quarta-feira, dezembro 15

Tão perto e tão diferente - crónica de um país em guerra

Fui a Madrid. Continua a comer-se mal nos melhores restaurantes, os monumentos estão impecavelmente restaurados, as mulheres não saem à rua sem estarem ‘de morrer’. Até aqui nada de novo.

Mas como gosto de dar notícia ou novidade, ou no mínimo fazer crónica do que vi, lembrei-me de falar de um saber de experiência feito que é o contacto acumulado de muitos anos com a ‘Prensa’ espanhola, ‘mai los’ assessores da dita.

Os espanhóis têm, talvez a par dos italianos, a Comunicação Social mais controlada e comprometida da Europa. A Itália, como os meus confrades e visitantes já devem ter reparado, interessa-me tanto como a sola de um sapato roto, por isso adiante. Mas a Espanha é diferente. Por isso me dedico a tentar percebê-la.

Como é que um país que em tanta coisa nos faz inveja tem jornalistas tão fracos? Como é possível que a gente seja tão melhor que eles? Como é possível ler hoje (ontem, terça-feira) os principais jornais do país vizinho e ficar sem perceber patavina do que se passou no inquérito parlamentar ao 11 de Março (que fazia as primeiras páginas de todos os generalistas)?

Como é possível que em encontros bilaterais (ou até latino-americanos, por exemplo) sejam sempre, sem excepção, os jornalistas portugueses (e brasileiros) a colocar as questões difíceis?

Uma história entre muitas. Um assessor (conheço vários) de imprensa português, a trabalhar para uma empresa espanhola com filiais em Portugal, queixa-se sempre da mesma coisa. Telefona-lhe o ‘superior’ espanhol e diz-lhe. ‘Essa notícia não devia ter saído, como é que deixaste?’ E diz o portuga: ‘Eu não mando nos jornalistas, tento apenas veicular a informação relevante, ou até influenciá-los numa determinada direcção, mas eles é que escrevem’. ‘Então o que é que estás aí a fazer?’

Estas conversas são reais, qualquer um poderá testemunhá-las.

Uma ‘Roda de Prensa’ de jornalistas da área económica não melhora o cenário. Nunca vi – juro, nunca vi – um jornalista espanhol fazer uma pergunta que encabule o protagonista que debuta em determinado momento. E juro que nunca os vi dar um lead diferente daquele que vem no comunicado oficial.

O serviço de assessoria de Imprensa é, as mais das vezes, confundível com ‘azafatas’ que trazem e levam croquetes. O guru da função não se mistura com jornalistas e sente dificuldades de trato quando a gente portuguesa lhe fala ‘tu-cá-tu-lá’ sobre qualquer assunto relevante.

Que se passa então? Serão os jornalistas espanhóis que ganham 3500 euros mais desprovidos que os portugueses que ganham 1750? ‘Por supuesto’. São é mais controlados, e acatam esse controle em nome de várias coisas: as autonomias umas contra as outras, a liberdade vigiada contra o terrorismo, os políticos em guerra constante.

Uma outra história, antes da conclusão. Em 1986, quando Espanha e Portugal assinaram o Tratado de Adesão à CEE, os jornalistas espanhóis, na hora em que Gonzaléz, Juan Carlos, Soares e Cavaco batiam palmas (bem como presumo a totalidade dos convidados), largaram as canetas e os papéis e também eles aplaudiram. Fizeram parte do acontecimento, perdendo todo o distanciamento necessário. Os jornalistas portugueses, como lhes competia, continuaram a trabalhar. Se bateram palmas, ou não, fizeram-no em casa, no recato da sua vida particular.

Acho que isto diz tudo.

Por toda a parte onde vou, vejo os jornalistas portugueses darem cartas. Seja numa conferência de Imprensa na Suécia, seja numa visita ao Canadá, seja em Sarajevo ou em Sidney. Porque é que, então, os jornais portugueses vendem tão pouco? Por duas razões. Temos um povo de analfabetos e uma elite javardola, caceteira, setembrista, arrelampada e umbiguista. Ilustração não é com eles e a verdade é apenas um método, entre outros possíveis, de chegar algures.

Nesse tipo de elite incluo a maior parte dos directores de jornais.

