segunda-feira, janeiro 17

O frigorífico



Desatinou-se-me o frigorífico. Pela madrugada dentro de um dia de fim-de-semana, o electrodoméstico entregou a alma aos céus de Ariston. Ao contrário de qualquer outro ser que se preze, a morte tirou-o do gélido e tornou-o morno. Ou seja, o paralelepípedo deixou de cumprir as funções que lhe tinham sido confiadas.

Até à sua morte, e mesmo nesta, foi um fiel servidor. Morreu jovem, dentro da garantia, o que me permitirá, a breve trecho, ter em casa um seu alterne. Por outro lado, morreu no Inverno, que é quando menos estes empregados domésticos fazem falta. Morreu também, é preciso que se diga, quase vazio, minorando assim os estragos na bolsa de seus amos.

Deu tempo a quem servia para lhe aperceber a morte. Horas antes do finanço, começou a piscar um olho que ele lá tem (que ele lá tinha) no meio da testa, a avisar do mal que o corroía, qual aparelho cardio-vascular sempre ligado, a prevenir um AVF (acidente vascular frigorífico). Isso permitiu salvar os ovos, a margarina e o entrecosto, embora haja a contabilizar a morte de uma pescada (congelada).

Fiel à doutrina do Marquês, depressa a F. se encarregou de cuidar dos vivos. Ora acontece que, desde há tempos, mesmo em frente à casa onde me abrigo, abriu uma mercearia digna, coisa a dar para o mini-mercado, gerida polidamente por uns escudeiros das Beiras, recém desemigrados de França, onde aprenderam as virtudes de bem-servir.

Tem a F. com a D. Laurinda e com o Sr. José uma relação cambiocrática que lhe permitiu o golpe de asa. Ou seja, munidos de frigorífico bastante para épocas de plena capacidade instalada, os referidos estavam largos de espaço para as nossas poucas coisas. Lá têm estado, e lá vão estar, até que a maternidade dos frigoríficos nos volte a pôr um dos seus à guarda.

Nos últimos dias, a F., para além de se aprovisionar com o que falta lá na mercearia fronteira, vai também à arca buscar uns quantos pertences que nos servem, em cada dia, de pão nosso de jantar. A D. Laurinda agradece e é retribuída.

Nos últimos dias verifiquei que é mais fácil viver sem frigorífico do que sem solidariedade rural.

6 Comments:

Aprento-vos, Senhor Clarck, as minhas condolências...os meus sentidos pêsamos!

By Blogger Fátima Santos, at janeiro 17, 2005  

Sniff...Sniff...Estou comovido!
Onde e quando as ùltimas exéquias?

http://zonafranca.blogspot.com/

By Blogger Freddy, at janeiro 18, 2005  

Ó Clark, a sua relação com a comida e com a culinária é digna de registo. Felicidades para o novo frigorífico. ;)

By Blogger AS, at janeiro 18, 2005  

Li e ainda estou estupefacto. Vocês guardaram mesmo os mantimentos na arca da D. Laurinda...?! E se vos apetecer uma cervejola durante a noite como é? Também há chave do estabelecimento?

By Blogger pedro guedes, at janeiro 18, 2005  

P'ra veres que a tal ideia comunitária pode perfeitamente sobreviver à ausência de saias rodadas, sandálias de couro, bigodes e calças de boca de sino, Woodstocks e 'brocas'.
É no que dão as dependências das 'modernices'... Por falar em permutas: Preciso que me fales com urgência. Ou seria melhor deixar um bilhetinho na D.Laurinda?

By Blogger mjm, at janeiro 18, 2005  

Algés-de-Cima, meu caro Pedro, Algés-de-Cima...
A cervejola chega ao fim da tarde. Também não sou grande apreciador de cerveja fresca e a F. é raro tocar-lhe

By Blogger clark59, at janeiro 18, 2005  

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Comments:
Aprento-vos, Senhor Clarck, as minhas condolências...os meus sentidos pêsamos!
 
Sniff...Sniff...Estou comovido!
Onde e quando as ùltimas exéquias?

http://zonafranca.blogspot.com/
 
Ó Clark, a sua relação com a comida e com a culinária é digna de registo. Felicidades para o novo frigorífico. ;)
 
Li e ainda estou estupefacto. Vocês guardaram mesmo os mantimentos na arca da D. Laurinda...?! E se vos apetecer uma cervejola durante a noite como é? Também há chave do estabelecimento?
 
P'ra veres que a tal ideia comunitária pode perfeitamente sobreviver à ausência de saias rodadas, sandálias de couro, bigodes e calças de boca de sino, Woodstocks e 'brocas'.
É no que dão as dependências das 'modernices'... Por falar em permutas: Preciso que me fales com urgência. Ou seria melhor deixar um bilhetinho na D.Laurinda?
 
Algés-de-Cima, meu caro Pedro, Algés-de-Cima...
A cervejola chega ao fim da tarde. Também não sou grande apreciador de cerveja fresca e a F. é raro tocar-lhe
 
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