quinta-feira, dezembro 2
Z.
A malta do grupo de Letras olhava com algum desdém para os colegas de Ciências. Os gajos (as gajas também) tinham que escolher, num pequeno pedaço de Verão, se queriam ter Geografia, Desenho, Física, Matemática ou Ciências Naturais. Os tipos acotovelavam ideias, falavam como se soubessem falar, era vê-los, alguns pela primeira vez na vida, discutindo o futuro. Qual futuro? O deles, pois então, que é que mais interessa a um gajo de Ciências?
A malta mirava-se uns aos outros, de olhos semi-cerrados, esparramados ao sol, à espera que a discussão acabasse para ir ao banho. Conhecíamos os trastes desde crianças e nunca os víramos assim. Parecia que tinham acordado agora, aos 15 anos… Agora que era hora de, enfim, dormir. Do nosso lado da toalha de praia havia uma certeza: Matemática nunca mais. O resto era lá com eles.
Por mais preguiçosos que fôssemos (ou seja, superiores em todos os sentidos da existência), o pessoal de Letras teve um dia que pensar em coisas quase semelhantes. Com muito menos berreiro e metade da filosofia, lá escolhemos Inglês e Alemão, mais a História que era quase obrigatória e tá feito, bora lá namorar e ir ao teatro, essas coisas que a malta de Letras tinha por menção fazer, um pouco antes do Outono, quando eu tinha 15 anos.
Subitamente, houve um problema. O Z. não queria escolher Alemão, não lhe parecia ao jeito, e preferiu Geografia. ‘- Mas ó meu, se vais para Geografia não calhas na nossa turma, vai ser uma merda’. ‘- Porque é que não posso ir para a vossa turma?’ ‘- Porque os horários de Geografia põem-te na turma D, depois vens ter Inglês connosco, andas a saltar de um lado para o outro, os profs. não vão arranjar uma turma só para ti, ninguém mais escolheu essa merda, quem vai para Geografia não fica com História e Inglês, tás a ver?’. ‘Tou a ver?? Eu quero que se foda!’. ‘Ok, tu é que sabes’.
Aos 15 anos, não existe nada menos verdadeiro do que a expressão ‘tu é que sabes’. O clã decide em conjunto, quando muito tem um chefe que ajuda a decidir por todos, mas não há dissidências nem livre arbítrio. Isso é contrário ao facto de se ter um grupo de gente que tem 15 anos.
Anyway, estava a gente nas aulas há meia dúzia de dias e o Z. não descolava da porta da nossa turma (a B). Num rasgo que lhe terá custado, confidenciou às gajas (aos gajos não, que era dar parte de fraco): ‘- Acho que vou anular a matrícula a Geografia e inscrever-me em Alemão, aquilo é uma turma de toinos, só falam de futebol e as gajas são umas sopeiras’. As E. (eram três, por isso a gente chamava-as pelo apelido) e a C., eterna apaixonada em silêncio pelo Z., fizeram um pequeno escarcéu e vieram contar aos gajos. Ficámos contentes, claro.
Como eu estava sem colega de carteira (aquilo era por números e o 16 desistira, eu era o 17), o Z. sentou-se no lugar vago ao meu lado. Não era meu grande amigo, a gente conhecia-se, como quase todos na turma, e todos, absolutamente todos, na fila da entrada, à esquerda de quem olha para a professora.
Ficámos assim dois anos. Para abreviar razões, o Z. ficou meu lugar-tenente quando este que aqui vos escreve foi aclamado chefe da malta (em termos estritamente políticos). Foi-me ajudando no crescimento, auditando em primeira mão as gajas – poucas – que me vinham calhar ao telheiro. Digamos que ele fazia a propaganda e a comercialização do produto, mas eu é que tratava da exposição que prendia o cliente. Démo-nos bem.
Chegados àquele ponto triste de cada um para seu lado, o Z. foi para o Magistério Primário (alguma tradição na família) e eu para Direito. Víamo-nos ao fins-de-semana, trocávamos ideias sobre pincéis de barba e outras coisas prementes para rapazes de 18 anos.
Nesse Verão fomos de férias. Eu, o B e o ZC., já éramos repetentes na companhia. A nós se juntou o Z., mais o A. e o F. Nesse tempo, passar férias que se prezem era ir para o Algarve, à boleia e com pouco dinheiro nos bolsos. Para rapazes da praia, o Algarve nem deveria ter grande fascínio, não fosse o facto de lá se encontrar o maior armazém de teenagers estrangeiras acessível num raio de mil quilómetros. Com a falta de ‘abertura’ que as ‘nossas’ tinham nesse tempo (exceptuando as muito feias), suecas, holandesas e alemãs pareciam boa alternativa ao ‘give me five’ a que as nossas pilas adolescentes estavam habituadas.
