quarta-feira, abril 27

Férias, meninos, férias!



Pessoal: boa-noite e um bagaço, portem-se bem que eu volto já. Vou lá para baixo, se Deus quiser, a começar por este sítio lindo inventado por um português.
Como não gosto que fiquem ociosos na minha ausência, deixo-vos um mote:

'Se todos e qualquer um de nós ousasse sonhar grande e limpo'

Quero os trabalhos de casa prontos até 7 de Maio.

Los portugueses

Na TVE passa por esta hora (em pleno prime-time) um programa inteiramente dedicado à literatura portuguesa. Lá já se falou de Virgílio Ferreira, Fernando Namora, Fernando Pessoa, Agustina Bessa Luís, José Saramago, José Cardoso Pires, António Lobo Antunes, João de Melo, sei lá quem mais. Os principais convidados são a escritora Lídia Jorge e Basílio Losada, um dos grandes tradutores de português para castelhano. E olhem que não se disseram só trivialidades para ‘espanhol ver’. O painel de comentadores é, como sempre, discutível, mas até talvez pelo facto de se tratar de um programa que passa primordialmente numa televisão estrangeira, poucas foram as asneiras aduzidas na causa própria de quem comenta.

Seria isto possível na RTP? Nem pó!

Ignomínia

Esta noite a F. apareceu-me cá em casa com um filme cujo título era 'Ocean's twelve'. Fui ver. Como é que alguém consegue produzir uma coisa tão indigna e falsa? Uma coisa feita com os pés, sem direcção de artistas, sem montagem, com os flash-backs truncados, com argumento às três pancadas... Como é possível alguém ter tão pouco respeito por si próprio que admita pôr o seu nome numa coisa destas? Em que mundo vives, ó Soderbergh?

Fui a correr ver o 'Ocean's Eleven'. Só para dormir com um pouco de paz.

terça-feira, abril 26

Parem as máquinas!!




Acaba de dar na 'Quinta das Celebridades'! É a cacha do século!! Lili Caneças era trotskista em 1962, quando andava na Faculdade!!! E foi perseguida pela polícia!!!!

E a gente vocifera: morte ao fascismo, que tinha polícias tão lentos!!

PS. - Se a Lili andava na Faculdade em 62, então quer dizer que é contemporânea do Sampaio... 'pera aí, no próximo 10 de Junho o gajo ainda é Presidente da República...

As perguntas da moda

Tinha que me calhar, é evidente. Mas ao contrário da maior parte, acho que isto é interessante. Ainda para mais vindo do adolescente.

1. Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?’
'Um Raio de Sol na Água Fria’, da recentemente falecida Françoise Sagan, ou ‘O Retrato de Dorian Gray’, do sempre eterno Oscar Wilde. Ou ainda 'O Pregador' de Erskine Caldwell, 'As Vinhas da Ira' de John Steinbeck ou o 'Sermão de Santo António aos Peixes' de António Vieira.

2. Já alguma vez ficaste apanhado por uma personagem de ficção?
Já leram o meu blogue? O que é que lhes parece?

3. Qual foi o último livro que compraste?
'Amigos até ao fim’, de John le Carré. Uma merda. Mal traduzido que até dói.

4. Qual o último que leste?
’A Sentença de César’, de Steven Saylor. Uma merda. Mal traduzido que até dói.

5. Que livros estás a ler?
’Fantasia para dois Coronéis e uma Piscina’, de Mário de Carvalho. Uma merda. Mal traduzido que até dói.

6- Que 5 livros levarias para uma ilha deserta?
’As melhores receitas’ de Maria de Lurdes Modesto, ‘A Bíblia’, de autor(es) muito duvidosos, ‘Doenças de A a Z’, que deve dar imenso jeito numa ilha deserta, ‘Playboy’, para as noites solitárias, e qualquer coisa de Shakespeare, de Moliére e de Camões, porque não é suposto estar sozinho quando se tem um gajo destes por perto.

7 - A que 3 pessoas vais passar este testemunho?
À Código de Santiago, à Objectiva 3 e à Cotada em Bolsa. Vocês sabem, gajas é comigo.

Cumpriu-se Abril!



Esta foto da Cristina é candidata à imagem do ano. Ao fim de 31 anos de revolução finalmente a beleza une-se à ideia, pela mão de um bi-doutor chamado Manuel Maria. Louvado seja!

E louvada seja a mais bela portuguesa deste século.

O triste povo



A classe dominante, em Portugal, foi quase sempre infame a pelo menos dois títulos. Em primeiro lugar, não promovendo a auto-estima do povo e a sua capacidade para fazer melhor. E, depois, não utilizando o poder para afirmar o Estado e o País em confronto com as demais potências.

Elas próprias iletradas – comezinhas à vez, rústicas quase sempre ­-, as nossas elites produtivas andaram sempre ao viés do que o País precisava. Medíocres na preparação, entronadas na herança, desconfiaram sempre da revolução social iminente dos mortos de fome a quem davam trabalho. E com razão: é que o nível de pobreza dos assalariados foi sempre tal que só a cobardia associada a um desviante (e induzido) medo do Inferno permitiu aos ricos manter a cabeça em cima dos ombros. Diga-se de passagem que, das poucas vezes que assim não ocorreu, a merda de povo que temos tratou de se entalar sozinha. E viva (por exemplo) a reforma agrária!

Mas os ricos fizeram mais: desconfiaram também da intelectualidade. É que ser intelectual, em Portugal, quase nunca foi mais do que uma fuga para a frente, um modo mais higiénico de se manter por cá sem ter que se dar de trombas com o país pequenino que se desenvolvia ali mesmo ao lado. Virar a cara para o lado, eis o método filosófico que a elite bem pensante adoptou para sobreviver ao estrume do País que lhe coube em sorte.

Intelectuais, povo trabalhador e possidentes da terra e de outros modos de produção, nunca se puderam ver nem pintados. Todos, à sua maneira, contribuíram afincadamente para a pequenez do País e para a boçalidade dos costumes. São todos culpados. Mas uns mais que outros.

Na História de Portugal, há concerteza dois grupos com pecados mais pesados.

Os primeiros são os Braganças e a sua cáfila de porcos consuetudinários e imbecis. Afincados no arroto depois da degustação de torresmos, pobres na compreensão do feminino, pegadores de toiros mas nunca comandantes de homens, os morgados de nome comprido e estudo curto sempre fizeram mal à Pátria. Mas tiveram cobertura política. Salazar, por exemplo, nunca os pôs na ordem. No fundo, o ditador(zinho) de convento achava que essa gente, por ir à missa ao domingo, merecia mais sorte que o povo esfaimado que comungava bolotas. Tivesse ele sido diferente…

Os segundos são os republicanos carbonários e a sua infindável corte de gente pequena. Os grupos que apoquentam o Estado, interiorizando que ele é deles, fazendo dele o que querem sem outra estratégia definida que não seja a sua própria ascensão, acabaram de vez com alguma hipótese que Portugal ainda tivesse de se desenvencilhar no campeonato das Nações. Abancados à mesa do Orçamento, qual clientela que qualquer comerciante enviesa, chuparam o tabelião e o contribuinte sem que – ao menos isso – planteassem de igual para igual com o estrangeiro. São ladrões e têm pouco aforro. Não servem para nada.

