terça-feira, janeiro 11
Sobre a produtividade
Lá no meu tasco os chefes chegam invariavelmente cedo. Não sei para fazer o quê, porque quando eu apareço, já o Sol vai alto, ainda não fizeram porra nenhuma. Deve ser para se mostrarem uns aos outros e dizerem que trabalham muito. Neste país de funcionários madraços, patrões autistas e gestores palhaços quem está muitas horas no escritório é considerado um bom funcionário.
Não sei se já alguma vez vos cansei com isto, mas se for caso disso repito. Considero que tenho, enquanto trabalhador, dois defeitos principais. Sou preguiçoso e por isso trabalho depressa, que é para permanecer o minimo de tempo possível dentro daquelas paredes que não ensinam nada a ninguém. E sou vaidoso, preferindo por isso fazer bem a fazer mal.
Da minha preguiça e vaidade dou eu conta, desde que me deixem. Já no que diz respeito à produtividade outro galo canta. Vamos a factos.
Há tempos, quando estalou a 'Guerra do Golfo II', deram-me um dia a incumbência de perceber o que é que estava a ocorrer ( e era plausível que viesse a acontecer) com os contratos de reconstrução do Iraque. Depois de alguma pesquisa, telefonei para a agência estado-unidense que trata desses assuntos, identifiquei-me e alguém me disse: hold on, please. Passados não mais de dez segundos, outrém me atendeu, tratou-me pelo nome próprio, e em dois minutos (não mais) confirmou o que eu queria saber, explicou mais uns quantos factos, pôs-me de sobreaviso sobre outras coisas e ainda teve tempo de perguntar, educadamente, se eu precisava de algo mais. Disse que não, desliguei o telefone e atirei-me ao trabalho.
Afirmo solenemente, por minha honra, que não há nenhum organismo português, do mais enfático ao mais pindérico, que consiga esta performance. O mais provável é que 'o senhor doutor' não esteja, ou esteja 'numa reunião', ou não possa 'atender agora', ou 'se mandar um fax ou um e-amil [as coisas que eles sabem!] nós respondemos em breve'.
Para encurtar razões, ontem aconteceu-me o seguinte. De manhã, lá no meu tasco, foi decidido um assunto, que agora não vem ao caso, e que envolveria a minha participação. Transmitiram isso a um chefe intermédio que se esqueceu de me avisar. Quando eram seis da tarde, vieram pessoalmente fazer o encómio de me explicar que eu tinha sido escolhido para a função.
Tenho da profissão o tempo suficiente para saber que o trabalho era de difícil execução mas possível. O problema principal consistia na hora a que tinha sido encomendado.
Contactos feitos, dificuldade várias, a coisa lá se fez, a tarde e a más horas. Quem vir hoje pela manhã o trabalho não imagina as condições precárias em que foi executado... espero eu. O computador não funciona, a internet é lenta, só uma impressora dá conta do recado (a que está mais longe do meu local de trabalho), etc., etc. Revirei o Mundo para conseguir a informação de que necessitava, não sem antes ter encontrado fechadas várias portas que era suposto abirem-se de par em par.
Os gajos dos 'states', que não me conhecem de lado nenhum, resolveram-me o assunto num abrir e fechar de olhos. Cá é tudo mais difícil.
Resumindo. Estou muito mais qualificado do que qualquer profissional estado-unidense para realizar trabalhos difíceis. Sou um profissional muito mais qualificado do que qualquer deles para reagir ao caos e ao inesperado. Mas sou menos produtivo. Qualquer pessoa do meu ramo em Washington ou Nova Iorque tinha resolvido o assunto em três tempos... e a horas decentes.
Querem o quê? Produtividade? Vão bardamerda e emigrem!!
6 Comments:
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By PluribusUnum, at janeiro 12, 2005
Clark amigo, mais um acerto a 100%, já vamos em 300 só hoje...
Nos três anos em que estive a trabalhar em Bruxelas, habituei-me a tratar com instituições que me davam resposta praticamente 24 horas/dia. Com prontidão, eficácia e amabilidade. Ou seja, profissionalismo.
Quando regressei, voltaram os chefes em reunião, ou os assessores que ainda não voltaram do almoço às quatro e um quarto da tarde, ou que já saíram às cinco da tarde. E ainda o magno problema de saber se são doutores ou engenheiros... qualidades (?) de que esta gente é extremamente ciosa.
Aqui, passa-se exactamente o contrário do que nos EUA ou em bruxelas porque profissionalismo é coisa que não existe. As pessoas chegam aos cargos por tudo menos por serem bons profissionais. Por serem da família, do partido, da loja, da Copus Day, ou do movimento LGBT. Nunca por serem competentes.
Por isso ninguém sabe como é que se trabalha, nem tem noção precisa de qual é o trabalho que deve fazer, nem como o fazer.
Enquanto isto continuar será impossível falar em produtividade neste país. As chefias são, em regra, incompetentes.
