quarta-feira, dezembro 1

O momento político

Vamos lá a ver: quando Aníbal Cavaco Silva defende que «é preciso voltar a pôr no Governo os políticos competentes e tirar de lá os incompetentes»; quando, dois ou três dias depois, na sequência da queda do Governo, Miguel Veiga – esse ariete do liberalismo formal, da social-democracia à moda antiga, livre pensador da aristocracia portuense – vem dizer que Santana Lopes já não tem condições para disputar eleições como presidente do PSD; quando, enfim, estas duas coisas se conjugam, que dizer?

Esperar por amanhã seria certamente mais avisado em matéria de análise, porque se calhar vai haver mais matéria para reflexão. Mas escrever a quente tem o seu quê de sedutor. Como não tenho responsabilidades na matéria, nem gosto de ser confundido com «analistas» que ontem diziam que era natural que Sampaio desvalorizasse a questão da demissão de um ministro - os mesmos que hoje vêm dizer que é natural que Sampaio demita o Governo -, aqui vão algumas ideias:

- Pode o PSD, depois de quatro meses de Governo (deste Governo), continuar a apostar em Pedro Santana Lopes para primeiro-ministro, num quadro de eleições antecipadas? A minha resposta é que não deve, mas se calhar não pode fazer outra coisa. É duvidoso, embora desejável, que o PSD tenha capacidade, hoje em dia, para montar um Congresso Extraordinário que permita, em tempo útil, pôr em causa a liderança. É que o mais provável é que as eleições ocorram lá para o final de Fevereiro, e afirmar uma liderança entretanto é difícil.

- Na linha descrita, a única hipótese viável é arranjar uma liderança que não precise de se afirmar, porque vale por si, ou seja, pelas provas já dadas. Não conheço ninguém no activo da causa pública que melhor encarne este papel dramático do que Miguel Cadilhe.

- O contraponto entre José Sócrates e Santana Lopes é escasso, toda a gente o disse e eu concordo. Qual é a diferença? Um já «provou» que não é capaz, o outro tem o benefício de tudo o que é novo, sendo que em termos de track record a sua actuação no Governo de António Guterres foi globalmente positiva. Nesta comparação algo mimética com o autarca interrompido, Sócrates é, actualmente, um primus inter pares.

- O tão propalado instinto de sobrevivência do PSD (e, já agora, de noção de serviço às causas em que ainda vai acreditando) poderá dar-lhe um fôlego inesperado para umas eleições que já estão no horizonte curto. Como disse, a aposta em Santana Lopes é errada. Resultará (resultaria) num «banho» eleitoral ao partido laranja. Não creio que estejam preparados para isso. Vão falar com Miguel Cadilhe. Assim este aceite.

- Marques Mendes é outra hipótese. Não é eleitoralmente credível, o que não é a mesma coisa que não ser credível.

(.......)

- Apesar da análise da situação política tout court, este bloguer não se esquece - jamais - de que o que interessa a uma sociedade organizada em Nação, País, seja o que for, é ter à frente dos destinos da causa pública quem por eles olhe, mais do que se olhe a si mesmo. Deste ponto de vista, para mim é indiferente saber se é o partido 'A' ou o partido 'B' (ou, já agora, o 'C' que não há) a tomar conta dos destinos da comunidade em geral. Aqui só se quer uma coisa, cada vez mais utópica: que a gente boa ascenda aos mais altos cargos da Nação. Palavra de honra, palavra de Homem.


5 Comments:

Acho que o Cadilhe vai convidar para o governo o "Sisa" Vieira...

By Blogger Bruno Santos, at dezembro 01, 2004  

Achas mesmos que os "bons" vão encher-se de patriotismo e meter-se na política? Eu gostava de acreditar, mas realmente não acredito (sinal de que essa gente talvez não seja tão boa como isso). Mas enquanto há vida há esperança... O que tenho para mim certo é que não será da partidocracia que os "bons" vão sair.
Não há "gente boa" que medre no meio da cloaca partidocrática. São realidades incompatíveis.
Ou seja, que fazer com os partidos? Não se podem jogar fora? Se calhar não... (suspiro!)

By Blogger PluribusUnum, at dezembro 01, 2004  

Gostei da do "Sisa" Vieira... saia mais um ponto para o BOS lá nos Óscares, ó Quelarque...!

By Blogger PluribusUnum, at dezembro 01, 2004  

O BOS divaga entre a iconoclastia com rumo e a seriedade sem nexo. É futurista e tudo!
Mas não tenhas medo, ó Pluribus, o teu nome diz tudo: mesmo na noite mais fria, a Águia perdura!
Acreditemos...

By Blogger clark59, at dezembro 01, 2004  

Soltíssimas: O PSD quer que o PSL se enterre de vez mais o seu PPD. O PSL vai concorrer (ele delira com campanhas eleitorais!) e perder. O PSL pode até voltar à CML... O PSL ainda não esqueceu as presidenciais (estará escrito nas estrelas que ele anda a ver?). O PSL é daqueles que ficará sempre mal enterrado.

By Blogger AS, at dezembro 01, 2004  

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Comments:
Acho que o Cadilhe vai convidar para o governo o "Sisa" Vieira...
 
Achas mesmos que os "bons" vão encher-se de patriotismo e meter-se na política? Eu gostava de acreditar, mas realmente não acredito (sinal de que essa gente talvez não seja tão boa como isso). Mas enquanto há vida há esperança... O que tenho para mim certo é que não será da partidocracia que os "bons" vão sair.
Não há "gente boa" que medre no meio da cloaca partidocrática. São realidades incompatíveis.
Ou seja, que fazer com os partidos? Não se podem jogar fora? Se calhar não... (suspiro!)
 
Gostei da do "Sisa" Vieira... saia mais um ponto para o BOS lá nos Óscares, ó Quelarque...!
 
O BOS divaga entre a iconoclastia com rumo e a seriedade sem nexo. É futurista e tudo!
Mas não tenhas medo, ó Pluribus, o teu nome diz tudo: mesmo na noite mais fria, a Águia perdura!
Acreditemos...
 
Soltíssimas: O PSD quer que o PSL se enterre de vez mais o seu PPD. O PSL vai concorrer (ele delira com campanhas eleitorais!) e perder. O PSL pode até voltar à CML... O PSL ainda não esqueceu as presidenciais (estará escrito nas estrelas que ele anda a ver?). O PSL é daqueles que ficará sempre mal enterrado.
 
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