A malta do meu tempo adorava Lagos. Era o santuário dos rapazes. Faço aqui um intervalo para dizer que as raparigas ficavam em casa, seja porque os pais lá da terra não consentiam meninas por aí em viagem, seja porque também dava jeito à rapaziada não levar bananas para a Madeira. Então, chegados a Lagos, a tradição era o que era, perseguição às estrangeiras, praia todo o santo dia, comida frugal, borlas nas discotecas. O Z. era bom em todas as vertentes do programa.
Um belo dia (de noite), chegaram o CR, o M, o ZT e o J. Encontrámo-nos por acaso, junto ao parque de campismo da cidade, onde os totós acampavam. Nós, os da elite, íamos para o dos arredores, onde as vaginas tinham mais hábitos de lavandaria e a depilação eficiente dava os primeiros passos.
O CR. o M, o ZR e o J. fumavam charros. Ora de ‘ó’ ora de ‘u’, charros era coisa que não faltava. Se calhar menos falhos de cona do que nós no longo Inverno, a ida para o Algarve significava para estes fumar charros sem Pai à vista.
O Z. é que não ia em cantigas. Charros?? ‘Puta que os pariu!’ Ainda me lembro da discussão com mãos que se seguiu ao CR ter acenado a hipótese de os ‘caretas’ (nós) fumarem um charro com a gente dele. O Z. passou-se.
Passados uns anos, o Z. começou a trabalhar. Ele gostava mesmo de putos, e, bom estudante, calhou-lhe uma escola não muito longe de casa. Mas, longe dos amigos de sempre, começou a experimentar os charros dos 'amigos' que sobravam lá pela terra. Ao que parece gostou. A escola é que começou a correr mal.
O Z. tinha uma catrefada de irmãos mais velhos, dois deles pelo menos com lugares de interesse público e influência quanto baste, a diversos níveis. Um dos maiores resolveu que a vida do rapaz (então nos seus 21 anos) só se endireitava com uma tropa à maneira, de preferência nos Comandos, onde ele (irmão) por acaso até conhecia o comandante.
O Z., razoável desportista e fino como o aço, lá aceitou o desafio, apesar dos seus mal amanhados 60 quilos. A questão é que os Comandos, nessa alvorada de 80, já não eram o depósito de virtudes que o irmão do Z. almejava. E o Z. saiu de lá com mais músculo e mais veia. Para o que desse e viesse. A veia serviu-lhe de muito, aliás.
Sozinho num Mundo cão, sem o apoio de sempre, o Z., como sempre, tinha dificuldades em tomar decisões sozinho. A C. tinha emigrado, as E. estavam casadas, eu e a malta de Letras andávamos a fazer pela vida. Quando o Z. um dia se olhou ao espelho já não era ele. Em meados de 80, era o primeiro caso de SIDA do distrito de Aveiro.
Pelo meio, o Z. tinha ido atrás das grades. A droga é uma coisa ilícita mas encontra-se em doses fáceis nas farmácias de serviço. Assaltá-las, à partida, nem sequer é difícil, para quem está ressacado e foi treinado para golpes de mão. O problema é quando a bófia não tem mais nada que fazer e os proprietários reclamam. Um dia está lá o agente de serviço, camuflado, e deita a mão aos tratantes. Já não bastava a ressaca, vai lá então a cadeia. Quatro anos.
Quatro anos de cadeia, na segunda metade de 80, à beira dos 30 anos, não era para endireitar. Era para a droga correr, mais célere e livremente, pelas veias de quem quisesse, com a agulha de quem estivesse à mão de semear. O Z. andou por aí.
Morreu sem que eu soubesse, sem que me dissesse nada, nunca recuperando de maleitas vulgares, como constipações e um osso deslocado. A SIDA é mesmo assim: trata constipações como se fossem pneumonias, parte pernas onde só havia entorses, tuberculiza quem tinha uma tosse vulgar.
O Z. morreu de SIDA. Foi o primeiro da minha escola. Foi meu lugar-tenente, ajudou-me com as gajas, era lindo quando falava, mais lindo quando me ouvia. Eu não lhe disse o que devia? Se calhar não. Se calhar tive sorte e ele não.
Para a próxima conto-vos a história da relação do preservativo com a malta do meu tempo.
Obrigado pela atenção.
E Z., onde estiveres... tu sabes
A malta mirava-se uns aos outros, de olhos semi-cerrados, esparramados ao sol, à espera que a discussão acabasse para ir ao banho. Conhecíamos os trastes desde crianças e nunca os víramos assim. Parecia que tinham acordado agora, aos 15 anos… Agora que era hora de, enfim, dormir. Do nosso lado da toalha de praia havia uma certeza: Matemática nunca mais. O resto era lá com eles.
