sexta-feira, dezembro 31

Um ano, não mais do que isso

Jornalismo:

Acto falhado

A ‘descolagem’ do Diário de Notícias

Diverti-me à brava

Com as palhaçadas da Clara Ferreira Alves

Renovado

Grande entrevista na RTP1, por Judite de Sousa

Abaixo de cão

O umbigo do José António Saraiva, o fígado do José António Saraiva, a cabeça do José António Saraiva

Cinco estrelas

A equipa de ‘empresas’ do Jornal de Negócios

Revelação

Tãnia Ferreira, 'Jornal de Negócios

Confirmação

Cátia Almeida, 'Diário de Notícias', e Paulo Figueiredo, 'Lusa'


Política:

Acto falhado

A credibilidade de Bagão Félix

Diverti-me à brava

Com as palermices de Rui Gomes da Silva

Renovado

Jerónimo de Sousa. É melhor que Carvalhas. Querem uma aposta?

Abaixo de cão

Pedro Santana Lopes. É difícil fazer pior.

Cinco estrelas

A estratégia de oposição de Francisco Louçã

Revelação

António Mexia, Governo

Confirmação

António Vitorino, PS


Futebol:

Acto falhado

A luta de Dias da Cunha contra o ‘sistema’

Diverti-me à brava

Com o Major Valentim Loureiro

Renovado

Gilberto Madaíl. O Euro-2004 deu-lhe novo fôlego

Abaixo de cão

A estratégia de Pinto da Costa para escapar ao ‘Apito Dourado’

Cinco estrelas

Cristiano Ronaldo no Manchester e Simão Sabrosa no Benfica

Revelação

José Couceiro, treinador

Confirmação

Antchouet, jogador do Belenenses


Humor:

Acto falhado

O 'Inimigo Público'. Eu sei que é difícil fazer humor quando a política é hilariante.

Diverti-me à brava

'Baby Blues'. Não começou a ser editado em 2004, mas vale a pena ler esta ainda pouco conhecida banda desenhada.

Renovado

'Levanta-te e Ri!'. Tem partes parvas, mas também tem demonstrações de grande talento.

Abaixo de cão

'Batanetes'. É preferível ver os anúncios do Sonasol.

Cinco estrelas

Bruno Nogueira

Revelação

Ricardo Araújo Pereira

Confirmação

Maria Rueff


Gajas:

Acto falhado

A promoção de Fátima Preto na ‘Quinta’

Diverti-me à brava

Com os estampanços da Pimpinha

Renovado

O nosso afecto por Catarina Furtado, agora que deixou o tonto do Gil

Abaixo de cão

As prestações públicas (felizmente poucas) de Leonor Silveira

Cinco estrelas

Sílvia Alberto, ‘a star for all seasons’

Revelação

Patrícia Candoso (que raio de apelido), a Sara do 'Morangos com Açúcar'

Confirmação

Bárbara Guimarães, sempre


Blogues:

Acto falhado

O ‘Claque Quente’ não passa das cem visitas diárias (e às vezes nem isso)

Diverti-me à brava

Com as discussões no 'SG Buíça' (grande lutador anti-fascista)

Renovado

O ‘Último Reduto’, sempre em cima da hora

Abaixo de cão

O 'Abrupto'. É bruto. Não vale a pena.

Cinco estrelas

A tenacidade ‘Do Portugal Profundo’

Revelação

'O Código de Santiago. O melhor que tentei 'descodificar' este ano.

Confirmação

'Baby Lónia', poeta. 'Nova Frente', esteta


Internacional:

Acto falhado

Colin Powell a combater falcões

Diverti-me à brava

Com as gravatas dos dirigentes chineses

Renovado

A luta do Rei Abdullah da Jordânia

Abaixo de cão

A Constituição Europeia. Não admito que me mintam.

Cinco estrelas

O eleitor espanhol. Não admite que lhe mintam.

Revelação

Michel Barnier, MNE francês, pela posição no caso dos jornalistas reféns no Iraque

Confirmação

Mario Monti, a mesma merda de sempre


Negócios:

Acto falhado

A reestruturação do sector energético em Portugal

Diverti-me à brava

Com a cara de Miguel Horta e Costa quando ‘descobriu’ que a Lusomundo era dele

Renovado

O ímpeto da Sonae

Abaixo de cão

A estratégia do Governo na Portucel

Cinco estrelas

A força da AutoEuropa

Revelação

A capacidade de ressurreição da Reditus

Confirmação

O papel da Inapa é dos melhores do Mundo


Vários:

Acto falhado

O regresso do desporto automóvel português ao mapa mundial

Diverti-me à brava

Com as discussões 'sérias' à volta de uma coisa inútil e bem escrita chamada 'O Código Da Vinci'

Renovado

A força da música portuguesa

Abaixo de cão

A confusão entre mentira e verdade no processo 'Casa Pia'

Cinco estrelas

A atitude dos portugueses durante o Euro-2004

Revelação

O filho de João Moura a tourear

Confirmação

Dionísio Pestana e Jorge Almeida Ribeiro, no sector do turismo

......

Atitude certa:

Um grande 2005 para todos!!

quinta-feira, dezembro 30

A vida das mulheres de hoje



Confesso que poucas vezes na vida tive tanta dificuldade em expressar o que penso. A sensação é ainda pior porque se trata de mulheres, já que eu tenho a mania que, em se tratando de mulheres, o ‘expert’ mora cá em casa.

Então vou começar pelo princípio.

Pertenço à terceira geração de um fenómeno que, lato sensu, ficou conhecido como ‘libertação das mulheres’. Em termos hermenêuticos, uma libertação é uma mudança. Ou seja, uma partida rumo ao desconhecido.

A primeira geração de mulheres ‘livres’ (a malta que tem agora sessenta e tantos) foi aquela ‘pura e dura’ que se desassociou dos tachos e da esfregona, dos chás de caridade e da Conferência de São Vicente de Paula. É preciso que se diga que teve coragem. E mais: fazia todo o sentido que assim fosse feito.

A segunda (anda agora nos cinquenta) começou a fazer sexo antes do casamento, entrou para a Faculdade de Direito ou de Medicina, divorciou-se ao fim de dez anos de vida em comum. Sofreu os efeitos daquelas pílulas da treta.

A terceira (a minha) é mais complicada. Ascendeu a postos de comando (coisa para a qual não estava preparada), pôde ir à tropa, não raras vezes ganha tanto ou mais que o marido, deixou de ter filhos em idade sensata.

Até aqui tudo bem, ou quase.

O pior é a quarta geração (a que tem agora trinta e tantos). As mulheres deste tempo estão a perceber o logro em que as suas antepassadas próximas as meteram. Deram-lhes o Mundo mas tiraram-lhes a maternidade. Deram-lhes independência económica mas tiraram-lhes a sensibilidade para as obras de voluntariado. Deram-lhes o comando mas tiraram-lhes tempo para tratar da casa. Ou – pior – deram-lhes tudo e não lhes ‘tiraram’ nada, o que inevitavelmente lhes trouxe esgotamentos. A 'Super-Mulher', tal como o 'Super-Homem', é uma personagem de ficção.

As mulheres desta geração estão fartas de uma liberdade ‘masculinizada’ que não lhes diz pêvea. Porque no fundo o Mundo não mudou, elas apenas passaram a ter acesso a um universo que era só deles. O estereótipo da mulher que fuma e usa calças (tão referido nos anos cinquenta e sessenta) não lhes assenta. Elas querem uma outra coisa e, já agora, querem também recuperar o que perderam no caminho.

Cada vez conheço mais jovens (à minha beira são jovens) que menosprezam o trabalho e que gostariam de ter tempo para os filhos e para fazer o Bem. A expressão ‘se o meu marido ganhasse o suficiente eu ia já hoje para casa’ é cada vez mais audível. As mulheres estão a deixar de sussurrar a evidência e, saudavelmente, já não têm vergonha disso. Chegadas a um tempo em que a escolha é possível, querem escolher ser mulheres outra vez.

Quem é que não as está a deixar seguir o seu caminho? Não será isto um novo machismo? Eu vejo as mulheres que querem ser Mães e donas-de-casa terem tantas dificuldades em conseguir atingir esse objectivo como as que há cinquenta anos queriam trabalhar ao lado dos homens.

As mudanças, entre as quais se inclui a liberdade, têm destas coisas.

quarta-feira, dezembro 29

Carta a meu Pai

Já olhaste bem para este ano? Que coisa…

Não sei se reparaste, mas há uma notícia, entre todas, que me deixou um bocado ‘murcho’. Então não é que a maior parte dos laboratórios farmacêuticos não faz investigação sobre antibióticos há quase trinta anos?

Claro que esta não é a notícia do ano. Lá onde eu trabalho discutiu-se se a ‘melhor’ seria a indigitação de Durão Barroso para a Comissão Europeia, ou a vitória esmagadora de Bush sobre a senhora do ketchup, ou a interrupção da circulação ferroviária em Madrid a 11 de Março, ou até a morte de turistas europeus numas praias da Ásia (se fossem só asiáticos não era noticia). Até houve quem aventasse que a notícia do ano era o chumbo de Bruxelas à reestruturação do sector energético português ou a vitória do teu Belenenses sobre o meu Benfica, num dia aziago e anti-patriótico. Está visto, há gente para tudo.

Mas lá que este ano foi esquisito, foi.

