terça-feira, agosto 31

Alternativa menoritária *

Correndo o risco de ser completamente ignorado, face ao nível do ruído comunicacional que assola o País (e o Mundo), proponho que, em vez de se discutir até à exaustão o problema das cassetes roubadas (roubadas por quem, já agora?), o problema do barco da pílula e o problema da guerra entre o MP a Magistratura Judicial, se diga algo sobre o seguinte:

1 - O esvaziamento das aulas práticas de laboratório no ensino secundário e a aposta renovada (?) na escolástica professoral: consequências para o futuro da educação nacional.

2 - O dever do Estado em garantir a clandestinidade do aborto (e não de promover a sua legalização ou perseguição criminal).

3 - A criação de tribunais de júri para conflitos não criminais (de trabalho, por exemplo), como segunda instância judicial.

4 - O dia-a-dia da gestão das empresas de transporte, com particular ênfase para o Metropolitano de Lisboa (que não existe), a Carris (que não funciona) e a CP (que dá prejuízos de milhões).

5 - A prerrogativa do Estado em escolher os seus emigrantes, em vez de os proibir (ponto final) ou legalizar (ponto final).

Eu sei que são questões que não interessam a ninguém (menos a mim, como é óbvio), mas se ainda assim alguém estiver interessado, pode opinar sobre esses assuntos aqui.

* não é gralha


sábado, agosto 28

Um cesto furado

Se mais desatento andasse destas coisas dos Jogos Olímpicos, e alguém me dissesse que havia um desporto de equipa em que os finalistas iam ser a Argentina e a Itália, eu não teria hesitado em adivinhar que se tratava da final de futebol masculino; ou então o hóquei em patins tinha voltado a ser desporto olímpico e as coisas a Portugal e à Espanha não tinham corrido bem.
Mas não: daqui a nada, italianos e argentinos vão discutir a medalha de ouro em basquetebol masculino. Como não sou fã de nenhuns (duas das selecções que em boa verdade mais detesto), a melhor atitude desportiva que consigo neste momento é esta: que perca o pior.

Em deslouvor da Pátria porca

Uma amiga minha, a que o Alfredo F. se referiu neste blogue, foi ontem apanhada pela brigada de costumes da PSP com 1,24 de álcool (não me perguntem pormenores, acho que é gramas no sangue).

Sejamos sinceros: se fosse comigo merecia cadeia, porque eu, mesmo sem álcool, sou um desatinado do caraças, e aposto que, se tivesse carta de condução (coisa que não tenho), era daqueles que andava ao murro na Rotunda do Marquês, ao primeiro patego de barba por fazer e traque ligeiro que não fizesse pisca para descer a Avenida da Liberdade. Mas com a minha amiga é diferente.

A citada Senhora (com S grande) é das melhores condutoras que conheci na minha vida, eu que passei a vida a ser conduzido. Nunca teve um acidente e já evitou umas centenas. É atenta, educada, boa nos pedais, com muita experiência. Nunca espevita quando aparece um marmanjo a querer 'medir forças' (também os 130 cavalos que monta ultimamente não dão muito azo a que os otários se metam).

Mas é humana. Ontem, foi aos anos do nosso amigo e comentador residente Alfredo F. e 'puxou-lhe' um bocado no tinto. Ia a 80 na 24 de Julho quando 12 (!) polícias a mandaram parar. Soprou no balão. Deu asneira.

Cumpridora da lei que até chateia, a minha amiga não fez ondas. Nem eu. Até que os gajos da Régua lhe solicitaram que entrasse num carro celular e os acompanhasse à esquadra. Com a maior das calmas, fui entrando com ela. Uma Senhora, que eu saiba, não vai com marmanjos que coçam os colhões em público sem estar escoltada por gente que toma banho diário.

Mas não é bem assim. Segundo a lei portuguesa - pelo menos aquela que vigorava ontem em Alcântara, Lisboa, capital de Portugal - a cidadã em causa vai para a esquadra sozinha. Ainda argumentei que as pessoas que se dirigem às esquadras portuguesas devem ter testemunhas, até para o caso de serem decapitadas ou coisa no género, mas a 'letra' só não me valeu voz de prisão porque mostrei um cartão ao moina que o pôs a pensar duas vezes. E, para além do mais, os gajos hoje em dia só dão dez tiros na recruta, nem já a tropa têm de ter cumprido, pelo que ele deve ter ficado na dúvida se eu não lhe sacava a pistola com um murro nos olhos antes que tivesse tempo de dizer qualquer coisa no espanhol de Foz Côa que balbuciava amiúde.

Não sei quem foi o maçon, facho ou paneleiro que inventou esta lei de que uma Senhora tem de ir sozinha de noite para uma esquadra de polícia, acompanhada por papalvos fardados com o 9º ano incompleto. Mas sei que se passa em Portugal. Depois de a fazerem esperar duas horas antes da contra-prova (soprar no balão outra vez, preencher papéis, dizer o nome da Avó...) mandaram-na para casa, sem que alguém ficasse a tomar conta do carro que, graças a Deus, hoje de manhã estava inteiro. Mas se não estivesse tanto se lhes dava, eles são uma autoridade, querem que os bens dos cidadãos que lhes pagam os torresmos de que se alimentam se fodam.

A citada Senhora, que se deitou pelas 7 da manhã, foi intimada a dirigir-se a tribunal (com letra pequena) pelas 10 horas. Lá estava. Cerca das 14h30 foi ouvida por um juíz (com letra pequena), sem comer nada de jeito, sem dormir, sem ter da vida outra noção que não fosse a da bandalheira que este país boçal atravessa. Mas aguentou. Porque ela é assim, corajosa, cumpridora.

Obviamente, isto não fica assim.

---------------

Um dos problemas da 'lei igual para todos' é que corta a direito, sem olhar a quem. Tenho a certeza de que a minha amiga, se um dia calhasse de estar a caír de bêbada (hipótese na qual usaria um táxi, mas enfim), não provocaria qualquer acidente, porque o civismo perene que lhe conheço é para ela mais forte do que o tinto de ocasião. Mas não é assim que a sociedade se organizou.

Segundo estatísticas da Direcção Geral de Viação, 23% dos acidentes são provocados pelo álcool. Ou seja, 77% são provocados pelos cabrões que só bebem água. A diferença não está aí. Está no civismo, no auto-domínio, na capacidade de conduzir, na adaptação da condução às condições da estrada, do trânsito, do automóvel, enfim, daquilo que se bebeu, se for caso disso.