Mas por cá, ao que os pés de página da história indicam, sempre houve gente capaz de fazer de modo diferente. Fossem iluministas ou estrangeirados, desinteressados ou heróis latentes, dá a ideia de que o erro maior da Pátria foi nunca ter posto os melhores à frente. Nação de bufos e possidentes relapsos, o 12º ano incompleto sempre serviu para baixar salários e alimentar o modo de produção capatázio. O patrão ausente delega o chicote num mentecapto mediano, capaz ainda assim de apagar a pouca luz que se vislumbre entre a rapaziada a soldo. Esta, mais noite ou menos dia, desemboca numa garrafa de tinto e olvida-se numa cona mal rapada da inveja militante, ou esforçada, que um dia sentiu de outros a quem não reconhece primazia. Morrem, coitados, a dizer mal do que lhes resta em vida.
Impolutos mas impotentes.

E este é o meu texto deste ano sobre o 25 de Abril.

segunda-feira, abril 25

A fufa arrependida

Neste blogue aqui linkado encontrei uma brincadeira que consiste em rapaz fazer de rapariga e vice-versa. O Claque Quente foi feito para grandes desafios. E por isso vai mais além. Vou fazer de fufa arrependida.

'Começaste por lhe gabar os pêlos nas pernas e a atitude viril lá no trabalho. Eu observava-te. Eras boa!

Pedias meças aos homens nas conversas porcas e adulavas aquela menina que não sabia às quantas andava. Sem pai, sem rumo, a miúda tinha em ti um meridiano. Fizeste bem: não se conquista uma mulher doutra maneira que não seja pela persuasão.

Vi-te toda apostando nela. Singela, a miúda estava perdida. Fizeste bem o cerco, apostando nas férias que ela nunca tinha tido, ensinando-lhe que os homens não têm rumo, mostrando-lhe as possibilidades do prazer feminino. Ela estava carente e era inexperiente. Fizeste-a bem.

Depois foi só uma questão de a deitar contigo, de a acomodar ao teu cheiro. De lhe ensinar o teu corpo. Ela, mesmo que pouco convencida, aquiesceu ao teu domínio.

Como mulher grande que eras, tinhas tudo do teu lado. Mas algo mudou. Do alto dos teus 44 anos, reapareceu o único homem que te tinha feito tremer, ainda catraia. Miguel de seu nome, o teu único amante masculino, do tempo da Faculdade, o estupor que te trocara pela Mafalda e que te tirou a esperança nos homens. Que nem sequer te fez o filho que sempre quiseste.

Ele tinha sido o teu único orgasmo. Aquela coisa estranha, para a qual não estavas preparada, que te fez erguer a cabeça da travesseira, mais do que querias, e berrar um grito de fazer acordar os vizinhos.

Ao tempo que ele reapareceu já não te lembravas. Porque é que o cabrão tinha que aparecer agora que a menina estava quase do teu lado?

A infidelidade apanhou-te. Foste com o rapaz um outra vez e sentiste 'aquilo'. Esqueceste a miúda.

Ela, quando soube, suicidou-se'

Em nome do óbvio

Há coisas que nunca percebi. Por exemplo, que estado de desespero leva uma pessoa a ser adepto do Sporting? Não tem lógica. Mas enfim, com caridade cristã tudo se resolve.

Se o Anti-Cristo existisse era de que clube? Do Sporting, evidentemente. Façam inquéritos aos esquizofrénicos encartados do Júlio de Matos. Há lá um benfiquista para cada cinco lagartos. Toda a gente sabe disto.

As vitórias do Sporting, mais a mais, são anti-patrióticas. Quando o Sporting ganha (graças a Deus poucas vezes) é uma Pátria em quase uníssono que se condói. As vitórias do Sporting são a confirmação de que o País não tem rumo. Um Sporting vencedor cheira a qualquer coisa de errado, a algo que devia ser e não foi, a um Mundo que persiste em ser diferente pela negativa.

Não é que eu seja contra a existência do Sporting. Mais vale à betada deste País (que é o meu) ter burro que o carregue que cavalo que o derrube. O problema é outro. É que, se o Sporting ganha, Portugal continua a ser o mesmo lugar atrasado de sempre, onde as pessoas percebem que não vale a pena trabalhar.

Quando o Benfica ganha é outra loiça. Há uma amiga minha que já estudou as consequências das vitórias do Benfica. Assim por alto, só o facto de o Benfica ser campeão, aumenta em três pontos percentuais o PIB da Nação. Porquê? Porque as pessoas honestas, que realmente trabalham, são todas do Benfica. Os ressabiados, os videirinhos, os espertos e os que não percebem as necessidades da Nação são do Sporting. Ou, sendo (estupidamente) nortenhos, são do Porto. Mas isso fica para outra ocasião.

Ser do Sporting é uma coisa inaudita. Conheci um fulano que preferia ter um filho paneleiro a ter um que fosse do Sporting. Bem haja!

E hei-de morrer assim: como é que um gajo consegue ser do Sporting? Não percebo.

O Benfica talvez não seja campeão este ano. Mas seria um erro nacional. Toda a gente sabe disto. Mesmo as pessoas (?) que são adeptas do Sporting.

para terminar este post, queria dizer o seguinte: OLÉ, OLÉ, OLÉ, OHHHHH! NINGUÉM PARA O BENFICA, NINGUÉM PARA O BENFICA, OLÉ!! OLÉ, OLÉ, OLÉ OHHHHH! NINGUÉM PARA O BENFICA, NINGUÉM PARA O BENFICA, OLÉ! OLÉ, OLÉ, OLÉ OHHHHHH! NINGUÉM PARA O BENFICA, NINGUÉM PARA O BENFICA, OLÉ!!

sexta-feira, abril 22

In and out

Está in:

dizer mal do Papa

Está out:

os blogs colectivos

Os cromos e a TV de 'referência'

Na ‘Edição da Noite’ da SIC-Notícias de ontem foi decidido entrevistar um abade boçal e uma bicha louca. Tudo a propósito dos direitos dos homossexuais. Só podia dar merda.

Eu percebo que as audiências sobem na proporção da asneira. Daí os convites feitos aos cromos justapostos. Numa apresentação singela, eu diria que se tratava de um frente-a-frente entre um rato de sacristia de primeira apanha e um gay com literacia bastante sobre práticas californianas. Como é que o duplo asco não me indicou a mudança de canal é coisa para resolver na próxima confissão. Ou talvez o dever profissional de estar a par dos tempos me desculpe.