Não que outros, anteriormente, não o tenham sido. Lembras-te, certamente, de quando a tua Mãe (a avó Deolinda) te andou a pôr abafos para que não apanhasses a pneumónica. Lembras-te (tenho a certeza) de quando Mussolini tomou o poder em Itália, e de como muitos jovens do teu tempo acharam isso ‘baril’ (confesso que não conheço a palavra similar e diacrónica). Lembras-te quando Salazar abriu concurso para as Finanças e ficaste em primeiro lugar, a nível nacional. Lembras-te, sem dúvida, do dia em que Patton deu a volta à história e começaste a duvidar das tuas certezas ideológicas (tu contaste-me). Lembras-te quando te preparavas para votar Delgado, na Figueira da Foz onde então vivias, e subitamente percebeste que os ‘papéis’ do Tomás eram diferentes, pelo que facilmente o voto se tornaria não secreto? Lembras-te de quando fui à tropa, e choraste, mas logo depois percebeste que um filho nem sempre é a imagem do Pai?

E, apesar de tudo isto, este ano que agora acaba é esquisito. Por exemplo, escrevo-te na blogosfera, uma coisa nova de que não fazes ideia, mas que te juro ser muito mais avançada do que o fax que te expliquei há anos atrás. Tu, que foste dos primeiros portugueses a usar um computador, devias ser menos ingénuo e relapso sobre o andamento da tecnologia.

Neste ano começou a vulgarizar-se a fotografia a partir de um telemóvel, a ‘blind date’ a partir do Messenger, a baixa de um mês quando a doença só implica uma paragem de três semanas e as intervenções estéticas em mulheres de menos de trinta anos.

Eu sei que não dá para acreditar. Mas é verdade. Como também é verdade que a Grécia ganhou o Campeonato da Europa, o Zé Castelo Branco não é paneleiro, o Pina Moura é presidente da Iberdrola e o Mário Cláudio ganhou o Prémio Pessoa.

Que é que queres? Foi um ano esquisito…

Passa bem.

terça-feira, dezembro 28

Aniversário



Faz amanhã 140 anos que Eduardo Coelho & Ca. resolveram publicar um jornal. Um jornal com causas, com opinião, com seriedade. A par de 'O Século' foi, durante décadas, o único órgão de informação credível de Lisboa ('O Primeiro de Janeiro', do Porto, era-lhe superior em alguns aspectos, mas não na credibilidade e na actualidade).
Depois passou a ser do povo, ou, melhor dizendo, do Estado. Descambou. Mas sobreviveu, ao contrário do seu concorrente de sempre. Depois ainda foi vendido a quem (não) de direito. Atravessa uma fase difícil.

Há aí alguém que queira matar um 'velho'?

PS - O primeiro desmentido com honras de primeira página no DN foi da autoria de... Adolf Hitler, que não gostou da maneira como António Ferro, jornalista da casa, deu à estampa uma entrevista com o 'fuhrer' (caixa baixa de propósito).

PS2 - O estagiário José Maria Eça de Queirós (um calaceiro de todo o tamanho) foi admitido como colaborador, primeiro, e correspondente, depois.

PS3- Quando Augusto de Castro, na ante-sala de Madame Campos, inventou as 'Construções na Areia', rezam as crónicas nunca escritas que....

PS4 - A merda é uma coisa que se espalha. Hoje em dia, é função dos profissionais do DN fazer os possíveis para que a mesma não atafulhe a história.

quinta-feira, dezembro 23

Natal de 45 (Jorge de Sena)



Toca a silêncio o clarim no silêncio já feito
do quartel que dorme. Como é fria a noite
e prolongada ao mais fundo, fundo da treva
por estas notas lentas, sossegadas, graves.
A noite é igual às outras, e o clarim que toca
repete com variantes os clarins do Mundo.
Toca a silêncio pela Terra, longe, do outro lado...
E há homens que dormem sonhando com a Paz,
que chegou desconhecida e pálida. Quem dorme
acordado ouvindo os clarins tocar? -
- a silêncio na noite de Natal, que passa
igual a tantas, desde que há Natal?...
e a guerra continua, continua sempre.
Ah, nunca, nunca a guerra acaba!
Morrem oprimidos povos e povos,
crentes de uma paz,
da mesma prometida outrora e por penhor rasgada.
Morrem os homens quando a sonham mais!
E os que a não sonham, e os que não a sabem
e morrem, já da paz, e não serão lembrados
sob um nome comum, com monumentos e festas.
Mortos da paz! Anónimos! Perdidos!
Não dareis
um feriado às crianças que da escola
sairiam correndo, ignorando até
que poderiam estar com elas vossos filhos,
se os tivésseis tido.

Toca a silêncio, ó clarim do Mundo!
Toca a silêncio, agora, manda adormecer
esta humanidade frenética de saber que existe.
Manda que durma e sonhe de si própria
a existência que sabe e que não tem!
Toca a silêncio, ó clarim do Mundo!
E na alvorada, quando na alvorada
acordarem todos para mais um dia,
não toques para todos nunca mais!
Acorda apenas os que não viveram
os banidos, os perseguidos, os traídos, os infames,
os que te ouviram sempre com o desejo nas mãos,
os mortos juvenis, os mártires de todos os tempos,
de todas as guerras, de todos os tratados
- e chama-os para que vejam com os seus próprios olhos
a Terra imensa: era tão grande a Terra!
E depois, logo depois, na noite extrema
que os abrigará materna em pleno dia
- toca de novo a silêncio, ó clarim do Mundo!
É silêncio o que eles pedem, só silêncio, mais nada.

quarta-feira, dezembro 22

Prenda



Na tradição cristã, o ofertório natalício é lei. Basta lembrar os Reis Magos.

Dito isto, muitas prendas fogem do consenso e outras batem na mouche. Falarei destas. Falarei de uma.

Aos anos que passo na vida, não tenho dúvidas em afirmar quais os países a que não me importava de pertencer, se português não fosse. Suécia, Canadá e Austrália são os meus preferidos.

Acontece que os meus amigos da Embaixada do Canadá em Lisboa se lembraram de mim e me mandaram uma prenda. Porque terão eles feito isso? Porque os bajulei? Porque lhes fiz fretes? Nada disso, disso não sou capaz e parece-me que não era disso que eles estavam à espera. Arrisco que será porque os tratei bem, de modo profissional, que é como eles gostam. Durante o ano que passou, tivemos com o Canadá várias hipóteses de negócio, para já não falar do bacalhau, que é recorrente. Eu estive em todas. Eles lembraram-se de mim.

Escusado será dizer que mantenho relações profissionais com variados países. Mas o Canadá é diferente. São afáveis, são profissionais.

Por isso não recuso um CD da Diana Krall que eles me mandaram em primeira mão.

terça-feira, dezembro 21

As minhas tias


Eu costumo dizer que fui criado por uma criança presente e um velho ausente. Nada de remoques: os meus Pais cumpriram com lealdade as funções que lhes foram confiadas.

Quando a minha Mãe se casou, aí por volta dos 21 anos (como todas as meninas não feias nem desprovidas do tempo dela), não sabia cozinhar nem coser meias. Era natural: tratava-se da filha mais nova de uma família numerosa, onde as mulheres abundavam. A família da minha Mãe faz-me lembrar certos Conselhos de Administração dos tempos modernos: são tantos os membros que a alguns não sobra tarefa de monta.

Quando o meu pai se casou, aí por volta dos 44 anos (como todos os funcionários públicos pobres que Salazar deslocava de seis em seis meses), já sabia do pão o que o diabo amassou. Órfão desde os 13 anos, demorou a sujeitar-se a um Lar que nunca tinha tido. A família do meu Pai faz-me lembrar um franchising: todos seguem a mesma bitola, mas ninguém se conhece.

Deitado ao Mundo nesta combinação de influências, cedo me apercebi de uma realidade útil e doce chamada tias. A história reza histórias impublicáveis (não que eu seja púdico, mas sou reservado) da minha relação escatológica com a tia solteira, tinha eu dois meses de idade. E, logo após, o choro convulso em presença da tia freira, porque a minha fina veia de criador de moda não lhe apreciou o hábito. Ou ainda a taxa arreganhada perante os cozinhados da tia mais velha, que fazia a inveja da irmã mais nova, enfiando-me pela goela abaixo tudo o que lhe apetecia.

Durante a vida, adolescente ou adulto, tenho pelas tias uma adoração serena.

Neste Natal, elas já velhotas, vai para elas o meu pensamento. O meu pecado é não ter sido o menino de ouro que elas almejavam. O meu presente é ter sido mais que o valdevinos que a certa altura elas recearam.

Bom Natal, tias!

Em memória de Macau



Faz agora cinco anos que Macau passou para a tutela de uma das mais fedorentas (é o termo apropriado) ditaduras da história recente da Humanidade. Raras vezes ponho gravata preta fora de ocorrências fatais que envolvam familiares ou amigos chegados. As excepções ocorreram sempre quando senti que a História regredia em vez de avançar. Uma delas foi, sem dúvida, a passagem de Macau para a ditadura 'esclarecida' de Pequim.

Mesmo os mais racistas dos meus leitores (que os há) sabem que não tenho qualquer complexo na minha xenofobia. Não gosto de croatas. Gosto de sérvios. Não gosto de italianos. Gosto de suecos. Não gosto de neo-zelandeses. Gosto de australianos. Não gosto do Zimbabwé. Gosto da Namíbia. E aí por diante.

Tenho pela história da China o maior dos respeitos. Eu deveria dizer: pela história das Chinas, continente imenso com raças e culturas diversas, que erradamente tantas vezes embrulhamos numa amálgama que não existe. Mas a China dos últimos (pelo menos) 150 anos não me diz nada. Comparadas com a China, por exemplo, as ditaduras comunistas do Leste europeu e de Cuba são hilariantes histórias de meninos de coro.

Ter consentido, no seguimento da 'política do possível' mais torpe de que há memória, que Macau voltasse a integrar a China, eis um dos pecados mortais do Portugal de hoje.

Que Alguém nos perdoe!