Vejam lá se os trabalhadores portugas da fábrica da Renault aí ao pé de Lisboa não têm os maiores índices de produtividade de todo o universo Renault? Há dezenas de casos destes no IE em Portugal. Porquê? Porque os trabalhadores estão bem enquadrados, têm chefias competentes.
Eu francamente já decidi, há uns anos, desistir. De vez em quando esqueço-me desta decisão, mas logo a realidade me dá uns tabefes e me obriga a arrepender-me...!
By PluribusUnum, at janeiro 12, 2005
Essa de estar muitas horas no local de trabalho para mostrar que se trabalha muito é mesmo portuguesa. Também prefiro estar menos horas e por isso gosto de despachar os assuntos e ainda tenho tempo para tratar de questões que não são prementes mas que é necessário abordar mais cedo ou mais tarde. E ainda dá tempo para "blogar"... E sou avaliado pelo que faço e não pelas aparências.
Tenho lidado com profissionais de várias nacionalidades e dos que conheci sem dúvida que são os ingleses que se aproximam mais da caracterização que o Clark faz dos estado-unidenses. A desilusão foram os alemães: muito burocratas, muita indefinição, abordagens contraditórias para o mesmo problema, muita rigidez, flexibilidade quase zero. E dos franceses é melhor não falar, qualquer proposta de melhoria, por sensata que seja, esbarra sempre na oposição dos sindicatos.
By Flávio Santos, at janeiro 12, 2005
Excelente "retrato" de como se FAZ em Portugal.
É este o país que temos e que os "doutorzecos" de merda defendem. Quanto maior fôr a confusão menos possibilidade existe de vir à tona a sua incompetência. Nós sabemos...
Um abração do
Zecatelhado
By antonio, at janeiro 12, 2005
ESta história fez-me lembrar uma outra - ridícula - que aconteceu comigo há uns anos atrás. Trabalhava numa multinacional e saia ás 19:00h. Contudo, o meu chefe não nos deixava sair a essa hora " para o caso de telefonarem de Lisboa ", ou seja, ficávamos todos feitos parvos, a dar um periodo para o tal telefonema. Ironia foi quando eu iniciei uma actividade à noite e tinha que pedir para sair a horas!!!
By Maria Virgínia Barros, at janeiro 12, 2005
o menino não revele essas qualidades em voz alta porque os tipos ainda o levam para os States e eu vejo-me "grega" para ler o próximo ano de blog em inglês!!
Excelente Blog, SuperMan... não fossem as resmas de papel gastas na impressão e eu chamar-lhe-ia "doce tarefa".
By CotadaEmBolsa, at março 07, 2005
Nos três anos em que estive a trabalhar em Bruxelas, habituei-me a tratar com instituições que me davam resposta praticamente 24 horas/dia. Com prontidão, eficácia e amabilidade. Ou seja, profissionalismo.
Quando regressei, voltaram os chefes em reunião, ou os assessores que ainda não voltaram do almoço às quatro e um quarto da tarde, ou que já saíram às cinco da tarde. E ainda o magno problema de saber se são doutores ou engenheiros... qualidades (?) de que esta gente é extremamente ciosa.
Aqui, passa-se exactamente o contrário do que nos EUA ou em bruxelas porque profissionalismo é coisa que não existe. As pessoas chegam aos cargos por tudo menos por serem bons profissionais. Por serem da família, do partido, da loja, da Copus Day, ou do movimento LGBT. Nunca por serem competentes.
Por isso ninguém sabe como é que se trabalha, nem tem noção precisa de qual é o trabalho que deve fazer, nem como o fazer.
Enquanto isto continuar será impossível falar em produtividade neste país. As chefias são, em regra, incompetentes.
Vejam lá se os trabalhadores portugas da fábrica da Renault aí ao pé de Lisboa não têm os maiores índices de produtividade de todo o universo Renault? Há dezenas de casos destes no IE em Portugal. Porquê? Porque os trabalhadores estão bem enquadrados, têm chefias competentes.
Eu francamente já decidi, há uns anos, desistir. De vez em quando esqueço-me desta decisão, mas logo a realidade me dá uns tabefes e me obriga a arrepender-me...!
Tenho lidado com profissionais de várias nacionalidades e dos que conheci sem dúvida que são os ingleses que se aproximam mais da caracterização que o Clark faz dos estado-unidenses. A desilusão foram os alemães: muito burocratas, muita indefinição, abordagens contraditórias para o mesmo problema, muita rigidez, flexibilidade quase zero. E dos franceses é melhor não falar, qualquer proposta de melhoria, por sensata que seja, esbarra sempre na oposição dos sindicatos.
É este o país que temos e que os "doutorzecos" de merda defendem. Quanto maior fôr a confusão menos possibilidade existe de vir à tona a sua incompetência. Nós sabemos...
Um abração do
Zecatelhado
Excelente Blog, SuperMan... não fossem as resmas de papel gastas na impressão e eu chamar-lhe-ia "doce tarefa".
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