Dizia o ícone do Diácono Remédios que direitos para os homossexuais nem pensar. Dizia a indisfarçável bicha a cujos colhões fazem peso que os direitos todos ainda eram poucos. Casamento para aqui, adopção para acolá, herança ao depois, direitos fiscais sem que mais, de tudo se falou um pouco.

A questão, para mim, é esta: falou-se de alguma coisa? Não. Os bonifrates em causa nada sabiam dizer de relevante, a não ser defender as causas (perdidas) em que ambos acreditam. A bicha acha que a Constituição da República defende que no cu é um descanso. O abade vocifera contra a diferença sexual. E dali não saem, salvo seja!

Esta catilinária perdida lembrou-me conversas antigas com um dos poucos humanos ‘homo’ que conheci e estimei. Ao fim de um par de conversas, estávamos de acordo em tudo. Ele achava pindérica essa coisa da adopção de crianças por paneleiros ou fufas. E eu também. Ele achava que uma união entre dois merecia opção fiscal igualitária, fossem eles quais fossem. E eu também. Ele preconizava direitos sucessórios iguais para casais de todo o tipo. E eu também. Ele dizia que o casamento era uma prerrogativa de heteros. E eu também.

Se a SIC-Notícias me tivesse convidado a mim e ao meu amigo havia de ter sido uma chatice de uma conversa. É sempre mais giro entrevistar uma bicha louca, que quer dar beijos ao namorado por entre flores de laranjeira, e um abade boçal que acha que homossexual não é gente.

Continuem que estão a agradar!

O Papa

Acho que já toda a gente disse o que tinha a dizer sobre a eleição do novo Papa. Propositadamente, esperei para ver.

Não é novidade para ninguém minimamente familiarizado com este blog que aqui se pratica uma vivência católica heterodoxa, sendo que ao mesmo tempo se defendem os dogmas essenciais: não matarás, não faltarás à verdade, amarás o próximo como a ti mesmo. Ajuste-se o intemporal à cidade e ao mundo e obteremos também como canónica a tentativa de contribuir para a construção de uma vida melhor para todos – uma vida, digamos assim, mais de acordo com a vontade de Deus. Por isso devemos combater a doença e a exclusão social e devemos apiedar-nos dos pobres, dos presos, etc. Enfim, uma combinação dos Mandamentos da Lei com as Bem Aventuranças e as Obras de Misericórdia. Tudo o que é intemporal tem uma aplicação no tempo que passa e é dessa compreensão que resultará a obra de Deus por nós feita. Não vejo, aliás, que, para um católico, haja outra forma de estar no Mundo.
No que diz respeito aos ‘pecados’ da carne – tão pouco descritos no que se conhece das palavras de Cristo, embora muito enfatizados no judaísmo antecedente -, passo a palavra. O meu limite é o amor ao próximo e o mal que o desamor, disfarçado do seu contrário, pode provocar numa relação a dois. Tudo o resto é vida.
O sagrado desvinculado da função humana – Cristo é homem para nos salvar, porque a Santíssima Trindade só entende a salvação do Homem numa vivência similar à dele – não tem razão de ser. Virados para Deus mas centrados na Humanidade, eis como devem viver os católicos hoje (e talvez sempre). Por isso não faz sentido ‘apurar a raça’ de dogmas brilhantes mas serenos, que a todos dizem o mesmo, só sendo interpretados de maneira diversa mediante as ideossincrasias de cada um – essa imensa diversidade que Deus, em parte nenhuma, condena.
A univocidade da Igreja está, por isso, enformada em torno de coisa pouca, embora fundamental. Tudo o resto é obra do Homem.

Como europeu, tenho ainda que acrescentar à graça divina uma História. E essa muito me honra enquanto for vivo e, palavra de homem, no Juízo Final. É que eu descendo de celtas, suevos, germanos e povos nórdicos. Não renego uma boa parte do seu contributo para o enaltecimento da Alma.

Dito isto, que dizer de Bento XVI? Nada, absolutamente nada. Acreditando que o Espírito Santo, por uma vez, não ficou 'retido' na camada do ozono e desceu mesmo sobre o Vaticano, só me resta esperar pelo seu pontificado. Sou daqueles que mantém a esperança de que o cardeal Ratzinger morreu e deu lugar a um outro homem. Só assim se pode continuar a ser católico.

Se eu pensasse – que não penso – que Ratzinger venceu o conclave com técnicas que nem Dan Brown se atreveria a ‘explicar’, aqui o vosso amigo estaria mais próximo de se tornar anglicano do que nunca. Mas eu acho que a Igreja vai sobreviver. No fundo, ela só depende de Deus e dos homens. O papa é um mediador.

E eu, meus caros amigos, já dei para mediadores.

terça-feira, abril 19

Os que não se interessam, os invejosos, os excluídos, os estrangeirados, os que não gostam e pronto, mais aqueles aos quais a coisa não se aplica

O maior título jamais dado a um post escrito aqui neste tasco tem uma motivação cultural. Há pouco, na SIC, e a (des)propósito da entrega dos ‘Globos de Ouro’, perguntava-se o repórter sobre o distanciamento entre os portugueses e a sua cultura autóctone. Pretenciosamente, penso ter uma opinião sobre o assunto.

A razão pela qual os portugueses estão desfasados da sua produção cultural não é unívoca. Há várias espécies de cidadãos afastados dela. Procurarei enumerar as categorias principais.

1 – Os que não se interessam. Por muito que nos custe, há pessoas genuinamente fora dos ambientes culturais. ‘Estão noutra’, como se costuma dizer. Não foram habituados, não sabem que isso existe, dispensam o assunto. Umas bojecas, uma tareia nos filhos de vez em quando, uma ida à terra duas vezes por ano e a leitura de ‘A Bola’ chegam perfeitamente para lhes ocupar o pouco tempo que lhes fica depois de guiarem o táxi doze horas a fio ou de manterem aberta a mercearia aos sábados e domingos, tentando obviar à falência iminente ditada pelo hipermercado da zona.

2 – Os invejosos. Há gente que gostava de… mas não chega lá. Por isso prefere dizer mal, ponto final. Se o Abrunhosa usa óculos escuros é porque esconde a alma que tem, se o Lobo Antunes fuma é para se armar em parvo, se a João Pires vive em Castelo Branco é porque não aguenta a pressão de Lisboa. E se o Padre Borga cheira mal da boca é porque anda a lamber coisas com cieiro. Tudo isto, para um invejoso, é cereja em cima do bolo de quem não gosta porque não está ‘lá’. A estratégia é esta: se ‘eu’ não conto para o totobola, quem conta não presta.

