terça-feira, dezembro 21

As minhas tias


Eu costumo dizer que fui criado por uma criança presente e um velho ausente. Nada de remoques: os meus Pais cumpriram com lealdade as funções que lhes foram confiadas.

Quando a minha Mãe se casou, aí por volta dos 21 anos (como todas as meninas não feias nem desprovidas do tempo dela), não sabia cozinhar nem coser meias. Era natural: tratava-se da filha mais nova de uma família numerosa, onde as mulheres abundavam. A família da minha Mãe faz-me lembrar certos Conselhos de Administração dos tempos modernos: são tantos os membros que a alguns não sobra tarefa de monta.

Quando o meu pai se casou, aí por volta dos 44 anos (como todos os funcionários públicos pobres que Salazar deslocava de seis em seis meses), já sabia do pão o que o diabo amassou. Órfão desde os 13 anos, demorou a sujeitar-se a um Lar que nunca tinha tido. A família do meu Pai faz-me lembrar um franchising: todos seguem a mesma bitola, mas ninguém se conhece.

Deitado ao Mundo nesta combinação de influências, cedo me apercebi de uma realidade útil e doce chamada tias. A história reza histórias impublicáveis (não que eu seja púdico, mas sou reservado) da minha relação escatológica com a tia solteira, tinha eu dois meses de idade. E, logo após, o choro convulso em presença da tia freira, porque a minha fina veia de criador de moda não lhe apreciou o hábito. Ou ainda a taxa arreganhada perante os cozinhados da tia mais velha, que fazia a inveja da irmã mais nova, enfiando-me pela goela abaixo tudo o que lhe apetecia.

Durante a vida, adolescente ou adulto, tenho pelas tias uma adoração serena.

Neste Natal, elas já velhotas, vai para elas o meu pensamento. O meu pecado é não ter sido o menino de ouro que elas almejavam. O meu presente é ter sido mais que o valdevinos que a certa altura elas recearam.

Bom Natal, tias!

5 Comments:

Olha, lamento, mas as tias não saíram na foto (se é que a foto era das senhoras)...

By Blogger PluribusUnum, at dezembro 21, 2004  

:) O Clark agora fez-me lembrar "O Amor Feliz" do David Mourão Ferreira. (ele chegou alguma vez a ganhar o Pessoa?)

By Blogger AS, at dezembro 21, 2004  

Confesso que nunca li. Mas sei de cor que o David nunca ganhou o Pessoa

By Blogger clark59, at dezembro 21, 2004  

Leia. E é "Um amor feliz", não "o".

By Blogger AS, at dezembro 22, 2004  

Leia. E é "Um amor feliz", não "o".

By Blogger AS, at dezembro 22, 2004  

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Comments:
Olha, lamento, mas as tias não saíram na foto (se é que a foto era das senhoras)...
 
:) O Clark agora fez-me lembrar "O Amor Feliz" do David Mourão Ferreira. (ele chegou alguma vez a ganhar o Pessoa?)
 
Confesso que nunca li. Mas sei de cor que o David nunca ganhou o Pessoa
 
Leia. E é "Um amor feliz", não "o".
 
Leia. E é "Um amor feliz", não "o".
 
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