Por mais preguiçosos que fôssemos (ou seja, superiores em todos os sentidos da existência), o pessoal de Letras teve um dia que pensar em coisas quase semelhantes. Com muito menos berreiro e metade da filosofia, lá escolhemos Inglês e Alemão, mais a História que era quase obrigatória e tá feito, bora lá namorar e ir ao teatro, essas coisas que a malta de Letras tinha por menção fazer, um pouco antes do Outono, quando eu tinha 15 anos.
Subitamente, houve um problema. O Z. não queria escolher Alemão, não lhe parecia ao jeito, e preferiu Geografia. ‘- Mas ó meu, se vais para Geografia não calhas na nossa turma, vai ser uma merda’. ‘- Porque é que não posso ir para a vossa turma?’ ‘- Porque os horários de Geografia põem-te na turma D, depois vens ter Inglês connosco, andas a saltar de um lado para o outro, os profs. não vão arranjar uma turma só para ti, ninguém mais escolheu essa merda, quem vai para Geografia não fica com História e Inglês, tás a ver?’. ‘Tou a ver?? Eu quero que se foda!’. ‘Ok, tu é que sabes’.
Aos 15 anos, não existe nada menos verdadeiro do que a expressão ‘tu é que sabes’. O clã decide em conjunto, quando muito tem um chefe que ajuda a decidir por todos, mas não há dissidências nem livre arbítrio. Isso é contrário ao facto de se ter um grupo de gente que tem 15 anos.
Anyway, estava a gente nas aulas há meia dúzia de dias e o Z. não descolava da porta da nossa turma (a B). Num rasgo que lhe terá custado, confidenciou às gajas (aos gajos não, que era dar parte de fraco): ‘- Acho que vou anular a matrícula a Geografia e inscrever-me em Alemão, aquilo é uma turma de toinos, só falam de futebol e as gajas são umas sopeiras’. As E. (eram três, por isso a gente chamava-as pelo apelido) e a C., eterna apaixonada em silêncio pelo Z., fizeram um pequeno escarcéu e vieram contar aos gajos. Ficámos contentes, claro.
Como eu estava sem colega de carteira (aquilo era por números e o 16 desistira, eu era o 17), o Z. sentou-se no lugar vago ao meu lado. Não era meu grande amigo, a gente conhecia-se, como quase todos na turma, e todos, absolutamente todos, na fila da entrada, à esquerda de quem olha para a professora.
Ficámos assim dois anos. Para abreviar razões, o Z. ficou meu lugar-tenente quando este que aqui vos escreve foi aclamado chefe da malta (em termos estritamente políticos). Foi-me ajudando no crescimento, auditando em primeira mão as gajas – poucas – que me vinham calhar ao telheiro. Digamos que ele fazia a propaganda e a comercialização do produto, mas eu é que tratava da exposição que prendia o cliente. Démo-nos bem.
Chegados àquele ponto triste de cada um para seu lado, o Z. foi para o Magistério Primário (alguma tradição na família) e eu para Direito. Víamo-nos ao fins-de-semana, trocávamos ideias sobre pincéis de barba e outras coisas prementes para rapazes de 18 anos.
Nesse Verão fomos de férias. Eu, o B e o ZC., já éramos repetentes na companhia. A nós se juntou o Z., mais o A. e o F. Nesse tempo, passar férias que se prezem era ir para o Algarve, à boleia e com pouco dinheiro nos bolsos. Para rapazes da praia, o Algarve nem deveria ter grande fascínio, não fosse o facto de lá se encontrar o maior armazém de teenagers estrangeiras acessível num raio de mil quilómetros. Com a falta de ‘abertura’ que as ‘nossas’ tinham nesse tempo (exceptuando as muito feias), suecas, holandesas e alemãs pareciam boa alternativa ao ‘give me five’ a que as nossas pilas adolescentes estavam habituadas.
A malta do meu tempo adorava Lagos. Era o santuário dos rapazes. Faço aqui um intervalo para dizer que as raparigas ficavam em casa, seja porque os pais lá da terra não consentiam meninas por aí em viagem, seja porque também dava jeito à rapaziada não levar bananas para a Madeira. Então, chegados a Lagos, a tradição era o que era, perseguição às estrangeiras, praia todo o santo dia, comida frugal, borlas nas discotecas. O Z. era bom em todas as vertentes do programa.