3 – Os excluídos. É o caso mais grave. Há muita gente de talento que nunca chega aos areópagos da evidência. Por timidez, por falta de sorte, por não ter estado no sítio certo à hora certa. Porque o espaço expositório é limitado e porque quem entra tira sempre o lugar a quem está. É evidente, também, que as capelinhas abundam e que quem não reza o ‘terço’ certo arrisca-se a ficar a falar sozinho.

4 – Os estrangeirados. A malta às vezes tem o preclaro juízo, ainda novos ou nem tanto, de que o torrão pátrio não presta. Vai daí, vai p’ró estrangeiro, seja de mala aviada ou de bolseiro da Gulbenkian. Aprende lá coisas. Volta p’ra cá e vê os videirinhos ascensionários, os medíocres à gola, os variados pedintes à mesa do Estado. A primeira reacção é ir-se embora outra vez. Depois pensa-se melhor: o cozido à portuguesa, a Mãe que está a ficar velhota, o impacto das nossas ideias na política local… Fica-se por cá a dizer mal e a trazer livros para os amigos que nunca leram tal coisa. Quando se fala em música portuguesa, por exemplo, é um encher de rir, já que a bagagem está cheia de produtos de primeira qualidade que se fazem lá fora. Não há pachorra.

5 – Os que não gostam e pronto. São o melhor grupo de todos. Há gente que não consegue cantar em português, e tem razões para isso. Só um exemplo: ‘Imagine all the people’, traduzido em português, dá qualquer coisa como ‘Imagine-se todo um povo’. Não é normal. E se passarmos ao cinema o problema mantém-se: vocês estão a ver a Lia Gama (por exemplo) virada para o Fonseca e Costa: ‘senhor Fonseca e Costa, estou pronta para o meu plano fechado!’ Estão a ver? Eu não.

6 – Aqueles a quem a coisa não se aplica. Aqui é que a porca torce o rabo. Há gente que gosta mesmo de cultura portuguesa. Que acha o Paredes incomparável e o Ferro um grande produtor. Que idolatra a Marisa e não teme meças ao Souto Moura. Que é moço de forcados perante qualquer picador e que mostra a Amália onde quer que seja. Que dá alvíssaras a quem gritar mais alto que a Teresa Salgueiro ou a quem for ateu mais que Saramago. A poeta e tradutor de poetas mais que Jorge de Sena ou a descobridor mais que D. Henrique. A Rosália que, não sendo portuguesa, mais que em português escreveu. A Florbela, que sendo alentejana, morreu de amor desdramatizando a virgindade saloia. A Santa Ritta pintor. A Mário de Sá Carneiro. A Fernando Pessoa. A Amadeu. A Manuel Laranjeira, espinhense como eu, e como eu por lá morto, espero eu um dia. A Luís de Sttau Monteiro e a Bernardo Santareno, e à pretensão de ressuscitar a mais ténue das artes lusitanos, a dramaturgia. A José Fonseca e Costa, realizador. Ao Pedro Ayres de Magalhães. Ao Luís Coutinho, meu confrade naquela aventura que se chamou ‘Música na Universidade’. Ao António Gedeão, pela adição da física á poesia mais fácil. Ao Rodrigo Emílio, pela cinética florida das combinações poéticas.

E a mim, porque ainda estou por aqui.

segunda-feira, abril 18

Os miúdos

Alguém que me diga mal dos miúdos e leva um estalo!

Ando por aí a apanhar 'canas' em blogues que visito, inseridos nos blogues que conheço, e cada vez mais bem me apascento de coisas boas. Os miúdos, por exemplo, estão óptimos. Perceberam correctamente duas coisas essenciais: 1- que na vida quem está por cima não está por baixo. 2 - que mais vale ser educado e rico que malcriado e pobre.

Hoje estou contente!

O ano em que Paulo Branco tomou banho num País de mão em mão



Este ano os Globos de Ouro estavam diferentes. Pela positiva, constato que finalmente assumimos que temos vergonha do glamour. A pinderiquice deste pequeno País que se espraia da Graça a Campo de Ourique estava bem representada. Até o Paulo Branco tomou um banho aparente. Infelizmente ninguém se lembrou de homenagear António Gedeão, mas a verdade é que 'o Mundo pula e avança'. Estamos mais pobres, mais saloios, mais invejosos, mais prepotentes, mais medrosos do talento do vizinho, mais batoteiros, mais em casa à frente da televisão.

Positivo foi, também, ver que - enfim - o público tinha sido proibido de votar. Não sei ao certo o que subjaz à decisão, mas lá que torna as coisas mais simples... Por exemplo, alguém imagina que os Da Weasel ganhavam dois prémios se a gente pudesse opinar? Ou a Cucha Carvalheiro como melhor actriz de teatro? As más línguas dizem que o novo auditor (depois da Arthur Andersen ter sido dispensada) exigiu que assim fosse. Não sei porquê, de repente lembrei-me daquele adolescente acusado de violação que não foi condenado em tribunal porque afinal se concluiu (com a ajuda da Mãe da ofendida) que a violação não o era... por ter sido consentida.

Esta noite aprendi ainda que há limites para o talento. José António Tenente, um dos mais virtuosos e aplaudidos estilistas da nossa praça, não entende o corpo de Sílvia Alberto (a qual lhe coube vestir). Deo gratias! Era só o que mais faltava que um tão envernizado como jumentício sujeito ajuizasse com verdade do melhor corpo e da melhor alma que a santa televisão nos deu desde que Bárbara Guimarães se entregou à filosofia. Sílvia Alberto não consegue estar horrorosa, mas o Tenente bem tentou. Sou eu, capitão, que vos digo!

Salda-se de positivo o regresso de um dos melhores espíritos da minha geração à actividade de guionista. É verdade, os textos de ocasião ditos pelos apresentadores eram da responsabilidade de Miguel Esteves Cardoso. O sujeito, depois de anos em casa a fazer sabe Deus o quê, regressa à TV para deslustrar um pouco menos que os seus antecessores. Já escreve no DN há uns tempos (já agora).

E por fim, mas não menos importante, aqui fica a revelação mediúnica. É assim: se bem repararam, a SIC não entregou este ano Globos de Ouro de televisão. Estes, ao que se diz, vão ser atribuidos por uma entidade independente, integrada pelas três estações generalistas.
Ora então leiam lá isto!


PS. - Num País em que a Bárbara Guimarães já não mostra as mamas a maiores de 15 meses e em que a Clara Pinto Correia nos apresenta a psicóloga que a engravidou de adoptiva, salve-se a mão sozinha que nos ilumina em cada intervalo da vida. P'ró ano há mais.

domingo, abril 17

Só para profissionais!



Não tente fazer isto em casa!!

