domingo, fevereiro 27

"A vaidade é um pecado menor quando comparado com a inveja" *

Há tipos vaidosos e há outros que abusam. É o caso do principal utilizador deste blog. Por ocasião do seu primeiro aniversário, o Claque Quente resolveu convidar alguns dos seus mais representativos comentadores (muitos deles, aliás, linkados aí à direita) para emitirem opinião que sustentasse a edição de um best of de si próprio. Pediu-se-lhes que elegessem os 10 melhores posts aqui publicados nos primeiros 365 dias desta aventura. Os escritos escolhidos pelo distinto júri serão novamente dados à estampa no próximo dia 26 de Março, que é a data parabenizada.

A escolha de um júri serve para certificar a seriedade do processo, bem como para ter a certeza de que há doze boas almas que tomam por bom o tempo que vão dedicar à pequena causa de ler este blog de fio a pavio. No entanto, todos os meus habituais leitores estão convidados a dar a sua opinião.

Dito isto, quero expressar antecipadamente o meu agradecimento aos doze elementos convidados. Trata-se de primeiras escolhas. Não obtive uma única recusa. E isso, se calhar, é já um primeiro motivo de vaidade.
Alguns conheço-os há mais de 20 anos. Outros foram aparecendo na minha vida pouco a pouco. E os restantes vieram cá parar por força desta coisa única que dá pelo nome de blogosfera.

São eles:

Baby Lónia
Cotada em Bolsa
Fata Morgana
Nova Floresta
Nova Frente
O Código de Santiago
Passo a Passo
SG Buíça
Último Reduto
AFS
Alfredo F.
Pluribus Unum


Respostas para claquequente@hotmail.com até ao próximo dia 24 de Março

* extracto do estatuto editorial do Claque Quente

Os protagonistas

Os protagonistas têm uma lata desmesurada. Num País de opereta, como é este que aqui jaz, nascem como cogumelos, sem razão aparente. Vêm com as chuvas ou com a falta delas. Inventam as frases perfeitas e inadiáveis que os mantêm na lista dos publicáveis. E repetem-se. E replicam-se. E municiam-se uns aos outros para que se tornem incontornáveis.

Os protagonistas nascem de aborto, antes do tempo. Ainda assim, multiplicam-se. Crescem na morte aparente do parceiro ou na parva derrocada do alheio. Reproduzem-se quando a espécie está ameaçada.

Os protagonistas apoiam-se e sucedem-se. Quando um muda de meio de expressão, logo um outro se eleva mais do mesmo. É preciso. É polido. É valente.

Os protagonistas excluem os que o não são. Impera a lógica: se já cá estamos, assim ficamos.

Os protagonistas revelam as notícias que aparentemente ninguém diz – quanto mais ninguém disser, mais protagonista, aliás. Os protagonistas calam a voz dos secundários que aspiram ao papel principal. É o norte bussolar que assim se impõe.

Mas mais vale defender quem é protagonista. Em número pequeno, reconhecível, eles lá estão. Não convém somar mais ‘istas’, num rebanho maneirinho. São eles, conhecêmo-los. São eles, não queremos mais.

A bem dizer, nem a eles queremos.

sexta-feira, fevereiro 25

Os treinadores de bancada

Alguns dos expoentes máximos do nortenho empenho na economia pátria foram hoje à noite à SIC Notícias perorar sobre o futuro da alma e do braço lusitano. Para que conste e não fique névoa, chamam-se os referidos, respectivamente, Artur Santos Silva, Ludgero Marques, Daniel Bessa, Belmiro de Azevedo e Manuel Ferreira de Oliveira.

Diga-se desde já que, com o poder que têm, estes senhores integram a primeira linha de responsabilidade pela desordem nacional. Mandam mais do que políticos, falam que nem polígrafos, veiculam todas as polémicas. Têm voz e massa.

Não é que sejam propriamente desprovidos. Aqui jaz, aliás, muita da encefalopatia não acéfala dominante, que fez do País o que ele é. A ideia fundadora dos discursos, nem todos coincidentes, é: eles querem mas não podem, eles dizem mas não os ouvem, eles pedem mas ninguém lhes dá. Podiam ser secretários-gerais de Sindicatos da Administração Pública que ninguém notava a diferença.

Acontece que estes treinadores de bancada, salvo raras, episódicas, breves e mal conseguidas experiências, nunca se preocuparam com a coisa pública. Ou seja, traduzido para português, com o bem comum. Respondem – e bem – perante Assembleias Gerais de accionistas, ou escrevem pareceres a preceito. Mais nada.

Salvo raras e mentirosas tiradas de ocasião, os senadores auscultados defendem ‘o deles’, parecendo entretanto que estão a edulcorar a virtude. Não se atêm a soluções, não deixam rasto de propostas. Era só o que faltava!

Por isso, sendo certo que faz falta ouvir os nossos maiores, se estes o são não vale a pena. O desfiar de vulgaridades, a secante de inverdades, é perda de tempo.

E, se me for permitida a minha dose de demagogia, daqui lhes digo: vão trabalhar!

quinta-feira, fevereiro 24

José Saraiva

Lembras-te quando saudaste a minha entrada no JN? Eras franco, tanto quanto a política te deixava ser. Rias desmesuradamente e lias a função humana mais que o que te deixavam. Deixavas marcas. O que escrevias era maior que tu. Não te importavas. Querias, sempre, que assim fosse, querias mesmo que outro caminho houvesse. Tentaste.
O que escreveste é de letra. Fica para sempre. Tu, jornalista a quem a política disse tanto. E, no entanto, jornalista.
Boca grande sempre tiveste, para contar de tudo um pouco. É vida, isso? É!
Até sempre.

Abruptamente

Não tarda nada estás no Diário de Notícias. O problema é que eu não sei se te quero lá!

quarta-feira, fevereiro 23

É que noutros tempos até os foleiros tinham graça

A F. fez ontem 40. Ainda não me chegou a conta do IVA, inerente a ter tomado conta da fulana por volta dos seus 28 anos de idade quando, fortezita, pesava 58 quilos. Agora pesa mais 10. Estou a fazer poupanças para o dia em que as Finanças – pobre de mim – me vierem pedir razões.

Teve a F. a ideia óbvia de pedir a amigos a comparência num jantar de aniversário. Apareceram vários, não todos, que isto de viver em Lisboa tem as suas pechas. Ele há uma que fodeu e pariu e não tem com quem deixar a cria (ou até lhe dá jeito dizê-lo, que é para não ter que exportolar a prenda), ele há a classe enfeitada de média que ao dia 22 do mês já não tem bolsa nem para a marmelada, ele há a gaja que vota no Bloco de Esquerda mas a quem o marido não deixa sair de casa senão leva porrada. Adiante.

Apareceu quem apareceu e é bem-vindo.

Any way (é assim que se escreve, ó cromos sem ideias que passam a vida a corrigir-me o inglês?), depois de um jantar afável, fomos para um sítio sinistro comemorar os ‘entas’ da F. Calhou (a F. nestas coisas normalmente escolhe mal) o ‘Buhdas Bar’, um sítio que já foi mau mas que agora é absolutamente péssimo.

O dia nem sequer era o melhor. Demo-nos de caras com a festa de uma imobiliária, que tem por norma contratar gajos com olheiras e mulheres sem mamas e sem outro acrescento feminino que não seja a voz estridente e as madeixas de baixo preço. Fiquei lá dez minutos, que não há pachorra para mais.

