quarta-feira, dezembro 15

A minha assessoria

Vai para aí uma polémica desgraçada sobre um ex-assessor de Durão Barroso que agora faz notícias - e até entrevista ministros - no Diário Económico. Ora ainda bem, porque isto dá-me ocasião de falar no assunto.

Comecemos pelo problema pessoal. Conheço razoavelmente bem o David Dinis (é dele que se trata), e estou à vontade para dizer que quem lhe apontou o dedo dificilmente escolheria pior alvo. Trata-se de um tipo escorreito, afável e de boas ideias na cabeça, que enquanto jornalista mereceu a minha admiração; e que, enquanto assessor, fez um trabalho limpo.

O problema em geral. Sou de opinião de que não se deve 'saltar' directamente de um cargo de assessor ministerial (ou empresarial, já agora) para um posto de primeira linha num jornal de referência, como creio ser aquele onde o jornalista em causa trabalha. À falta de melhor (já lá vamos), creio que um 'período de nojo' é aconselhável. Aconteceu noutros casos em que, por exemplo, ex-assessores políticos ocuparam lugares nas secções de desporto ou cultura, ou foram mesmo fazer outras coisas (estudar, por exemplo) antes de voltarem às Redacções. Andou pouco avisado, neste aspecto, o referido jornalista e a sua super-estrutura.

O problema de fundo. Em Portugal não existe uma carreira de assessor político de Comunicação ou de Imprensa. Os Governos, quando tomam posse, têm uma de duas opções: ou contratam jornalistas (o mais usual) ou fazem um outsourcing com empresas do sector, que lá colocam um dos seus funcionários. Estes últimos, normalmente, estão mais vocacionados para a assessoria de empresas, e por isso nem sempre têm sensibilidade para um cargo político. Se houvesse uma carreira de assessor, muitas pessoas (eu conheço algumas) optariam por essa profissão e escusavam os Governos de andar à cata de jornalistas para lhes fazerem o serviço.

O problema lateral. Acontece que, na maior parte das vezes, os jornalistas transformados em assessores de Imprensa de Governos são pessoas ainda numa fase média da sua vida profissional, tendo que, após serem despedidos (é o termo), voltar a ganhar o pão de cada dia como podem e sabem. Normalmente, regressam às Redacções. Há casos dramáticos de pessoas que não souberam acautelar 'lugares de recuo' e que ficam desempregadas durante períodos longos depois de saírem do Governo. Não lhes gabo a sorte.

O pior problema. Para além da discussão salutar sobre este tema, há outro, mais nojento, que importa abordar. Pior (muito pior) que ver um assessor político voltar aos quadros de uma Redacção, é ver aqueles que usam o jornalismo para fazer grandes fretes a políticos, empresários, causas religiosas, desportivas ou sociais. Esses é que são de fugir, esses é que estragam o bom nome da profissão, esses é que afastam os leitores, os ouvintes, os espectadores. Mas a esses é mais difícil apontar o dedo.

O problema ético. Na fúria regulamentadora que abalou os últimos dois séculos, alguém se esqueceu do essencial. E o essencial não é proibir, é ter uma educação que leve as pessoas a fazer bem feito e a afastar da sua mente caminhos ínvios para atingir fins dúbios. Muito obrigado desde já a quem me chamar utópico, mas prefiro isso ao mais cinzento positivismo.

Um outro problema. No Causa Nossa, vi que um leitor do honorável blogue denunciava que há jornalistas de Economia que têm acções de empresas sobre as quais escrevem. É capaz de ser verdade, mas convinha não lançar loas à toa. O leitor conhece algum? Eu não, e posso acrescentar que na classe são muitas as vozes que dizem que isso devia ser proibido. Eu sou a favor de que seja proibido.

E é tudo.

3 Comments:

Pois é! Mas e como se impede que um Grupo seja detentor de acções?... É que são eles que mandam nos jornalistas!
Basta ver as notícias da SIC acerca da Impresa, ou da TVI acerca da MediaCapital... E a forma como qualquer delas casca no sector público! E como rejubilam cada vez que a RTP se afasta dos seus alvos (futebol, novelas brasileiras)...
Ainda este ano a RTP ofereceu à TVI, devido a pressões internas, o negócio mais lucrativo da TV em Portugal, o Futebol.
Isso também afecta a cotação de um grupo...

Não há grande solução para o problema! Mas o dito mercado livre é a solução de animais...

Ainda assim, um artigo muito interessante...

By Blogger O Corcunda, at dezembro 15, 2004  

Pois eu não estou nada de acordo. Se assim fosse, também teriamos que explicar aos leitores em que partido votamos, que clube de futebol apoiamos, que religião professamos e por aí adiante, numa tentação que atrapalha devassa com transparência. A.F.S.

By Anonymous Anónimo, at dezembro 16, 2004  

Ui, ui... Havia tanta coisa a dizer sobre isto... Mas não temos tempo. :)

By Blogger AS, at dezembro 17, 2004  

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Comments:
Pois é! Mas e como se impede que um Grupo seja detentor de acções?... É que são eles que mandam nos jornalistas!
Basta ver as notícias da SIC acerca da Impresa, ou da TVI acerca da MediaCapital... E a forma como qualquer delas casca no sector público! E como rejubilam cada vez que a RTP se afasta dos seus alvos (futebol, novelas brasileiras)...
Ainda este ano a RTP ofereceu à TVI, devido a pressões internas, o negócio mais lucrativo da TV em Portugal, o Futebol.
Isso também afecta a cotação de um grupo...

Não há grande solução para o problema! Mas o dito mercado livre é a solução de animais...

Ainda assim, um artigo muito interessante...
 
Pois eu não estou nada de acordo. Se assim fosse, também teriamos que explicar aos leitores em que partido votamos, que clube de futebol apoiamos, que religião professamos e por aí adiante, numa tentação que atrapalha devassa com transparência. A.F.S.
 
Ui, ui... Havia tanta coisa a dizer sobre isto... Mas não temos tempo. :)
 
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