Não é dificil estabelecer uma estatística sociológica sobre quem são as luminárias que mais provocam acidentes na estrada. De cor, mas com sentido empírico e do alto dos meus 45 anos, aposto que têm fios de ouro ao pescoço e cheiram a Aramis ou bedum de piça, o que é quase a mesma coisa. Tratando-se de gajas, têm as unhas compridas, saltos altos e joanetes. Não tenho esperança de que um dia alguém passe a estar atento à realidade que aqui descrevo. Entretanto, o País vai estar privado durante um mês da condução preclara e atenta da minha amiga, que ainda por cima é voluntária do 112 para denunciar anomalias na estrada.

Mas julgam que é já amanhã que ela começa a cumprir a sentença? Estão muito enganados! É só quando acabarem as férias judiciais, lá para 15 de Setembro, porque só então regressa do Meco um togado tisnado e bichento para redigir a sentença. Nos entremezes, a minha amiga pode continuar a conduzir. Bêbada que nem um carro, se lhe apetecer.

Dá vontade de quê, esta merda toda?

quarta-feira, agosto 25

Humano



Que diziam as estatísticas? Issam El Gerrouj e Bernard Lagat são imbatíveis nos 1.500 metros. Que sobrava então? A tentativa, para todos os outros, de chegar à medalha de bronze. Quem a ganhou? Rui Silva, português.

Mais alto, mais forte, mais longe... mais tarde

Ainda longe do final dos Jogos Olímpicos, mas como vou de férias daqui a um ou dois dias (vocês já foram, não já?, então aguentem-se!), resolvi fazer um balanço provisório do acontecimento, instituindo prémios, notas e críticas.

Prémio Coerência:

Para a Selecção Nacional de Natação. Nunca foram grande coisa, porque é que haviam de mudar agora?


Prémio do Azar:

Para a representação de Judo. Um lider mundial que se lesiona, um promissor atleta que falha a luta pela medalha de bronze a 11 segundos do final do combate e uma judoca que - no mínimo - tem razões de queixa da arbitragem. Haverá melhor no futuro, não desistam.


Prémio Combatividade:

Para Susana Feitor. A outrora grande atleta da Marcha decidiu combater na área da política desportiva. Isso, obviamente, tirou-lhe forças para fazer o que melhor sabe, ou seja, representar o País condignamente.


Prémio Alberto João Jardim:

Para João Rodrigues. O madeirense andou quase sempre nos primeiros lugares da Classe Mistral, mas uma falsa partida retirou-lhe a hipótese da conquista de uma medalha. Há quem, apesar do valor intrínseco, nunca passe de rei da Traquitana.


Prémio Olimpo:

Não foi o melhor classificado da representação portuguesa, mas poucos terão defendido com mais garbo as cores de Portugal. Para Nuno Merino, que ainda por cima merecia um lugar mais acima, embora fora das medalhas.


Nota zero:

Para o membro da família Grave que nos representou na equitação.
Para o atirador aos pratos, de nome Ezequiel.


Nota fraca:

Para as meninas da Maratona. Vá lá que chegaram ao fim, mas os tempos realizados não lembram ao diabo.


Nota sofrível:

Atacou a Federação, não atacou a Federação, vai continuar, vai desistir. Para Manuel Silva, dos 3000 metros/obstáculos.
Iam lesionados, mas ao menos não foram fazer turismo. Miguel Maia e João Brenha já tinham de tara dois quartos lugares, agora ficaram-se pelo nono.


Nota Bom:

Para o puto com sotaque de Crestuma, que corre (ainda não acabou) na canoagem.
Para o Edivaldo Monteiro, dos 400 m/barreiras, que cumpriu o programa que levava.


Nota Muito Bom:

Para Rui Silva, que sobreviveu a uma morte anunciada, e demonstrou que um grande atleta só morre de morte natural.
Para Sérgio Paulinho, que viu o seu chefe de fila (Cândido Barbosa) afundar-se e decidiu ficar na frente, com a alma que já se lhe adivinhava.


Nota Excelente:

Para Francisco Homem de Mello, que hoje corre a final dos 200 metros, depois de ter batido o recorde da Europa dos 100 metros e ter conquistado a medalha de prata nessa distância, primeiro grande resultado do atletismo português nas provas de velocidade em todos os tempos. Importado? Até o Infante D. Henrique foi buscar gente de fora para ensinar a dirigir as caravelas!


Crítica da Razão Pura:

Para Carolina Kluft, deusa do Estádio, mulher sem fim, riso de Dafne, força de Thor.


Crítica da Razão Impura:

Para o Comité de Doping do COI, que permite a grandes mulheres serem campeãs, e cada vez mais afasta os 'canhões' dos lugares cimeiros das modalidades femininas. Mas ainda há um longo caminho a percorrer. Viva o rabo da Isinbayeva, do salto com vara!!


Crítica da razão parva:

Para todos quantos nos últimos mil anos se chamaram a si próprios de portugueses e não tiveram unhas ou preceito para tocar esta guitarra que é perceber que Portugal também se promove no Desporto. Paz às vossas almas e aos vossos T4 com spread bonificado!!

domingo, agosto 22

Recorde da Europa!



Veio para Portugal aos 16 anos, para competir pelo seu país, mas ficou por cá para trabalhar nas obras. Fez pela vida no Algarve. Um dia, alguém o levou para Lisboa. A poucos meses de completar 26 anos, Francis Obikwelu, português de Lagos (Nigéria), pôs a velocidade nacional num lugar que ninguém poderia imaginar ainda há poucos anos. Medalha de prata nos Jogos Olímpicos, com 9,86 segundos, bateu o recorde da Europa de Lindford Christie.
Ficamos à espera dos 200 metros, onde é tradicionalmente mais forte.

PS - Já agora, uma revelação: com alguma piada, alguém bem próximo de mim lhe inventou há tempos uma alcunha: Francisco Homem de Melo.

Pessoal e relativo

Tu, por ti, não te apaixonarias por mim
Eu, por mim, era capaz

sábado, agosto 21

Os hinos, senhor!

Não sei se os ouvidos mais atentos já terão reparado, mas os hinos tocados por altura da entrega das medalhas nos Jogos Olímpicos de Atenas são de fugir. Eu, que me confesso melómano e cultor dessa expressão musical e identificativa que são os hinos nacionais, nem quero acreditar no que me anda a entrar pelas orelhas dentro.

As 'versões' (para não ser mais cáustico) que o Comité Olímpico ateniense escolheu para celebrar os medalhados a ouro são patéticas. A maior parte dos hinos (muitos que sei de cor) não os reconheço. Ele é violinos onde devia haver trompas, flautas onde eram trompetes, pratos (poucos) onde o bom-senso e a verdade musical exigia timbales (que desapareceram de todo). Ele é ternários ou só se admitem quaternários.

