domingo, dezembro 12

A crise

O Libelinha chegou esbaforido. A coisa devia ser séria, porque ele nem sequer se abarbatou ao jantar, facto inédito no personagem. Cravou-me um cigarro (ok, está a ficar normal), bebeu meia cerveja de um gole e disparou:

- Já sabes que o Morais Sarmento não vai para primeiro-ministro!?
- O quê ??
- Tu ouviste, não te faças de parvo.
- É pá, sei disso como sei que a Maria José Ritta não vai ser starlet do próximo filme do James Bond. Qual é a novidade?
- Ah, mas esteve para ser!
- Quem, a Zezinha?
- Ai a porca nas ervilhas… Não, o Sarmento!
- Ai sim? Apesar de tudo prefiro a Maria José…
- Se continuas a desconversar vou-me embora!
- Desculpa, não pude evitar a paródia. Conta lá, se não rebentas.

(O Libelinha deu outro gole na cerveja e apagou o cigarro. Pose séria)

- O Santana estava para sair do Governo e nomear para primeiro-ministro interino, ou coisa que o valha, um acólito qualquer.
- Como é que isso é possível?
- A Constituição é um bocado omissa em relação a governos de gestão. O gajo – o Santana – percebeu que se ficasse no Governo tinha uma desvantagem em relação ao Sócrates, que está sem fazer nenhum e teria todo o tempo do Mundo para a campanha eleitoral.
- Mas não há vantagens em estar no Governo quando há campanha? Sempre ouvi dizer isso.
- Isso é verdade se puderes fazer tudo o que queres. Ora isso não acontece agora com o Santana, que é chefe de um Governo de gestão, o qual não pode tomar medidas de fundo. Vai daí, o magano achou que o melhor era deixar aquilo a um subordinado, e ele partia com total liberdade para a campanha.
- Não é mal pensado. E não fez isso porquê?

(Aqui o Libelinha adoptou aquela pose, que já lhe conheço, de quem vai revelar o terceiro segredo de Fátima a beber ginjas no Rossio)

- Porque o Portas não deixou!
- Como é que é?
- O Santana foi falar com o Portas e explicou-lhe a ideia. Sai do Governo, tem uma campanha eleitoral para preparar, deixa lá o Sarmento ou o Barreto a tratar dos assuntos administrativos, e pronto. Garante que tem um parecer de um gajo qualquer que percebe de Direito Constitucional a avalizar a coisa.
- Acredito. E qual era o papel do Portas?
- Ora aí é que está. Como o Santana e o Portas estavam a negociar concorrer coligados, o Pedrocas tentou convencer o Portas de que este não necessitava de sair do Governo, já que os deputados do CDS estariam garantidos à partida.
- Estou a ver…
- Estás a ver o caraças! O Portas pensou três segundos e mandou o Santana à merda. Então ia abdicar de apresentar as suas reivindicações, o seu programa eleitoral, enquanto o outro andava a fazer campanha?!
- Mas se concorrem juntos…
Não é bem assim. Primeiro o Santana e o Portas ainda não se tinham decidido a concorrer juntos ou separados. E depois, mesmo que fossem juntos, o protagonismo era todo do Santana.
- Pois, imagino que isso para o Portas fosse inaceitável.
- É claro que era. Mas escuta: o Santana estava mesmo decidido a ir-se embora, disso não abdicava. Foi aí que o Portas deu a solução.
- A qual seja…
- A que tu ouviste há pouco nas televisões e nas rádios: demitem-se todos e o Sampaio que se aguente!
- Mas o Sampaio pode pedir-lhes que fiquem até às eleições…
- É o que consta. Mas assim já não há desculpa para que cada um faça o que quer ou, se for caso disso, que o Governo fique a marinar. Eles demitiram-se, estás a ver?...
- Mais ou menos.
- O que para ti já não é mau!

(Fiquei a pensar. Talvez o Libelinha tenha razão. Entretanto, o Sócrates estava a falar num comício em Castelo Branco. Fui ver, já que é provável que o gajo seja o próximo primeiro-ministro. Depois de o ouvir com atenção, lembrei-me que hoje é sábado, amanhã não trabalho, e que posso embebedar-me à vontade)

3 Comments:

Epá, esse teu Libelinha é um cusca do caraças, mas está ajoujado de palpites atinados... Também ouvi o Sócrates, na expectativa, e já me estou a preparar para o consabido prato de "mais do mesmo".
Não te importas que haja mais um para a bebedeira?... Um abraço.

By Blogger Jorge Castro (OrCa), at dezembro 12, 2004  

Pois o Libelinha quando me telefonou foi muito mais claro. O PSL queria deixar o boxeur ou o venerável Barreto à frente do Governo e dedicar-se à campanha, mas o PP - que vê mais largo a dormir do que o PSL depois de uma boleia na coca do boxeur - não esteve pelos ajustes e não o deixou sair. E para que a coisa não passasse despercebida, sublinhou-o na comunicação ao pais. "Fico no Governo só com este primeiro-ministro", disse.
À hora a que me telefonou o Libelinha ainda estava sóbrio. Se calhar quando falou contigo, ó Quelarque, já estaria com o discurso entaramelado pela borracheira a que se terá devotado de alma e coração depois de ouvir o Sócrates... Até a mim que sou abstémio, me apeteceu!

By Blogger PluribusUnum, at dezembro 12, 2004  

Nunca ouviste dizer que os pielas dizem coisas acertadas? É capaz de ter muita razão o teu amigo.
Quanto ao Sócrates... Pois! Se eu não fosse muçulmano e bebesse uns copos fazia-te companhia.

Um abração do
Zecatelhado

By Blogger antonio, at dezembro 12, 2004  

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Comments:
Epá, esse teu Libelinha é um cusca do caraças, mas está ajoujado de palpites atinados... Também ouvi o Sócrates, na expectativa, e já me estou a preparar para o consabido prato de "mais do mesmo".
Não te importas que haja mais um para a bebedeira?... Um abraço.
 
Pois o Libelinha quando me telefonou foi muito mais claro. O PSL queria deixar o boxeur ou o venerável Barreto à frente do Governo e dedicar-se à campanha, mas o PP - que vê mais largo a dormir do que o PSL depois de uma boleia na coca do boxeur - não esteve pelos ajustes e não o deixou sair. E para que a coisa não passasse despercebida, sublinhou-o na comunicação ao pais. "Fico no Governo só com este primeiro-ministro", disse.
À hora a que me telefonou o Libelinha ainda estava sóbrio. Se calhar quando falou contigo, ó Quelarque, já estaria com o discurso entaramelado pela borracheira a que se terá devotado de alma e coração depois de ouvir o Sócrates... Até a mim que sou abstémio, me apeteceu!
 
Nunca ouviste dizer que os pielas dizem coisas acertadas? É capaz de ter muita razão o teu amigo.
Quanto ao Sócrates... Pois! Se eu não fosse muçulmano e bebesse uns copos fazia-te companhia.

Um abração do
Zecatelhado
 
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