quinta-feira, fevereiro 10

Eu dou-lhes o arroz!


foto AFP


Aquela virtuosa senhora, de cor politicamente correcta, que aconselha George W. na espinhosa tarefa de escolher qual é o próximo barbudo que vai levar com uma bomba em cima, veio por estes dias à Europa em missão de paz. Dos vários assuntos em agenda, chamou-me a atenção um em particular. Como a malta (leia-se, Europa) gosta de divergir um poucochinho da política oficialética dos EUA, desta vez a candura levou os nossos chefinhos a perguntar à Rice (assim se chama a senhora) se já podíamos ir pensando em quebrar o embargo de venda de armas à China. A China, como se sabe, é tutelada por um regime hediondo, que faz da escravatura o seu modo de produção, coisa que muito ajuda o crescimento da economia local e os dinâmicos e deslocalizados empresários ocidentais que por lá prosperam. Vender armas à China seria, portanto, apenas outra parte do negócio. Rice, no entanto, não acha bem.

Mas porquê? Então não são os EUA um dos principais apoiantes da integração de Pequim no areópago das Nações, estando mesmo a dar uma forcinha para pôr aquele exército abastecedor de lojas dos trezentos a fazer parte da Organização Mundial do Comércio (OMC)? O regime não é amigo do Ocidente? Então que mal tem vender-lhes umas pistolazitas?

Eu adoro embargos. Não há, aliás, forma mais simples de fazer negócio. Funciona assim: uma pessoa arranja uma desculpa qualquer e decreta um embargo. Por exemplo, o país em vias de ser embargado até ao osso é comunista. Depois, o defensor do embargo põe-se em bicos dos pés na ONU para que toda a gente cumpra. E finalmente, aproveitando ser o principal garante do mesmo embargo, fica em posição privilegiada para o não cumprir. A ideia é esta: 'Se sou eu que não deixo entrar ninguém em casa, sou também o único que detém a chave; quando os outros estiverem a dormir, lá vou eu lampeiro fazer o que lhes está proibido'.

Os traficantes estado-unidenses ainda não estão em condições de concorrer com os europeus, no que ao mercado chinês de armas diz respeito. Eles ainda têm muita pistolazita (ou pistolazona) para vender aos chinos. Até porque a vida não está fácil. Imaginem o que será se, por exemplo, aquela ideia peregrina de querer pôr árabes e judeus a apertar as mãos (que como se sabe é uma posição incómoda para, ao mesmo tempo, ir apertando gatilhos) for avante? Lá vai mais um nicho de mercado à vida. E como os africanos, apesar de andarem sempre às turras, pagam mal e a más horas, nada melhor que os chineses para alimentar a pujante máquina industrial de armamento do Tio Sam.

Por isso, amigos europeus, desculpem lá, mas o embargo de venda de armas à China é para continuar. Aliás, vocês deviam ter vergonha: onde é que já se viu países democráticos andarem a querer vender armas a um país… comunista?

4 Comments:

Pois é. Onde é que já se viu?
;)
A

By Anonymous Anónimo, at fevereiro 10, 2005  

O meu caro Clark consegue discorrer sobre este tema sem mencionar Taiwan uma única vez!

By Blogger Flávio Santos, at fevereiro 11, 2005  

O FG Santos tinha alguma razão para fazer este comentário no tempo da 'Guerra Fria' e quando a China era um país (realmente) comunista. Agora? Ó meu caro, já foi a Hong Kong ou a Macau depois da integração? Quer coisa mais capitalista que aquilo?

By Blogger clark59, at fevereiro 11, 2005  

A questão não é essa. Sabe que Taywan é aliado dos EUA, que volta e meia lhes fornece material bélico. As tentações da China sobre a república rebelde só não redundaram ainda em invasão devido ao papel dos americanos. Agora se é por uma questão de liberdade dos taiwaneses ou por uma política de dividir para reinar, a isso não sei responder.

By Blogger Flávio Santos, at fevereiro 12, 2005  

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Comments:
Pois é. Onde é que já se viu?
;)
A
 
O meu caro Clark consegue discorrer sobre este tema sem mencionar Taiwan uma única vez!
 
O FG Santos tinha alguma razão para fazer este comentário no tempo da 'Guerra Fria' e quando a China era um país (realmente) comunista. Agora? Ó meu caro, já foi a Hong Kong ou a Macau depois da integração? Quer coisa mais capitalista que aquilo?
 
A questão não é essa. Sabe que Taywan é aliado dos EUA, que volta e meia lhes fornece material bélico. As tentações da China sobre a república rebelde só não redundaram ainda em invasão devido ao papel dos americanos. Agora se é por uma questão de liberdade dos taiwaneses ou por uma política de dividir para reinar, a isso não sei responder.
 
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