Um dos maiores problemas do nosso tempo é o politicamente correcto. Agora querem desfigurar os hinos, suavizá-los, torná-los sonolentos, mais próprios para ouvir de smoking sentado no S.Carlos, do que com suor e lágrimas, fato de treino vestido, num pódio que se mereceu.

Não sei quem são os anormais que decidiram isto, mas decidiram mal.

quinta-feira, agosto 19

Eles são mais fortes, é isso...

Segundo o seleccionador nacional da equipa olímpica de futebol masculino, 'a Costa Rica tem um ritmo competitivo superior ao nosso'.
Ah, então está tudo explicado...

terça-feira, agosto 17

Eu, que entendo (quase) tudo

Porque é que a Rosa Mota corria a maratona?
Porque é que Tony Blair apoiou a intervenção no Iraque?
Porque é que um nortenho é adepto do Sporting?
Porque é que Calvin Klein inventou o perfume unisexo?
Porque é que Gorbatchev exterminou o Bloco Leste?
Porque é que Clark Kent é jornalista?
Porque é que temos que temer a Deus?
Porque é que as mulheres simulam orgasmos?
Porque é que o Miguel Torga era médico?
Porque é que os judeus e os árabes se odeiam?
Porque é que a Venezuela ganha tantos concursos de misses?
Porque é que Portugal fica sempre mal classificado na Eurovisão?
Porque é que o Mantorras insiste em jogar à bola?
Porque é que o Bush ganhou as eleições ao Gore?
Porque é que os portugueses não gostam de matemática?
Porque é que a Shell deixou de dar lucro?
Porque é que ninguém muda a lei do arrendamento?
Porque é que os espanhóis deixaram de ser alegres?
Porque é que o Papa não abdica?
Porque é que há gays que têm orgulho nisso?
Porque é que o Borges nunca ganhou o Nobel?
Porque é que os EUA não assinam o protocolo de Quioto?
Porque é que em África se morre tanto de SIDA?
Porque é que a paixão dura pouco e o amor é para toda a vida?
Porque é que não foi luto nacional quando morreu o Paredes?
Porque é que o Robert Redford é considerado bonito?
Porque é que a Clara Ferreira Alves escreve no Expresso?
Porque é que não há uma revolução em Portugal há 620 anos?
Porque é que ninguém inventa uma energia atómica segura?
Porque é que a Cotada em Bolsa vai de férias outra vez?
Porque é que o Manuel de Oliveira faz filmes?
Porque é que o Targus fechou?
Porque é que a vida é tão curta?

O acne olímpico

O Luís, num comentário aí em baixo, diz que o COI-Comité Olímpico Internacional tem vindo a apertar as malhas do dopping, melhorando assim a verdade desportiva e cuidando da saúde dos atletas. Não tenho dúvidas de que assim é, embora também não me surpreenda que alguém escape nessas malhas. É elementar.

Quem assistia às competições de atletismo ou natação femininas aqui há - digamos - 20 anos atrás, lembra-se dos cromos mal ajeitados que assolavam as pistas. Era absolutamente impossível ver uma Carolina Kluft, uma Marie-Josee Pérec, uma Inge Babakova, uma Inje de Bruin, só para citar de cor mulheres esculturais (dentro do género atlético, é claro) que hoje em dia são grandes campeãs. Mesmo uma atleta com uma cara lindíssima, como era o caso de Cornelia Ender (campeã do mundo de natação do início dos anos 80) tinha um corpo completamente desfigurado, do ponto de vista feminino. E os exemplos poderiam repetir-se se falássemos de ténis, de voleibol, de remo, de ginástica desportiva, seja do que for. Por isso, não tenho dúvidas, o COI merece o nosso aplauso.

Venho aqui chamar apenas a atenção para uma realidade semi-nova, que é o halterofilismo feminino. Sou daqueles que acha que, em desporto, não há lugar à descriminação. Se há mulheres que querem praticar essa modalidade, assim seja. Mas os meus caros leitores já repararam nas borbulhas que sistematicamente as meninas do halterofilismo apresentam? Será que TODAS as grandes atletas da modalidade, com destaque para as asiáticas, têm tendência para o acne juvenil, mesmo quando já não são tão juvenis quanto isso?

Uma dica maldosa: o acne, nas mulheres, é tratado com a administração de hormonas femininas, por ser provocado por uma presença anormal de testosterona (hormona masculina). Na anarquia revolucionária do corpo adolescente, admite-se que o acne ocorra num número não dispiciendo de raparigas. Mas na idade adulta? E ainda por cima em raças asiáticas, conhecidas pela limpidez da sua pele? E em moças de países tão fora de suspeita como a China, a Coreia do Norte, a Tailândia e a Indonésia?
Cheira-me a esturro.

segunda-feira, agosto 16

O crime compensa

Aconteceu uma ao Libelinha que só visto. Amigos meus a quem contei a história nem queriam acreditar.
Diz-me o ganda maluco que há dias recebeu em casa uma carta das Finanças. "Boa", pensou lá com os seu botões, "é o reembolso do IRS, mesmo a tempo para ajudar às férias" (sim, que o Libelinha só pensa em borgas). Vai daí abre o sobrescrito e depara-se com um reembolso... de Sisa!! "Não percebi, mas olha, também não fui lá perguntar porquê", diz-me o caramelo. Sim, porque nisto de cavalo dado, o Libelinha não lhe olha ao dente.
Eu também nunca tinha ouvido falar em tal, e perguntei a uns amigos especialistas no assunto. Não sendo impossível, nunca nenhum deles tinha ouvido falar de tal coisa, disseram-me.
Mas o melhor estava para vir. Meio enrascado, o Libelinha condidenciou-me depois que enganou o fisco. O marmanjo fez uma declaração de Sisa abaixo do valor de compra da casa, uma prática absolutamente deplorável, que não lembra a ninguém a não ser a energúmenos da laia do Libelinha.
E vejam lá como é que o mariola reagiu: "Olha, da única vez na minha vida que consegui enganar o fisco, eles ainda por cima me dão mais algum".
Não há direito.

