terça-feira, novembro 30

L'Air du Temps *



Na República das Tonturas, um protectorado dos Estados Unidos da América do Sul (EUAS), situado no Golfo do Xémico, passam-se as coisas mais raras. À laia de introdução, é preciso que se diga que o país em si é uma lástima. Cingir-me-ei hoje às questões da justiça.

Nas Tonturas, é possível acusar um fulano qualquer com base numa prova testemunhal. Porque o sistema foi concebido por néscios, que a mais não alcançavam, ou que tinham sobre a prova material algum asco ou indiferença? Nada disso. Nas Tonturas, quem pensou o processo penal sabe que a prova testemunhal é fácil de destruir, pelo que os arguidos assim acusados se safam pela certa.

Nas Tonturas, a prescrição de crimes hediondos é mais célere que a caducidade das multas de estacionamento ou que a do furto de gado bovino. Porque o Poder Legislativo é de acesso restrito a pessoas sem noção da hierarquia ética dos delitos e respectiva censura social? Nada disso. Nas Tonturas, quem pensou a lei quer que ela seja de aplicação restritiva, não tendo por alvo os vícios de uma classe social acima de qualquer suspeita.

Nas Tonturas, o acesso dos jornalistas aos processos judiciais é coado por fontes altamente colocadas e impossíveis de ser citadas. Porque as Tonturas são uma ditadura onde todos os jornalistas são comprados? Nada disso. Porque assim só sai na Comunicação Social aquilo que o poder instituído quer que se saiba.

Nas Tonturas, dizem as más-línguas, reina um acordo fáctico entre alguns jornalistas e fontes, que consiste em contar uma verdade quando, e só, a verdade já não causa dano, ou ele é delimitado a quem se quer mal. Isto permite ao jornalista brilhar, publicando uma história insofismável, e à fonte resguardar-se, ou resguardar os amigos, que sairão ilesos da polémica que, contada noutro tempo anterior, os traria para o mesmo lodo dos restantes prevaricadores. Isto, diz a mesma vox populi eventualmente mal-intencionada, seria combinado com requintes de malvadez, do tipo ‘não faças mais isso, que eu vou contar ao jornalista fulano-de-tal e, se continuas a fazer, cais na alçada da justiça’.

Nas Tonturas, como em todo o lado do Mundo, existe justiça e injustiçados. Estes, às vezes, acreditam que aquela é possível de ser realizada e, enchendo-se de coragem, atiram à praça a sua dor. Mal aconselhados ou, pior, enganados, lá vão uma segunda vez ao altar do sacrifício. Da primeira, chama-se ao mal que lhes fizeram crime. Da segunda chama-se justiça. Diz-se nas Tonturas, como em todo o lado do Mundo, que à segunda dói mais.

Sem ironia.

* Não dispensa a consulta regular de blogues bem intencionados, linkados aí ao lado. Como dizia o outro, vocês sabem do que eu estou a falar

1 Comments:

Texto brilhantíssimo...! Bravo!!!
Nem sequer falhou no título, que está em Francês perfeito... Bravo, ó Quelarque!
Não há melhor colunista nem no Trúblico, nem no Espesso, nem mesmo no Tontícias (vocês sabem do que é que eu estou a falar!). Talvez neste último, mas se há, não o deixam "colunar"...

By Blogger PluribusUnum, at novembro 30, 2004  

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Comments:
Texto brilhantíssimo...! Bravo!!!
Nem sequer falhou no título, que está em Francês perfeito... Bravo, ó Quelarque!
Não há melhor colunista nem no Trúblico, nem no Espesso, nem mesmo no Tontícias (vocês sabem do que é que eu estou a falar!). Talvez neste último, mas se há, não o deixam "colunar"...
 
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