Mas pensei: dantes a malta normal engatava gajas nas discotecas e elas – honra lhes seja feita – gostavam de ser comidas às portas das mesmas, se o tesão apertasse. Que saudades do tempo em que se fodia menos mas era sem borracha e sem preconceitos. E em que os foleiros ficavam à porta, ou até serviam para a brincadeira.

Estou – obviamente – a ficar velho.

PS - A F. está linda de morrer.

terça-feira, fevereiro 22

Um País

Eu queria ter um País bonito.

Um País em que os problemas existissem, mas no qual os mesmos – pela força dos que cá vivem – pudessem ser resolvidos.

Um País, somente, em que a junção de esforços fizesse sentido e amanhã pudéssemos acordar melhor que hoje.

Um País em que Setembro não desdissesse Maio e vice-versa. Isso é que eu queria.

Não vale a pena mudar de Governo sem ter o anseio de seguir em frente.

E o que é que vale a pena?

Vou dar só um exemplo que me é caro: despedir (eu disse – despedir) todos os funcionários do Ministério da Educação é uma obra de caridade. Eu disse – todos. Nesta mudança incluo móveis, aranhas, bacias de casas de banho e perfumes no ar. O Ministério em causa é tão pernicioso à Nação que teremos mesmo que levantar as alcatifas e os tacos do chão para que lá não fique pedra sobre pedra. Não vale a pena fazer uma única reforma que seja no País se não desmantelarmos com-ple-ta-men-te o Ministério da Educação. Não pode ficar lá um contínuo. Não pode ficar lá um telefone. Não pode ficar lá nem um gato. É tudo – mas tudo – para ir fora. Não sendo adepto dos Autos de Fé, a Ana Benavente, por exemplo, poderia servir como pretexto para uma encenação realística.

Depois poderíamos continuar com a inspecção fiscal. Ou com as obras particulares e públicas da responsabilidade das autarquias. Ou com a capacidade de gestão dos nossos agricultores… Ou…

Há tanto para fazer para que o meu País se torne bonito.

Uma medida, só, eu aprovo. Mandate-se já o Instituto Português da Juventude, anualmente, para pôr cinco mil portugueses a estudar no estrangeiro, com a determinação de que, após esse estágio, têm que dar 10 anos de trabalho ao País.

E tanto mais….

segunda-feira, fevereiro 21

O País extinto

A falta de entusiasmo com que o País acolheu ontem a maioria absoluta do PS é bem a imagem de uma sociedade sem futuro e sem rumo, qualquer que seja o Governo.

Portugal não votou pelas opções políticas do PS – que desconhece em absoluto – ou mesmo pela rejeição da governação PSD /CDS. Não: o povo português votou pela ambição de emprego fácil, pela expectativa de baixa médica sem fiscalização, pela promessa de que os ricos passem a pagar impostos. Nada disto é possível ou desejável.

O povo quer tudo e não quer dar nada em troca. A absurda viragem à esquerda do eleitorado só revela uma coisa: “- Ajudem-nos a expulsar a porcaria de patrões que temos, dêem-nos outros em substituição, mas sobretudo não nos obriguem a pensar”.

O País não tem qualquer hipótese. Cada vez vai haver mais desempregados, cada vez mais a classe média terá menor poder de compra, e há-de haver algum dia em que mesmo os funcionários públicos perderão direitos. É este o futuro desta gente burra liderada por gente burra. Não temos as competências necessárias para concorrer no Mundo em que vivemos. A deseducação reinante é a primeira culpada deste estado de coisas. Nada vai mudar.

Por isso, antes da morte anunciada de um País com nove séculos, tenho a dizer o seguinte, que é imediato: José Sócrates vai tentar governar ao centro. Faz mal. O povo quer um governo de extrema-esquerda, que não lhe faça pagar impostos, que lhe permita trabalhar num biscato qualquer enquanto está de baixa na Função Pública, e que o reforme aos 53 anos que é para ainda ter tempo para comprar um táxi e fazer ‘algum’. Os patrões querem continuar a comprar Jaguares enquanto fazem naprons ou atoalhados turcos.

Dito isto, destas eleiçõpes saem perdedores e vencedores.

Perdedores:

O Povo de Direita: os traidores do costume, desde Miguel de Vasconcelos a Marcelo Caetano, baldaram-se do CDS para o PSD. Aquela gentinha que tem medo do cheiro a bagaço do marido da empregada, tanto como da gravidez da filha bastarda da sopeira que o marido fodeu, abandonou Portas e foi a correr votar Santana Lopes, na esperança de minorar as perdas. Teve galo. Mas eu abomino essa escumalha desde o dia em que vi, corria o ano de 1987, as janelas da Avenida de Roma cobertas de bandeiras do PSD, à passagem do professor Cavaco. As rameiras da direita tanto se lhes faz abrir as pernas a Portas como a Santana. Afinal, fica mal a uma mulher de direita ter orgasmo que acorde os vizinhos. É também por isso que as meninas ‘teixeira da cunha’ aspiram a uma vivenda: sempre é mais isolado para o dia – que sempre é plausível – em que o clítoris lhes grite.

O Povo de Coimbra: o distrito mais abjecto deste País abjecto só deu deputados ao centro. Nem CDS, nem PCP, nem Bloco de Esquerda. Coimbra, terra execrável sem igual, balda-se para os programas dos partidos e vota no centrão. Merecem a co-incineração às portas da Faculdade de Direito e a Faculdade de Direito no Porto.

O método de Hondt: distritos onde só são eleitos dois ou três deputados desvirtuam quer a proporcionalidade quer a representatividade do voto. É necessário um círculo nacional que impeça, por exemplo, que o BE tenha 7,7% em Faro e não eleja nenhum deputado. O modelo alemão, no qual as sobras dos círculos onde não se obtêm deputados se juntam para um círculo novo, é uma hipótese credível.

Durão Barroso: Fugiu a meio da legislatura. Deixou o governo nos braços de quem não tinha legitimidade política. É um traidor.

Cavaco Silva: a sua obsessão em apresentar-se como um equidistante candidato à Presidência da República morreu ontem. Ninguém no PSD lhe vai perdoar o facto de não se ter empenhado na campanha do partido. Apesar da asma, Balsemão é, a partir de agora, melhor candidato.

Vencedores:

Jerónimo: o PCP é um partido de classe. Por isso Jerónimo ganha. Mas não só. O PCP é um partido de crentes. Por isso Jerónimo ganha. Mas não só. O PCP é um partido ávido de liderança. Por isso Jerónimo ganha. Mas não só.

PS: o partido que fundou o actual regime constitucional nunca tinha tido uma maioria absoluta. Durão Barroso & Ca. encarregaram-se de resolver o assunto.

Miguel Vale de Almeida: o chefe da paneleiragem nacional conseguiu convencer as boas almas urbanas de que levar no cú, sendo-se homem, ou achecolatar berbigões, sendo-se mulher, é uma opção de vida tão boa como qualquer outra. Teve sucesso. Mereceu o empurrão (salvo seja).

A frase do dia:

Um repórter da TSF, do qual infelizmente não guardo o nome, disse. “E agora, às portas da sede do PS, muitos jornalistas que não estão de serviço aparecem aqui para saudar os vencedores das eleições”.

O discurso do dia:

O de Jaime Gama, às portas da vitória. Consciente.

