sábado, fevereiro 5
Não creio que alguém duvide, hoje por hoje, do carácter de Santana Lopes. É um homem volúvel, desconfiado, que não consegue levar avante ideia nenhuma. Não que as não tenha. Mas desconfia sempre delas e do que delas pensarão aqueles de quem ele desconfia. Como citou há tempos o Sexo dos Anjos, o homem ‘é sempre sincero mas muda de sinceridade de cada vez que fala’. Não há mais nada para dizer.
Lembro-me, no entanto – e acho que, a mais de duas semanas das eleições, é boa altura para o dizer -, que José Sócrates declarou, não há muito tempo atrás, que ‘a vida de primeiro-ministro é um inferno, só quem não sabe o que aquilo é aspira a ocupar esse lugar’. Sem ambições de rigor semântico, foi isto que o líder do partido que vai à frente nas sondagens disse há cerca de dois anos num debate na RTP… com Pedro Santana Lopes.
Se a isto juntarmos um presidente do CDS/PP que nunca – mas nunca – poderá aspirar a ter uma pose de Estado, porque o seu passado como jornalista mostra um homem sem carácter e o seu presente é indizível. Se adicionarmos um secretário-geral do único Partido Comunista que não fez a contrição do Bloco Leste, e que como tal é inelegível para um Governo de um País da União Europeia. Se somarmos uma primeira figura do Bloco de Esquerda que deambula entre o conservadorismo bacoco, as ideias fracturantes mais abjectas e as medidas fiscais mais utópicas. Se contemplarmos um PND que não apresenta uma ideia que seja mas apenas existe por exigência de uma clientela política ‘desempregada’. Se percebermos que o partido da direita dita nacionalista (PNR) está cheio de gente a quem a democracia dá a volta ao estômago, mas que não encontrou forças para tomar o poder de assalto – o que estaria mais de acordo com os ensinamentos dos seus maiores. Se analisarmos a ideologia do PCTP/MRPP, que defende coisas tão diversas como o escritório do Dr. Garcia Pereira e o modo de produção asiático. Se, enfim, procurarmos em agremiações minúsculas alguma exegese ou experimentação que sirvam a causa comum, chegaremos facilmente a uma resposta idêntica à do merceeiro de bairro, quando confrontado por um cliente mais exigente com pedido de produto mediamente sofisticado: ‘não temos!’
* este post fala apenas de líderes políticos. Estou convencido que, neste País errado, há forças individuais e colectivas capazes de levar a coisa a bom porto. Mas não estão na linha da frente.
7 Comments:
Caro Claque
Será que queria dizer inelegível em vez de ilegível?
Como não disse Jorge de Sena «um erro é só um erro e nunca má-fé»
velhodorestelo
By , at fevereiro 05, 2005
Às vezes os 'Velhos do Restelo' têm razão :}
Prazer em 'vê-lo' por aqui.
By clark59, at fevereiro 05, 2005
Seja como for, em termos políticos, estamos feitos ao bife.....não temos....tá tudo na rectaguarda...olha se estivessem na linha da frente já não tinhamos sequer país tava tudo fora do prazo de validade... (Desculpe a "composição", mas não fora preocupante, e mesmo assim,o seu texto é um retrato lindo: a do merceeeiro remata ...eheheheheh
By Fátima Santos, at fevereiro 05, 2005
Luto! Em Fevereiro desde há 97 anos.
Quem deu o nó no baraço, que o desfaça!
A indignidade por si acima descrita, e também por
mim sentida, ultrapassa o que nunca antes imaginara.
Não esqueça, aprendi quando em 'missão de soberania':
- no mato não há linhas, há HOMENS. Não é o Rei que precisa de Portugal, é PORTUGAL que precisa de REI.
Desculpe-me o desabafo, mas a tristeza invadiu-me e já não sei cantar o Fado.
By takitali, at fevereiro 05, 2005
Boa análise. Venha a "verdadeira" alternativa a este sistema de coisas. Venham os filósofos, os pensadores etc... Venham novos tempos e outros rumos.
Um abração do
Zecatelhado
By antonio, at fevereiro 05, 2005
1 - Se o nosso país não é capaz de gerar e manter líders, então vamos exigi-los aos governates.
2 - as sociedades têm os governos que merecem
3 - porque é que temos medo (ou vergonha) de falar das nossas virtudes?
4 - o pastor só orienta o seu rebanho quando este não vai pelo caminho certo
5 - a inovação ou é endógena ou não funciona
6 - Perante soluções tão más, herói, é o que consegue escolher a menos tsunami.
By J.G., at fevereiro 05, 2005
Sobre os da linha da frente, eles existem, mas estão a tratar da vidinha deles.
By Toix, at fevereiro 08, 2005
Será que queria dizer inelegível em vez de ilegível?
Como não disse Jorge de Sena «um erro é só um erro e nunca má-fé»
velhodorestelo
Quem deu o nó no baraço, que o desfaça!
A indignidade por si acima descrita, e também por
mim sentida, ultrapassa o que nunca antes imaginara.
Não esqueça, aprendi quando em 'missão de soberania':
- no mato não há linhas, há HOMENS. Não é o Rei que precisa de Portugal, é PORTUGAL que precisa de REI.
Desculpe-me o desabafo, mas a tristeza invadiu-me e já não sei cantar o Fado.
Um abração do
Zecatelhado
2 - as sociedades têm os governos que merecem
3 - porque é que temos medo (ou vergonha) de falar das nossas virtudes?
4 - o pastor só orienta o seu rebanho quando este não vai pelo caminho certo
5 - a inovação ou é endógena ou não funciona
6 - Perante soluções tão más, herói, é o que consegue escolher a menos tsunami.
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