domingo, novembro 7
Contributos para aclarar uma história mal contada
Acredito que o homem tenha identificado o problema com mediana clareza. É verdade que, por vezes, Cavaco Silva tinha dificuldades em fazer passar a mensagem pretendida (mas é altamente duvidoso que isso fosse a causa principal da derrota do PSD nas urnas). A questão, aliás, não é ‘propriedade intelectual’ de nenhum Governo em concreto. Quase todos se queixam do mesmo, e todos, sem excepção, gostariam de ter mais poder nos media. Ora o ‘problema’ é que cabe a estes últimos, em primeiro lugar, identificar a tempo e com precisão as maleitas da causa pública. É essa, aliás, uma das razões que leva os cidadãos a querer informar-se. Estes acreditam que estabelecem uma relação de verdade e de alerta com um grupo de profissionais – os jornalistas – cuja missão é precisamente, antes do mais, mostrar o que vai de errado numa determinada realidade.
O militante que aqui se usa como jogral desta peça dramática teve então o seu momento de falta de lucidez dialéctica. ‘Se os media estão contra nós, há que ter sobre eles maior controle’, pensou. Ou seja, achou que era possível fazer passar por parvos a classe de cidadãos mais inteligente e culturalmente superior da Nação, que são precisamente aqueles que lêem, vêem e ouvem os mais influentes OCS do País. Sendo uma tarefa deplorável, ela é também contraproducente. Os cidadãos, ao notarem que determinado media está a ficar mais alinhado com o poder, desinteressam-se por ele e vão procurar informação noutros lados que lhes pareçam mais credíveis. Aliás, esta é uma questão bem portuguesa, já identificada em estudos académicos. Portugal não tem espaço para OCS alinhados com determinada facção ideológica ou política. Os que o fazem, ou tentaram fazer, surgem nas franjas das audiências ou estão, positivamente, condenados ao fracasso.
O Governo de António Guterres, sob a tutela sectorial de José Sócrates, deu aval positivo (as más línguas dizem que incentivou) a um dos mais formidáveis negócios ocorridos na comunicação social deste País. Falo da transferência do grupo Lusomundo, propriedade então da família Bordallo da Silva, para o universo da Portugal Telecom (PT). Para muita gente, o negócio fazia sentido. Um grupo sólido, como a PT, podia investir e alavancar sinergias numa empresa prestigiada como era a Lusomundo, detentora, entre outros, da TSF, Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Grande Reportagem, etc.. A verdade é que, cerca de uma década depois da controversa passagem da esfera pública para as mãos de Luís Silva, o saldo na Lusomundo era positivo. O DN vendia mais que o seu rival Público, o JN liderava o mercado de diários de grande informação (nomeadamente batendo o Correio da Manhã), a TSF não tinha paralelo nas rádios de prestígio informativo em Portugal. A PT tinha tudo para entrar num negócio ganhador.
Identificados alguns problemas na empresa – a maior parte dos quais tinham que ver com arcaísmos na condução do negócio, próprios de uma sociedade quase familiar -, a PT cedo perdeu o estado de graça. E começou a olhar para a Lusomundo como aquilo que esta parecia ser: uma pequena fatia da sua conta de resultados. Com o esvaziar da bolha tecnológica em 2000/2001, as sinergias de grupo passaram a fazer menos sentido. E em breve a PT desistiu de ganhar a vocação para gerir o negócio. Pôs-se à procura de quem lhe comprasse ‘aquilo’.
Todavia, o problema, para uma empresa cotada em bolsa, era enorme. É que a diferença entre o que tinha pago pela Lusomundo e o que esta valia nos finais de 2001 (depois da ‘bolha’) era de vulto. Após uma plausível venda, isso reflectir-se-ia nos resultados consolidados da PT, numa altura em que a Lusomundo começava a dar sinais de deficitária. Iniciou-se então um processo de ‘emagrecimento’, tão peculiar em épocas de crise, que pudesse tornar a Lusomundo mais atractiva. Neste compasso, já perdi a conta às centenas de trabalhadores que abandonaram a empresa, quase sempre amigavelmente, é certo, mas com enorme peso nas contas da Segurança Social. Ficará para outra ocasião – e provavelmente para outra pena – contabilizar em que é que as reformas antecipadas dos últimos anos penalizaram o erário público.
Faz-se aqui um parêntesis para lembrar que a PT não é uma empresa que se possa dizer privada. O Estado tem nela assento e privilégios vários. O Estado convive, na administração da PT, com alguns grandes grupos empresariais nacionais, que interagem com o erário público das mais diversas formas. E é preciso não esquecer que o Estado português ainda é o maior empregador e sub-contratante da economia nacional.