O homem do dia:

Luís Filipe Menezes, não deixando o líder por mãos alheias. Ainda há gente honesta.

sábado, fevereiro 19

Líbano



O Líbano – um país que, se fosse caso disso, era, em termos teóricos, muito mais candidato a integrar a União Europeia do que, por exemplo, a Turquia – continua debaixo de fogo. Porque a sua população multi-religiosa desde sempre viveu de ódios mútuos? Não. O Líbano era um caso singular de boas relações entre druzos, maronitas, morabitinos, xiitas, etc. Era, também, um próspero pequeno País, habituado a fazer a ligação entre Ocidente e Oriente, seguindo a cartilha genética implantada pelos seus avós fenícios. Mas o Líbano calhou ser isso mesmo: um País pacífico e próspero encravado entre beligerantes ferozes como são os estados de Israel e da Síria. Calhou a vez agora ao primeiro-ministro Rafic Hariri, assassinado durante a semana que agora termina. Fala-se pouco da tragédia libanesa incrementada por forças estrangeiras. Aqui fica o meu testemunho.

sexta-feira, fevereiro 18

A difícil (mas clara) opção

A poucas horas do final da campanha, cabe-me a vez de fazê-la, eu que não tenho partido nem ideologia que se preze.

Há alguns dias decidi que ia votar. Esta foi a primeira posição. Em quem cairá o meu voto é mais complicado. Disse há pouco a esta confradessa que isso era cá comigo. Mas, para quem tem um blog, se calhar ficar na sombra é inverdade, e tomar partido é necessário. Dizer em quem se vota torna-se imperativo.

Por natureza, nunca voto na direita. É visceral. A direita institucional, apesar da simpatia de Paulo Portas, defende um status quo de que não gosto. Já no que concerne aos fascistas, a sua ideia em relação às minorias põe-me de parte absolutamente, mesmo se concordo com eles em alguns aspectos.

No que diz respeito à esquerda é mais complicado. Durante muitos anos fui eleitor do bloco central, alternando o meu voto entre os dois maiores partidos. Dizem-me as estatísticas que eu faço parte daqueles que decidem. Ainda bem.

Desta vez, no entanto, não tenho dúvidas. Pela primeira vez na minha vida, vou votar na CDU em eleições nacionais. Porquê? Porque o português que eu sou tem medo que se apague a única voz institucional que pode impedir os patrões de fazerem aquilo que lhes dá na real gana para obterem lucros à custa da mão-de-obra barata.

Eu estou de acordo com as ideias do PCP? Nem lá perto. Mas não vejo na sociedade portuguesa uma transfiguração tal que possa substituir o PCP na luta contra os desígnios do grande capital. Talvez o PNR o pudesse fazer se tivesse força. Mas não tem.

A realidade política

Em todas – mas absolutamente em todas – as eleições, o CDS/PP é prejudicado nas sondagens. O pessoal que faz da antecipação do voto profissão já devia ter aprendido a lição. Mas não. O CDS está atrás do Bloco de Esquerda e da CDU (PCP) em todas as sondagens: Público, RR, DN, TSF, etc., etc. O Expresso, que só sai hoje, parece que dá a Paulo Portas umas benesses. Mas não é científico, é apenas o feeling do arquitecto, que é uma besta mas não é estúpido; e retorcido como é, obrigou a empresa que lhe faz sondagens a ir pelo seu ponto de vista. Adiante. José António Saraiva, como Miguel Coutinho ou José Manuel Fernandes, não merecem mais que um rodapé da história contemporânea, que ademais será apagado num tempo não muito longe de agora.

A questão é outra. Paulo Portas, seja qual for a votação que tiver no domingo, vai cantar vitória. Todas as sondagens lhe são desfavoráveis, e ele vai ter mais votos do que elas indicam. Como é que eu sei isto? Sei, ponto final, toda a gente sabe, mesmo os fulanos que fazem as sondagens, Então porque é que as fazem assim? Sei lá!

Do outro lado, está o Bloco de Esquerda. O BE não vai ter 12 deputados. Mas as sondagens dizem que vai. Porquê? Porque o eleitorado mariconço e flibusteiro gosta de dizer aos sondadores que vai votar no Louçã. É assim como se um marido outrora infiel gostasse que se soubesse que continuava a sê-lo. Vai nada... Vai votar no PS e com isso contribuir para a maioria absoluta, ou quase, de um personagem abjecto como é José Sócrates.

É isto que as sondagens não dizem.

terça-feira, fevereiro 15

Fiquei completamente esclarecido

Depois do debate que a RTP transmitiu há pouco, considero – finalmente – que estou apto para votar no próximo dia 20.

Votarei – com convicção – em Francisco Louçã, porque defende os valores da família, já que é o único que é casado e tem filhos a cargo.

Votarei – silenciosamente – em Jerónimo de Sousa, porque interiorizei o significado do estribilho do ‘Avante’, que diz ‘junta a tua à nossa voz’.

Votarei – sem qualquer dúvida – em José Sócrates, porque I have no doubt that he will defend the portuguese language.

Votarei – decididamente – em Santana Lopes, porque é o único que afronta os poderes instalados e a corrupção.

Votarei – de olhos fechados – em Paulo Portas, porque defende uma política de emprego baseada na recuperação de empresas públicas.

Bem hajam por me terem esclarecido.

Uma ideia blogosférica

Eu gostava de escrever um post hermético. Assim do tipo:

«Jonas, não podia estar mais contigo. Todos os que nos revemos em Heidecker (eu sei que tu sabes) temos a noção do tempo que passou. Foste acusado no ‘Prisma’ de maneira ingrata. Só os ‘Fazedores do Templo’ podiam estar tão desfasados. Cuida-te. E não te esqueças: ‘on the sketch is a stracht’. Desculpa lá se fui vulgar»

Esta coisa faz algum sentido? É claro que não. Mas a blogosfera está cheia destas merdas, às vezes em blogues bem visitados.

Um conselho aos meninos que gostam deste estilo (eu chamo-lhe o estilo ‘só a minha turma’): vocês conhecem aquela coisa do Messenger? Se tudo o que têm para dizer é merda deste teor, usem-no. As minhas primas de dez e doze anos fazem o mesmo, e não consta que haja ‘complains’

Boa sorte! E desamparem-me a loja!

segunda-feira, fevereiro 14

Valentes mulheres!



Este ramo é para todas as solteiras, divorciadas e viúvas que amanhã (hoje) não vão ter um sucedâneo à altura. Se eu tivesse cem vidas amava-vos a todas!

Lúcia

Lúcia de Jesus, vidente de Fátima, morreu ontem com a bonita idade de 97 anos. Diz quem esteve perto dela até ao fim que teve uma morte santa, com o sofrimento mínimo que se pode desejar a uma anciã que marcou a história do século XX português, seja-se ou não crente. Paz à sua Alma.

Dito isto, há que regressar aos vivos. E estes, como de costume, portaram-se mal. Ou portaram-se como sabem, o que vai dar ao mesmo.

Em primeiro lugar, os partidos da direita institucional resolveram anular as programadas acções de campanha. Por respeito, dizem eles. Por respeito? Haverá maior respeito pela vida eterna do que celebrar a vida terrena? Ou será que os partidos de direita, subconscientemente, acham que isto das campanhas eleitorais é obra do diabo e que, como tal, perante a morte de um plausível eleito de Deus, essa actividade deve ser interrompida?

Em segundo lugar, a acreditar nas notícias (não desmentidas) dos órgãos de comunicação social a que tive acesso nas últimas horas, José Policarpo, cardeal patriarca de Lisboa e figura maior da hierarquia católica portuguesa, não vai estar presente nas exéquias oficiais de Lúcia de Jesus. A cerimónia será presidida pelo bispo de Coimbra, onde residia a vidente, e pelo seu homólogo de Leiria-Fátima, por razões evidentes. Porque é que o Patriarca não vai ao funeral da mais iconográfica membro da Igreja Católica portuguesa?