10 Comments:

Folgo em saber que permanece o que é relevante: "as mulheres não saem à rua sem estarem ‘de morrer’". Quanto ao mais, sempre gostava de ver o Clark discorrer sobre os jornalistas italianos. Não é mais do que curiosidade, mas lá que gostava, gostava.
Em todo o caso, sempre me ocorre disparatar. O Clark, que para além de estar atento ao jornalismo é seguidor do fenómeno desportivo, como explica a aparente contradição para com os jornalistas desportivos de nuestros hermanos ou das terra do esparguete: é que queixam-se os nossos rapazes que para lá vão jogar à bola que o jornalismo (que lhes diz respeito) é por essas bandas especialmente "agressivo"... também porque esteja controlado, pelos clubes, neste caso?

ps: y la movida? Como vamos de movida, 'joder'?

By Blogger pedro guedes, at dezembro 15, 2004  

Confirmo totalmente, já trabalhei muitas vezes ao lado de jornalistas espanhóis e eles são tipo "His Master's Voice", dizem o que os senhores do poder (económico, político ou outro qualquer) querem e não põem questões difíceis.
Há cerca de um ano num conselho de ministros das Pescas, perto de Vigo, que durava dois dias, vi-me só, com uns trinta jornalistas espanhóis.
Os assessores de Imprensa (uns burocratas descerebrados, incompetentes e arrogantes) traziam de vez em quando um comunicado que de notícia nada tinha. Quando vi que não ia haver qualquer contacto com as delegações protestei e disse alto e bom som aos assessores(ante o pasmo dos colegas espanhóis) no meio da sala de Imprensa que em Portugal tínhamos faxes nas Redacções para receber comunicados e que não deslocávamos jornalistas para o fazer.
E que comunicados como aqueles, perfeitamente anódinos e propagandísticos, seriam imediatamente deitados ao caixote do lixo, que era para o que serviam.
Os assessores ficaram espantados (sinceramente pareceu-me que o espanto era genuíno) e tive então que lhes explicar que queríamos contactos directos com as delegações, para que cada um pudesse por as questões que lhe interessavam.
Nada aconteceu, até que tanto protestei que acabei por convencer os colegas espanhóis a apoiar a minha exigência: se não houvesse contactos, íamo-nos embora, mandassem os comunicados para as redacções.
Mas só aceitaram se fosse eu a apresentar a reivindicação, porque nenhum deles queria dar a cara. Explicaram-me que se o fizessem, imediatamente os tipos do governo de Madrid e da Junta da Galiza telefonariam aos seus chefes exigindo sanções aos "levantados".
Feita a "démarche" lá os assessores alinhavaram meia dúzia de encontros com as principais delegações.
Outro caso: veja-se, por exemplo, o que aconteceu no caso "Prestige".
Se não fossem os jornalistas portugueses (e as informações da nossa Armada), o caso teria sido totalmente abafado. Só os portugueses faziam as perguntas que tinham que ser faitas. Ao fim, já eram os próprios jornalistas galegos e espanhóis que pediam aos portugueses que pusessem as perguntas embaraçosas, já que eles temiam as inescapáveis represálias das chefias caso ousassem fazê-lo.
Histórias mirabolantes de pressões, impossíveis em Portugal, contam os colegas que cobriram esse caso.
Conclusão: Aquela gente está domesticada, o 25 de Abril nunca chegou à Imprensa espanhola.

By Blogger PluribusUnum, at dezembro 15, 2004  

Agradeço o contributo do Pluribus, que tem toda a razão do Mundo. É com gente desta que se faz a Pátria. Força amigo, eu sei que tu não gostas de ser herói, mas às vezes é preciso, tu sabes.
Quanto ao Pedro, tem razão também - por alguma coisa não me referi a jornais desportivos.
E provavelmente não, nunca me vai apanhar a perorar sobre jornais italianos. Tenho por essa gente o maior desprezo.

By Blogger clark59, at dezembro 15, 2004  

Parece que também somos muito bons no berlinde...

By Blogger Alfredo F., at dezembro 15, 2004  

Concordo consigo. Basta ver o grupo PRISA - com o EL PAIS e a cadena SER - a fazerem de "master voice" do PSOE.
JLL

By Anonymous Anónimo, at dezembro 15, 2004  

Pessoalmente, nunca compreendi o complexo de inferioridade de tantos portugueses em relação a Espanha, e daí também nunca ter sentido qualquer inveja em relação a esse país.