Um belo dia (de noite), chegaram o CR, o M, o ZT e o J. Encontrámo-nos por acaso, junto ao parque de campismo da cidade, onde os totós acampavam. Nós, os da elite, íamos para o dos arredores, onde as vaginas tinham mais hábitos de lavandaria e a depilação eficiente dava os primeiros passos.
O CR. o M, o ZR e o J. fumavam charros. Ora de ‘ó’ ora de ‘u’, charros era coisa que não faltava. Se calhar menos falhos de cona do que nós no longo Inverno, a ida para o Algarve significava para estes fumar charros sem Pai à vista.
O Z. é que não ia em cantigas. Charros?? ‘Puta que os pariu!’ Ainda me lembro da discussão com mãos que se seguiu ao CR ter acenado a hipótese de os ‘caretas’ (nós) fumarem um charro com a gente dele. O Z. passou-se.
Passados uns anos, o Z. começou a trabalhar. Ele gostava mesmo de putos, e, bom estudante, calhou-lhe uma escola não muito longe de casa. Mas, longe dos amigos de sempre, começou a experimentar os charros dos 'amigos' que sobravam lá pela terra. Ao que parece gostou. A escola é que começou a correr mal.
O Z. tinha uma catrefada de irmãos mais velhos, dois deles pelo menos com lugares de interesse público e influência quanto baste, a diversos níveis. Um dos maiores resolveu que a vida do rapaz (então nos seus 21 anos) só se endireitava com uma tropa à maneira, de preferência nos Comandos, onde ele (irmão) por acaso até conhecia o comandante.
O Z., razoável desportista e fino como o aço, lá aceitou o desafio, apesar dos seus mal amanhados 60 quilos. A questão é que os Comandos, nessa alvorada de 80, já não eram o depósito de virtudes que o irmão do Z. almejava. E o Z. saiu de lá com mais músculo e mais veia. Para o que desse e viesse. A veia serviu-lhe de muito, aliás.
Sozinho num Mundo cão, sem o apoio de sempre, o Z., como sempre, tinha dificuldades em tomar decisões sozinho. A C. tinha emigrado, as E. estavam casadas, eu e a malta de Letras andávamos a fazer pela vida. Quando o Z. um dia se olhou ao espelho já não era ele. Em meados de 80, era o primeiro caso de SIDA do distrito de Aveiro.
Pelo meio, o Z. tinha ido atrás das grades. A droga é uma coisa ilícita mas encontra-se em doses fáceis nas farmácias de serviço. Assaltá-las, à partida, nem sequer é difícil, para quem está ressacado e foi treinado para golpes de mão. O problema é quando a bófia não tem mais nada que fazer e os proprietários reclamam. Um dia está lá o agente de serviço, camuflado, e deita a mão aos tratantes. Já não bastava a ressaca, vai lá então a cadeia. Quatro anos.
Quatro anos de cadeia, na segunda metade de 80, à beira dos 30 anos, não era para endireitar. Era para a droga correr, mais célere e livremente, pelas veias de quem quisesse, com a agulha de quem estivesse à mão de semear. O Z. andou por aí.
Morreu sem que eu soubesse, sem que me dissesse nada, nunca recuperando de maleitas vulgares, como constipações e um osso deslocado. A SIDA é mesmo assim: trata constipações como se fossem pneumonias, parte pernas onde só havia entorses, tuberculiza quem tinha uma tosse vulgar.
O Z. morreu de SIDA. Foi o primeiro da minha escola. Foi meu lugar-tenente, ajudou-me com as gajas, era lindo quando falava, mais lindo quando me ouvia. Eu não lhe disse o que devia? Se calhar não. Se calhar tive sorte e ele não.
Para a próxima conto-vos a história da relação do preservativo com a malta do meu tempo.
Obrigado pela atenção.
E Z., onde estiveres... tu sabes
2 Comments:
E muitos outros A...B...e Z... continuam a partir! Publicitam-se intervenções, divulgam-se projectos mas...a realidade da droga continua em força!
Onde está reabilitação do Intendente???A droga continua a circular nas cadeias????Etc.
By objectiva3, at dezembro 02, 2004
obrigaste-me a ficar e ler até final! ficas a dever esse favor ao "teu" Z.
texto escorreito, sem dúvida!
DonBadalo
By , at dezembro 03, 2004
Comments:
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E muitos outros A...B...e Z... continuam a partir! Publicitam-se intervenções, divulgam-se projectos mas...a realidade da droga continua em força!
Onde está reabilitação do Intendente???A droga continua a circular nas cadeias????Etc.
Onde está reabilitação do Intendente???A droga continua a circular nas cadeias????Etc.
obrigaste-me a ficar e ler até final! ficas a dever esse favor ao "teu" Z.
texto escorreito, sem dúvida!
DonBadalo
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