Desculpem lá, mas eu tinha que dizer isto.

sábado, fevereiro 12

Pinto da Costa apoia Bloco de Esquerda *

São os últimos trunfos jogados pelos partidos antes das eleições do próximo dia 20. Em rigoroso exclusivo, o Claque Quente apurou, de fontes próximas do presidente do FC Porto (que pediram o anonimato), que Pinto da Costa terá mantido um encontro secreto, ontem à noite, com Francisco Louçã e João Teixeira Lopes, respectivamente líder do Bloco de Esquerda e cabeça-de-lista do partido pelo círculo do Porto. O encontro serviu para indagar da possibilidade daquele popular dirigente desportivo poder vir a apelar publicamente ao voto no Bloco.

Segundo as mesmas fontes, Pinto da Costa terá feito depender o seu apoio de duas condições. Em primeiro lugar, o presidente dos campeões nacionais quer que o BE abandone a sua luta contra o poder do futebol e a promiscuidade que os seus agentes alegadamente mantêm com a política. O BE poderá apenas, com carácter excepcional, atacar Rui Rio, presidente da Câmara do Porto, que tem conhecidas e antigas ligações ao Boavista.

Louçã e Teixeira Lopes mostraram-se renitentes em avançar por esse caminho, mas terão chegado a uma plataforma de entendimento após Pinto da Costa ter sugerido que o Bloco podia começar a atacar o râguebi. O presidente do FC Porto fez ver aos dirigentes bloquistas que o râguebi é um desporto muito mais elitista que o futebol. Por outro lado, segundo as fontes contactadas, Pinto da Costa terá demonstrado que as recentes conquistas da selecção nacional da modalidade só foram possíveis à custa de inúmeros apoios governamentais. A pedra de toque que terá convencido Louçã e Teixeira Lopes foi a revelação, feita por Pinto da Costa, de que a selecção nacional de râguebi efectuou recentemente um estágio de cariz militarista junto do Corpo de Fuzileiros. Este facto, que os dirigentes bloquistas desconheciam, foi de imediato considerado grave e merecedor de censura por parte do partido, que o vai denunciar nas suas próximas actividades de campanha.

No entanto, para que não fique a ideia de que o BE é contra a prática desportiva, Francisco Louçã pediu já um encontro, com carácter de urgência, com a selecção nacional feminina de futebol e vai incluir no programa eleitoral do BE a promoção do ensino escolar da natação sincronizada masculina.

A segunda reivindicação feita por Pinto da Costa foi, segundo as fontes do Claque Quente, aceite de forma mais pacífica pelos bloquistas. O presidente do FC Porto chamou a atenção para o facto de o BE não dar à defesa dos direitos das prostitutas a mesma atenção que presta aos direitos dos casais gay. Louçã reconheceu que se trata de uma lacuna na propaganda do Bloco e prometeu incluir o tema em próximos debates. Ao que o Claque Quente apurou, nas próximas eleições autárquicas o BE deverá já incluir nas suas listas uma quota de prostitutas. Louçã terá, aliás, pedido a Pinto da Costa um apoio especial no recrutamento deste género de militantes, tendo o presidente do FCP dado de imediato instruções ao seu staff para que proceda em conformidade.

Contactado o serviço de Imprensa do Bloco de Esquerda, uma fonte do gabinete disse estar já a preparar um slogan alusivo à inclusão de prostitutas nas listas. Não querendo adiantar pormenores, a fonte revelou, no entanto, que o light-motiv terá algo que ver com uma alegada ligação ao poder por parte dos filhos das ditas profissionais do sexo. Recorde-se que a questão da geração de filhos foi já abordada, de forma polémica, pelo próprio Francisco Louçã durante a pré-campanha eleitoral.

* ora digam lá que isto não dava uma boa manchete?

O cabrão do Libelinha apareceu cá em casa

- Então já fechaste a sondagem?
- É verdade, qual é o problema?
- Eu nem tive tempo de votar!!
- Aquilo esteve aberto um mês inteiro e só agora é que notas?
- Mas eu sou daqueles que guarda tudo para a última hora!...
- Mal o teu…
- Já vi que o PS ganhou…
- Por poucos, mas ganhou.

(O Libelinha fez aqui um compasso de espera, como quem vai dizer algo)

- Quero-te perguntar uma coisa….
- Demora muito ou precisas de uma cerveja?
- … Precisar não preciso, mas já agora…

(Fui buscar)

- E então?
- Quem são aqueles gajos do PNR?
- Se andasses mais atento já tinhas percebido. São do estilo do Le Pen e companhia.
- Mas como é que eles têm tantos votos no teu blog? Tu és de esquerda, não és?
- Há quem diga que sim. Quanto ao PNR, penso que é malta que me lê.
- E tu não ficas fodido?
- Com quê?
- Ó homem, com essa facharia toda a rondar-te a porta!
- Não, são gente vulgar, como quaisquer outros.

(O Libelinha estava pouco convencido mas encabulou. Logo depois voltou ao ataque)

- Tu és meio estranho. Então passas a vida a dizer mal do Bloco de Esquerda e eles obtêm aquela votação?
- E o que é que eu tenho a ver com isso, eu só lá pus o inquérito!?
- Vai-te foder, se os gajos votam é porque te visitam, e se te visitam é porque concordam contigo!!
- May be… Mas eu já disse que não concordo com adopção de crianças por homossexuais, por exemplo.

(O Libelinha, chegado a esta fase, afastou-se e começou a sorrir. Olhando-me de soslaio lá mandou a frase)

- Olha, sabes que mais? Tu és mesmo esquisito.
- Lá estás tu. Porquê?
- Tu sabes como é que eu sou: voto sempre no mesmo, e quando não voto nesse abstenho-me.
- É o teu direito.
- Agora, tu não sabes o que queres, andas de um lado para o outro - facho, comuna, liberal, chucha….
- Nem toda a gente tem o teu dom…
- Não é um dom, porra, é saber-se o que é que se quer!
- E eu não sei, é isso?
- Precisamente!

(Pensei um pouco. O Libelinha tinha a lógica precisa dos que há muito definiram uma escolha)

- Tenho imensa pena em desiludir-te, mas eu faço parte daquele núcleo que decide. Umas vezes voto nuns, outras vezes voto noutros. Gente como eu é a essência da democracia e da alternância.
- Ora ainda bem que dizes isso! Como já acabei a cerveja vou ali ao ‘Conde Redondo’ praticar a democracia e a alternância. E para teres a certeza que eu sou um ‘democrata’, hoje ‘marcha’ uma preta!

(Fechei a porta mal o Libelinha saiu. Estou com dúvidas: vou ver um vídeo de ‘O Sexo na Cidade’ ou de ‘Os Homens do Presidente’?)

Acabou

ghghgh

Cá no Claque Quente as eleições terminaram com uma semana de antecedência. Durante três semanas entraram nesta ‘pool’ 284 votos. Renhidas elas foram, como quase de início se previa.

Têm contudo, em relação ao que é previsível que as verdadeiras nos deixem em herança, várias nuances. Analisemos, portanto, a consulta bloguística:

1 – Maioria de Esquerda

O sonho de muitos deslavados, anorécticas, punheteiros, santos e versejadores inspirados em Ary dos Santos cumpriu-se. O Claque Quente tem mais leitores de esquerda do que de direita. Toma lá esta, ó Alfredo F.!

2 – Pares imprevisíveis

Só neste blog é que as eleições poderiam ter sido travadas entre o PS (vencedor) e o PNR (segundo classificado). A rapaziada mais ‘que se foda’ ganhou por escassos dois votos à rapaziada mais ‘eles que se fodam’. Brilhante!