Relativamente ao porquê de os jornais venderem tão pouco, se é certo que a população portuguesa globalmente considerada está muito longe de ter o nível educacional que seria desejável, não é menos certo que os jornalistas portugueses são muitas vezes ideologicamente engajados no seu mester, o que confere ao seu trabalho um notório cunho de desonestidade intelectual.

Exemplos?

Basta ver como os chamados jornais de referência acolhem sistematicamente com simpatia todas as posições políticas sufragadas pelo Bloco de Esquerda, bem como a forma odienta como tratam todos aqueles que divergem daquelas; portanto, caro Claque, não se admire que muita gente, perante este panorama, deixe voluntariamente de ler estes jornais, autênticos órgãos de propaganda política disfarçados de meios de comunicação social, procurando antes fontes de informação alternativas.

JSarto

By Anonymous Anónimo, at dezembro 15, 2004  

Caro Clark,

Independentemente da sua visão credível, continuo a considerar que não há actualmente em Portugal um tipo de revista com a qualidade editorial da revista do El Pais, publicada ao domingo. Opinião de leitora bilingue....
:)

By Blogger objectiva3, at dezembro 15, 2004  

Objectiva: ninguém estava a falar de revistas. Só de jornais. E, embora eu ache que a revista do El País não é má, a do Expresso, no seu tempo, era bem melhor. Qual é diferença entre um produto bom e um outro menos interessante? Ideias e prossecução de ideias. Como é que isso se faz? Com inteligência e com meios. O que é que falta entre nós? Ambas.

By Blogger clark59, at dezembro 16, 2004  

Por acaso, uma vez um assessor de imprensa espanhol disse-me que os jornalistas portugueses são uns bárbaros!... Eu que às vezes também acho o mesmo :)fiquei cheia de nervos e disse-lhe que isto era uma República! :))) Seja como for, eu invejo muito a vida aqui ao lado... Ó se invejo!

By Blogger AS, at dezembro 17, 2004  

AS: li com razoável atraso o seu comentário. Não tenha dúvidas: os jornalistas portugueses, em média, são bem melhores que os espanhóis, e os assessores de imprensa portugueses são CINQUENTA VEZES melhores que os espanhóis. Quem lhe disser o contrário que conte a experiência que teve.

By Blogger clark59, at dezembro 21, 2004  

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Comments:
Folgo em saber que permanece o que é relevante: "as mulheres não saem à rua sem estarem ‘de morrer’". Quanto ao mais, sempre gostava de ver o Clark discorrer sobre os jornalistas italianos. Não é mais do que curiosidade, mas lá que gostava, gostava.
Em todo o caso, sempre me ocorre disparatar. O Clark, que para além de estar atento ao jornalismo é seguidor do fenómeno desportivo, como explica a aparente contradição para com os jornalistas desportivos de nuestros hermanos ou das terra do esparguete: é que queixam-se os nossos rapazes que para lá vão jogar à bola que o jornalismo (que lhes diz respeito) é por essas bandas especialmente "agressivo"... também porque esteja controlado, pelos clubes, neste caso?

ps: y la movida? Como vamos de movida, 'joder'?
 