Era mas não foi...



fonte: msg.com

O rapaz da direita (Michael Phelps) andou a dizer que ia bater o recorde de sete medalhas de ouro olímpicas, estabelecido por Mark Spitz nos Jogos de Munique, em 1972. Era da mais elementar sensatez não ter prometido semelhante coisa, mas é lá com ele. À terceira prova disputada ainda só tem uma. Hoje foi batido pela rapaz da esquerda (Ian Thorpe), que levou mais ouro para a sua vasta colecção.
Como dizia a minha avó, 'conversa tem a minha Joana muita'...

domingo, agosto 15

Duas ou três coisas que me fodem

1 – O presidente de uma coisa execrável, chamada Opus Gay, acha que a ocorrência, devidamente divulgada em roteiro, de encontros apaneleirados no Santuário de Fátima é normal, mimetizando os namoros ancestralmente ensaiados em romarias de igreja. Estou a começar a ficar um bocado farto de que os adoradores da natação de costas achem que se podem pôr de bruços perante a normalidade hormonal.
O Santuário de Fátima, do qual não sou especialmente fã, foi feito para dar azo a uma crença e fé católicas, as quais sejam a devoção a Nossa Senhora, mãe de Deus homem. Que apóstatas do calibre dos paneleiros mais nauseabundos (não confundir com homossexuais respeitáveis) para lá vão anunciar o cu é, pelo menos para mim, caso de polícia.

2 – Poucas coisas mais execráveis terei lido na minha vida do que aquele livro de José António Saraiva intitulado “Confissões de um Director de Jornal”. A jactância é tanta, a manipulação é tão forte, que ao lê-lo a minha fé no ser humano vacilou. Como pode um – ia a dizer – homem ser tão crápula sem cometer nenhum crime? É obra. É a inteligência ao serviço do mal, uma coisa conhecida desde pelo menos a divulgação da Bíblia.
Como ser vivo, José António Saraiva (JAS) é uma coisa medonha de se ver. Como entidade mediática não conheço nada de mais tinhoso. Quando inventou a parábola da serpente, o Criador não estimou a hipótese da existência deste bicho.
Na passada semana, conforme alguns companheiros já chamaram a atenção, JAS quis mudar a capital do país. Malfadadamente, na semana seguinte, alguém num país esquisito como é a Coreia do Sul, teve a mesma ideia. JAS não escondeu a vaidade (coisa para ele impossível) e resolveu dar disso nota na sua onanística prosa periódica.
JAS é a pior merda que o jornalismo português já pariu. Não consta que esteja de ida. Para mal dos nossos pecados.

3 – Os Jogos Olímpicos estão aí, e com eles a primeira medalha de prata para as cores lusas, facto de que já dei nota mais abaixo. Entretanto, dei-me conta de que um novo desporto encontrou eco nas helénicas funções: trata-se dos saltos para a água sincronizados masculinos, modalidade (?) que até agora só tinha lugar (e bem) nos para-paneleiros olímpicos.
Onde é que vamos parar? Um dia destes, vamos ver natação sincronizada masculina, depois ginástica rítmica masculina.
A imaginação não tem limites. Proponho portanto que seja declarado desporto oficial, na próxima olimpíada, a expulsão vaginal de bolas de ping-pong, um desporto bem conhecido no sudoeste asiático. A velocidade e a distância do alcance das referidas bolas servirá para atribuir nova medalha olímpica.
Mas para que os homens não fiquem atrás (longe de mim as descriminações), proponho que os fags as expulsem pelo cu.
Como diria o Vasco Pulido Valente, o mundo está a ficar perigoso.

sábado, agosto 14

Vai tu!

Se alguém pretender falar de escutas telefónicas, enrabadores de curiosos, jornalistas malabaristas, assessores em off e comentadores alienígenas, é favor dirigir-se a outra paróquia, que nesta não há lugar para essas merdas.
Muito obrigado.


O novo herói


Até hoje, dizia-se dele que tinha aquela particularidade que só fica bem às mulheres bonitas: não sabia que era assim tão bom. Mas a medalha de prata de Sérgio Paulinho, a primeira da história do nosso ciclismo olímpico, vai-lhe dar, de certeza, um espelho diferente.

sexta-feira, agosto 13

A miséria humana

Is he an heroe? I don't think so.

O estranho caso do campeonato regional



Este meu amigo, a quem faço a devida vénia, lembrou um dia destes a questão dos senhores do Norte que não se dão bem com os ares do Sul, ou melhor, que se queixam insistentemente que os problemas da parte setentrional do País são culpa de quem vive na capital do mesmo. O meu amigo, nortenho de gema mas com conhecimentos vastos do mapa de Portugal, insurgiu-se contra o coro do choradinho do costume. Só não digo que não podia estar mais de acordo com ele porque na realidade posso. E vou demonstrá-lo.

Para começar, e só para me situar perante os putativos leitores, lá lhe comentei no seu sítio mais ou menos isto: Sendo eu um rapaz que já viveu no Interior e no Litoral, tendo passado temporadas demoradas no Norte, no Centro e no Sul do país, tendo trabalhado no Porto e em Lisboa e tendo comido a maior parte das gajas no Algarve, tenho tido ao longo da vida algumas dificuldades em perceber essa história do bairrismo, ou seja, aquele discurso que os do Norte são melhores do que os do Sul ou vice-versa.

Acho que esta questão regional, que ainda hoje dá frutos na Madeira (embora o Alberto João já me tenha confidenciado – e tenho testemunhas – que só usa isso para ganhar votos, já que o que ele adora mesmo é vir a Lisboa e falar às escondidas com jornalistas da capital), não tem pés nem cabeça num País como o nosso, com uma unidade linguística, nacional e geográfica rara na Europa e no Mundo.

Eu conheço gente capaz que acha que todos os problemas radicam no Terreiro do Paço. Mentira. A maior parte dos espertos usa isso em causa própria para não descontar impostos, fugir à Segurança Social e pagar ordenados de miséria a trabalhadores inqualificados.

Passemos então a desfazer mitos.

Primeiro mito desfeito: O distrito de Lisboa é o que cria maior valor acrescentado bruto, aquele onde as pessoas trabalham mais e a produtividade é mais alta. Não é aquele em que a qualidade de vida é mais elevada.

Segundo mito desfeito: O Algarve não é a região onde o Turismo dá mais dinheiro. Lisboa dá mais.

Terceiro mito desfeito: Os alentejanos não são os trabalhadores mais madraços do país. As pessoas que trabalham menos horas por ano em Portugal são os açorianos e os algarvios.

Quarto mito desfeito: Os durienses e os minhotos são, a par dos cidadãos do distrito de Aveiro, os menos cumpridores das suas obrigações fiscais, sendo dos primeiros, no entanto, a sugar subsídios da União Europeia e do Estado português.

Quinto mito desfeito: As pessoas do distrito de Bragança são as menos ricas do País mas são as que menos se queixam do poder central. Não são as mais incultas.

Estas afirmações que acima fiz baseiam-se em estatísticas. A partir de agora baseiam-se em opiniões minhas.

O mito das gajas: Há vários anos que as mulheres do Porto deixaram de ser frígidas. Entre Campanhã e a Foz, há muita racha que se porta condignamente. As mulheres de Lisboa estão a ficar vítimas da bichice reinante e topam a todas, a ver se dá.