3 – Pares imprevisíveis (II)

O Bloco de Esquerda – gentinha por quem não se sente, deste lado, a menor simpatia – alcançou o terceiro lugar, batendo o PSD na sua luta muito particular pelo pódio. Melhor faria Santana Lopes em ter tantos filhos como Francisco Louçã. (ai tem mais? ok, não sabia).

4 – Pares imprevisíveis (III)

Paulo Portas falhou rotundamente o seu objectivo, ficando atrás da coligação de ‘Jerónimo e os seus Apaches’. A ‘ferrugem’ ganha à Burberrys. Isto não é um País, é apenas um sítio mal frequentado.

5 – Nulo

Os votos brancos e nulos ganharam a sua corrida muito particular com a abstenção. Só aqui é que isto era possível. O altíssimo grau de consciência cívica e saramáguica dos e-leitores do Claque Quente fica assim bem definida.

P’rá semana é a sério. Como dizia o Orca, isto só serviu para treinos.

Votem bem!

sexta-feira, fevereiro 11

Últimas horas

Daqui a menos de três horas fecho o 'tasco' eleitoral. Não quero cá converas sobre eleições na última semana antes das propriamente ditas (isto já está merdoso que chegue, que fará mais lá para a beira das urnas).

Portanto é aproveitar agora!

Depois farei a 'competente' análise eleitoral. Watch me!

Ideias feitas

O totó do Durão Barroso (totó ou megalómano, não sei) acha que Portugal deve investir 3% do PIB em investigação científica. Boa!! É de estadista! Principalmente quando é sabido que a maior parte das (poucas) patentes conseguidas por portugueses são imediatamente compradas por multinacionais que, à vez, as usam em seu nome ou (pior ainda) as metem na gaveta porque a sua utilização prática seria prejudicial aos negócios que desenvolvem.

Para que não julguem que estou a inventar: aqui há anos um investigador português descobriu uma maneira de reutilizar óleos lubrificantes uma e outra vez. Resultado: mal publicou o artigo numa revista científica, uma multinacional do ramo comprou-lhe a patente, mais os direitos de utilização do invento, para que este JAMAIS fosse levado à prática. E sim, o investigador português recebia uma bolsa do Estado.

Para que conste: 3% do PIB são à volta de 4,2 mil milhões de euros.
É caso para dizer: de boas intenções está o Inferno cheio.

Nós temos boa investigação em áreas onde somos líderes de mercado, como por exemplo no calçado, nos moldes, na cortiça ou no vinho. Temos também coisas boas na área da saúde e da engenharia. Mas não são precisos 4,2 mil milhões de euros por ano para isso. Os investigadores já agradeceriam que lhes pagassem a tempo e horas.

PS. - Esta ideia do reforço do investimento em investigação surge na mesma semana em que a Europa assumiu que a estratégia de desenvolvimento conhecida por 'Agenda de Lisboa' (por ter sido decidida na cimeira realizada na capital portuguesa há cerca de cinco anos) devia ser revista, já que as metas aí expostas são demasiado ambiciosas. Qualquer sapateiro com a 4ª classe sabia disto desde que a agenda foi conhecida. Vão gamá-lo!

Ao contrário



Sou um romântico. Mas um romântico recalcitrante, as mais das vezes. Vejam só: ontem esqueci-me do aniversário de uma amiga antiga; mea culpa; hoje li esta amiga a dizer que se basta a si própria.

Tretas…

Primeira lei: nenhum ser humano se basta a si próprio. Se for mulher, então, vou pela Ellis Regina, que dizia que mulher sem amor não vive.

Segunda lei: não sei como funcionam os homens, mas mulher sozinha é abaixo de cão. No caso da minha amiga antiga, isso só é possível devido à conjugação de dois factores ridículos: a sua dor e a falta de pundonor dos plausíveis novos amantes.

Viver sozinho é uma ideia besta. Sou liminarmente contra. Quando, por falta de sorte ou de perseverança, não se encontra alma gémea, deve pelo menos estar-se próximo de quem nos quer bem.
Alguém há-de haver.

quinta-feira, fevereiro 10

Eu dou-lhes o arroz!


foto AFP


Aquela virtuosa senhora, de cor politicamente correcta, que aconselha George W. na espinhosa tarefa de escolher qual é o próximo barbudo que vai levar com uma bomba em cima, veio por estes dias à Europa em missão de paz. Dos vários assuntos em agenda, chamou-me a atenção um em particular. Como a malta (leia-se, Europa) gosta de divergir um poucochinho da política oficialética dos EUA, desta vez a candura levou os nossos chefinhos a perguntar à Rice (assim se chama a senhora) se já podíamos ir pensando em quebrar o embargo de venda de armas à China. A China, como se sabe, é tutelada por um regime hediondo, que faz da escravatura o seu modo de produção, coisa que muito ajuda o crescimento da economia local e os dinâmicos e deslocalizados empresários ocidentais que por lá prosperam. Vender armas à China seria, portanto, apenas outra parte do negócio. Rice, no entanto, não acha bem.

Mas porquê? Então não são os EUA um dos principais apoiantes da integração de Pequim no areópago das Nações, estando mesmo a dar uma forcinha para pôr aquele exército abastecedor de lojas dos trezentos a fazer parte da Organização Mundial do Comércio (OMC)? O regime não é amigo do Ocidente? Então que mal tem vender-lhes umas pistolazitas?

Eu adoro embargos. Não há, aliás, forma mais simples de fazer negócio. Funciona assim: uma pessoa arranja uma desculpa qualquer e decreta um embargo. Por exemplo, o país em vias de ser embargado até ao osso é comunista. Depois, o defensor do embargo põe-se em bicos dos pés na ONU para que toda a gente cumpra. E finalmente, aproveitando ser o principal garante do mesmo embargo, fica em posição privilegiada para o não cumprir. A ideia é esta: 'Se sou eu que não deixo entrar ninguém em casa, sou também o único que detém a chave; quando os outros estiverem a dormir, lá vou eu lampeiro fazer o que lhes está proibido'.

Os traficantes estado-unidenses ainda não estão em condições de concorrer com os europeus, no que ao mercado chinês de armas diz respeito. Eles ainda têm muita pistolazita (ou pistolazona) para vender aos chinos. Até porque a vida não está fácil. Imaginem o que será se, por exemplo, aquela ideia peregrina de querer pôr árabes e judeus a apertar as mãos (que como se sabe é uma posição incómoda para, ao mesmo tempo, ir apertando gatilhos) for avante? Lá vai mais um nicho de mercado à vida. E como os africanos, apesar de andarem sempre às turras, pagam mal e a más horas, nada melhor que os chineses para alimentar a pujante máquina industrial de armamento do Tio Sam.

Por isso, amigos europeus, desculpem lá, mas o embargo de venda de armas à China é para continuar. Aliás, vocês deviam ter vergonha: onde é que já se viu países democráticos andarem a querer vender armas a um país… comunista?

quarta-feira, fevereiro 9

Carta a Deus



Reparo agora que, em 45 anos de vida, nunca Te escrevi. Reparo também que, do elenco de pecados que Revelaste aos homens, ou que os homens inventaram sem precisar de Ti para nada, não consta um em que se enquadre esta falta de missiva. Isto num tempo – tudo o indica – em que mais de meia já se fez a vida minha.