Em meados de 2002, dois factores se conjuraram para que se iniciasse um processo nefasto para o grupo Lusomundo. Em primeiro lugar, a quebra das receitas de publicidade, inerentes a qualquer época de crise económica. E, em segundo, a chegada ao poder do PSD; o PSD daquele tal militante que tinha memória.
O Diário de Notícias era (é) um dos mais influentes órgãos de comunicação social escrita do País, a par do Público, do Expresso e de algumas publicações da área económica. Marca agenda política, tem um quadro redactorial de gente avisada e profissional. Mantém uma longevidade ímpar entre os jornais portugueses, tendo sobrevivido às mais diversas crises políticas e sociais que assolaram o País nos últimos 140 anos. Tem uma carteira comercial invejável. No grupo Lusomundo, a sua influência nos meios políticos e económicos não tem comparação com os outros OCS.
Num processo que os mais antigos admitem não ter precedentes (mais pela forma do que pelo conteúdo, dizem), o Verão de 2002 serviu à Direcção do DN para estabelecer mudanças nas chefias intermédias do jornal. Trocado por miúdos, e não entrando em rigores técnicos, uma redactora considerada próxima do PSD substituiu um outro que se dizia próximo do PS. Dava a ideia que o director do jornal, que tinha liderado todo o processo de recuperação do DN ao longo da década de 90, fazia aquilo a contragosto.
As Redacções dos jornais não albergam santos. Aquilo é gente habituada como poucos a sentir o ‘air du temps’. Chama-se a isso ‘faro jornalístico’, é indefinível, mas para mim trata-se dos célebres 10% de inspiração e 90% de transpiração que levam ao sucesso em muitas outras profissões. Ou seja, conquista-se na vida através de muito trabalho e argúcia quanto baste. Digo isto porque a partir desse dia o ambiente no DN nunca mais foi o mesmo. Sentia-se nas pessoas.
É preciso que se diga que o ambiente no DN era, até àquela data, de uma transparência notável. Só para se ter uma ideia, um dia alguém mais timorato me disse que eu nunca conseguiria escrever determinada notícia sobre a PT, pelo menos do modo como tinha em mente fazer. A notícia saiu no dia seguinte, com chamada de primeira página, citando fonte da Administração, que aliás se prontificou a falar comigo. Podia dar mil exemplos.
A partir desse citado dia não digo que tudo passou a ser diferente, mas foi-o em proporção suficiente para chegarmos onde chegámos. Por via de variadíssimos ‘tiros no pé’, absolutamente impossíveis de acontecer anteriormente, o DN foi quebrando essa linha fina que se estabelece com o leitor, que é a da credibilidade. Episódios caricatos como a nomeação de um director que tinha sido assessor governamental não melhoraram esse estado de coisas.
Chegados a este ponto, nesta história que já vai longa, é preciso que se diga que a maior parte dos profissionais que fazem o DN todos os dias foram, denodadamente, alertando para esta situação. Puseram o dedo na ferida. Trabalharam, não menos que antes, para que o seu jornal fosse um produto de qualidade. E estão lá, hoje, dando notas de uma vitalidade talvez surpreendente para quem passou por dois anos de vil tristeza.
A clarificação, aliás, já se começa a sentir. Só quem não leu o DN na última semana poderá ter dúvidas sobre o paulatino regresso à norma deste jornal. Presumo eu que a Administração teve, pela primeira vez, noção das consequências das políticas erradas. E teve medo. É que a erosão da base de leitores do DN é real.
Não temos, portanto, dentro do DN, nada a agradecer ao tal militante do PSD que pôs em causa o rigor informativo e as escolhas internas do jornal. Mas neste momento em que parece que o DN voltou aos eixos (dos quais nunca devia ter saído), só lhe quero deixar daqui um ‘bem haja’. Ao menos terá servido para demonstrar, uma vez mais, que não se pode mandar calar aqueles cuja função é mostrar e não esconder. Os leitores não deixam. A realidade idem. E os jornalistas, na sua esmagadora maioria, também não.
No meio de tudo isto, ficam homens e mulheres que sempre lutaram para que o esforço que agora vai ser necessário empreender para mudar de rumo não fosse tão gigantesco. Muitos dos que tiveram cargos directivos e de administração na Lusomundo quiseram remar contra a maré. Se a uns faltou talento e a outros faltou coragem, outros há a quem unicamente faltou o tapete debaixo dos pés.