Melhor é possível, mas é muito difícil *



Catarina Jardim Leitão (Pimpinha), durante um desfile de moda

* roubada do Melhor que Prozac

Código chama, eu respondo

Neste blogue de eleição, a confradessa patroa pede-nos (presumo que não presumo demais se presumir que faço parte da lista) ideias sobre a melhor forma de celebrar o seu aniversário de lides, o qual passa a 17 de Maio próximo. Queria ela que lho fizéssemos no seu seio ou no quartinho do qual deixa endereço. Querias!, digo eu (anda cá se me queres ver), que eu não gosto de opções fechadas, ainda para mais ditadas por fedelha desempoeirada, atirada a feminista de quarta geração.

Por isso vai aqui escarrapachado o que eu acho que a menina deve fazer. Estando os jantares de convívio e os concursos para melhores posts a ficar fora de moda (ups), e não lhe vendo feitio para merendas no relvado à beira Tejo ou rave parties obscuras, porque não um encontro fora de horas (mas ainda a tempo) numa dessas 'catedrais' que a menina tão bem conhece e que, amiúde, publicita no seu blogue? Se o número de energúmenos fosse o ideal, até podia mandar encerrar o tasco só para nós… quer dizer, ‘só’ para nós todos!

Que tal? Cervejola, música ambiente, sofás, microfone para as balelas de ocasião (ou para obras de arte, quem sabe…) Conhece alguma coisa assim? Eu por mim vou. E por si - você sabe -também.

sábado, abril 16

A namorada do Libelinha

- Acho que ele já não olha para mim da mesma maneira.
- Isso é ideia tua, acredita.

(a namorada do Libelinha é minha conhecida – ia a dizer amiga, mas nem tanto – vai para mais de dez anos. É filha de uma empregada dos Pais de um amigo meu, e fui eu, a bem dizer, que lha apresentei).

- Eu sempre soube que ele não batia bem da bola, mas queres o quê?, gosto dele.
- E fazes tu muito bem.
- Faço a porra é que faço! Estou cá mas é desconfiada de que ele tem outra.
- Ora…
- Pois, como se tu soubesses que ele tinha outra por acaso contavas-me!? Contavas nada!
- …
- Contavas ou não contavas?
- Se eu soubesse que o Libelinha tinha outra e já não gostava de ti, e que só continuava a andar contigo por uma questão de lhe dar jeito, ou seja lá pelo que for, ameaçava-o de que te ia contar se ele não o fizesse primeiro. Estás contente com a resposta?

(esta foi longa e custosa)

- Estou mesmo a ver…

(a namorada do Libelinha é rapariga de 11º incompleto, que arranjou emprego como recepcionista numa empresa multinacional. Miudinha de corpo, tem tudo no sítio, umas pestanas de quilómetro. Veste do melhor que a Zara tem e tem uma voz de cama da qual apenas adivinha as vantagens. De mini-saia rodada, arrasta as mules que a estação seca permite. É boa e não sabe que é boa. Já se lhe vai vendo uma ruga nos olhos)

- Tenho é que arranjar coragem para o mandar dar uma volta.
- Mas porque é que dizes isso?
- Olha, porque estou farta de fazer de parva. Ando com o fulano há seis anos – seis anos, sabias? – e ele nem ‘coiso’ nem sai de cima…
- O problema não é esse, pois não?

(esta foi de mais para a namorada do Libelinha)

- O quê?
- Se ele sai ou não de cima…

(demorou cinco segundos a mandar-me um murro no braço)

- Não, ó estúpido, o problema não é esse, ele safa-se muito bem nesse assunto!
- É o que consta.

(já fiz merda)

- Consta o quê??
- Nada, eu conheço o teu namorado há anos, tem lá calma.
- Se o conhecesses há dias tenho a impressão que as histórias seriam as mesmas.
- …
- Olha, está decidido, vou deixá-lo. Se o fulano não os tem no sítio para ganhar coragem de falar comigo vou eu falar com ele.

(e foi-se. Só de se levantar e ajeitar a roupa a gente fica logo a saber porque é que é homem. Quando se afasta e diz adeus de longe, tem-se dúvidas porque é se apresentou esta moça ao Libelinha em vez de se ter ficado com ela. Só pode ser o amor que eu tenho pelo gajo).

sexta-feira, abril 15

Os meus amigos (VII)

A A. foi-me deixada em herança por uma namorada típica de muitos anos e bons. Conheço-a a tender para sempre e, no entanto, andei-lhe arredio tempos infindos.

Lembro-me da A. nos melhores dias da minha vida. Quando na tropa, tinha o condão de me guiar à tardinha, rumo ao fácil frémito de um jantar a eito. Nunca conheci melhor gaja ao volante de um veículo. É estranho: é tão feminina que até dói, mas tem capacidades de macho à flor da pele.

A A., ao contrário da maioria, fode e não sai de cima. Eu explico. Não tem grande pujança para a cultura mas sabe imediatamente o que é preciso quando a vida não corre como é suposto. Nunca a vi fugir e nunca a vi chorar. Fica sempre na fase entrecurtada que dá força. Sabe da vida. Não sabe da descrença.

A A. é um espectáculo quando quer. Um dia (tenho que o contar) ensinou-me coisas vestida que só se aprende nu. Mas lá que me cativou para o pecado... Ela sabe, é tudo.

A A. não teve vida fácil. Mas não se lhe nota. Vive com graça com o homem que escolheu e sabe (quase) sempre da temperança. Sente a desgraça quando esta lhe toca à porta, mas não desdiz da gente que é a sua. E eu sei que às vezes lhe custa.

A A. convencionou ser feliz. Mas sente a vida, mesmo a vida rasca dos outros que estão próximos. É um caso raro de gente que pressente a desdita e sofre a má-sorte, mas mesmo assim vai em frente.

A A. é minha amiga. Só pode.

Informação útil

Na página do Tribunal de Contas está desde ontem um relatório que dá à estampa o descalabro das empresas estatais que por aí vão fechando. Sem que a digníssima instituição tivesse concluído da exacta dimensão da desgraça, sempre lá foi descobrindo que, em nove sociedades cuja liquidação já está feita, o Estado gastou, em moeda antiga – só e apenas para que encerrassem -, cerca de 80 milhões de contos. Noutras, que nem a sapiente instância sabe contabilizar, o erário público deverá ter sido esportulado de outro tanto.

Quando se fala em excesso de despesa pública é disto que se fala.

Fiquei também a saber que algumas comissões liquidatárias existem há 24 anos, outras há 15, algumas há nove ou dez. E que os gestores para elas nomeados ganham às vezes mais do que os presidentes dos Conselhos de Administração das empresas que funcionam. As companhias que assim gastam o dinheiro público chamam-se IPE, EPAC, Gestnave, JAE, Solipor, CNN…

Espantados? Não! É Portugal, ninguém leva a mal.

Para o caso de não terem reparado, o dinheiro de que aqui se fala é o nosso. É dos contribuintes que pagam atempadamente os seus impostos e que não têm maneira de fazer ‘planeamento fiscal’- leia-se, roubo descarado e profissional aos cofres do Fisco, mediante interpretação habilidosa das normas que o próprio Fisco pare.