Pois

Há bocado fui ler o Abrupto.
Não diz lá nada.
É o costume.
Já passou o milhão de visitas.

segunda-feira, dezembro 20

Pior é possível

O mais fundamentalista dos não-fumadores sabe o que é que aconteceu nos aviões quando se tornou proibido fumar: as companhias de aviação juntaram uns 'trocos' à sua conta de exploração, já que em vez de renovarem o ar da cabine de 9 em 9 minutos passaram a fazê-lo de 30 em 30. Resultado: ninguém respira o fumo dos outros (que aliás iam sempre sentadinhos lá atrás, para não incomodar) mas é muito mais fácil apanhar um vírus mortal que se propague pelo ar, no caso de um passageiro ser dele portador.

Ok, toda a gente sabe disto.

No sítio onde o Libelinha trabalha - um open space - a Administração anda a prometer há três anos que vai fazer obras. O ar é pouco menos que irrespirável, já que as condutas do ar condicionado são velhas e a maior parte das janelas não abre. É nestas condições impróprias de gado que trabalham muito portugueses.

Mas, como somos todos muito civilizados, os colegas do Libelinha resolveram fazer um referendo para proibir o fumo na tal sala onde ele trabalha. Como o número de fumadores lá no emprego do Libelinha é diminuto, o resultado foi estrondoso, a favor da proibição de fumar. É claro que a Administração não fez as obras, é claro que não foi cumprida a promessa de arranjar um espaço para os fumadores. Proibir é a mais fácil das decisões, agora ou há 3000 ano atrás.

Mas o melhor ainda estava para vir. Mal passou a ser proibido fumar lá no emprego do Libelinha, alguém decidiu (?) fechar o que restava do ar condicionado, para poupar uns 'trocos'. E o ar, agora, está pior que nunca.

A Inter Seca

Acontece que fui ao conto do vigário. Julgava que, tantos anos depois da 'CEE', já não havia lugar entre nós para tentativas foleiras de extorquir mesada ao cidadão comum - e muito menos ao incomum, que é o meu desenho específico.

Acontece que, um dia destes, me telefonaram de um operador turístico de classe mundial (eu conhecia o nome) para me oferecerem uma estadia à borla, num sítio qualquer, desde que eu adivinhasse a resposta a uma pergunta tola que eles me fariam de imediato. Adivinhei.

Depois de me darem os parabéns, fui de imediato dizendo quem era e que, se se tratasse de vendas agressivas ou quejandas, o melhor era os camaradas tirarem o cavalinho da chuva, já que eu conhecia de gingeira o truque. Disserem-me que não, isso era do tempo passado, também eles tinham sido vítimas de semelhantes práticas, etc..

Num belo fim-de-semana lá fui eu buscar o 'prémio'. É preciso que se diga que nem sequer faço parte daquele núcleo de 'antes quebrar que torcer' que nem quer ouvir uma boa história contada por um vendedor autorizado. Eu sou daqueles que, se bem 'trabalhado', até compro. Aprecio vendedores, acho fascinante como é que uma pessoa põe outra a comprar serviços sobre os quais não estaria à partida interessada.

A questão não é essa. Neste caso, a excepcional vendedora (era mesmo, coitada da senhora) começou por pôr em prática uma táctica que já não se usa. Eu fiz-lhe lembrar que sabia mais daquilo a dormir que ela acordada. Mas, seja por inerência ou fome (também existe), ditadura do sistema de vendas apreeendido ou pura indigência táctica, a menina foi bufando o que tinha para bufar, sem olhar ao cliente específico que tinha em fente. Complacentemente, fui-lhe dizendo que conhecia mais países do que o que ela tinha para oferecer, dica que não a fez recuar um milímetro no 'patuá' que era suposto debitar.

Quando chegou à fase de me referir a oferta turística 'strito sensu', começou a ser-
-me mais difícil não dar nalgadas na quejanda. Entre destinos ´óbvios' (Paris, Londres, Nova York) e foleiradas 'básicas' (Punta Canas, Varadero, Porto Galinhas, Ilhas Seychelles, Palma de Maiorca), o plausível cliente deitou as mãos à goela. Só não vomitou por elegância.

Mas nem foi por aí que as molas do sofá me puseram fora da sala onde (mal instalados) nos encontrávamos, eu e a F.. O pior foi depois. Instada a revelar que raio tinha eu de pagar para ganhar a tal estadia de fim-de-emaanma à borla, a menina ia protelando. Eis senão quando aparece o palhaço-mor da função.

O chefe da agência - dele se trata - queria, como já era óbvio, que eu me tornasse sócio de um clube de férias privado que ele representa. Até aí tudo bem, embora já me cheirasse mal o esquema de angariação. O 'turning point' - que eu vinha pedindo há minutos - foi o preço estipulado para a pertença. «Noutro dia qualquer, a jóia do clube seria de 9.000 euros, mas hoje, como se trata de uma promoção, são apenas 4.440 euros».

Dei um salto e esfreguei os olhos. O sujeito queria que eu tomasse uma decisão breve de lhe passar para a conta cerca de 900 contos. «São só 125 euros por mês até perfazer a quantia global», dizia o estrôncio. Não conheço ninguém capaz de fazer semelhante asneira, e disso lhe dei conta. O gajo não gostou, referindo (de uma maneira mal educada) que não compreendia a minha atitude. Mandei-o, como é óbvio, apanhar no cu, saindo de imediato do estaminé onde me encontrava, e borrifando-me messmo para a promoção que lá me tinha levado.

Moral da história: esta gente, afinal, ainda existe. A empresa chama-se InterTravel.

sábado, dezembro 18

O meu 'handicap' negativo

Eu não sou o Mário Cláudio
E para menor gáudio da turbe
Nem nasci na urbe certa
Para ganhar prémio que valha
Um centelha ou alerta

Eu estou fora do baralho
Cum caralho, não me quero
Premiado por ser Nero
De lira transcendental

Eu Pessoa nunca ganho
Nem tão por isso me venho
Tirando do rabo a esguelha,
Sujando-lhe o occipital

Vou passar pela vida em meio
Nem à frente nem no fundo
O Mundo não acrescento
Nem lento nem apressado
Ganho sempre em desalento
O mesmo que não receio:
Dez reis de um mel coado

A gente chateou-se.
A gente costumava amar-se
Mas o tempo trouxe
Uma chatice resoluta
Que ora é uma catarse
Ora uma chatice filha da puta

A gente ofendeu-se.
A gente costumava desculpar-se
Mas a vida achou-se
No direito de esquecer a boa educação
A vida, a trouxe mouche
Tirou-nos muito mais do que o tesão

A gente virou as costas,
Sem saber o que perdia.
A gente assim fecha portas
E não tem portas alternas
A chatice é que assim
Nunca mais me abres a alma

Não rima, mas é verdade

sexta-feira, dezembro 17

Metro a léguas

O Metro de Lisboa (forma hiperbólica de nomear uma empresa que na sua fisionomia operativa não passa de um 'centí...Metro') resolveu alargar o seu raio de acção, com mais não sei quantas (nem me interessa) estações. Uma espécide de radial que liga 'mais do mesmo'.

Vai ser desta vez que o Metro (por assim dizer) de Lisboa se expande para a zona ocidental da cidade? Naahh, nem pensar! Semelhante ideia está bem enterrada nas gavetas mais fundas dos empoeirados gabinetes de projectos da malfadada instituição (ia a dizer empresa, mas travei a tempo). A prioridade é aquela coisa bizantina, que já custou milhões e milhões, de levar a linha desde o Chiado a Santa Apolonia, o que não teria mal nenhum se não fosse o traçado escolhido.

Mas tenhamos fé. Faz parte dos projectos do Metro (e quão ínvios são os caminhos dos senhores que por lá desmandam) iniciar a obra de ligação do Rato a Alcântara em 2008. Portanto, o mais tardar no dia de 'São Nunca à Tarde' viremos de Metro do Estádio do Restelo até à Baixa. Pouco depois, o fantasma do saudoso professor Alfredo de Sousa (que asinava e datava os seus textos a partir de Linda-a-Velha) poderá assumir a cátedra eterna na sua Universidade Nova sem precisar de usar automóvel.

Oremos. E oremos também pela alma em vida da gente que manda no Metro, e que - literalmente - se esquece de metade da cidade que devia servir.

quinta-feira, dezembro 16

'A coerência não passa de um vício a que não pretendo ceder'

A X. vota sempre na CDU. Porque é comunista? Nem lá perto! A X. é de Chanel para cima, não anda de autocarro porque não suporta o cheiro do povo e não entra em repartições do Estado porque fica deprimida com o mau ambiente. A X. não vai para Varadero porque é para lá que vão os totós. Em suma, a X. é uma queque.
Então porque é que a X. vota na CDU? ‘Porque são os únicos que são honestos, a direita e os chuchas só querem é poder e tacho’. A X. é uma mulher de princípios.
É preciso que se diga que o número de pessoas que sabe que a X. vota CDU é para aí de 5. E estão TODAS expressamente proibidos de contar isso em público.

A E. vota sempre no PSD. Porque é social-democrata? Nem lá perto! A E. é de esquerda radical, veste à hippie, adora transportes públicos e tem um Seat Ibiza do tempo da Maria Cachucha. A E. fuma charros, curte clubes de solteiros e não sabe fazer de comer, porque é feminista.
Então porque é que a E. vota no PSD? ‘Porque historicamente são os que governam melhor, são lúcidos e reformistas’. A E. é uma mulher prática.
É preciso que se diga que o número de pessoas que sabe que a E. vota no PSD é para aí de 5. E estão TODAS expressamente proibidos de contar isso em público.

O C. vota sempre no PS. Porque é socialista? Nem lá perto! O C. é fascista dos quatro costados, tem saudades de Salazar, vai aos almoços do 10 de Junho e do 1º de Dezembro. Nossa Senhora de Fátima não se discute e o Concílio Vaticano II é pouco menos que a morte da Santa Madre Igreja. Quando lhe falam em aborto vocifera.
Então porque é que o C. vota sempre no PS? ‘Porque esses meninos que se dizem de direita são uns cocós, que ainda vão pagar caro a traição’. O C. é um homem com memória.
É preciso que se diga que o número de pessoas que sabe que o C. vota no PS é para aí de 5. E estão TODAS expressamente proibidos de contar isso em público.

