quarta-feira, dezembro 8

Is it fair?



Há poucos personagens na história da ficção do século XX que me tenham marcado mais do que Henry Higgins, de ‘My Fair Lady’. Misógino integral mas íntegro, esteta experimentalista, foi mais além que Pigmaleão e pôs uma florista tonta, mas sensível, a falar inglês correcto. Convenhamos que é mais fácil que pôr a falar, tout court, uma estátua. Mas ainda assim é obra.

O que mais me interessa em Higgins é que ele é a demonstração fáctica, contada através de uma ficção realista, da capacidade que as mulheres têm de se apaixonar por fulanos que, à partida, de sedutores nada têm. Higgins é a anti-prova de um Romeu shakespeariano, e está mesmo longe de um menos atraente, mas igualmente romântico, Cyrano de Bérgerac.

Em Higgins, o facto de a amada ser uma sopeira não é relevante. O que me interessa é como o coração aparentemente empedernido de um homem de high-class e de meia idade pode dar por bem gasto o seu tempo a pôr uma menina a ser gente. Ou seja, é a óptica do professor perante a aluna adolescente, com toda a lascívia daí decorrente. E que, como se sabe, a mais das vezes tem correspondência.

Higgins dá-me uma vontade expoente de perceber as mulheres. Se um asceta daqueles é capaz de despertar corações, como entender por exemplo quando somos rejeitados – e íamos jurar que tal não aconteceria – ou as vezes em que somos assediados, sem que razão se vislumbre para tal?

Acho que vou perguntar ao Manuel Maria Carrilho.

1 Comments:

fairy limão ou fairy maçã?
e não estraga as unhas.

By Anonymous Anónimo, at dezembro 11, 2004  

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Comments:
fairy limão ou fairy maçã?
e não estraga as unhas.
 
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