Informação útil: a Embaixada da Suécia fica na Rua Miguel Lupi, 12, 2º dto 1249 LISBOA

quinta-feira, abril 14

As meninas e os meninos

Um bloguista pastel e talassa, que admiro muitíssimo, trouxe-nos à praça (como tantas vezes tem feito) mais uma rísivel realidade deste Mundo. Trata-se da definição, por decreto real-socialista, das tarefas que espanhóis e espanholas devem passar a exercer no lar. Com vossa licença, este é o tipo de legislação que só pode dar merda.

Conto-vos uma história: tendo escolhido (e escolhido sido), há já doze anos, fêmea que comigo habita, teve a senhora em causa a franqueza de me informar logo de início que quem mandava em casa era ela. Oriunda de família tradicional, onde menina é dona do lar e homem quando muito observa, a prendada esposa escolheu-me a gaveta onde pôr as cuecas (as minhas cuecas), o armário onde guardar as camisas e a prateleira onde pôr os sapatos. Assim, sem mais nem ontem, que a sujeita julgava que estava a fazer um serviço à humanidade que lhe era mais próxima.

Esqueceu-se a dita cuja que eu já andava 'nisto' de viver à toa há um bom par de anos, enquanto que ela, embora solícita, acabava de saír debaixo das saias da mãe. Deu-se mal - mas inteligente como era (e é) só lhe durou a tontice por um momento. Disse-lhe eu que isso de arrumos era para compartir comigo e por aí se ficou a potencial asneira feminina.

Passados anos, aprendi muito com ela. De cozinha sabia pouco, que a Mãe que me criou achava que lava-louças e fogão não era para indivíduos de voz grossa. Agora já me safo e a ela o devo. Sei pôr a mesa, mexo nas máquinas todas, e se acaso for preciso... enfim, sei quase tudo.

Então para quê o decreto?

quarta-feira, abril 13

O maledicente sincero e a sua utilidade

Não há maior graça que um maledicente possa obter do Altíssimo do que a possibilidade de dizer mal sem ter que mentir. Mentir é feio. Dizer mal é uma arte.

O maledicente, se a realidade o não ajuda com porcaria bastante da qual seja legítimo dizer mal, pode caír na tentação de inventar. Se o Governo toma conta dos negócios da Nação, se o patrão remunera soberbamente, se a autarquia não é corrupta, pode cometer-se o pecado de inventar coisas na testa do vizinho mesmo que a mulher deste seja basicamente uma santa.

Isto é errado. O maledicente tem que ter moral. A disponibilidade permanente para maldizer funda-se precisamente na profunda convicção individual, ou mesmo na possibilidade remota, de que se é capaz de fazer melhor, quando se acha mal o que outrem fez. Se a esse mal-fazer (que se injura) se puder acrescentar dolo bastante, então o dizer mal ultrapassa a possível diletância e veste-se de função social relevante.

É também por isso que o melhor dos mundos não é coisa que se peça. Um mundo melhor ainda vá que não vá. Mas nunca perfeito. Antes um que dê azo, ao menos de vez em quando, à nossa fúria, ao nosso escárnio.

Sem um mal que nos alumie, perde-se de vez o hábito de exercer a crítica, essa arte próxima e precedente ao dizer mal. Que alguém me diga: algo alguma vez ficou melhor sem que antes algures se dissesse mal do modo vivido no presente? Há melhor maneira de melhorar o Mundo do que acusar o mal verdadeiro que nos desune da verdade, da temperança, do prazer?

Não creio. E acredito mesmo que os que têm por mau hábito dizer bem de tudo e de todos (e de si próprios em primeiro lugar) fazem tanto avançar a História como o solícito roedor que Beckett colocou em palco para arruinar a carreira de um encenador novato.

Dizer bem faz mal. É ornamento prescindível, sem utilidade prática. Dizer mal faz bem. Dizer mal, dizendo a verdade nua e crua, é a suprema manifestação da ética.

Deve ser este o código do maledicente sincero.

segunda-feira, abril 11

Do outro lado

Ainda há pachorra para blogues unívocos? Mesmo quando bem escritos?

?

Quer dizer, vocês estão todos de férias ou o que é que se passa? Ninguém escreve uma prosa? Dasse, que a blogosfera anda mesmo uma seca! Bora lá 'trabalhar', ó mânfios e mânfias!

Ainda vos atiro com a kriptonite pelos cornos abaixo!



Saiam lá de Smallvile e venham cá ver Metropolis!

O Aborptro (não é gralha) outra vez

Há uns tempos que não ia aqui. Está menos mau. Tem lá uma 'biblioteca' de factos importantes ocorridos nos últimos trinta anos.

Eu sei que ele não vai passar por cá, mas mesmo assim aconselho:

Para inserir: Os dois referendos nacionais até agora realizados são a demonstração de que, se o povo votasse mais vezes sem ser totalmente condicionado por partidos, 'isto' ainda era mais ingovernável do que o que já é.

Para retirar: A 'norma' 13 das escolhas do rapaz é manifestamente infeliz. Ao contrário do que lá se diz, o facto em si é uma das primeiras demonstrações de senilidade do regime nascente. E posso prová-lo.

O Benfica

O Benfica perdeu. Não teve sorte. O Sporting ganhou. Com um golpe de sorte. Adiante, que não é por aqui que quero ir.

1 - Tenho pelo treinador do Rio Ave a maior das considerações. Poucos técnicos terão entendido melhor o plantel ao seu dispor. Jogando em antecipação, com inteligência, os jogadores de Vila do Conde são seguros nas funções que exercem.

2 - Só Trapatoni é que não viu que, quando meteu Gaúcho (que o italiano não o conheça ainda vá que não vá, agora Álvaro Magalhães... é imperdoável), Carlos Brito jogou para ganhar.

3 - Sou o único português, e benfiquista, que ainda não percebeu a 'altíssima' capacidade de jogo de Manuel Fernandes. Quanto a mim, trata-se, a par de Karadas, de um dos piores jogadores do Benfica. Não passa bem, corta pouco, não tem visão de jogo, atrasa quando devia lançar os companheiros, faz faltas escusadas, é lento. Mas, segundo as alimárias do luso comentário, vale milhões. Ou eu sou cego ou ele tem capacidades escondidas...

4 - O Mantorras está assim tão mal que só possa jogar 15 minutos? E porque é que não há-de fazer dupla com Nuno Gomes logo de início? Com Bruno Aguiar (à falta de melhor) no lugar de Manuel Fernandes (tem mais mobilidade, defende melhor e corre mais), eu acho que a equipa-tipo do Benfica, hoje por hoje, é: Quim (Moreira); Miguel, Luisão, Ricardo Rocha, Dos Santos (Fyssas); Petit, Bruno Aguiar, Giovani (Nuno Assis), Simão; Nuno Gomes e Mantorras.