O N. vai votar pela primeira vez na sua vida no Bloco de Esquerda. Porque é um radical moderno? Nem pensar! O N. é o eleitor típico do outro ‘bloco’, o central, deambulando há anos entre os dois maiores partidos portugueses. O N. é frontalmente contra a adopção de crianças por homossexuais e nem quer ouvir falar de aborto livre.
Então porque é que O N. vai votar no BE? ‘Porque estou farto da hegemonia das ideias feitas e é preciso um bocado de ar fresco na política’. O N. é uma homem utópico.
É preciso que se diga.... (vocês já sabem o resto).

quarta-feira, dezembro 15

A minha assessoria

Vai para aí uma polémica desgraçada sobre um ex-assessor de Durão Barroso que agora faz notícias - e até entrevista ministros - no Diário Económico. Ora ainda bem, porque isto dá-me ocasião de falar no assunto.

Comecemos pelo problema pessoal. Conheço razoavelmente bem o David Dinis (é dele que se trata), e estou à vontade para dizer que quem lhe apontou o dedo dificilmente escolheria pior alvo. Trata-se de um tipo escorreito, afável e de boas ideias na cabeça, que enquanto jornalista mereceu a minha admiração; e que, enquanto assessor, fez um trabalho limpo.

O problema em geral. Sou de opinião de que não se deve 'saltar' directamente de um cargo de assessor ministerial (ou empresarial, já agora) para um posto de primeira linha num jornal de referência, como creio ser aquele onde o jornalista em causa trabalha. À falta de melhor (já lá vamos), creio que um 'período de nojo' é aconselhável. Aconteceu noutros casos em que, por exemplo, ex-assessores políticos ocuparam lugares nas secções de desporto ou cultura, ou foram mesmo fazer outras coisas (estudar, por exemplo) antes de voltarem às Redacções. Andou pouco avisado, neste aspecto, o referido jornalista e a sua super-estrutura.

O problema de fundo. Em Portugal não existe uma carreira de assessor político de Comunicação ou de Imprensa. Os Governos, quando tomam posse, têm uma de duas opções: ou contratam jornalistas (o mais usual) ou fazem um outsourcing com empresas do sector, que lá colocam um dos seus funcionários. Estes últimos, normalmente, estão mais vocacionados para a assessoria de empresas, e por isso nem sempre têm sensibilidade para um cargo político. Se houvesse uma carreira de assessor, muitas pessoas (eu conheço algumas) optariam por essa profissão e escusavam os Governos de andar à cata de jornalistas para lhes fazerem o serviço.

O problema lateral. Acontece que, na maior parte das vezes, os jornalistas transformados em assessores de Imprensa de Governos são pessoas ainda numa fase média da sua vida profissional, tendo que, após serem despedidos (é o termo), voltar a ganhar o pão de cada dia como podem e sabem. Normalmente, regressam às Redacções. Há casos dramáticos de pessoas que não souberam acautelar 'lugares de recuo' e que ficam desempregadas durante períodos longos depois de saírem do Governo. Não lhes gabo a sorte.

O pior problema. Para além da discussão salutar sobre este tema, há outro, mais nojento, que importa abordar. Pior (muito pior) que ver um assessor político voltar aos quadros de uma Redacção, é ver aqueles que usam o jornalismo para fazer grandes fretes a políticos, empresários, causas religiosas, desportivas ou sociais. Esses é que são de fugir, esses é que estragam o bom nome da profissão, esses é que afastam os leitores, os ouvintes, os espectadores. Mas a esses é mais difícil apontar o dedo.

O problema ético. Na fúria regulamentadora que abalou os últimos dois séculos, alguém se esqueceu do essencial. E o essencial não é proibir, é ter uma educação que leve as pessoas a fazer bem feito e a afastar da sua mente caminhos ínvios para atingir fins dúbios. Muito obrigado desde já a quem me chamar utópico, mas prefiro isso ao mais cinzento positivismo.

Um outro problema. No Causa Nossa, vi que um leitor do honorável blogue denunciava que há jornalistas de Economia que têm acções de empresas sobre as quais escrevem. É capaz de ser verdade, mas convinha não lançar loas à toa. O leitor conhece algum? Eu não, e posso acrescentar que na classe são muitas as vozes que dizem que isso devia ser proibido. Eu sou a favor de que seja proibido.

E é tudo.

Tão perto e tão diferente - crónica de um país em guerra

Fui a Madrid. Continua a comer-se mal nos melhores restaurantes, os monumentos estão impecavelmente restaurados, as mulheres não saem à rua sem estarem ‘de morrer’. Até aqui nada de novo.

Mas como gosto de dar notícia ou novidade, ou no mínimo fazer crónica do que vi, lembrei-me de falar de um saber de experiência feito que é o contacto acumulado de muitos anos com a ‘Prensa’ espanhola, ‘mai los’ assessores da dita.

Os espanhóis têm, talvez a par dos italianos, a Comunicação Social mais controlada e comprometida da Europa. A Itália, como os meus confrades e visitantes já devem ter reparado, interessa-me tanto como a sola de um sapato roto, por isso adiante. Mas a Espanha é diferente. Por isso me dedico a tentar percebê-la.

Como é que um país que em tanta coisa nos faz inveja tem jornalistas tão fracos? Como é possível que a gente seja tão melhor que eles? Como é possível ler hoje (ontem, terça-feira) os principais jornais do país vizinho e ficar sem perceber patavina do que se passou no inquérito parlamentar ao 11 de Março (que fazia as primeiras páginas de todos os generalistas)?

Como é possível que em encontros bilaterais (ou até latino-americanos, por exemplo) sejam sempre, sem excepção, os jornalistas portugueses (e brasileiros) a colocar as questões difíceis?

Uma história entre muitas. Um assessor (conheço vários) de imprensa português, a trabalhar para uma empresa espanhola com filiais em Portugal, queixa-se sempre da mesma coisa. Telefona-lhe o ‘superior’ espanhol e diz-lhe. ‘Essa notícia não devia ter saído, como é que deixaste?’ E diz o portuga: ‘Eu não mando nos jornalistas, tento apenas veicular a informação relevante, ou até influenciá-los numa determinada direcção, mas eles é que escrevem’. ‘Então o que é que estás aí a fazer?’

Estas conversas são reais, qualquer um poderá testemunhá-las.

Uma ‘Roda de Prensa’ de jornalistas da área económica não melhora o cenário. Nunca vi – juro, nunca vi – um jornalista espanhol fazer uma pergunta que encabule o protagonista que debuta em determinado momento. E juro que nunca os vi dar um lead diferente daquele que vem no comunicado oficial.

O serviço de assessoria de Imprensa é, as mais das vezes, confundível com ‘azafatas’ que trazem e levam croquetes. O guru da função não se mistura com jornalistas e sente dificuldades de trato quando a gente portuguesa lhe fala ‘tu-cá-tu-lá’ sobre qualquer assunto relevante.

Que se passa então? Serão os jornalistas espanhóis que ganham 3500 euros mais desprovidos que os portugueses que ganham 1750? ‘Por supuesto’. São é mais controlados, e acatam esse controle em nome de várias coisas: as autonomias umas contra as outras, a liberdade vigiada contra o terrorismo, os políticos em guerra constante.

Uma outra história, antes da conclusão. Em 1986, quando Espanha e Portugal assinaram o Tratado de Adesão à CEE, os jornalistas espanhóis, na hora em que Gonzaléz, Juan Carlos, Soares e Cavaco batiam palmas (bem como presumo a totalidade dos convidados), largaram as canetas e os papéis e também eles aplaudiram. Fizeram parte do acontecimento, perdendo todo o distanciamento necessário. Os jornalistas portugueses, como lhes competia, continuaram a trabalhar. Se bateram palmas, ou não, fizeram-no em casa, no recato da sua vida particular.

Acho que isto diz tudo.

Por toda a parte onde vou, vejo os jornalistas portugueses darem cartas. Seja numa conferência de Imprensa na Suécia, seja numa visita ao Canadá, seja em Sarajevo ou em Sidney. Porque é que, então, os jornais portugueses vendem tão pouco? Por duas razões. Temos um povo de analfabetos e uma elite javardola, caceteira, setembrista, arrelampada e umbiguista. Ilustração não é com eles e a verdade é apenas um método, entre outros possíveis, de chegar algures.

Nesse tipo de elite incluo a maior parte dos directores de jornais.

segunda-feira, dezembro 13

Não há direito!

Vou mandar calar o Libelinha. Anda a dar 'cachas' à concorrência.

'Carpe diem'

Alguns dos meus confrades e comentadores têm vindo a lançar palpites sobre a personalidade do Libelinha. Até já houve quem lhe quisesse adivinhar a cor da pele. Eu, que o conheço, digo que ele, mesmo que não pareça, passa bem sem publicidade. Mas adiante.

O Libelinha não tem muitos estudos. Cresceu num bairro social e só acedeu ao Liceu porque o padre lá da freguesia lhe conseguiu uma bolsa de estudo. Filho de um comerciante grossista e de uma dona de casa, foi num tio chefe de uma banda filarmónica que encontrou recato intelectual. Foi este que lhe sugeriu a frequência das Bibliotecas Itinerantes da Calouste Gulbenkian, onde ele leu a ‘Morgadinha dos Canaviais’, do Júlio Dinis, e a ‘Psicologia de Massas do Fascismo’, do William Reich.

