quinta-feira, dezembro 30
A vida das mulheres de hoje
Confesso que poucas vezes na vida tive tanta dificuldade em expressar o que penso. A sensação é ainda pior porque se trata de mulheres, já que eu tenho a mania que, em se tratando de mulheres, o ‘expert’ mora cá em casa.
Então vou começar pelo princípio.
Pertenço à terceira geração de um fenómeno que, lato sensu, ficou conhecido como ‘libertação das mulheres’. Em termos hermenêuticos, uma libertação é uma mudança. Ou seja, uma partida rumo ao desconhecido.
A primeira geração de mulheres ‘livres’ (a malta que tem agora sessenta e tantos) foi aquela ‘pura e dura’ que se desassociou dos tachos e da esfregona, dos chás de caridade e da Conferência de São Vicente de Paula. É preciso que se diga que teve coragem. E mais: fazia todo o sentido que assim fosse feito.
A segunda (anda agora nos cinquenta) começou a fazer sexo antes do casamento, entrou para a Faculdade de Direito ou de Medicina, divorciou-se ao fim de dez anos de vida em comum. Sofreu os efeitos daquelas pílulas da treta.
A terceira (a minha) é mais complicada. Ascendeu a postos de comando (coisa para a qual não estava preparada), pôde ir à tropa, não raras vezes ganha tanto ou mais que o marido, deixou de ter filhos em idade sensata.
Até aqui tudo bem, ou quase.
O pior é a quarta geração (a que tem agora trinta e tantos). As mulheres deste tempo estão a perceber o logro em que as suas antepassadas próximas as meteram. Deram-lhes o Mundo mas tiraram-lhes a maternidade. Deram-lhes independência económica mas tiraram-lhes a sensibilidade para as obras de voluntariado. Deram-lhes o comando mas tiraram-lhes tempo para tratar da casa. Ou – pior – deram-lhes tudo e não lhes ‘tiraram’ nada, o que inevitavelmente lhes trouxe esgotamentos. A 'Super-Mulher', tal como o 'Super-Homem', é uma personagem de ficção.
As mulheres desta geração estão fartas de uma liberdade ‘masculinizada’ que não lhes diz pêvea. Porque no fundo o Mundo não mudou, elas apenas passaram a ter acesso a um universo que era só deles. O estereótipo da mulher que fuma e usa calças (tão referido nos anos cinquenta e sessenta) não lhes assenta. Elas querem uma outra coisa e, já agora, querem também recuperar o que perderam no caminho.
Cada vez conheço mais jovens (à minha beira são jovens) que menosprezam o trabalho e que gostariam de ter tempo para os filhos e para fazer o Bem. A expressão ‘se o meu marido ganhasse o suficiente eu ia já hoje para casa’ é cada vez mais audível. As mulheres estão a deixar de sussurrar a evidência e, saudavelmente, já não têm vergonha disso. Chegadas a um tempo em que a escolha é possível, querem escolher ser mulheres outra vez.
Quem é que não as está a deixar seguir o seu caminho? Não será isto um novo machismo? Eu vejo as mulheres que querem ser Mães e donas-de-casa terem tantas dificuldades em conseguir atingir esse objectivo como as que há cinquenta anos queriam trabalhar ao lado dos homens.
As mudanças, entre as quais se inclui a liberdade, têm destas coisas.
3 Comments:
Bem, eu sou da tal quarta geração de que fala. Lamento mas não me identifico com o que descreve. Percebo, no entanto, o que quer dizer. Chegámos a um ponto em que somos "preconceituosos ao contrário": Parece mal quando uma mulher que foi à faculdade dizer que quer ficar em casa a cuidar dos filhos. A mim só me parece estranho, mas não me parece mal. O grande logro em que nos meteram foi levar-nos a achar que os homens também iam mudar. Mas não mudaram. As mulheres continuam com tudo às costas, e os homens deixam. Pior que tudo isso - as mulheres também. Por isso não gosto de as ouvir queixar.
By AS, at dezembro 30, 2004
Concordo com o que diz (o que para mim é complicado pois me tenho habituado anão ir muito à bola com o que aqui escreve) mas...felizmente para mim :) não concordo em pleno e, nisso, apenas nisso, note, estou em acordo com o comentário anterior - os homens na mudaram ou pior fazem de conta, mas ficaram por aí para pior (repare se interessa, que sou de muitos anos de casada e mãe de dois homens!)pois além de não apartilharem de modo natural as tarefas TODAS (claro que todas menos que pela mãe natureza lhes está vedada)ainda andam borrados de medo um medo do caraças o que nos faz ficar assim a modos de ter que andar a fazer um papel ainda mais o de lhes mostar que viver não custa nada! Fique bem e saiba que foi um prazer vê-lo no meu Bloguezinho!
By Fátima Santos, at janeiro 09, 2005
Sei que foi excepção, mas a minha Mãe que, na altura do artigo, estava nos oitentas já foi uma Mulher livre.
Sorte a nossa, dos filhos, que também assim fomos educados. Salvaguardo as restrições do Pai a quem "comíamos as papas na cabeça" com a ajuda da Mãe.
By , at dezembro 02, 2015
Sorte a nossa, dos filhos, que também assim fomos educados. Salvaguardo as restrições do Pai a quem "comíamos as papas na cabeça" com a ajuda da Mãe.
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