5 - A seis jornadas do fim, o Benfica encontra-se (ainda) numa posição privilegiada para ganhar o Campeonato que lhe foge há dez anos. Sem plantel que espante, sem rasgo no meio-campo e com poucas soluções de ataque, cansado de aturar um treinador medíocre oriundo de um País que nunca soube jogar à bola (para além de outras coisas), a verdade é que o maior clube português vai na frente. Ontem teve um percalço óbvio. Se formos campeões, devêmo-lo essencialmente ao seguinte: grande espírito de combate de meia dúzia de jogadores e inequívoca má-forma e tolices várias dos concorrentes. Não devemos nada - mas mesmo nada - ao transalpino que em má hora contratámos.

6 - Seja como for, no próximo fim-de-semana estou lá, na Luz que tudo ilumina. E não se esqueçam: quando o Benfica ganha é uma Pátria que se olvida dos azares da vida e luta com mais força por uma vida melhor.

VIVA O BENFICA!
VIVA O BENFICA!
VIVA O BENFICA!


500



A revista Rolling Stone acaba de publicar uma lista das '500 melhores canções de sempre', um trabalho baseado na votação de um júri cuja composição não foi divulgada. Leiam, recordem-se e... espantem-se se for caso disso.

domingo, abril 10

O PSD



Há uma coisa em que os alfaiates de Mangualde e os vidreiros da Marinha Grande coincidem de razões: o PSD é o partido mais português de Portugal.

Senão vejamos. Os dirigentes do ajuntamento parido por Sá Carneiro, quando se dirigem às massas - mentindo com quantos dentes têm - são sinceros. Mal eles arengam ao povo, logo depois o povo, jurando-lhes fidelidade, quer que eles se fodam de vez. Nada de mais português: a fidelidade dura o minuto que dura e logo depois enferma do tempo de uma perjura.

Mas se eu tivesse que escolher entre dirigentes e povo escolheria, (s)em dúvida, os primeiros. Pelo menos são preclaros na sua inoportunidade. Quanto ao povo social-democrata – patrões com o oitavo ano incompleto, sócios minoritários de panificadoras locais, donos de frotas de táxis, ex-emigrantes da construção civil, advogados sem lugar no ranking, donas de casa mal barbeadas e secretárias de direcção – nenhum me diz da sua vocação à Pátria.

Às vezes, por cuidado ou resistência, quero acreditar que os dirigentes desse partido são precisos à Nação. Mas não são. A vidinha que esses párias procuram – requisitando para eles uma boa parte dos interesses – é apenas a da sua vil necessidade básica. É a história mal contada do cliente: 'se és meu és bom, se te passas para o outro já não prestas'. E, no entanto, o fornecedor é o mesmo, ou quase.

Contudo, há que perceber que os dirigentes do PSD estão muito acima das bases que os sustentam. Os dirigentes têm ideias. As bases nunca. Essa é que é essa. O portuguesinho-coitado, que vota amiúde no PSD, quer que lhe safem a sogra com beatificada reforma. Quer que lhe inteirem o filho com legítima comandita. Quer que lhe apoiem a filha num lugar perto da Mãe. Quer que a Mãe nunca se afaste muito do Bacalhau à Brás. Quer que a Mulher tenha sustento bastante para as Dolce & Gabanna de saldo, que não lhe realce o cu antes dos 40.

O portuguesinho quer coisa pouca. E – sobretudo aquele que não emigrou para o Luxemburgo – quer dizer mal do Governo. E, para isso, há que ter um Governo bastante para dizer mal. O PSD, as mais das vezes, cumpre a preceito.

Faça-se, pois, a vontade de Portugal.

Isto digo eu, que até gosto da Paula Teixeira da Cruz!

sábado, abril 9

O Lugar Certo

O meu tempo é espaço de magoar sem jeito
De ferir a eito quando a bruma apaga o dia
É uma era feita de cobardia e fuga em frente
É século onde quem sabe mente
E montra para a mortal indignidade

No meu tempo quer-se um homem peito flato
Pronto e pato pr’à vidinha rarefeita
Um tipo abstracto e morto, autista até
Que de uma fé salte para outra a troco pouco
Ao espelho elegendo a não eleita

Ao meu tempo se exige muito pouco
Nem alma em Deus, nem República de carisma
Apenas um sufrágio para acalmar incréus
E moções não estratégicas de sofisma

Ao meu tempo eu quero mostrar uma outra forma
De congregar bondade e razão forte

E pôr os filisteus no lugar que lhes pertence
- a última fila

sexta-feira, abril 8

Vidinha de contribuinte

Gomes Canotilho, ilustre jurista de direito público da nossa praça, acha que a relação de confiança entre o cidadão contribuinte e o Estado está comprometida. E diz ele isto com base no facto de o Fisco ter falhado o mero envio de uma senha de acesso à Internet, com a qual os cidadãos pagadores poderiam declarar os seus impostos sem terem que fazer bicha às portas das Repartições de Finanças. Diz ele isto porque, em resultado da asneira governamental, os cidadãos que esperaram em vão que o Estado cumprisse a sua palavra vão agora pagar multa pelo atraso, sem que alguma culpa lhes seja assacada.

É caso para dizer: anda um homem a vida inteira a estudar Direito para chegar à conclusão de que o Estado não presta? Ora bolas! Isso é reflexão que qualquer taxista ou magarefe, com diploma da quarta classe, facilmente enuncia!

PS. – Vocês já repararam há quanto tempo não se fala aqui de gajas? Dassseeee!!

quinta-feira, abril 7

Para a Baby Lónia *

Para sempre
Do fundo do germinal enfático da mudança
Espero por ti

Para sempre
Da ideia crispada de uma mole imensa
Espero por ti

Para sempre
Da idade que não cabe aqui, ou atendê-la
Espero por ti

Para sempre
Do húmus que não cala nem desdiz a esperança
Espero por ti

Para sempre
Dos factos, das mentiras e das crenças
Espero por ti

Para sempre...

Quem sou eu, se não mais um amigo teu
Que por ti espera?

*no seu aniversário

quarta-feira, abril 6

A Princesa do Mónaco

Lá na terra de onde venho – a minha terra – há um mito pouco proclamado, uma história mal contada que ninguém conhece. Acontece que eu estava lá, num sonho bêbado escrito a tinta de água, confirmado anos depois por quem tinha interesse em contar a loa. Loa que não fosse.

Em Agosto de 1977, Benidorm era o limite do hemisfério para quem queria e podia passar férias para além da praia e para perto da loucura própria de uns 17 anos a precisar de enredo. Eu estava lá. Por perto, e por companhia, levava comigo estranhos seres espinhenses, pré-degradados espíritos e corpos de rapazes entesoados quanto baste, à espera de conquistarem a Europa desnuda das mulheres-raparigas que o País, por essa altura, teimava em não abastecer. Às gajas do meu tempo, virgens falsas ou putas-virgens, que Deus as guarde em seu eterno redil. E lhes dê moagem que as prospere em anca e discrepância mamária. Adiante.