O mito da borga: Há vários anos que em Bragança, na Guarda ou em Portalegre se podem encontrar mais bêbados per capita do que em Lisboa ou no Porto.

O mito do estudo: A universidade de Coimbra está em plena decadência. A de Aveiro é bem melhor e a melhor de todas é a de Lisboa.

O mito da religião: Os portugueses já não cumprem nem o mandamento que intenta ‘santificar domingos e festas de guarda’, quanto mais o que diz que se deve ‘guardar castidade nos pensamentos e nos desejos’. Felizmente que o ‘não matarás’ ainda vai estando presente.

Se os meus amigos me puderem favor um favor, agradecia o seguinte: passem quinze dias de férias em Portugal, seguindo uma volta ziguezagueante ou longitudinal, e depois digam-me onde é que não se sentem em casa. Com franqueza, eu sinto-me bem em todo o lado. Gosto da diversidade, laracho com a diferença, adoro a gregaridade.

Há uns anos, uma nortenha que estimo, de nome Elisa Ferreira, sustentou que às vezes os seus mais próximos pareciam uns Calimeros. A minha costela nortenha não admite menoridades. Na capital do meu País, sou tão bom como os melhores. Qual é a dúvida?

quarta-feira, agosto 11

Estação pateta

Há dias, o Público noticiava, em manchete (cito de cor) que os grandes incêndios são responsáveis por metade da floresta ardida.
Hoje, a Marktest publica um estudo que demonstra que os portugueses gastam cada vez menos em compras.
Como dizia o alentejano, 'mais vale rico e com saúdinha, do que pobrezinho e doente'...

Macau

Também não encontro esta em lado nenhum, cito de cor

Com a voz que me resta
Eu não vou poder cantar
Às coisas do Mundo
Não se podem ver
Estão longe

São portas fechadas
Segredos por revelar
São coisas do Mundo
Não me hei-de esquecer
Estão longe
Tão longe

(Heróis do Mar)

terça-feira, agosto 10

Canto Moço

Ou até este:

Somos filhos da madrugada
pelas praias do mar nos vamos
À procura da manhã clara
Verde oliva de flor nos ramos
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas prais do mar nos vamos
À procura da manhã clara

Onde o vento cortou amarras
marcharemos pela noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia e ao romper da aurora
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura da manhã clara

(de José Afonso)

Bairro do Amor

ou então esta:

No bairro do amor a vida é um carrossel
onde há sempre lugar para mais alguém
o bairro do amor foi feito a lápis de cor
pra gente que sofreu por não ter ninguém

No bairro do amor o tempo morre devagar
num cachimbo a rodar de mão em mão
no bairro do amor há quem pergunte a sorrir
será que ainda cá estamos no fim do Verão

Eh pá, deixa-me abrir contigo
desabafar contigo
falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
descontrair um pouco
eu sei que tu compreendes bem

No bairro do amor a vida corre sempre igual
de café em café, de bar em bar
no bairro do amor o sol parece maior
e há ondas de ternura em cada olhar

O bairro do amor é uma zona marginal
onde não há prisões nem hospitais
no bairro do amor cada um tem de tratar
das suas nódoas negras sentimentais

Eh pá, deixa-me abrir contigo
desabafar contigo
falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
descontrair um pouco
eu sei que tu compreendes bem

(de Jorga Palma)

Papel principal

ou até esta:

A noite acabou
O jogo acabou
Para mim aqui
Quando acordar
Já te esqueci

O filme acabou
O drama acabou
Acabou-se a dor
Tu sempre foste
Um mau actor

Fizeste de herói
No papel principal
Mas representaste e mentiste tão mal

Quem perdeu
Foste tu só tu e nunca eu
Afinal
Hoje o papel principal é meu e só meu

Quem perdeu
Foste tu só tu e nunca eu
Afinal
Hoje o papel principal é meu



Maria

Não encontro esta em lado nenhum. Por isso cito de cor (é fantástico como tão depressa perdemos as referências)

Porque choras não me dizes, vem
Porque tens medo do mar
Porque vives de ilusão
E é fria a tua mão
E dizes sempre não

Maria nua
no chão da rua
Maria, vida fria
Maria mar, maria amor
maria paz
Maria tanto faz

Cantemos até ser dia

Ou talvez esta:


ESTAMOS AQUI
PEDINDO CADA HORA TUA VIDA POR VIVER
OLHO P’RA TI
E PENSO EM TANTA COISA
QUE FICOU À PORTA DO FUTURO POR NASCER
O NOSSO AMOR
NÃO PODE FICAR MAIS AQUI À ESPERA
DE QUALQUER FLOR
NASCIDA JÁ DEPOIS DA PRIMAVERA
À NOSSA VOLTA
O MUNDO VIVE O TEMPO DA MUDANÇA
DEIXEMOS ESTE AMOR CORRER À SOLTA
NOS CAMPOS FLOREADOS COM A ESPERANÇA
CANTEMOS, CANTEMOS, CANTEMOS COM ALEGRIA
CANTEMOS ATÉ SER DIA

VAMOS ABRIR
AS PORTAS E AS JANELAS QUE TÍNHAMOS FECHADAS
VAMOS SAIR
DO NOSSO MEDO ANTIGO DE MUDAR
CORRER TODA A CIDADE DE MÃOS DADAS
VEM MEU AMOR
GRITAR A TODA A GENTE A NOVIDADE
A NOSSA DOR
IRÁ MORRER NOS BRAÇOS DA SAUDADE
À NOSSA VOLTA
O MUNDO VIVE O TEMPO DA MUDANÇA
DEIXEMOS ESTE AMOR CORRER À SOLTA
NOS CAMPOS FLOREADOS COM A ESPERANÇA
CANTEMOS, CANTEMOS, CANTEMOS COM ALEGRIA
CANTEMOS ATÉ SER DIA

(Pedro Osório)

Canção de madrugar

Ou então esta:

DE LINHO TE VESTI
DE NARDOS TE ENFEITEI
AMOR QUE NUNCA VI
MAS SEI.