Antes de continuar, queria pedir-Te para deixar de me dirigir a Ti em maiúsculas. Tem isto uma razão teorizada e outra prática. Em primeiro lugar, sendo nós feitos à mesma imagem e semelhança, não vejo razão para essa deferência (já vais perceber o que é que eu penso do sagrado). E depois estou com um problema na mão esquerda que me aconselha a dar-lhe sossego – a mim, estás a ver, que me orgulho de ser um dos mais rápidos teclistas desde que Guttenberg inventou um substituto para a escrita à mão. E como os shifts se fazem com a esquerda... Está combinado?... Como lá da tua infinita e augusta sapiência não me respondes, olha, vou tomar por bom um provérbio conhecido neste teu pedaço de reino (que é uma assaz orgulhosa república) que diz que ‘quem cala consente’.

Saberás – tu sabes tudo – que estes últimos vinte séculos não foram lá muito do teu agrado. E daí a primeira crítica que te faço. Não tendo tu, por teu Filho ou pelos Papas, anunciado com clareza que a guerra e a fome são flagelos maiores do que não ir à missa ao domingo ou olhar para um rabo de saias (perdoa-me a demagogia), isto tem corrido assaz como Satanás quer e não como tu mereces. É claro que há excepções, mas eu hoje deu-me para as queixas. Cá no lugar que me deste em vida estamos em época eleitoral, que é um período durante o qual as reivindicações tendem a ser atendidas.

Ora então vamos lá falar do que me chateia. Então tu achas normal a polémica sobre a homilia do padre da paróquia de São João de Brito (fica aqui em Lisboa)? Então o homem mete-se na política e toda a gente o critica? Mas qual é a dúvida? Que mais têm feito os teus vigários terrenos (com honrosas excepções) nos últimos vinte séculos? ‘A Deus o que é de Deus, a César o que é de César’… haverá máxima divina mais esquecida por leigos e pastores?

Depois há aquela coisa dos cismas. Os ortodoxos, os protestantes, os católicos… como é que deixaste que estas coisas acontecessem? Será que és um democrata, e à unidade preferes a pluralidade? Conheço muito boa gente que ia ficar danada se fosse esse o teu desígnio. Mas fazes bem em estar calado. Deixa-os pensar, que é uma coisa que revigora o corpo. E a saúde dos vivos, sendo algo por tua determinação passageiro, sempre te dá alguma folga de alojamento. Nem queiras saber o que é o over-booking!

Isto, aliás, leva-me a outro assunto. Há gente, neste mundo teu, que pensa que só existe uma maneira correcta de agir e de pensar. Há outros, por antinomia, que acham que cada um pensa, e faz, o que lhe apetece. Eu, sem alcançar a exegese do anacoreta – mas precisamente por vivenciar o mundo que me deste -, sempre vou achando que a virtude está no meio.

Por exemplo, posso falar de aborto? Posso? Olha, este é um dos temas mais controversos da actualidade, e reflecte bem o que te contei no parágrafo anterior. Para uns é nunca, para outros é sempre ou quase. Não achas que esta gente, que é a tua, poderia, se quisesse, elaborar uma lei sobre o assunto? Ou este é um daqueles temas que faz parte do teu direito natural? Não sei, não.

Já que falamos nisto, queria pedir-te o seguinte: uma revisão constitucional! Os teus mandamentos e respectivas leis-quadro (os sete pecados mortais, as bem-aventuranças, as virtudes teologais) estão a precisar de urgente reciclagem. Eu sei que alguns destes pergaminhos foram escritos por punho de homens, não pelo teu, mas como sabes é com homens que a gente tem que se haver, já que tu decidiste fazer intervalos de muitos séculos para falar connosco de uma forma mais directa.

Por exemplo, gostava de discutir contigo o que pensas da beleza. Ou do Eduardo Prado Coelho. Ou da caça. Ou do Padre Vítor Milícias. Ou da arte. Ou do Jean-Paul Gaultier. Ou da SIDA. Ou do Nelson Mndela. Tantas coisas que eu gostava de discutir contigo… mas percebo que os teus desígnios sejam insondáveis. Sabes? Melhor assim, cada um diz o que pensa.

Olha outra coisa. Isso de teres dotado os machos de umas hormonas que os impelem à procriação com todas as fêmeas à mão de semear (passe o pleonasmo) tem um efeito perverso, não sei se já reparaste. É dificil à brava, providos que somos desses enzimas, ficarmo-nos pelo leito da eleita. Como é que a gente faz? Sublima? O teu filho Segismund (somos todos teus filhos, não?) não está de acordo.

Dito isto, que tal então provires o teu povo de um Papa que não se resignasse a fazer o óbvio – o sinal da cruz, as homilias na praça romana, etc., etc. – mas que botasse obra e doutrina sobre os males da humanidade? Para começo de conversa não estava mal. É que, sabes, estou um bocado farto (e agora volto ao sagrado, como te prometi) daquele sermão sobre a bondade e a salvação, sem que ninguém empenhe o povo num quadro de diligências que possam melhorar o Mundo. Aquele Mundo que eu sei, porque creio nele e em ti, tu quiseste bem melhor do que o que ele é.

Mais não peço de que seja feita a tua vontade. Não peço mais nem, já agora, menos.

Desculpa a extensão da carta, mas acredita (acho que também podes dar-te a esse luxo) que muito ficou por dizer.

Até à eternidade.


segunda-feira, fevereiro 7

Este é meu

Se esta vida que de pouco me parece
Pudesse amiúde ser enorme como um mar
Eu sofreria não a ideia que padece
Mas a conquista que a todos nos faz vibrar

Cantaria outrossim a liberdade
Ou a coragem de estar pronto para a ideia
Outrossim me escolhem a vaidade
E uma Pátria em quietude, mais que meia

Não me dão conta de um País em sobressalto
Mostram-me gente aquietada a um quase nada
Se ao menos esta vida onde o oculto
Pudesse ser menor que a vida dada

Tenho por aqui mil ecos de defuntos
Sem eco me escuso perante os homens
Eu digo e eles negam o que eu digo
Não entendem, não querem, não resolvem

Última semana

Esta é a última semana da pool eleitoral aí ao lado. Na próxima sexta-feira à noite apresentarei os resultados finais desta votação sui generis. Para já, degladiam-se na frente, em embate terrível que promete suspense até ao último minuto, um dos maiores partidos portugueses e um dos mais pequenos. Assim é a transversal audiência deste blog.

She's back in town!...

(... e ainda tem a lata de dizer que ajudei a trazê-la de volta; vou corar...)

Cores

Confesso que sempre achei piada à interactividade entre as cores e a política. Não sendo especialmente versado no estudo da semiologia (ou será semiótica?) adstrita, tenho um interesse empírico na relação dos diversos quadrantes com as cores que os identificam. Ainda que, às vezes, idiossincrasias diversas disputem a mesma cor… como se já não lhes bastasse disputarem o mesmo povo…

Modernamente, o símbolo de cor mais conhecido é o vermelho. Toda a gente sabe que, quando vê uma bandeira vermelha ao longe (a menos que esteja perto do Estádio da Luz ou, já agora, do Salgueiros), vem lá comunista pela certa. O vermelho exprime combate, sangue, revolução, e isso é bem identificativo desta ideologia ainda recente. Associada ao amarelo, não há então a menor dúvida: é a apologia dos sovietes. Mas, se lhe meterem preto e branco pelo meio, bem pode ser símbolo de uns milhares em Nuremberga, um pouco antes do meio do século passado. Triste sina de quem se odeia tanto: partilhar a mesma cor.

Também modernamente, o verde, na sociedade ocidental, passou a ser símbolo de ambientalismo, organização do território, luta por um desenvolvimento sustentado. Certamente por a natureza se apresentar maioritariamente nessa cor, no que às plantas se refere. Mas a questão só se põe para cá do Cáucaso, já que em terras de Maomé o verde é cor de Deus.