O Libelinha reprovou no 8º ano do Liceu (antigo 4º) porque a bola e os matrecos lhe diziam mais que a Física e o Inglês. Do que ele gostava mesmo era de História. Nisso não falhava, e passava horas a chatear os colegas que não sabiam se o D. João VI era depois, ou antes, da D. Maria I.

Aderiu ao PSD quando Cavaco Silva era primeiro-ministro mas pouco depois deixou o partido. Não se encaixava naquilo.

Assessor de Imprensa, hoje em dia, de uma multinacional de calçado (depois de ter tirado um curso profissionalizante no Politécnico de Elvas), o Libelinha tem acesso a muitos documentos sobre investimento externo, estratégia política e subsídios governamentais. É daí, a maior parte das vezes, que retira o sumo para juntar ‘dois mais dois’, e ter aquelas tiradas aparentemente espertas que vocês conhecem.

No meio dos seus trinta anos, o Libelinha tem sorte com as garinas, mas tarda em escolher o que quer. Eu, que o conheço, acho que ele não quer nada. Come uma ou outra a pedido e com indulgência. Mas do que ele gosta mesmo é de uma tarde na Biblioteca Nacional a ler jornais antigos, para depois ir impressionar os amigos com uma sapiência breve.

Os olhos verdes do Libelinha sempre me deram inveja. Farto de cabelo e com um sorriso fácil, este camarada é o meu oposto. Se eu consigo, sem grande esforço, dizer ao que venho quando se trata de ideias, o Libelinha esforça-se imenso para chegar nem sequer perto disso. Já no que diz respeito a mulheres eu tenho uma batalha em cada vitória, enquanto o Libelinha não dispara um tiro e já tem a guerra ganha. E nem sequer topa.

Há direito? Não há.

PS. - Estive a ver um jogo de futebol em que o Salgueiros perdeu 4-1 com o Chelsea… O quê? Não era o Salgueiros? Claro que era, com todo o respeito!... Anhh?... Também não era o Chelsea?...

domingo, dezembro 12

Vou lá



Estive a contá-las criteriosamente - amanhã cumpro a minha 14ª (*) visita a Madrid (passagens em trânsito pelo aeroporto não valem). Reconheço que sou um traidor: gosto de Madrid, muito mais do que de Barcelona, por exemplo, embora seja um grande admirador do espírito catalão. Num jogo Real Madrid-Barcelona o meu coração anda sempre aos tombos, ora para lá, ora para cá. 'Sou' do Real Madrid mas compreendo a razão dos outros.
Entre a Castellana e a Cañizares (não, não é o jogador de futebol, é uma 'calle' onde fica um grande restaurante de Espanha) lá andarei nos tempos livres, que a viagem é de trabalho.
Se algum dos meus confrades precisa de alguma coisa de lá, é favor encomendar agora ou calar-se para sempre.

(*) Sempre fui fã do 14, por ser o número de versos de um soneto. Para os meus leitores mais articulados com a poesia espanhola, qual o melhor sonetista, na vossa opinião, do país vizinho?

A crise

O Libelinha chegou esbaforido. A coisa devia ser séria, porque ele nem sequer se abarbatou ao jantar, facto inédito no personagem. Cravou-me um cigarro (ok, está a ficar normal), bebeu meia cerveja de um gole e disparou:

- Já sabes que o Morais Sarmento não vai para primeiro-ministro!?
- O quê ??
- Tu ouviste, não te faças de parvo.
- É pá, sei disso como sei que a Maria José Ritta não vai ser starlet do próximo filme do James Bond. Qual é a novidade?
- Ah, mas esteve para ser!
- Quem, a Zezinha?
- Ai a porca nas ervilhas… Não, o Sarmento!
- Ai sim? Apesar de tudo prefiro a Maria José…
- Se continuas a desconversar vou-me embora!
- Desculpa, não pude evitar a paródia. Conta lá, se não rebentas.

(O Libelinha deu outro gole na cerveja e apagou o cigarro. Pose séria)

- O Santana estava para sair do Governo e nomear para primeiro-ministro interino, ou coisa que o valha, um acólito qualquer.
- Como é que isso é possível?
- A Constituição é um bocado omissa em relação a governos de gestão. O gajo – o Santana – percebeu que se ficasse no Governo tinha uma desvantagem em relação ao Sócrates, que está sem fazer nenhum e teria todo o tempo do Mundo para a campanha eleitoral.
- Mas não há vantagens em estar no Governo quando há campanha? Sempre ouvi dizer isso.
- Isso é verdade se puderes fazer tudo o que queres. Ora isso não acontece agora com o Santana, que é chefe de um Governo de gestão, o qual não pode tomar medidas de fundo. Vai daí, o magano achou que o melhor era deixar aquilo a um subordinado, e ele partia com total liberdade para a campanha.
- Não é mal pensado. E não fez isso porquê?

(Aqui o Libelinha adoptou aquela pose, que já lhe conheço, de quem vai revelar o terceiro segredo de Fátima a beber ginjas no Rossio)

- Porque o Portas não deixou!
- Como é que é?
- O Santana foi falar com o Portas e explicou-lhe a ideia. Sai do Governo, tem uma campanha eleitoral para preparar, deixa lá o Sarmento ou o Barreto a tratar dos assuntos administrativos, e pronto. Garante que tem um parecer de um gajo qualquer que percebe de Direito Constitucional a avalizar a coisa.
- Acredito. E qual era o papel do Portas?
- Ora aí é que está. Como o Santana e o Portas estavam a negociar concorrer coligados, o Pedrocas tentou convencer o Portas de que este não necessitava de sair do Governo, já que os deputados do CDS estariam garantidos à partida.
- Estou a ver…
- Estás a ver o caraças! O Portas pensou três segundos e mandou o Santana à merda. Então ia abdicar de apresentar as suas reivindicações, o seu programa eleitoral, enquanto o outro andava a fazer campanha?!
- Mas se concorrem juntos…
Não é bem assim. Primeiro o Santana e o Portas ainda não se tinham decidido a concorrer juntos ou separados. E depois, mesmo que fossem juntos, o protagonismo era todo do Santana.
- Pois, imagino que isso para o Portas fosse inaceitável.
- É claro que era. Mas escuta: o Santana estava mesmo decidido a ir-se embora, disso não abdicava. Foi aí que o Portas deu a solução.
- A qual seja…
- A que tu ouviste há pouco nas televisões e nas rádios: demitem-se todos e o Sampaio que se aguente!
- Mas o Sampaio pode pedir-lhes que fiquem até às eleições…
- É o que consta. Mas assim já não há desculpa para que cada um faça o que quer ou, se for caso disso, que o Governo fique a marinar. Eles demitiram-se, estás a ver?...
- Mais ou menos.
- O que para ti já não é mau!

(Fiquei a pensar. Talvez o Libelinha tenha razão. Entretanto, o Sócrates estava a falar num comício em Castelo Branco. Fui ver, já que é provável que o gajo seja o próximo primeiro-ministro. Depois de o ouvir com atenção, lembrei-me que hoje é sábado, amanhã não trabalho, e que posso embebedar-me à vontade)

Queixinhas

A gente saca, em primeira mão, a reestruturação da TAP. No mesmo dia, uns camionistas resolvem bloquear a Ponte.

A gente sabe que os italianos vão sair da Galp. No mesmo dia, cai o Governo.

A gente informa que a Teixeira Duarte vai vencer a privatização da Cimpor. No mesmo dia, caem as Torres Gémeas.

A gente escreve sobre um escândalo envolvendo um banco. No mesmo dia, o Pinto da Costa é preso.

A gente apanha a história da Transgás. No mesmo dia cai (outro) Governo.

Não há pachorra para ser jornalista de economia.

sábado, dezembro 11

Aviso à navegação

O Libelinha telefonou-me agora mesmo, diz que vem cá a casa hoje à noite para me explicar a situação política. 'Vou-te provar que o Santana é um garoto e que o Portas o pôs na ordem'. O quê? Fujam!

'Os juízes do Tribunal da Relação de Lisboa ensandeceram?'

O ex-jornalista Jorge Wemans, actual Director de Comunicação da Fundação Gulbenkian, escreve sobre o caso Manso Preto no seu blogue colectivo, o 'Causa Nossa'.

(o blogger anda-se a passar e não me disponibiliza a função 'links'. O sítio referido está na lista aí à direita)

Hino

Os meus heróis balançam com medo
Trazem no corpo a solene herança
De cumprir Pátria e a jurar sempre
- Homens sem tempo têm sempre esperança

Da guerra sabem os que a viveram
Ouvem-se então os heróis da estância
Calçam-se os dedos com espingardas
Que já não são as de meter medo

Ao leme está um homem decente
À popa vai o senhor da festa
Mas nunca sei se devo ficar
Ou morrer jovem por pior que seja

Ao leme está por pior que seja
Um homem sem tempo de ter medo
Vivem depois os heróis da festa
Que já não são os que morrem jovem

O tempo está de uma maré cheia
Ao tempo vai uma mão com tempo
Calam-se os tempos que em vão arcaram
Com mais que pode esta mão alheia

Alegre vai o quinhão da glória
Que nos contempla e nos dá razão
Não lembro apenas o que é de agora
- A mulher minha e a revolução

Sou de um tempo antes da desgraça
Meio da vida, meio de fora
Nem sou capaz de dizer à história
Morto serei, vivo estou por graça

Só por desdita ou grande ilusão
Vamos fechar, não abrir a mão
Num quadro sério, numa sã liça
Não há quem vença sem um outro irmão

Sem uma cábula neste exame
Fico sozinho mas acredito
Alguém vai ser a minha grã dama
E eu vou ser o mais expedito

Vou ser a alma deste momento
Tenho em cerco toda a cidade
Tenho a montanha e a plenitude
Tenho sargaço, tenho a Lusitânia

Tenho mercados onde a espaços
Vou conhecendo a egrégia saga
Demarco trópicos que contemplo
- O mar infindo sem dele ter mágoa

Nunca escondi onde quero a força
Este caminho não conhece bruma
Estou na vitória como quem passa
Por estes dias como breve espuma

Lutei, lutaste, por melhor País
Às vezes sendo o melhor que passa
E por ser homem desta raiz
Jamais vou ser arauto da desgraça

sexta-feira, dezembro 10

Nem 'mansos' nem 'pretos'!

