a possibilidade de dizer mal sem ter que mentir. Mentir é feio. Dizer mal é uma arte.
O maledicente, se a realidade o não ajuda com porcaria bastante da qual seja legítimo dizer mal, pode caír na tentação de inventar. Se o Governo toma conta dos negócios da Nação, se o patrão remunera soberbamente, se a autarquia não é corrupta, pode cometer-se o pecado de inventar coisas na testa do vizinho mesmo que a mulher deste seja basicamente uma santa.
Isto é errado. O maledicente tem que ter moral. A disponibilidade permanente para maldizer funda-se precisamente na profunda convicção individual, ou mesmo na possibilidade remota, de que se é capaz de fazer melhor, quando se acha mal o que outrem fez. Se a esse mal-fazer (que se injura) se puder acrescentar dolo bastante, então o dizer mal ultrapassa a possível diletância e veste-se de função social relevante.
É também por isso que o melhor dos mundos não é coisa que se peça. Um mundo melhor ainda vá que não vá. Mas nunca perfeito. Antes um que dê azo, ao menos de vez em quando, à nossa fúria, ao nosso escárnio.
Sem um mal que nos alumie, perde-se de vez o hábito de exercer a crítica, essa arte próxima e precedente ao dizer mal. Que alguém me diga: algo alguma vez ficou melhor sem que antes algures se dissesse mal do modo vivido no presente? Há melhor maneira de melhorar o Mundo do que acusar o mal verdadeiro que nos desune da verdade, da temperança, do prazer?
Não creio. E acredito mesmo que os que têm por mau hábito dizer bem de tudo e de todos (e de si próprios em primeiro lugar) fazem tanto avançar a História como o solícito roedor que Beckett colocou em palco para arruinar a carreira de um encenador novato.
Dizer bem faz mal. É ornamento prescindível, sem utilidade prática. Dizer mal faz bem. Dizer mal, dizendo a verdade nua e crua, é a suprema manifestação da ética.
Deve ser este o código do maledicente sincero.
O maledicente, se a realidade o não ajuda com porcaria bastante da qual seja legítimo dizer mal, pode caír na tentação de inventar. Se o Governo toma conta dos negócios da Nação, se o patrão remunera soberbamente, se a autarquia não é corrupta, pode cometer-se o pecado de inventar coisas na testa do vizinho mesmo que a mulher deste seja basicamente uma santa.
Isto é errado. O maledicente tem que ter moral. A disponibilidade permanente para maldizer funda-se precisamente na profunda convicção individual, ou mesmo na possibilidade remota, de que se é capaz de fazer melhor, quando se acha mal o que outrem fez. Se a esse mal-fazer (que se injura) se puder acrescentar dolo bastante, então o dizer mal ultrapassa a possível diletância e veste-se de função social relevante.
É também por isso que o melhor dos mundos não é coisa que se peça. Um mundo melhor ainda vá que não vá. Mas nunca perfeito. Antes um que dê azo, ao menos de vez em quando, à nossa fúria, ao nosso escárnio.
Sem um mal que nos alumie, perde-se de vez o hábito de exercer a crítica, essa arte próxima e precedente ao dizer mal. Que alguém me diga: algo alguma vez ficou melhor sem que antes algures se dissesse mal do modo vivido no presente? Há melhor maneira de melhorar o Mundo do que acusar o mal verdadeiro que nos desune da verdade, da temperança, do prazer?
Não creio. E acredito mesmo que os que têm por mau hábito dizer bem de tudo e de todos (e de si próprios em primeiro lugar) fazem tanto avançar a História como o solícito roedor que Beckett colocou em palco para arruinar a carreira de um encenador novato.
Dizer bem faz mal. É ornamento prescindível, sem utilidade prática. Dizer mal faz bem. Dizer mal, dizendo a verdade nua e crua, é a suprema manifestação da ética.
Deve ser este o código do maledicente sincero.
1 Comments:
...e em duas penadas se resume uma das caracteristicas de um Blog que tem o "dom" de me atrair...
By CotadaEmBolsa, at abril 14, 2005