Estranhamente, ninguém quer o branco para nada. Há uns palonços, tipo hindu adaptado, que não desdenham a cor, que mais não é que a falta dela. Mas ficam-se por aí. E eu também, adiante.

Há depois o laranja. O laranja tem duas acepções. A fruta e a cor. A fruta é vida, é força, é vitamina. A cor é dúbia, é um meio entre dois termos. Se calhar é esse a ideia que quer transmitir alguma social-democracia pouco assumida. A frescura da laranja traz em si, aliás, o seu contrário: a laranja podre. É por isso algo salutar mas que convém estimar, se não estraga-se.

Temos ainda o azul. O azul é complexo, e entre nós está carregado de simbologia. Integrado na bandeira nacional durante séculos, é ainda lembrado com nostalgia pelos monárquicos. Curiosamente foi também adoptado por alguma direita institucional. O azul transmite paz e sonho, coisa muito pouco ‘miguelista’. Contradições.

O amarelo, como é óbvio, ninguém o quer. É conhecido nas teorias sindicais como espelhando aqueles que fazem o jogo do patrão.

E o preto? Anarquista, tem que ser. Porquê? Porque estes camaradas são conhecidos por lutarem por tudo e não acreditarem em nada. A ausência de cor fica-lhes bem. Entre nós, as bandeiras pretas ficaram mais conhecidas nas manifestações de fome dos anos 80. E com razão: há lá coisa que mais ‘anarquize’ um povo, no mau sentido, do que a fome?

O castanho está pouco na moda. Conotado com a ‘peste’ dos anos 30, ninguém lhe quer bem. Era a cor das camisitas do ‘lá vamos cantando e rindo’. Dava vontade de perguntar: rindo de quê?

O mesmo acontece ao roxo. Símbolo da fraternidade libertária em meados do século passado, são muito poucos, ou nenhuns, aqueles que ainda se lembram disso. Talvez algum republicano nonagenário sobrevivente da Guerra Civil espanhola ainda tenha um pano dessa cor em casa.

Já o rosa serviu aos ‘chuchas’ para se demarcarem da esquerda comunista. É uma forma soft de dizer ‘somos parecidos com isso, mas não somos isso’. A rosa dá uma noção de abrangência, é quente mas não queima, tem picos mas cheira bem. Curiosamente, os cravos, que nos últimos trinta anos foram um dos símbolos mais identificativos do País, andam meio esquecidos. Deve ser a nossa tradicional falta de afirmação de marca e a preguiçosa preferência pelo franchising.

Quanto ao violeta, serve uma ideologia gay. O que é isso? Peço desculpa mas a minha ‘sabedoria’ não chega a tanto. Mas lá que há imensos clubes restritos que se chamam Violet, isso há.


sábado, fevereiro 5

Seja como for, em termos políticos, estamos feitos ao bife.

Não creio que alguém duvide, hoje por hoje, do carácter de Santana Lopes. É um homem volúvel, desconfiado, que não consegue levar avante ideia nenhuma. Não que as não tenha. Mas desconfia sempre delas e do que delas pensarão aqueles de quem ele desconfia. Como citou há tempos o Sexo dos Anjos, o homem ‘é sempre sincero mas muda de sinceridade de cada vez que fala’. Não há mais nada para dizer.

Lembro-me, no entanto – e acho que, a mais de duas semanas das eleições, é boa altura para o dizer -, que José Sócrates declarou, não há muito tempo atrás, que ‘a vida de primeiro-ministro é um inferno, só quem não sabe o que aquilo é aspira a ocupar esse lugar’. Sem ambições de rigor semântico, foi isto que o líder do partido que vai à frente nas sondagens disse há cerca de dois anos num debate na RTP… com Pedro Santana Lopes.

Se a isto juntarmos um presidente do CDS/PP que nunca – mas nunca – poderá aspirar a ter uma pose de Estado, porque o seu passado como jornalista mostra um homem sem carácter e o seu presente é indizível. Se adicionarmos um secretário-geral do único Partido Comunista que não fez a contrição do Bloco Leste, e que como tal é inelegível para um Governo de um País da União Europeia. Se somarmos uma primeira figura do Bloco de Esquerda que deambula entre o conservadorismo bacoco, as ideias fracturantes mais abjectas e as medidas fiscais mais utópicas. Se contemplarmos um PND que não apresenta uma ideia que seja mas apenas existe por exigência de uma clientela política ‘desempregada’. Se percebermos que o partido da direita dita nacionalista (PNR) está cheio de gente a quem a democracia dá a volta ao estômago, mas que não encontrou forças para tomar o poder de assalto – o que estaria mais de acordo com os ensinamentos dos seus maiores. Se analisarmos a ideologia do PCTP/MRPP, que defende coisas tão diversas como o escritório do Dr. Garcia Pereira e o modo de produção asiático. Se, enfim, procurarmos em agremiações minúsculas alguma exegese ou experimentação que sirvam a causa comum, chegaremos facilmente a uma resposta idêntica à do merceeiro de bairro, quando confrontado por um cliente mais exigente com pedido de produto mediamente sofisticado: ‘não temos!’



* este post fala apenas de líderes políticos. Estou convencido que, neste País errado, há forças individuais e colectivas capazes de levar a coisa a bom porto. Mas não estão na linha da frente.


quinta-feira, fevereiro 3

Vota lá, ó meu!!

Isto está a ficar renhido!!!

Cotada em Bolsa

Ora bem, vamos lá ser sinceros.

A Cotada em Bolsa foi a primeira gaja linkada neste blog. Porque era minha amiga? Porque tinha ideias parecidas com as minhas? Nem pensar! Pura e simplesmente porque era inteligente, engraçada, feminina, coquette, reguila, blasé, culta, madura quanto baste.

Só quem nunca leu os posts e os comentários da menina João do Porto pode ter dúvidas sobre o que eu aqui digo. Dito de outra forma, a mulher já era um must da blogosfera antes de publicar a fotografia. Depois disso pôs-me a olhar, com alguma incerteza, para o anel de ouro que uso na mão direita.

A Cotada em Bolsa, além do mais, pôs a maior parte dos ‘meus’ homens a visitar blogues femininos. Porquê? Porque estes estúpidos de merda achavam (foi a mãezinha que lhes ensinou, não têm culpa) que mulher inteligente e desbragada tem que ter pêlos na beiça e ideias tipo ‘Teresa Horta’. Quando se espetam contra uma Cotada têm outra noção da vida e do orgasmo. Mudaram (também) por causa dela.

Há cerca de três meses que a Cotada desapareceu. Esperei. Perguntei a pessoas que era suposto saberem dela o que é que tinha acontecido. Não obtive resposta. Corre o boato que algo de grave ocorreu entretanto.

Seja o que for, minha Joãozinha linda, cabeça ao alto! E volte para nós. Saiba a menina que há gente viva que precisa da sua boca, da sua palavra. E que se enamorou de si – da sua palavra – para sempre.

Um beijo do seu

Clark59

A falta de vitalidade

Há gente para tudo. No Causa Nossa*, Vital Moreira desce abaixo da linha de água. Seja por falta de assunto, seja por excesso de tempo livre, o bloguista de vez em quando vê a nuca pender-lhe para a asneira. Com pouca graça - se é que o ex-assistente da coisa mais sem graça do Mundo, de seu nome Faculdade de Direito de Coimbra, sabe o que isso é - Vital ostenta e patenteia um erro da edição electrónica do DN como trunfo para provar que o dito ‘pasquim’ está feito com a 'reacção'. O aproveitamento do erro, por parte de quem compõe o salário com um cheque da concorrência, é tão boçalmente preclaro que não engana ninguém.

