sexta-feira, março 4

O meu homem favorito

De vez em quando vale a pena falar com gente que não vive acantonada no horizonte pátrio. Na função que exerço tenho o privilégio (algo esporádico) de conhecer pessoas que escapam à pequenez insensata da mediocridade lusa.

Ontem estive à conversa com um português que cedo na vida compreendeu que, para se chegar a algum lado, há que, em primeiro lugar, fugir desta armadilha a que chamamos Portugal. Gostando de aqui viver (não sou eu que o desminto - em termos climáticos, e outros, Portugal é dos melhores países do Mundo), inventou para si próprio um modo de, digamos assim, ‘ir para fora cá dentro’.

Depois de uma carreira mundial, onde andou por ‘Ceca e Meca’ (mas nunca por Vales de Santarém), o homem aterrou em Lisboa ainda novo, como ele sempre quis. Na era em que os seres de silicone fazem muito do trabalho idealizado pelos seres de carbono, a identidade é tudo e a localização é nada; isto quando de trabalho se fala. Dito de outra forma, adequado com os apetrechos necessários à comunicação, este português deslocalizou-se… para Portugal.

É preciso que aqui se revele um segredo. O homem em causa trabalhou toda a vida numa área em que os seus patrícios não riscam nada. Só assim pôde conviver com gente de outras paragens, sem correr o risco de ter por patrões ou interlocutores salazares, caetanos, soares ou cavacos. O homem em causa trabalhou nos petróleos, um sector que – como é sabido - desde que Raul Solnado fracassou no Beato, ficou definitivamente fora das nossas cogitações mais esperançosas.

Por essa via, o nosso homem explorou o Mundo sem que lhe aparecessempela frente portugueses mandantes. Já agora, à laia de parêntesis, diga-se que ele conheceu muitos trabalhadores qualificados lusitanos como ele. Mas trabalhavam para a Texaco, a Exxon, a Chevron, a Total, a Fina, etc. E os funcionários em causa… funcionavam.

Um belo dia, a oportunidade de voltar a viver na Baía de Cascais, trabalhar na Graça e ir comer às Docas, de frente para o Tejo e para o Cristo-Rei, apareceu-lhe na vida. Patrão de si próprio, com contactos no Mundo inteiro, realizou o sonho do regresso. Passa o dia a falar inglês, mas vive no melhor mix solo/céu/mar do Mundo.

O facto de passar três meses de férias por ano (não, não é tanga) e de nunca acordar antes das dez da manhã não faz dele um dandy nem um preguiçoso. Tem a vida organizada em moldes de qualidade e o descanso faz parte dela. Só estupores como nós acham que trabalhar mais dá sentido à vida e viabilidade ao empréstimo bancário. O homem tem, além disso, preocupações sociais, a par com as hedonistas. Tem um Jaguar mas a sua paixão é a bicicleta de montanha.

E tem, por tudo isto, a minha invejosa solidariedade.

1 Comments:

É casado???
eheheh...

By Blogger CotadaEmBolsa, at março 07, 2005  

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Comments:
É casado???
eheheh...
 
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