quarta-feira, fevereiro 9

Carta a Deus



Reparo agora que, em 45 anos de vida, nunca Te escrevi. Reparo também que, do elenco de pecados que Revelaste aos homens, ou que os homens inventaram sem precisar de Ti para nada, não consta um em que se enquadre esta falta de missiva. Isto num tempo – tudo o indica – em que mais de meia já se fez a vida minha.

Antes de continuar, queria pedir-Te para deixar de me dirigir a Ti em maiúsculas. Tem isto uma razão teorizada e outra prática. Em primeiro lugar, sendo nós feitos à mesma imagem e semelhança, não vejo razão para essa deferência (já vais perceber o que é que eu penso do sagrado). E depois estou com um problema na mão esquerda que me aconselha a dar-lhe sossego – a mim, estás a ver, que me orgulho de ser um dos mais rápidos teclistas desde que Guttenberg inventou um substituto para a escrita à mão. E como os shifts se fazem com a esquerda... Está combinado?... Como lá da tua infinita e augusta sapiência não me respondes, olha, vou tomar por bom um provérbio conhecido neste teu pedaço de reino (que é uma assaz orgulhosa república) que diz que ‘quem cala consente’.

Saberás – tu sabes tudo – que estes últimos vinte séculos não foram lá muito do teu agrado. E daí a primeira crítica que te faço. Não tendo tu, por teu Filho ou pelos Papas, anunciado com clareza que a guerra e a fome são flagelos maiores do que não ir à missa ao domingo ou olhar para um rabo de saias (perdoa-me a demagogia), isto tem corrido assaz como Satanás quer e não como tu mereces. É claro que há excepções, mas eu hoje deu-me para as queixas. Cá no lugar que me deste em vida estamos em época eleitoral, que é um período durante o qual as reivindicações tendem a ser atendidas.

Ora então vamos lá falar do que me chateia. Então tu achas normal a polémica sobre a homilia do padre da paróquia de São João de Brito (fica aqui em Lisboa)? Então o homem mete-se na política e toda a gente o critica? Mas qual é a dúvida? Que mais têm feito os teus vigários terrenos (com honrosas excepções) nos últimos vinte séculos? ‘A Deus o que é de Deus, a César o que é de César’… haverá máxima divina mais esquecida por leigos e pastores?

Depois há aquela coisa dos cismas. Os ortodoxos, os protestantes, os católicos… como é que deixaste que estas coisas acontecessem? Será que és um democrata, e à unidade preferes a pluralidade? Conheço muito boa gente que ia ficar danada se fosse esse o teu desígnio. Mas fazes bem em estar calado. Deixa-os pensar, que é uma coisa que revigora o corpo. E a saúde dos vivos, sendo algo por tua determinação passageiro, sempre te dá alguma folga de alojamento. Nem queiras saber o que é o over-booking!

Isto, aliás, leva-me a outro assunto. Há gente, neste mundo teu, que pensa que só existe uma maneira correcta de agir e de pensar. Há outros, por antinomia, que acham que cada um pensa, e faz, o que lhe apetece. Eu, sem alcançar a exegese do anacoreta – mas precisamente por vivenciar o mundo que me deste -, sempre vou achando que a virtude está no meio.

Por exemplo, posso falar de aborto? Posso? Olha, este é um dos temas mais controversos da actualidade, e reflecte bem o que te contei no parágrafo anterior. Para uns é nunca, para outros é sempre ou quase. Não achas que esta gente, que é a tua, poderia, se quisesse, elaborar uma lei sobre o assunto? Ou este é um daqueles temas que faz parte do teu direito natural? Não sei, não.

Já que falamos nisto, queria pedir-te o seguinte: uma revisão constitucional! Os teus mandamentos e respectivas leis-quadro (os sete pecados mortais, as bem-aventuranças, as virtudes teologais) estão a precisar de urgente reciclagem. Eu sei que alguns destes pergaminhos foram escritos por punho de homens, não pelo teu, mas como sabes é com homens que a gente tem que se haver, já que tu decidiste fazer intervalos de muitos séculos para falar connosco de uma forma mais directa.