Agora vou eu dizer uma graça: é vital que pessoas com responsabilidade política (social?) não façam da blogosfera uma chicana ordinária.

* blog linkado por aí, porque de vez em quando lá se escrevem coisas com nível, sobretudo pelas penas de Jorge Wemans e de Luís Nazaré.

quarta-feira, fevereiro 2

O outro 'Eixo do Mal'



O outro ‘eixo do mal’ (aquele que não se segmenta entre Piongyang, Teerão e Cartum), precisa da China como de pão para a boca. Expliquemos.

Porque raio é que os poderes ocidentais estão a deixar arruinar algumas das suas indústrias em favor da ‘competitividade’ chinesa? Será porque são a favor do comércio livre? Tretas, toda a gente sabe que a China e sucedâneos praticam trabalho escravo, com o qual é impossível competir seguindo os padrões ocidentais. Então porquê este aparente suicídio, em que milhares de trabalhadores, nomeadamente europeus, passam a desempregados com os consequentes custos sociais, de entre os quais o que se deixa de arrecadar em impostos e o que se passa a pagar em subsídios não são despiciendos?

Parece loucura de branco; mas não é. Então é o quê?

Muito simples: o Ocidente precisa dos salários baixos e da escravidão oriental (que bom seria que os pretos também trabalhassem, mas a esses nem disso os conseguem convencer, adiante…) para pressionar a sua força de trabalho a, em nome do emprego, aceitar piorar as suas condições sociais e níveis de remuneração.

É óbvio que este caminho, no longo prazo, terá custos imensos, e pode até alterar os equilíbrios geo-estratégicos, tais como os conhecemos hoje. No fundo, quem vai perder são as civilizações mais adiantadas da História humana.

Mas num Mundo onde a capacidade de gestão se mede ao trimestre, queriam o quê? E no longo prazo, como dizia um conhecido economista, ‘estamos todos mortos’.

PS - Os fazedores de merda que foram Margaret Tatcher e Ronald Reagan, com o beneplácito de François Miterrand (essa coisa asquerosa que Deus tenha, em sua infinita misericórdia) e daquele boche gordo e careca de que agora não recordo o nome, procederam à paulatina destruição da Europa tal como a minha geração a conheceu. Dos EUA nem se fala, aquilo é um País perdido onde ninguém é feliz. E ganharam o quê?
Só um exemplo: Lady Tatcher, na sua provecta ( e espero que dolorosa) menopausa viu ruir a indústria britânica. Até os Rolls-Royce são alemães, minha cabra!



Ao contrário

Mas porque raio é que os políticos insistem que os jornalistas têm que lhes fazer perguntas sobre os respectivos programas eleitorais? Se estes fossem para cumprir, isso faria todo o sentido. Mas como não são...

Os jornalistas ‘representam’, passe o termo, apenas uma coisa: a opinião pública. E para esta, está provado que é mais importante, para que se possa definir o sentido de voto, saber do carácter dos políticos, se se dão bem ou mal uns com os outros, se têm competência provada em determinadas matérias, onde é que trabalharam antes de ir para o Governo (por causa das cunhas), se professam religião ou são ateus, etc.

É óbvio que os jornalistas não têm que fazer todas as vontades ao povo. Por exemplo, não devem perguntar a Santana Lopes ‘o sr., de cada vez que mudou de mulher, é porque se apaixonou por outra ou porque estava farto de aturar a anterior?’ Ou não devem perguntar a Paulo Portas ‘o sr. não tem filhos porque é estéril ou é uma opção de vida?’. Ou não podem perguntar a Francisco Louçã 'o sr. defende tanto os homossexuais, será que o filho que diz ter é mesmo seu?'

Mas não me venham cá falar sobre programas eleitorais. Ninguém liga. Bem fazem alguns jornais que resolvem o problema no dia em que aqueles são apresentados: publicam-nos e não se fala mais disso.

Um dia destes vou falar de coisas importantes, tais como a Constituição não estar a ser cumprida no que diz respeito aos pequenos partidos… mesmo para aqueles que já juraram não cumprir a Constituição…

As Cartas da História

Quem não passa por aqui de vez em quando ou é burro ou anda desalbardado.

Xidades

Li outro dia neste blog (mas só hoje me dei conta, dado o estado catatónico em que imergi) que estas terras passaram a ser cidades.

Pergunto-me quando é que deixámos de ter vergonha...

terça-feira, fevereiro 1

Ao menos política

O secretário-geral do Partido Socialista, plausível futuro primeiro-ministro de Portugal, resolveu responder ao desafio de Pedro Santana Lopes, explicando o que o seu partido preconizava em matéria de aborto, casamento de homossexuais e adopção de crianças por estes últimos. Ficámos a saber que: o PS vai propor um novo referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez, o PS não tem nenhuma referência no seu programa sobre o casamento dos homossexuais ou sobre a adopção de crianças pelos ditos.

Eu pensava que José Sócrates, não percebendo muito de quase nada, percebia ao menos o que é ser líder de um partido que aspira a governar Portugal, ou seja, a governar toda a gente que cá vive. Mas parece que o político Sócrates é tão mau como o ideólogo.

Ora vamos lá a ver: Sócrates tem de responder às perguntas de Santana? Não tem, o programa fala por ele. E por isso deveria ter-se ficado por remeter o actual primeiro-ministro para a leitura do folheto.

Mas tem o PS uma ideia sensata sobre estes assuntos? Parece que não. É que ser omisso, no caso dos homossexuais, ou relapso, no caso do aborto, não são os melhores argumentos para quem quer merecer a confiança dos portugueses.

Conhecendo (?) a base eleitoral do seu partido, o que José Sócrates deveria ter dito – ou melhor, mandado escrever no programa eleitoral – era mais ou menos o seguinte:

O PS reconhece, constitucionalmente, direitos e deveres iguais aos cidadãos em função do género e da tendência sexual, salvo os que ponham em causa direitos de terceiros, como é razoável pensar que sejam os dos indivíduos adoptados por homossexuais, tendo em conta o estado ainda embrionário da Ciência no que diz respeito aos efeitos - psicológicos e de interacção social - que tal situação pode provocar nas crianças.
O PS é favorável à união de facto dos homossexuais, com maior ou menor formalismo, e apoia os direitos sucessórios de casais desse tipo com um determinado tempo de vida em comum. Confere-lhes ainda idênticas obrigações e direitos fiscais. Já agora, considera, à luz da lei penal, que o abandono, em caso de doença ou outro género de privação de um dos parceiros em união de facto, é crime.
Direitos e deveres iguais, por isso, excepto os que interagem com terceiros para com os quais a sociedade tem um especial dever de cuidado. É assim tão difícil?

Sobre o aborto: o PS não pode esquecer o que aconteceu num referendo ocorrido ainda há relativamente pouco tempo. Mas podia pelo menos lembrar a Santana Lopes que, na altura em que a questão foi posta na Assembleia da República, a bancada do seu partido não foi unívoca na votação. Não queira, pois, o PSD ser fracturante num assunto que criou fracturas dentro do seu próprio partido. Não é difícil provar que Santana Lopes estava apenas a tentar obter dividendos à custa de um flagelo social, demonstrando com isso hipocrisia e insensibilidade social.

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Isto, sim, seria uma atitude política de Sócrates, à falta de melhores princípios, que não se lhe vislumbram. Mas nem princípios nem política. Nem, já agora, rasgo de momento, que era uma coisa que não faltava ao seu conterrâneo Guterres. Ao menos isso.

Mas nem isso.
Vai longe… e nós com ele.

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