SEI DOS TEUS OLHOS ACESOS NA NOITE
SINAIS DE BEM DESPERTAR
SEI DOS TEUS BRAÇOS ABERTOS A TODOS
QUE MORREM DEVAGAR
SEI MEU AMOR INVENTADO QUE UM DIA
TEU CORPO PODE ACENDER
UMA FOGUEIRA DE SOL E DE FÚRIA
QUE NOS VERÁ NASCER

IREI BEBER EM TI
O VINHO QUE PISEI
O FEL DO QUE SOFRI
E DEI

DEI DO MEU CORPO UM CHICOTE DE FORÇA
RASEI MEUS OLHOS COM ÁGUA
DEI DO MEU SANGUE UMA ESPADA DE RAIVA
E UMA LANÇA DE MÁGOA
DEI DO MEU SONHO UMA CORDA DE INSÓNIAS
CRAVEI MEUS BRAÇOS COM SETAS
DESCOBRI ROSAS ALARGUEI CIDADES
E CONSTRUÍ POETAS

E NUNCA TE ENCONTREI
NA ESTRADA DO QUE FIZ
AMOR QUE NÃO LOGREI
MAS QUIS.

SEI MEU AMOR INVENTADO QUE UM DIA
TEU CORPO HÁ-DE ACENDER
UMA FOGUEIRA DE SOL E DE FÚRIA
QUE NOS VERÁ NASCER

ENTÃO:
NEM CHOROS, NEM MEDOS, NEM UIVOS, NEM GRITOS,
NEM PEDRAS, NEM FACAS,
NEM FOMES, NEM SECAS, NEM FERAS,
NEM FERROS, NEM FARPAS, NEM FARSAS,
NEM FORCAS, NEM CARDOS, NEM DARDOS,
NEM GUERRAS

(de Joseé carlos Ary dos Santos e Nuno Nazareth Fernandes)

Cantiga para quem sonha

Qual é a cantiga mais fantástica da língua portuguesa de todos os tempos? Nasce aqui hoje uma polémica e um concurso. Eis a minha primeira hipótese:


Tu que tens dez reis de esperança e de amor

grita bem alto que queres viver.

Compra pão e vinho, mas rouba uma flor.

Tudo o que é belo não é de vender

Não vendem ondas do mar

nem brisa ou estrelas, só a lua cheia

Não vendem moças de amar

nem certas janelas em dunas de areia.



Canta, canta como uma ave ou um rio

Dá o teu braço aos que querem sonhar

Quem trouxer mãos livres ou um assobio,

nem é preciso que saiba cantar.



Tu que crês num mundo maior e melhor

grita bem alto que o céu está aqui.

Tu que vês irmãos, só irmãos em redor,

Crê que esse mundo começa por ti.

Traz uma viola, um poema,

um passo de dança, um sonho maduro.

Canta glosando este tema,

Em cada criança há um homem puro.



Canta, canta como uma ave ou um rio

Dá o teu braço aos que querem sonhar

Quem trouxer mãos livres ou um assobio,

nem é preciso que saiba cantar.



(de Luiz Goes)


As pontes e o Salvado

O Diário de Notícias e o Jornal de Negócios * de ontem (2ª-feira) tinham uma coincidência interessante no tema de abertura. Ambos falavam de pontes. O primeiro - comparando estudos de há cerca de três anos com dados actualizados - verificou que há atrasos nos remendos das pontes que foram, à época, consideradas mais problemáticas. O segundo, usando fontes próximas do processo, afirmou que a Lusoponte (concessionária das travessias do Rio Tejo desde Vila Franca de Xira até à foz) estava pronta a pagar uma nova ligação entre a capital e a Margem Sul, desde que lhe melhorem as contrapartidas. É a primeira vez neste blog, que existe vai para quatro meses e meio, que corro o risco de falar de notícias assinadas por pessoas que me são muito próximas. Vou corrrê-lo.

Tanto quanto posso avaliar, ambas as notícias focam questões de interesse público, quais sejam a segurança e robustez das pontes que temos, e a viabilização de uma que ainda não temos e que tanta falta faz.

As notícias em causa 'duraram', mais coisa menos coisa, até à hora de almoço (nada mau...). Quando muito, no caso da do DN, aguardava-se, segundo julgo saber, um esclarecimento qualquer do IEP (Instituto das Estradas de Portugal), que alegadamente não terá gostado do título (Pontes em Risco). Durante a tarde, acabaram-se as pontes.

O sound-bite preferido passou a ser a eventualidade da demissão do director-nacional da PJ, um tal de Adelino Salvado. Não me perguntem pela razão subjacente a tal coisa, que acabaria por tornar-se realidade ao final da tarde. Há umas cassetes que foram roubadas, acho eu. Tinham declarações de pessoas que não deviam ter declarado nada, dizem-me. Foram gravadas sem conhecimento dos falantes, alegam uns quantos.

Novidade? Quase nenhuma. Toda a gente com juízo sabe há imenso tempo que o processo Casa Pia (é disso que se trata), mais este louvável senhor Adelino, não são coisa de fiar. Há muito tempo que pessoas melhor colocadas que este extraterrestre de Kripton afirmam, sem desmentido que se veja, que isto está tudo inquinado, de propósito para fazer das vítimas seres maldosos, e dos agressores uns quase santos.

Mas lá que se perdeu uma boa oportunidade para falar das pontes, perdeu-se.
Sic (sem ofensa) transit gloriae mundi

* Não pus os links, são fáceis de encontrar.

PS - Dada a minha proximidade dos autores das duas prosas supra-citadas, agradecia-se um grande shut up a quem tiver informação privilegiada sobre esse facto.

segunda-feira, agosto 9

Out of Norma



E eu escolhi esta foto.

Continuam a não ver?


A herança helénica


Desafio a este blog: agora que se aproxima a data, que tal uma explicação sobre o hino olímpico? É lindo!

Óculos de ver ao perto - episódios da vida real



A partir dos 17 anos, comecei a tirar os óculos de vez em quando. Foi quando o médico me disse que, daí para a frente, a coisa tinha tendência para estacionar. O ‘nem melhor nem pior’, ao contrário de outra gente, a mim sempre me deu para pensar: ‘é a hora!’ A revolução na adolescência dá sempre jeito, e eu comecei a engraçar com as miúdas que perguntavam ‘Ó M, já não usas óculos?’. Sempre dava para afastar as atenções das borbulhas.

Mas os óculos continuaram a fazer parte de mim. Ainda mais então, que a obrigatoriedade de os ter já não fazia sentido. De objecto odiado passaram a fetiche. Foi assim, pelos vinte e tal, que nasceu o Clark Kent. Não sei bem porquê, mas o rapaz algo ginasticado com uma carinha quadrada, enquadrada por uns óculos da moda, pôs o pessoal a achar que ele era parecido com o proto-herói.

Houve uma altura, lá pelos trinta, em que me defendiam. Quem passou pelo mesmo que testemunhe. Tirar os óculos que nos protegem há 20 anos não é fácil, mesmo que já não sirvam para nada. É como o mudo que começa a falar, há sempre um tempo de recusa.