Um juíz qualquer manda um jornalista quebrar o sigilo profissional, para que o referido magistrado consiga assim resolver um caso de lana caprina que estava debaixo da sua douta alçada. O jornalista, como é óbvio, recusa revelar fontes. O juíz espeta-lhe com uma pena de prisão, com pena suspensa.

Este é, sumariamente, o caso que correu em tribunal contra o jornalsta Manso Preto, free-lancer que trabalha para o Expresso. Não se tratava, como se viu, de qualquer apuramento de justiça, mas apenas de um braço-de-ferro entre um juíz censor e um jornalista com coluna vertebral.

O precedente é perigoso. Sem anúncio prévio, a Justiça acha que pode obrigar um profissional, que tem o seu próprio Código Deontológico, a quebrá-lo em nome sabe-se lá do quê.

Ao menos no tempo da Censura, quando uns coronéis dorminhocos cortavam a eito - porque na maior parte das vezes nem descortinavam onde é que os 'superiors interesses da Nação' mandavam que se cortasse -, o jornalista sabia com o que contava à partida. Agora deixam-no escrever à vontade... mas depois querem que ele diga onde é que foi buscar a informação.

Qur fique bem claro: era só o que faltava! No dia em que os jornalistas perderem a confiança das suas fontes passam a ser porta-vozes do poder, reescrevendo comunicados oficiais e sentenças com trânsito em julgado. Não é isso que o público espera dessa classe profissional.

O Interino

No meio da barafunda que se instalou em Portugal durante as décadas de 30 e 40 do século XIX, há um homem cujo particular bom senso, coragem e sentido de Estado – a que aliava o bom gosto e espírito artístico – o fizeram figura destacada do País. Sem nomeação constitucional, que a tal lhe não dava direito o cargo que ocupava, soube no entanto manter um grande grau de prestabilidade à causa que sempre abraçou: fazer bem feito. Fê-lo enquanto guerreiro e enquanto regente do Reino. Este cidadão de origem alemã ficou conhecido na História nacional por D. Fernando II.

Se, enquanto consorte de D.Maria da Glória, segunda de Portugal, cumpriu fielmente com os deveres que lhe estavam consagrados (num dos deveres cumpriu até demais, tendo feito à filha de D.Pedro IV onze filhos em 17 anos, o último dos quais foi fatal à rainha durante o parto), com a morte desta, e na menoridade daquele que seria mais tarde D.Pedro V, teve, como regente do Reino, um desempenho a todos os títulos magistral. Não é estatuto menor, nessa época conturbada, constatar-se que, durante os dois anos em que esteve à frente dos destinos de Portugal, não houve guerra nem conflitos de monta, tendo ainda dado sucessivos avais a um dos mais consensualmente reconhecidos impulsionadores do modernismo político e estrutural do País, Fontes Pereira de Mello. Da sua veia artística, para além de uma actividade conservadorística notável, muito à frente do seu tempo, anota-se a edificação do Palácio da Pena, em Sintra. Com fortes contactos internacionais, conseguiu elevar Portugal a uma admiração que, por esse tempo, escasseava.
Quando D. Pedro, seu filho, atingiu a maioridade, retirou-se da vida pública, sem alarido nem desmandos, e fez fortuna como gestor de eleição que realmente era. Ofereceram-lhe a coroa da Grécia e a de Espanha mas recusou. Fez mais pelo seu País de adopção nessa interinidade que lhe caiu no regaço que muitos em anos e anos de governação e intriga. Desprendido do poder, interino por natureza, Fernando de Saxe-Coburgo Gotha foi um dos grandes de Portugal.

quarta-feira, dezembro 8

Is it fair?



Há poucos personagens na história da ficção do século XX que me tenham marcado mais do que Henry Higgins, de ‘My Fair Lady’. Misógino integral mas íntegro, esteta experimentalista, foi mais além que Pigmaleão e pôs uma florista tonta, mas sensível, a falar inglês correcto. Convenhamos que é mais fácil que pôr a falar, tout court, uma estátua. Mas ainda assim é obra.

O que mais me interessa em Higgins é que ele é a demonstração fáctica, contada através de uma ficção realista, da capacidade que as mulheres têm de se apaixonar por fulanos que, à partida, de sedutores nada têm. Higgins é a anti-prova de um Romeu shakespeariano, e está mesmo longe de um menos atraente, mas igualmente romântico, Cyrano de Bérgerac.

Em Higgins, o facto de a amada ser uma sopeira não é relevante. O que me interessa é como o coração aparentemente empedernido de um homem de high-class e de meia idade pode dar por bem gasto o seu tempo a pôr uma menina a ser gente. Ou seja, é a óptica do professor perante a aluna adolescente, com toda a lascívia daí decorrente. E que, como se sabe, a mais das vezes tem correspondência.

Higgins dá-me uma vontade expoente de perceber as mulheres. Se um asceta daqueles é capaz de despertar corações, como entender por exemplo quando somos rejeitados – e íamos jurar que tal não aconteceria – ou as vezes em que somos assediados, sem que razão se vislumbre para tal?

Acho que vou perguntar ao Manuel Maria Carrilho.

terça-feira, dezembro 7

A 'Missonaria'



A ‘Missonaria’ não anda de avental, usa batina. Quando não se benze anda de mãos no regaço, postas ou vazias, aparentemente renegando aqueles que as querem cheias do poder terreno. Aparentemente.

A ‘Missonaria’ é obra. De Deus por vezes, de nada quase sempre. Dos próprios que a contemplam na maioria dos casos.

A ‘Missonaria’ dá aos pobres o que os pobres esperam – pouco. Mas que graças não darão estes últimos pelo afastamento da alternativa – nada?

A ‘Missonaria’ ensina o caminho da temperança. A festa que Jesus fez às portas de Jericó ou a parábola das Bodas de Canã fazem corar os têmperos da prelatura. Já nem falo de Maria Madalena.

A ‘Missonaria’ diz, numa escola de Pamplona, ‘no mires las chicas’. Miro o quê, os ‘chicos’?

A ‘Missonaria’ procura de entre o Povo de Deus os melhores. O que é isso? Não era para ser esta a religião dos pobres? Dos fracos? Do Redentor dos injustiçados?

A ‘Missonaria’ ostenta, qual Fariseu em frente do publicano.

A ‘Missonaria’ acaba onde Deus começa.

Este é meu

Quando ouvires do novel combate os cânticos
não te acerques de mim sem raiva.
Olha-me altiva e bela,
convida-me a partirmos de mãos dadas.
Ontem áfonas as preces adiaram
os teus vestidos aos vento nos cumes inalcançáveis
da ditosa etapa última.
Mas hoje sinto-me eco e testemunho
de aparições de abastança
e brindo às mágoas que não voltam
Galope, galope,
sou Sir Lancelot e a multidão me espera.
Tu és minha dama!

segunda-feira, dezembro 6

Nove metros de palco

Um dos segredos mais bem guardados da blogosfera foi-me hoje revelado: o Libelinha, afinal, é humano. Senão reparem:

- Sabes o que é que eu queria mesmo ter feito na vida?
- Isso dito assim parece que a tua vida já vai tão avançada que só o passado é que conta.
- Não sejas sarcástico.
- O quê???
- Vai gozar com o Camões, foste tu que me ensinaste esta palavra!
- Peço desculpa...
- Vai-te foder.

(reconheço que estava a snobar com o Libelinha; meti a mão na consciência)

- Desculpa lá, o que é que ias a dizer?
- Que gostava de ter sido diferente, pronto.
- Tu és diferente.
- Diferente daquilo que sou, quero eu dizer.
- Ouve, conheço umas dúzias de pessoas que anseiam pelo mesmo que tu e de diferentes não têm nada. Tu ao menos é..., bem, peculiar.
- Obrigadinho.

(a coisa não avançava, até que eu resolvi ficar calado; passados momentos, o Libelinha levantou-se e atirou de rajada)

- O que eu gostava mesmo era de ter sido o primeiro ser humano a saltar nove metros!
- Desculpa!?
- Sabes qual é o recorde do mundo de salto em comprimento?
- Acho que sei, é para aí uns 8,95.
- Não é para aí, é isso mesmo.
- Lembra-me para me inscrever no ‘Quem quer ser Milionário’...
- Ok, mas já imaginaste no que acontecerá ao primeiro gajo que consiga saltar nove metros?
- Passa a ser recordista do Mundo, não?
- É muito mais do que isso, é uma barreira que se abate, um ponto de superação da Humanidade.
- … Um gajo famoso...
- Não é isso que me move. Queria mesmo é deixar uma marca, sei lá... Às vezes é tão difícil deixar uma marca.

(virei-me de frente para o Libelinha; até aqui tinha estado meio de costas para ele; ele continuou)

- Repara: o Jesse Owens bateu o recorde do Mundo com 8.28, em 1936. Toda a gente sabe quem ele é. Depois o Bob Beamon saltou 8.90 em 1968. E por fim o Mike Powell passou 8.95 em 1991. Imagina quando alguém saltar nove metros.
- Acho que já ocorreu, mas contra as regras desse desporto.
- Sim, o Carl Lewis chegou a fazer 9.04, mas com vento a favor, não conta.
- E tu achas que ficavas na História, se...
- ... Não sei, de todas as coisas que me lembro que poderia ter feito para ser lembrado para sempre, esta dos nove metros persegue-me.
- Para chegar a esse ponto é preciso ser predestinado, treinar muito e ser ainda jovem, certo? Não faço ideia se terias sido um predestinado, mas nem treinaste muito nem já és jovem o suficiente.
- Claro, tens toda a razão... Mas lá que era o máximo!!