Estava a gente alerta numa discoteca da moda, apontando piças como caudas de perdigueiro em função da caça, quando do além-brança ou de nenhures surgiu uma rapariga que dá pelo nome de Carolina Kelly Grimaldi, 19 anos à tona da saia, dançando uma Donna Summer da moda no meio de um séquito pouco escolhido.

É só para dizer que a rapaziada de Espinho, habituada a meia queca por ano nas namoradas adoentadas de vaginismo, mais umas fodas feéricas ao balcão da discoteca do Praia Golfe nas casinácias bailarinas, ao verem semelhante turba salivaram. Mas quase todos olharam de lado e fizeram como a raposa: ‘Estão verdes’.

Todos? Não! Um ex-tímido relapso do descrito grupo vareiro deixou a um qualquer Sampaio a hipótese de o medalhar de cavaleiro, isto porque - sem medo, quais Doze de Inglaterra pornográficos - se atirou de alma, coração e tudo o que tinha mais à mão (ou, por uma vez, mão não era precisa) à conquista da mediática miúda que ali estava mesmo em frente.

Rezam as tais crónicas (que eu não assino de cruz) que o porreiro saltou para a espinha à Princesa e só chegou a casa várias horas depois. Espinhense autêntico, guarda a verdade desta crónica para depois da morte, que homem que valha o nome não comenta nomes das meninas que por debaixo se lhe propuseram.


Era só isto que eu tinha para dizer.

PS - Esta é a minha homenagem sincera a um grande monarca do último século, ontem falecido. Não parece mas é.

Se o meu País fosse sincero

Há amigos meus que acham que as grandes prosas e os grandes actos nascem sempre de conflitos. São pessoas que não procuram os consensos - antes lhes têm asco - porque dizem que daí nascem relógios de cuco suíços em vez de ‘mona lisas’ e revoluções quânticas.

Eu discordo. Eu discordo cada vez mais disso. Os consensos, quando conseguidos em bases fair, são cada vez mais a catapulta que nos permite uma mudança feliz.

O que faz falta são consensos. É a cumplicidade entre as partes - leia-se pessoas – que faz andar o barco. E todos estamos no mesmo barco. Porque o barco, antes do mais, é nosso.

Se o meu País fosse sincero, metade das alhadas em que nos metemos eram evitáveis. E não tínhamos medo, e trabalhávamos menos e melhor. Se cultivássemos a ideia de verdade, sendo nós primus inter pares, melhor construiríamos um futuro que a todos dissesse algo.

Mas não. Continuamos italianos do sul e cartagineses, sempre à espera do pecado ao lado que nos vai redimir do nosso próprio, ou que nos permita pôr de parte um adversário imaginário mas preciso. Sempre com medo da jogada do outro que nos vai pôr a milhas do lugar que ambicionamos. Fazendo alianças bestas com gente que não nos diz nada. Aceitando como fatal uma asneira perfeitamente evitável.

A gentinha mal fodida – e que não tem esperança de deixar de o ser – que pensa que não pode fazer a diferença, ou que só a faz querendo mal ao Mundo que mal lhe quer, tem de ser posta de lado.

Eu discordo dessa gente quesilenta, a quem o amor faz falta, mas pouca falta me faz por pouco amor ter consigo.

Eu quero consensos entre gente inteligente. Será que é possível?

sábado, abril 2

Luto

Deito-me em paz e logo adormeço, porque só Vós, Senhor, fazeis com que eu repouse em segurança

Salmos 4,9.

Morreu o Papa João Paulo II. Paz à sua alma

O dia em que o Papa (ainda não) morreu

Há uma frase banal, mas sábia, que costumava fazer escola no jornalismo: 'Ninguém morre de véspera'. É, portanto, do mais elementar bom senso não tentar antecipar, em termos noticiosos, aquele que é o facto da vida menos dependente da vontade dos homens.

Podendo dar-se o caso de algum aspirante a jornalista estar a ler este blog, vou tentar explicar a ideia dando alguns exemplos.

É perfeitamente possível noticiar, por antecipação, um negócio que fontes bem colocadas tenham já garantido, mesmo que ainda não tenha sido assinada escritura pública. Por exemplo: 'Ibersol assegura franchising de Kentucky Fried Chicken'. Um jornalista que tenha sabido do negócio em primeira mão pode perfeitamente dar a notícia à estampa. E se for 'cacha' (exclusivo), tanto melhor.
O mesmo se passa se um jornalista soube, antes da concorrência, de uma transferência no mundo do futebol. Por exemplo: 'Rui Costa vai para o Milão'. sabemos primeiro que os outros, damos primeiro que os outros. Na política, então, este tipo de tratamento da notícia (por antecipação, em primeira mão) é recorrente. Por exemplo: 'Santana Lopes corre para Belém'. Aí, as mais das vezaes, o problema é outro - saber se a fonte é fiável...

Mas já não é possível antecipar a morte de alguém. O que a maior parte dos órgãos de comunicação social está a fazer desde anteontem à noite com o Papa é, no mínimo, exagerado.
Imaginem (e não é absurdo) que Karol Wojtyla dura mais dois, três, cinco, quinze dias... um ano? As estações de TV vão manter-se em breaking news 22 horas por dia? Os jornais vão ter dossiers de vinte páginas diariamente?

Não vão.

Portanto, um bocadinho menos de frisson, para evitar o ridículo, e um bocadinho mais de respeito pela notícia (ainda para mais tratando-se da morte, e da morte de quem se trata) não farão por certo mal a ninguém.

sexta-feira, abril 1

Breves apontamentos sobre o apocalipse (com letra pequena)

1 – Nos iu ésse of ei, um Tribunal superior condenou uma deficiente profunda a morrer à fome. O marido dela vai receber um seguro de vida chorudo.

2 – Esta noite, as televisões de todo o Mundo tentaram matar João Paulo II. O mais mediático Papa da história não lhes fez a vontade. Talvez morra durante a transmissão em directo de um jogo da ‘Premier League’. Depois quero ver as breaking news!

3 – Dois directores de um jornal de referência incentivaram um jornalista a investigar uma história mal contada. O jornalista chegou lá… onde não devia. Após este facto, a história deixou de fazer sentido.

4 – A Lurdes acabou o trabalho antes do que era suposto. Sem dinheiro para recarregar o telemóvel, não pôde avisar o marido de que ia chegar mais cedo. Mal meteu a chave à porta ouviu grande burburinho. De um salto (que a casa é pequena) estava no quarto do casal. Encontrou lá o marido com um amigo do peito. Ambos nus.

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