Por isso, foi um acaso que me tirou o vício. Um dia partiram-se, e a preguiça de os mandar arranjar ditou o resto. Restam em paz, lá num saco ao fundo de uma gaveta que me lembra de quase uma vida inteira.

Outro dia, olhando para eles, último par de uma colecção imensa, deu-me para explicar a uma amiga coisa parecida com o que aqui relato. Páginas tantas, quis-lhe dizer a marca do artigo, escrita em letras pequenas num dos aros. ‘Olha que apesar de terem sido os últimos foram dos mais caros, passei-me quando os vi na loja, o que vale é que a caixa paga uma boa parte’. E a marca era... 'Vê-se mal... deixa afastar um pouco... a luz está fraca... é óbvio que as letras são muito pequenas, já não enxergo direito'.

Ai não?

Está visto, preciso de óculos.
De ver ao perto. Afinal é essa a distância que a idade determina.

(fim, para já)


A fome

Não vou falar do Sudão nem de Angola. Não vou escrever sobre o espezinhamento de uma nação nobre, como é a Rússia, às mãos das máfias que substituíram o comunismo. Não vou sequer falar dos pobres que há neste mundo.
Vou falar daqueles que passam fome aqui, ao pé de nós. Vestidos e bem lavados, com discurso fluente e curso superior completo, ou quase. Vou falar das vítimas da recessão e dos desvios da educação formal, que forma pessoas que não são precisas. Vou falar daqueles que querem mas não podem, porque os lugares escassos estão tomados por filhos de senhoras putas.
Conheço, graças a Deus, muita gente inteligente e esforçada. Gente que, se o país quisesse, puxava por ele. Mas não quer. Prefere deixar nas mãos dos possidentes do costume os arreios da Nação, mesmo se esta, nessas patas, não sai do estábulo onde há muito se encontra.
A maior parte dessa gente boa anda a passar fome. Não morre disso. Tem mil calorias por dia, dadas por um Compal light e uma torrada sem manteiga de manhã, mais um café pela tarde e uma sandes de fiambre. No dia seguinte, mostram a cara sorridente, porque só assim o cliente (que não paga) acredita estar perante um verdadeiro profissional. E esperam, e continuam a lutar.

O país não lhes pertence (a estes), mas deve-lhes o continuar a rodar. Até à morte.

A poesia panfletária


A maior parte da poesia panfletária não presta. Ainda me lembro que, depois do 25 de Abril, muita gente esperava uma explosão de criatividade a todos os níveis, por causa do fim da censura. Não aconteceu nada disso, tendo sido preciso esperar algum tempo para que os criadores assentassem e lhes apetecesse voltar ao estirador e à caneta. Na verdade, havia coisas de mais para viver na realidade. Nessas alturas, a ficção não faz nenhum sentido.

Ontem lembrei-me de uma canção perdida que, em letra e música, sendo absolutamente panfletária, tem alguma qualidade. É assim:

‘Abre os olhos e vê, sê vigilante
A reacção não passará adiante
Do teu punho fechado contra o medo

Levanta-te meu Povo, não é tarde
Agora é que o mar canta e que o sol arde
Pois quando um povo acorda é sempre cedo’

sábado, agosto 7

Os meus amigos (V)

A L. chegou-me por herança – eu ia a dizer por dote. Conheci-a num barco no Tejo, numa noite de Verão apaixonada, em que ela era a amiga daquela que na noite me fez dia. A L. podia passar despercebida, tal era a dimensão da minha focalização na outra. Mas não. Apeteceu-me ficar também com ela, de outro modo.

Da L. retenho tudo ou quase. As frases que enobrecem a palavra, a palavra que coça por dentro ideias várias, que são muitas, umas dela, outras roubadas com critério à realidade e à memória. O riso sempre atento. O choro quase nunca lacrimal de quem pouco tem que não seja seu. O meneio natural de quem não força a menina que já é.

A vida à L. tem-lhe corrido mais de estar do que em viver com quem. Chegou a uma fase em que transforma quase tudo em bom, e quando não pode não mexe. Não sei se é boa ideia. Como também bem me irrita a sua dúvida se o Mundo a tem como merece. É claro que a não merece! Nem sempre o caminho é suave para quem não tem o koshi adequado.

Sei, e mantenho, que poucas conheci que por mais perto estar de Atena não tema ir no barco de Afrodite. Nem é que a L. tenha com isso um problema. Mas a raiva de deixar de ser primeira deusa não lhe deixa às vezes espelho – que os olhos de outros são – para a Ilha dos Amores.

De mim, dou-lhe o lugar à direita de Deus-Mãe.

sexta-feira, agosto 6

As quatro estações

Season = Summer


Estou maduro, está bom de ver. Sempre me considerei uma Primavera, mas vejam só o que me aconteceu quando fiz este teste.
Um dia destes dá-me Outono. É usar enquanto está dentro do prazo...

quinta-feira, agosto 5

Alguém dê um título a isto, hoje só me apetece escrever o texto

Pertenço a uma classe profissional que se conta entre aquelas que mais viajam. Habituei-me, por orgulho de pertença e de serviço, a ter a mala feita, se for preciso, em menos de dez minutos. Tive uma boa escola. Anos antes de saber o que a vida me reservava como ocupação definida, fui estudante de casa às costas, mais tempo do que era suposto, e depois ainda fui jurar pela Pátria, o que durou ano e meio. Tudo longe de casa de meus Pais, única a que na altura chamava minha.

Tenho do prazer de viajar para aí um quinto das milhas daquelas que percorri na linha de serviço. Não tantas, no entanto, como dois sub-grupos de que conheço espécimes, que são os papa-viagens-escreve-um-texto-descansa-cinco-dias (pouco recomendáveis mas felizes na mesma) e aqueles outros que só se sentem vivos com o rabo alçado para sítios sujos, pecaminosos, onde as culatras matracam e as crianças morrem de fome.

Sou mais do género “trabalho é trabalho, e no meio alguém me paga um conhaque”. Para os profissionais do meu sub-grupo, o conhaque, aliás, faz muitas vezes parte do sumo ofício. No Sandersson Hotel de Londres, com os quadros superiores de uma grande casa de investimentos, ou à espera de embaixadores, no Hyatt de Auckland, a vida vai de gravata mas a prontidão é guerreira. O fogo é que é outro.

Eu não troco o ar condicionado do Ritz e o Escape depois do banho pelos muceques de Angola ou pelas miragens de um qualquer deserto armado. Mas também tenho fraquezas. Há uma, então, que me faz pensar. É quando olho para o meu passaporte e para o carimbo das May Be Airlines (!), em Sarajevo (para onde marchei à pressa, voluntário, em substituição de última hora de um colega doente), que sei que «sou disto, pertenço a isto», como diria o Baptista Bastos.