(o Libelinha afastou-se um pouco, ainda inebriado por aquele sonho impossível; não mostrava sinais de chateado por ser agora demasiado tarde para lá chegar; o sonho chegava para lhe encher a alma; não tinha que o concretizar, só de o pensar possível, num dia qualquer antes de agora, enchia-lhe o peito; mas depois virou-se para mim de repente)

- Será que me podias ensinar a escrever? A escrever bem, digo. Gostava de escrever uma peça de teatro. Os portugueses são fraquinhos nisso, não são?


domingo, dezembro 5

Europa

Por falar em Europa, e no seu declíneo, e no amor que eu nutro por ela, gostava que vocês (re)lessem isto que eu escrevi


Mulheres, outra vez




‘Nem que me paguem’

‘Ok, se me pagarem penso nisso’

‘É uma boa hipótese de trabalho’

‘Ontem já era tarde’


Para que se perceba melhor o que penso das mulheres, em termos inteiros*, resolvi publicar um ranking sério, com algumas figuras conhecidas, nacionais e internacionais, misturadas com produto só available na mercearia do bairro do Clark. As categorias, acima descritas, são quatro.

Aqui vai:

Nem que me paguem

Fanny Ardent - A maior corta-tesão francesa da história recente. Francesa, em si mesma, já puxa a gravidade do membro para o centro da Terra. Esta é apenas um ex-libris de isso mesmo.

Maria José Ritta - Gosto de voz de macho, quando a mesma pertence a um macho. Mas, ao ouvi-la, apetece-me dizer: ‘ó pá, vamos ver o Benfica pr’á semana ou vamos engatar gajas para as Docas?’

A.M. – Tem uma filha parva, que um dia concebeu a meias com um marido parvo. Tem uma anca parva, que não deslustra de umas mamas parvas. É parva.


Ok, se me pagarem penso nisso

Meryl Streep – É muito inteligente, é muito boa actriz, é muito rica.

Kiki Espírito-Santo – Não sei porquê, mas quando olho para esta velhota desempenada penso que se tivesse optado por ser gigolo talvez não estivesse a empregar mal o meu tempo.

T. – Talvez por trás…

É uma boa hipótese de trabalho

Júlia Roberts – Quem não gosta da Júlia? É assim a modos que a beleza universal. Não me dá ponta por aí além, mas também não sou cego nem rabo. Não sei é se, se por acaso ela olhasse para este lado, eu teria paciência para esperar na fila.

Marisa Cruz – É um pouco como a anterior. Boooooaaaa! Mas será que chega? Em todo o caso, nunca teria lata para dizer que não.

C. – É gira mais do que suficiente. Mas foi escuteira. Fico na dúvida…

Ontem já era tarde

Helen Hunt – É muito inteligente, é muito boa actriz, é muito rica, e dá-me vontade de ser homem até aos oitenta anos e até às oitenta noites! É uma das coisas mais parecidas com uma mulher que eu conheço.

Ana Lourenço – Se a F. tivesse andado distraída, aqui há uns anos atrás…

B. – Sólida e fofa. Linda, cada vez mais. Cabeça boa. Dança bem. Sabe sair à rua. Sabe ficar em casa. Canta quando fala.


* os maledicentes dizem que eu só gosto da ‘posta do meio’; não é verdade, também gosto de me entreter com cabeças e com rabos, ou seja, gosto do animal no seu todo

sábado, dezembro 4

Mulheres



Por necessidade ou deformação profissional, ou mesmo por decorrência matrimonial, conheço ou conheci quase todas as vedetas do jornalismo e da apresentação televisiva da última década e meia. Chamem-se Catarinas ou Bárbaras, todas, ou quase todas, me ouviram contar uma anedota, dar um conselho. Todas, ou quase todas, me disseram o que lhes ia na alma e o que sentiam por serem assim meninas mandadas ao palco da grande ilusão. Aprendi a mirar-lhes as ânsias e as sensações de ser, tanto como já antes, com muito menor esforço, lhes tinha ‘aprendido’ a mirar o resto. A dor de olhar o que arde sem se poder mexer foi colmatada pelo enchimento de alma que essas carnes trazem quando bem conversadas. Não sei se chega. Mas adiante.

Vem isto a propósito de que este País de homens atarracados, ou barrigudos, ou carecas ou mal educados tem tido a sorte de, através dos (últimos) tempos, ter gerado mulheres lindíssimas que ainda por cima sabem andar na rua. Já aqui disse, e repito, que não houve maior revolução, desde a democracia instalada, que a que permitiu às mulheres tomarem conta de si próprias. Só lhes falta – e até nisso temos sorte – meterem-se na causa pública, para a qual ainda vai sendo necessário arregimentar secretárias e amantes, como condição para cumprir a inefável Lei das Quotas.

Mas no resto as portuguesas safam-se. Cantoras, apresentadoras, actrizes, jornalistas de renome, assessoras ministeriais ou camarárias, tudo o que dê para dar ao rabo e à língua, as ‘nossas’ mulheres provam que estão à altura. Bem hajam!

Lembrei-me de escrever isto quando hoje, pela enésima vez, estava a ver a Sílvia Alberto na televisão SIC. É com orgulho que digo que tenho orgulho em ser português como aquela rapariga! Do corpo estamos falados (o Zé Marinho que me desculpe). Mas o resto é a prova (como diria o outro) da existência de Deus. Tem nível, tem presença, sabe falar, sabe o que diz (que são coisas diferentes) e até aguenta uma fatiota estúpida que algum designer manhoso acordou com a estação em exclusividade parva.

Eu gosto da Sílvia Alberto. Pena é que ela trate a senhora minha pelo nome próprio, com diminutivo à mistura.

PS. – Não ficaria de bem com os meus confrades machos se não lhes deixasse um conselho: nunca se casem com uma produtora de televisão. Tem duas desvantagens: fica-se íntimo das febras mais impecavelmente guarnecidas da Nação, sem que se possa sequer tocar-lhes, já que estas consideram a produtora quase que como uma segunda Mãe. E, mesmo sendo fêmeas, com tudo o que de volúvel isso acarreta, não ousariam nunca mexer no marido destas, ou seja, o ‘Pai’. Sina de consorte de produtora é ver de perto a luz... mas estar proibido de carregar no interruptor.

quinta-feira, dezembro 2

Z.

A malta do grupo de Letras olhava com algum desdém para os colegas de Ciências. Os gajos (as gajas também) tinham que escolher, num pequeno pedaço de Verão, se queriam ter Geografia, Desenho, Física, Matemática ou Ciências Naturais. Os tipos acotovelavam ideias, falavam como se soubessem falar, era vê-los, alguns pela primeira vez na vida, discutindo o futuro. Qual futuro? O deles, pois então, que é que mais interessa a um gajo de Ciências?

A malta mirava-se uns aos outros, de olhos semi-cerrados, esparramados ao sol, à espera que a discussão acabasse para ir ao banho. Conhecíamos os trastes desde crianças e nunca os víramos assim. Parecia que tinham acordado agora, aos 15 anos… Agora que era hora de, enfim, dormir. Do nosso lado da toalha de praia havia uma certeza: Matemática nunca mais. O resto era lá com eles.

Por mais preguiçosos que fôssemos (ou seja, superiores em todos os sentidos da existência), o pessoal de Letras teve um dia que pensar em coisas quase semelhantes. Com muito menos berreiro e metade da filosofia, lá escolhemos Inglês e Alemão, mais a História que era quase obrigatória e tá feito, bora lá namorar e ir ao teatro, essas coisas que a malta de Letras tinha por menção fazer, um pouco antes do Outono, quando eu tinha 15 anos.

Subitamente, houve um problema. O Z. não queria escolher Alemão, não lhe parecia ao jeito, e preferiu Geografia. ‘- Mas ó meu, se vais para Geografia não calhas na nossa turma, vai ser uma merda’. ‘- Porque é que não posso ir para a vossa turma?’ ‘- Porque os horários de Geografia põem-te na turma D, depois vens ter Inglês connosco, andas a saltar de um lado para o outro, os profs. não vão arranjar uma turma só para ti, ninguém mais escolheu essa merda, quem vai para Geografia não fica com História e Inglês, tás a ver?’. ‘Tou a ver?? Eu quero que se foda!’. ‘Ok, tu é que sabes’.

Aos 15 anos, não existe nada menos verdadeiro do que a expressão ‘tu é que sabes’. O clã decide em conjunto, quando muito tem um chefe que ajuda a decidir por todos, mas não há dissidências nem livre arbítrio. Isso é contrário ao facto de se ter um grupo de gente que tem 15 anos.

Anyway, estava a gente nas aulas há meia dúzia de dias e o Z. não descolava da porta da nossa turma (a B). Num rasgo que lhe terá custado, confidenciou às gajas (aos gajos não, que era dar parte de fraco): ‘- Acho que vou anular a matrícula a Geografia e inscrever-me em Alemão, aquilo é uma turma de toinos, só falam de futebol e as gajas são umas sopeiras’. As E. (eram três, por isso a gente chamava-as pelo apelido) e a C., eterna apaixonada em silêncio pelo Z., fizeram um pequeno escarcéu e vieram contar aos gajos. Ficámos contentes, claro.

Como eu estava sem colega de carteira (aquilo era por números e o 16 desistira, eu era o 17), o Z. sentou-se no lugar vago ao meu lado. Não era meu grande amigo, a gente conhecia-se, como quase todos na turma, e todos, absolutamente todos, na fila da entrada, à esquerda de quem olha para a professora.