Confirmo totalmente, já trabalhei muitas vezes ao lado de jornalistas espanhóis e eles são tipo "His Master's Voice", dizem o que os senhores do poder (económico, político ou outro qualquer) querem e não põem questões difíceis.
Há cerca de um ano num conselho de ministros das Pescas, perto de Vigo, que durava dois dias, vi-me só, com uns trinta jornalistas espanhóis.
Os assessores de Imprensa (uns burocratas descerebrados, incompetentes e arrogantes) traziam de vez em quando um comunicado que de notícia nada tinha. Quando vi que não ia haver qualquer contacto com as delegações protestei e disse alto e bom som aos assessores(ante o pasmo dos colegas espanhóis) no meio da sala de Imprensa que em Portugal tínhamos faxes nas Redacções para receber comunicados e que não deslocávamos jornalistas para o fazer.
E que comunicados como aqueles, perfeitamente anódinos e propagandísticos, seriam imediatamente deitados ao caixote do lixo, que era para o que serviam.
Os assessores ficaram espantados (sinceramente pareceu-me que o espanto era genuíno) e tive então que lhes explicar que queríamos contactos directos com as delegações, para que cada um pudesse por as questões que lhe interessavam.
Nada aconteceu, até que tanto protestei que acabei por convencer os colegas espanhóis a apoiar a minha exigência: se não houvesse contactos, íamo-nos embora, mandassem os comunicados para as redacções.
Mas só aceitaram se fosse eu a apresentar a reivindicação, porque nenhum deles queria dar a cara. Explicaram-me que se o fizessem, imediatamente os tipos do governo de Madrid e da Junta da Galiza telefonariam aos seus chefes exigindo sanções aos "levantados".
Feita a "démarche" lá os assessores alinhavaram meia dúzia de encontros com as principais delegações.
Outro caso: veja-se, por exemplo, o que aconteceu no caso "Prestige".
Se não fossem os jornalistas portugueses (e as informações da nossa Armada), o caso teria sido totalmente abafado. Só os portugueses faziam as perguntas que tinham que ser faitas. Ao fim, já eram os próprios jornalistas galegos e espanhóis que pediam aos portugueses que pusessem as perguntas embaraçosas, já que eles temiam as inescapáveis represálias das chefias caso ousassem fazê-lo.
Histórias mirabolantes de pressões, impossíveis em Portugal, contam os colegas que cobriram esse caso.
Conclusão: Aquela gente está domesticada, o 25 de Abril nunca chegou à Imprensa espanhola.
 
Agradeço o contributo do Pluribus, que tem toda a razão do Mundo. É com gente desta que se faz a Pátria. Força amigo, eu sei que tu não gostas de ser herói, mas às vezes é preciso, tu sabes.
Quanto ao Pedro, tem razão também - por alguma coisa não me referi a jornais desportivos.
E provavelmente não, nunca me vai apanhar a perorar sobre jornais italianos. Tenho por essa gente o maior desprezo.
 
Parece que também somos muito bons no berlinde...
 
Concordo consigo. Basta ver o grupo PRISA - com o EL PAIS e a cadena SER - a fazerem de "master voice" do PSOE.
JLL
 
Pessoalmente, nunca compreendi o complexo de inferioridade de tantos portugueses em relação a Espanha, e daí também nunca ter sentido qualquer inveja em relação a esse país.

Relativamente ao porquê de os jornais venderem tão pouco, se é certo que a população portuguesa globalmente considerada está muito longe de ter o nível educacional que seria desejável, não é menos certo que os jornalistas portugueses são muitas vezes ideologicamente engajados no seu mester, o que confere ao seu trabalho um notório cunho de desonestidade intelectual.

Exemplos?

Basta ver como os chamados jornais de referência acolhem sistematicamente com simpatia todas as posições políticas sufragadas pelo Bloco de Esquerda, bem como a forma odienta como tratam todos aqueles que divergem daquelas; portanto, caro Claque, não se admire que muita gente, perante este panorama, deixe voluntariamente de ler estes jornais, autênticos órgãos de propaganda política disfarçados de meios de comunicação social, procurando antes fontes de informação alternativas.

JSarto
 
Caro Clark,

Independentemente da sua visão credível, continuo a considerar que não há actualmente em Portugal um tipo de revista com a qualidade editorial da revista do El Pais, publicada ao domingo. Opinião de leitora bilingue....
:)
 
Objectiva: ninguém estava a falar de revistas. Só de jornais. E, embora eu ache que a revista do El País não é má, a do Expresso, no seu tempo, era bem melhor. Qual é diferença entre um produto bom e um outro menos interessante? Ideias e prossecução de ideias. Como é que isso se faz? Com inteligência e com meios. O que é que falta entre nós? Ambas.
 
Por acaso, uma vez um assessor de imprensa espanhol disse-me que os jornalistas portugueses são uns bárbaros!... Eu que às vezes também acho o mesmo :)fiquei cheia de nervos e disse-lhe que isto era uma República! :))) Seja como for, eu invejo muito a vida aqui ao lado... Ó se invejo!
 
AS: li com razoável atraso o seu comentário. Não tenha dúvidas: os jornalistas portugueses, em média, são bem melhores que os espanhóis, e os assessores de imprensa portugueses são CINQUENTA VEZES melhores que os espanhóis. Quem lhe disser o contrário que conte a experiência que teve.
 
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