quarta-feira, março 30
O (des)investimento e a socialização do desastre
A forma mais fácil de cortar nos gastos é despedir pessoal. Os encargos salariais são custos fixos que, em muitas empresas, representam uma parte substancial da folha de despesa. Vários governos, entre os quais os portugueses dos últimos anos, legislaram de molde a permitir às empresas livrarem-se dos seus empregados com custos mínimos. E, assim, pessoas com 55, 50 ou até menos anos, foram transferidas da folha de pagamentos da empresa onde trabalhavam para a da Segurança Social - seja por pré-reforma ou subsídio de desemprego. As contas societárias ficaram artificialmente mais airosas. E o Estado ficou mais frágil, porque mais endividado. Chama-se a isto a socialização do desastre.
Não falo aqui dos casos mais óbvios de indignidade, ou seja, patrões que fecham as empresas e fogem com a folha de salários, ou que não pagam impostos mas acumulam sinais exteriores de riqueza.
Falo de uma concepção de empresa que muitos analistas já consideram errada.
Num número significativo de casos, quando o mercado se retrai, o único activo seguro de que as empresas dispõem é da sua força de trabalho. Isto é verdade a vários títulos. Porque são as pessoas que melhor conhecem o negócio, porque estabeleceram laços vários com a empresa, porque - conhecendo as dificuldades do momento - se disponibilizam a dar algo mais de si pelo trabalho comum. Os patrões (ou gestores) que percebem isto, não só por norma ultrapassam melhor os tempos de vacas magras como se apresentam mais fortes quando o mercado recupera.
Há depois aqueles que gerem com base na bottom line, no curto prazo. No ano passado, por exemplo, com a economia a crescer 1%, as vinte maiores empresas cotadas em bolsa, em Portugal, conseguiram a façanha de aumentar os lucros em 45,8%. Isto com o produto de vendas a crescer 5-6%. O corte de custos que a comparação destes números sugere é fabuloso. Demonstra também uma (i)rrealidade assustadora.
O desinvestimento em recursos humanos, em muitas empresas em que a mão-de-obra é a base do valor acrescentado, é a prazo um suícidio. Desencentivar os trabalhadores, colhocando-lhes a Espada de Dâmocles do despedimento permanentemente em cima da cabeça, não funciona. Ou funciona, apenas, em certas culturas pobres e de guerra (como a Índia ou alguns sectores dos Estados Unidos) , onde a vida das pessoas é infra-humana.
Comandar, como alguém dizia, não é mandar. E isso há pouco quem saiba.
2 Comments:
Agora já se fala em "rightsizing", que é obviamente o mesmo que "downsizing"...
Análise no geral correcta. As empresas que prestam contas trimestralmente são as que estão sob maior pressão para reduzir custos, o que as conduz amiúde a tomar decisões disparatadas só para salvar o resultado do "quarter". Quanto ao futuro, logo se vê. Um pouco como os políticos perante eleições...
Ou então de vez em quando sai um plano ambicioso de redução de custos de x%, sem qualquer análise sobre a exequibilidade da medida. E, em última análise, a força de trabalho é a primeira a levar a machadada. O que interessa é reduzir o headcount, mesmo que se aumentem as avenças, os subcontratos - mas isso aparece em despesas diversas, os custos com pessoal entretanto baixaram, num "esforço notável" de poupança...
By Flávio Santos, at março 30, 2005
Em trinta anos de entendimento com os seus congéneres europeus, a maioria esmagadora dos esdrúxulos dos nossos empresários só aprendeu duas coisas: que despedir é a única forma de salvar uma empresa; e que cumprir horários é um imperativo de modernidade e produtividade. É por isso que, sempre que vou falar com algum, tenho a preocupação de chegar pelo menos dez minutos atrasado. A.F.S.
By , at março 31, 2005
Análise no geral correcta. As empresas que prestam contas trimestralmente são as que estão sob maior pressão para reduzir custos, o que as conduz amiúde a tomar decisões disparatadas só para salvar o resultado do "quarter". Quanto ao futuro, logo se vê. Um pouco como os políticos perante eleições...
Ou então de vez em quando sai um plano ambicioso de redução de custos de x%, sem qualquer análise sobre a exequibilidade da medida. E, em última análise, a força de trabalho é a primeira a levar a machadada. O que interessa é reduzir o headcount, mesmo que se aumentem as avenças, os subcontratos - mas isso aparece em despesas diversas, os custos com pessoal entretanto baixaram, num "esforço notável" de poupança...
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