Ficámos assim dois anos. Para abreviar razões, o Z. ficou meu lugar-tenente quando este que aqui vos escreve foi aclamado chefe da malta (em termos estritamente políticos). Foi-me ajudando no crescimento, auditando em primeira mão as gajas – poucas – que me vinham calhar ao telheiro. Digamos que ele fazia a propaganda e a comercialização do produto, mas eu é que tratava da exposição que prendia o cliente. Démo-nos bem.

Chegados àquele ponto triste de cada um para seu lado, o Z. foi para o Magistério Primário (alguma tradição na família) e eu para Direito. Víamo-nos ao fins-de-semana, trocávamos ideias sobre pincéis de barba e outras coisas prementes para rapazes de 18 anos.

Nesse Verão fomos de férias. Eu, o B e o ZC., já éramos repetentes na companhia. A nós se juntou o Z., mais o A. e o F. Nesse tempo, passar férias que se prezem era ir para o Algarve, à boleia e com pouco dinheiro nos bolsos. Para rapazes da praia, o Algarve nem deveria ter grande fascínio, não fosse o facto de lá se encontrar o maior armazém de teenagers estrangeiras acessível num raio de mil quilómetros. Com a falta de ‘abertura’ que as ‘nossas’ tinham nesse tempo (exceptuando as muito feias), suecas, holandesas e alemãs pareciam boa alternativa ao ‘give me five’ a que as nossas pilas adolescentes estavam habituadas.

A malta do meu tempo adorava Lagos. Era o santuário dos rapazes. Faço aqui um intervalo para dizer que as raparigas ficavam em casa, seja porque os pais lá da terra não consentiam meninas por aí em viagem, seja porque também dava jeito à rapaziada não levar bananas para a Madeira. Então, chegados a Lagos, a tradição era o que era, perseguição às estrangeiras, praia todo o santo dia, comida frugal, borlas nas discotecas. O Z. era bom em todas as vertentes do programa.

Um belo dia (de noite), chegaram o CR, o M, o ZT e o J. Encontrámo-nos por acaso, junto ao parque de campismo da cidade, onde os totós acampavam. Nós, os da elite, íamos para o dos arredores, onde as vaginas tinham mais hábitos de lavandaria e a depilação eficiente dava os primeiros passos.

O CR. o M, o ZR e o J. fumavam charros. Ora de ‘ó’ ora de ‘u’, charros era coisa que não faltava. Se calhar menos falhos de cona do que nós no longo Inverno, a ida para o Algarve significava para estes fumar charros sem Pai à vista.

O Z. é que não ia em cantigas. Charros?? ‘Puta que os pariu!’ Ainda me lembro da discussão com mãos que se seguiu ao CR ter acenado a hipótese de os ‘caretas’ (nós) fumarem um charro com a gente dele. O Z. passou-se.

Passados uns anos, o Z. começou a trabalhar. Ele gostava mesmo de putos, e, bom estudante, calhou-lhe uma escola não muito longe de casa. Mas, longe dos amigos de sempre, começou a experimentar os charros dos 'amigos' que sobravam lá pela terra. Ao que parece gostou. A escola é que começou a correr mal.

O Z. tinha uma catrefada de irmãos mais velhos, dois deles pelo menos com lugares de interesse público e influência quanto baste, a diversos níveis. Um dos maiores resolveu que a vida do rapaz (então nos seus 21 anos) só se endireitava com uma tropa à maneira, de preferência nos Comandos, onde ele (irmão) por acaso até conhecia o comandante.

O Z., razoável desportista e fino como o aço, lá aceitou o desafio, apesar dos seus mal amanhados 60 quilos. A questão é que os Comandos, nessa alvorada de 80, já não eram o depósito de virtudes que o irmão do Z. almejava. E o Z. saiu de lá com mais músculo e mais veia. Para o que desse e viesse. A veia serviu-lhe de muito, aliás.

Sozinho num Mundo cão, sem o apoio de sempre, o Z., como sempre, tinha dificuldades em tomar decisões sozinho. A C. tinha emigrado, as E. estavam casadas, eu e a malta de Letras andávamos a fazer pela vida. Quando o Z. um dia se olhou ao espelho já não era ele. Em meados de 80, era o primeiro caso de SIDA do distrito de Aveiro.

Pelo meio, o Z. tinha ido atrás das grades. A droga é uma coisa ilícita mas encontra-se em doses fáceis nas farmácias de serviço. Assaltá-las, à partida, nem sequer é difícil, para quem está ressacado e foi treinado para golpes de mão. O problema é quando a bófia não tem mais nada que fazer e os proprietários reclamam. Um dia está lá o agente de serviço, camuflado, e deita a mão aos tratantes. Já não bastava a ressaca, vai lá então a cadeia. Quatro anos.

Quatro anos de cadeia, na segunda metade de 80, à beira dos 30 anos, não era para endireitar. Era para a droga correr, mais célere e livremente, pelas veias de quem quisesse, com a agulha de quem estivesse à mão de semear. O Z. andou por aí.

Morreu sem que eu soubesse, sem que me dissesse nada, nunca recuperando de maleitas vulgares, como constipações e um osso deslocado. A SIDA é mesmo assim: trata constipações como se fossem pneumonias, parte pernas onde só havia entorses, tuberculiza quem tinha uma tosse vulgar.

O Z. morreu de SIDA. Foi o primeiro da minha escola. Foi meu lugar-tenente, ajudou-me com as gajas, era lindo quando falava, mais lindo quando me ouvia. Eu não lhe disse o que devia? Se calhar não. Se calhar tive sorte e ele não.

Para a próxima conto-vos a história da relação do preservativo com a malta do meu tempo.

Obrigado pela atenção.

E Z., onde estiveres... tu sabes

quarta-feira, dezembro 1

O caminho faz-se caminhando

"Compromisso com os leitores

Eis os nossos compromissos: atingir a liderança no nosso segmento; reforçar a relação de intimidade diária dos leitores com este diário; e, sobretudo, posicionar o Diário de Notícias no seu lugar de sempre. Ou seja, o de referencial de independência e equilíbrio da imprensa nacional".


Ler o resto aqui.



Restauração

E agora, como diria o outro, vamos para uma coisa completamente diferente:



‘Portugueses celebremos
O dia da Redenção
Em que valentes guerreiros
Nos deram livre a Nação

A fé nos Campos de Ourique
Coragem deu e valor
Aos famosos de ‘40’
Que lutaram com ardor

Prá frente, prá frente
Repetir saberemos as promessas de 40
Avante, avante
É a voz que soará triunfal

Vá avante mocidade
De Portugal’


PS. - Garanto que isto com música fica muito mais giro

O momento político

Vamos lá a ver: quando Aníbal Cavaco Silva defende que «é preciso voltar a pôr no Governo os políticos competentes e tirar de lá os incompetentes»; quando, dois ou três dias depois, na sequência da queda do Governo, Miguel Veiga – esse ariete do liberalismo formal, da social-democracia à moda antiga, livre pensador da aristocracia portuense – vem dizer que Santana Lopes já não tem condições para disputar eleições como presidente do PSD; quando, enfim, estas duas coisas se conjugam, que dizer?

Esperar por amanhã seria certamente mais avisado em matéria de análise, porque se calhar vai haver mais matéria para reflexão. Mas escrever a quente tem o seu quê de sedutor. Como não tenho responsabilidades na matéria, nem gosto de ser confundido com «analistas» que ontem diziam que era natural que Sampaio desvalorizasse a questão da demissão de um ministro - os mesmos que hoje vêm dizer que é natural que Sampaio demita o Governo -, aqui vão algumas ideias:

- Pode o PSD, depois de quatro meses de Governo (deste Governo), continuar a apostar em Pedro Santana Lopes para primeiro-ministro, num quadro de eleições antecipadas? A minha resposta é que não deve, mas se calhar não pode fazer outra coisa. É duvidoso, embora desejável, que o PSD tenha capacidade, hoje em dia, para montar um Congresso Extraordinário que permita, em tempo útil, pôr em causa a liderança. É que o mais provável é que as eleições ocorram lá para o final de Fevereiro, e afirmar uma liderança entretanto é difícil.

- Na linha descrita, a única hipótese viável é arranjar uma liderança que não precise de se afirmar, porque vale por si, ou seja, pelas provas já dadas. Não conheço ninguém no activo da causa pública que melhor encarne este papel dramático do que Miguel Cadilhe.

- O contraponto entre José Sócrates e Santana Lopes é escasso, toda a gente o disse e eu concordo. Qual é a diferença? Um já «provou» que não é capaz, o outro tem o benefício de tudo o que é novo, sendo que em termos de track record a sua actuação no Governo de António Guterres foi globalmente positiva. Nesta comparação algo mimética com o autarca interrompido, Sócrates é, actualmente, um primus inter pares.

- O tão propalado instinto de sobrevivência do PSD (e, já agora, de noção de serviço às causas em que ainda vai acreditando) poderá dar-lhe um fôlego inesperado para umas eleições que já estão no horizonte curto. Como disse, a aposta em Santana Lopes é errada. Resultará (resultaria) num «banho» eleitoral ao partido laranja. Não creio que estejam preparados para isso. Vão falar com Miguel Cadilhe. Assim este aceite.

- Marques Mendes é outra hipótese. Não é eleitoralmente credível, o que não é a mesma coisa que não ser credível.

(.......)

- Apesar da análise da situação política tout court, este bloguer não se esquece - jamais - de que o que interessa a uma sociedade organizada em Nação, País, seja o que for, é ter à frente dos destinos da causa pública quem por eles olhe, mais do que se olhe a si mesmo. Deste ponto de vista, para mim é indiferente saber se é o partido 'A' ou o partido 'B' (ou, já agora, o 'C' que não há) a tomar conta dos destinos da comunidade em geral. Aqui só se quer uma coisa, cada vez mais utópica: que a gente boa ascenda aos mais altos cargos da Nação. Palavra de honra, palavra de Homem.


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