Está visto, sou um romântico. Mas de preferência num quarto com vista sobre a cidade.

quarta-feira, agosto 4

O Econo-clasta



Há muitos anos que gosto de Álvaro Barreto. No meio da 'aparada e bis Ti Teresa' que se vive no rectângulo, ele é um senhor. É claro que é uma vergonha para o país que um homem de 68 anos, com um razoável handicap no golf, tenha que ter aceite ser a segunda figura do Governo. Mas como os outros aos costumes não disseram, este príncipe disse sim, mesmo se mais lhe apetece resmungar com a mulher (que fuma, ele já deixou) e fazer tudo o que um príncipe da idade dele tem direito.

Mas fez bem em aceitar. Tanto mais que o presidente do Conselho de Ministros (vejam só) se chama Pedro el Cucaracha. O dito (também conhecido por pichas-em-alerta-de-tierra, e amigo del pichas-en-el-mar-de-popa) precisa de um homem sóbrio para lhe atinar o momento. Tudo visto, Álvaro Barreto parece-me bem. Vou ao que interessa.

Ontem, na casa de alterne que dá pelo nome de Ministério das Actividades Económicas - um prédio de apartamentos nas avenidas novas, para onde se deslocalizou o outrora Ministério da Economia, que tinha sede num palácio do Chiado -, Álvaro Barreto deu lição de política. É mais ou menos assim.

Para quem não saiba, o consórcio que ganhou a Galp (à venda pela quinta vez, nos últimos 14 anos), tem em pouca conta um negócio sonhado pela anterior administração, o qual é comprar as bombas da Shell em Espanha. Dizem que é caro e o caraças. Sem fastidiar muito os leitores, comprar as bombas da Shell em Espanha é uma oportunidade única, que aparece de trinta em trinta anos, e que permitirá à Galp crescer no 'país ibérico' como nunca sonhou. É um bom negócio e é daqueles que se ganha e pronto, custe o que custar. Os bonzões do consórcio (de nome Petrocer, com pronúncia do Norte) têm dúvidas.
Álvaro Barreto é ministro. Assinou o negócio. Tem que ter calma. E então agora vejam lá o que ele disse.

Que a compra da Shell em Espanha é essencial, que as empresas portuguesas têm que começar a pensar 'grande'. Disse mesmo que a única coisa com que não concordou, daquilo que estava definido pelo Governo anterior, era a pouca força com que a Petrocer se amandava ao plausível negócio. E que por isso pediu (exigiu) que o contrato fosse reformulado.

Se eu bem conheço Álvaro Barreto, ele está-se bem cagando se é a Petroer que fica com a Galp ou se é a Igreja do Reino de Deus. O que é preciso é que, quem quer que seja, compre a Shell em Espanha sem tibiezas.

Daqui lhe digo: que não lhe doa a mão, compre a Shell a qualquer preço, e se os rapazes da Petrocer amuarem tanto faz: vá buscar os outros (havia outros), que alegadamente perderam. E ganhará duas coisas: fica com um negócio em Espanha que põe a Galp nos píncaros; e poderá dizer, politicamente falando, que este Governo põe sempre acima de tudo o interesse nacional.

Temos homem?

terça-feira, agosto 3

Modificações ou nem tanto

Farto de ouvir dizer mal do país que arde em fogo e do amor que não se vê, resolvi alinhavar umas coisas que acho que melhoraram (muito ou pouco) nos últimos trinta anos, ou que pelo menos ficaram iguais na excelência que já detinham:

Melhorou imenso:

1 - O aspecto geral dos homens
2 - A depilação feminina
3 - As estradas nacionais
4 - A mortalidade infantil
5 - A distribuição alimentar
6 - As telecomunicações
7 - A Sonae
8 - O uso do sabonete e do champô
9 - O cuspir no chão
10 - O parque automóvel
11 - O ordenado mínimo nacional
12 - As mulheres na cama
13- O design gráfico
14 - A indústria de moldes
15 - As medalhas olímpicas
16 - As putas
17 - A zona ribeirinha de Lisboa
18 - O preço do whisky
19 - Os casinos do Estoril e de Espinho

Melhorou ligeiramente:

1 - A edição literária
2 - A instrução da classe baixa
3 - As pretas
4 - Castelo Branco, Portalegre e Évora
5 - A pesporrência da Justiça
6 - Os restaurantes do Porto
7 - O cheiro das pessoas
8 - A edição discográfica
9 - O respeito pelas crianças
10 - O prestígio de Portugal
11 - As casas de banho públicas
12 - A selecção nacional
13 - A Constituição da República
14 - O atendimento nos hospitais
15 - As telenovelas portuguesas
16 - Os cuidados com os dentes
17 - A defesa do consumidor
18 - As taxas de juro
19 - A Madeira e os Açores

Está tão bom como sempre:

1 - A arquitectura de ponta
2 - O molho das francesinhas
3 - A penetração anal feminina
4 - As pegas de caras
5 - O Estádio da Luz
6 - O Banco de Portugal
7 - As alheiras de caça
8 - O litoral alentejano
9 - O 'antes assim que mais mal'
10 - O Vinho do Porto
11 - O sol e o mar
12 - O Mário Cesariny
13 - A marginal de Cascais
14 - A causa monárquica
15 - A feira da Golegã
16 - Os carapaus de escabeche
17 - A indústria de calçado
18 - Os pintas e os marialvas
19 - O cheiro dos jacarandás

Aceitam-se acrescentos

I've been arround

Vi um país feiote, mal vestido, a precisar de urgente corte de alfaiate. Vi gente sem siso, a mandar beijos à pressa, e a despedir-se da mamã para sempre, o que é uma estupidez, porque ela mora a 150 quilómetros. Vi gordos e pirosas, com ar perdido, num dia-a-dia organizado à minúcia e sem critério decente, fechados em octogésimos andares. Vi pobres à toa, pior que em Lisboa, e ricos mais ricos que outros jamais. Vi esgotarem-se edições de poetas em poucos minutos e filas à porta do centro comercial para o lançamento mundial de um perfume unissexo. Vi uma miúda na luta com mais vinte e tal para ser puta, porque só havia lugar para uma. Vi um gajo ser despedido porque estava a olhar para as pernas da mulher da limpeza, e outro ser promovido porque estava de picha tesa na hora certa. Vi um tipo matar a mãe para ter direito ao período de nojo. Vi um corretor de apostas chamar comida a coisas com aspecto de bosta, mamadas no meio da rua. Vi a noite mais feérica e o melhor teatro do Mundo.

Tenho a certeza de que estive para lá do fundo da razão.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

´ BlogRating