Por exemplo, gostava de discutir contigo o que pensas da beleza. Ou do Eduardo Prado Coelho. Ou da caça. Ou do Padre Vítor Milícias. Ou da arte. Ou do Jean-Paul Gaultier. Ou da SIDA. Ou do Nelson Mndela. Tantas coisas que eu gostava de discutir contigo… mas percebo que os teus desígnios sejam insondáveis. Sabes? Melhor assim, cada um diz o que pensa.

Olha outra coisa. Isso de teres dotado os machos de umas hormonas que os impelem à procriação com todas as fêmeas à mão de semear (passe o pleonasmo) tem um efeito perverso, não sei se já reparaste. É dificil à brava, providos que somos desses enzimas, ficarmo-nos pelo leito da eleita. Como é que a gente faz? Sublima? O teu filho Segismund (somos todos teus filhos, não?) não está de acordo.

Dito isto, que tal então provires o teu povo de um Papa que não se resignasse a fazer o óbvio – o sinal da cruz, as homilias na praça romana, etc., etc. – mas que botasse obra e doutrina sobre os males da humanidade? Para começo de conversa não estava mal. É que, sabes, estou um bocado farto (e agora volto ao sagrado, como te prometi) daquele sermão sobre a bondade e a salvação, sem que ninguém empenhe o povo num quadro de diligências que possam melhorar o Mundo. Aquele Mundo que eu sei, porque creio nele e em ti, tu quiseste bem melhor do que o que ele é.

Mais não peço de que seja feita a tua vontade. Não peço mais nem, já agora, menos.

Desculpa a extensão da carta, mas acredita (acho que também podes dar-te a esse luxo) que muito ficou por dizer.

Até à eternidade.


11 Comments:

EXCELENTE POST!

prefiro, claro está (até por rendição ao óbvio) a pluralidade.

Nelson Buiça

By Blogger vs, at fevereiro 09, 2005  

oh! senhor Quente ou o senhor ora (reza)normalmente por razões de educação ou decisões de adulta criatura ou ...ou está na conjuntura em desespero tal que o leva, à falta de obter respostas ao que se interroga, a dirigir-se a Quem (o shift não dá, salteado,realamente, muito jeito )deveria, também o creio, ter de tudo as respostas todas e acertadas. Mas, espantou-me a sua ingenuidade (será Fé e então esqueça tudo o que se segue)ao crer assim num Te que democrático se deixasse convencer de te e lhe anuisse nas questões que o (a si senhor Quente)apoquentam. Será da idade fresca que sustenta ser a sua no parágrafo primeiro?! é porque qualquer filho da puta depois dos cinquenta sabe (e se não sabe é porque andou a olhar pra esta merda toda por um canudo) que falar com Ele esse tal Tu a que escreve é o mesmo que falar para as paredes e que assim a Salvação e a Lei ou arranjas Tu ou senhor Quente terá nesta peregrinação uma vidinha pejada de interrogações que se se descuida inda se lhe tornam no vil pecado e torcem (f...) a vida toda. Espero ter interpretado mal a sua carta pois lhe entendo ser o senhor quente homem de muita independência e, nada de pecadilhos ou ingenuidades antes mesmo de chegar aos cinquenta.

By Blogger Fátima Santos, at fevereiro 09, 2005  

Acho bem que sim...mais vale tarde que nunca.....

By Anonymous Anónimo, at fevereiro 09, 2005  

Porra para isto... estaremos a ficar velhos ou que merda vem a ser esta? A.F.S.

By Anonymous Anónimo, at fevereiro 09, 2005  

Não sei, AFS, mas ainda bem que apareceste. Manda-me um e-mail (claquequente@hotmail.com). Preciso de falar contigo

By Blogger clark59, at fevereiro 09, 2005  

Uma carta a dEUS...

Sem comentários...

Convido V. Exas a visitar a Embaixada de Zurugoa:

http://zurugoa.blogspot.com

Pode ser que fique uns anos mais novo...

hehehe

salut

By Blogger Bandido ORiGInAl, at fevereiro 10, 2005  

Caro Claque
Sabemos que Deus tem uma infinita misericórdia, mas pedir-Lhe opinião sobre Prado Coelho ou sobre o Padre Melícias é ultrapassar todos os limites (da infinita misericórdia naturalmente).

velhodorestelo

By Anonymous Anónimo, at fevereiro 10, 2005  

Escrever uma carta a Deus é talvez a melhor forma de escrevermos uma carta a nós próprios. (esta é tão profunda que nem eu nem Ele percebemos...). ;)

By Blogger AS, at fevereiro 10, 2005  

Ó AS, mas por quem sois, eu explico-lhe tudo tin-tin por tin-tin!!

By Blogger clark59, at fevereiro 11, 2005  

I find you. are you look for a Condo in miami?

By Anonymous Anónimo, at fevereiro 11, 2005  

A 'Condo in Miami'? In MIAMI???? I feel insulted! Never come here again, please.

Alguém sabe como é que se apaga esta merda?

By Blogger clark59, at fevereiro 11, 2005  

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Comments:
EXCELENTE POST!

prefiro, claro está (até por rendição ao óbvio) a pluralidade.

Nelson Buiça
 
oh! senhor Quente ou o senhor ora (reza)normalmente por razões de educação ou decisões de adulta criatura ou ...ou está na conjuntura em desespero tal que o leva, à falta de obter respostas ao que se interroga, a dirigir-se a Quem (o shift não dá, salteado,realamente, muito jeito )deveria, também o creio, ter de tudo as respostas todas e acertadas. Mas, espantou-me a sua ingenuidade (será Fé e então esqueça tudo o que se segue)ao crer assim num Te que democrático se deixasse convencer de te e lhe anuisse nas questões que o (a si senhor Quente)apoquentam. Será da idade fresca que sustenta ser a sua no parágrafo primeiro?! é porque qualquer filho da puta depois dos cinquenta sabe (e se não sabe é porque andou a olhar pra esta merda toda por um canudo) que falar com Ele esse tal Tu a que escreve é o mesmo que falar para as paredes e que assim a Salvação e a Lei ou arranjas Tu ou senhor Quente terá nesta peregrinação uma vidinha pejada de interrogações que se se descuida inda se lhe tornam no vil pecado e torcem (f...) a vida toda. Espero ter interpretado mal a sua carta pois lhe entendo ser o senhor quente homem de muita independência e, nada de pecadilhos ou ingenuidades antes mesmo de chegar aos cinquenta.
 
Acho bem que sim...mais vale tarde que nunca.....
 
Porra para isto... estaremos a ficar velhos ou que merda vem a ser esta? A.F.S.
 
Não sei, AFS, mas ainda bem que apareceste. Manda-me um e-mail (claquequente@hotmail.com). Preciso de falar contigo
 
Uma carta a dEUS...

Sem comentários...

Convido V. Exas a visitar a Embaixada de Zurugoa:

http://zurugoa.blogspot.com

Pode ser que fique uns anos mais novo...

hehehe

salut
 
Caro Claque
Sabemos que Deus tem uma infinita misericórdia, mas pedir-Lhe opinião sobre Prado Coelho ou sobre o Padre Melícias é ultrapassar todos os limites (da infinita misericórdia naturalmente).

velhodorestelo
 
Escrever uma carta a Deus é talvez a melhor forma de escrevermos uma carta a nós próprios. (esta é tão profunda que nem eu nem Ele percebemos...). ;)
 
Ó AS, mas por quem sois, eu explico-lhe tudo tin-tin por tin-tin!!
 
I find you. are you look for a Condo in miami?
 
A 'Condo in Miami'? In MIAMI???? I feel insulted! Never come here again, please.

Alguém sabe como é que se apaga esta merda?
 
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