Mas o mais revelador desta história que espero tenha um final feliz é o ataque que - precisamente neste momento que se sente ser de viragem - está a ser feito ao DN. Muito pouca ou quase nenhuma gente veio à praça para alertar para os desvios que o DN estava a sofrer nos últimos tempos. Pelo contrário, é agora, que o jornal dá sinais de um vigor renovado, que lá vêm ao assassinos de circunstância ajudar a um funeral que eles temem menos próximo do que desejavam.
Ou eu me engano muito ou cometeram um pecado mortal: chegaram atrasados! E isso, no jornalismo, faz perder a notícia.
PS. – Os textos normalmente escritos neste blog são da autoria de um cidadão anónimo, que dá pelo nome de Clark 59. Calmos ou tonitruantes, a tempo ou infelizes, perspicazes ou patéticos, os escritos que por aqui têm aparecido, desde Março do corrente ano, só a esse sujeito, mais ao seu fiel Libelinha, dizem respeito.
Não é o caso do texto que acima se publica. Esse é da autoria de Márcio Alves Candoso, jornalista do Diário de Notícias, com carteira profissional nº 2629.
11 Comments:
A minha saudação a todos os profissionais que sempre lutaram pela vida do DN.
Quanto ao subscritor do post, chegou agora a minha vez de elogiar...Quem escreve assim é um verdadeiro profissional!um abraço.:))
By objectiva3, at novembro 08, 2004
O que se terá passado? Que coincidência!... Está quase a fazer três anos que assisti e vivi em pleno um período negro dentro de outra casa desgovernada... Felizmente, também aqui as coisas começam finalmente a entrar nos eixos. Espero é que não aconteça o mesmo que descreve no DN - alguém querer enterrar o morto antes do tempo... Faço votos para que o DN demore cada vez mais tempo a ler (que dure, dure, dure...) e que a casa de que falo continue com gente boa a valer... Como eu e uma mão cheia de gente empenhada! (Eu também sou das que vestem a camisola, mesmo desbotada... ) ;)
By AS, at novembro 08, 2004
O que se terá passado? Que coincidência!... Está quase a fazer três anos que assisti e vivi em pleno um período negro dentro de outra casa desgovernada... Felizmente, também aqui as coisas começam finalmente a entrar nos eixos. Espero é que não aconteça o mesmo que descreve no DN - alguém querer enterrar o morto antes do tempo... Faço votos para que o DN demore cada vez mais tempo a ler (que dure, dure, dure...) e que a casa de que falo continue com gente boa a valer... Como eu e uma mão cheia de gente empenhada! (Eu também sou das que vestem a camisola, mesmo desbotada... ) ;)
By AS, at novembro 08, 2004
Ó Clark, tenha lá paciência mas, já que é você que está de serviço ao blogue apague lá um dos meus comentários, não vá o senhor jornalista do DN, que é um jornal sério, ficar mal impressionado com esta casa...
By AS, at novembro 08, 2004
Todos percebemos que o único personagem com existência real é o Clark. Escusávas de ter inventado este novo personagem fictício, que dá pelo nome de Márcio. Clark 69, isso sim, é nome de jornalista.
De qualquer forma, deixa-me dizer-te que de tão habituado estás à turbulência que já te parece normalizada a situação quando sismo é apenas de grau 5. Mas a terra ainda treme...
By Martim Silva, at novembro 08, 2004
1 - Nem à Lois Lane o Clark Kent revelou o seu outro eu...
Isso só aconteceu nos filmes de Hollywood que, como se sabe, desvirtuam tudo por mais um punhado de dólares...
Antes a kryptonite!
2 - Clap, clap, clap!!! para o texto...
3 - ... menos o penúltimo parágrafo. Porque realmente contradiz tudo o que está para trás.
A Redacção do DN teve a clarividência e a força para tomar as decisões que devia no momento mais apropriado, ou seja, quando a conjuntura o permitiu. Soube ver a onda [levantada pela carta da Mme. Ferreira Alves] e cavalgou-a no momento certo. Maximizou o efeito. Esteve muito bem.
Antes, não teria porventura obtido qualquer ganho em tomar uma posição, depois já teria sido tarde.
O que quer que seja que os de fora pudessem ter dito ou deixassem de dizer pura e simplesmente não contava para o totobola...
4 - A tua carteira profissional tem um número muito alto. És um puto. Mas deixa lá, que neste momento elas já ultrapassaram os 11.000!...
By PluribusUnum, at novembro 09, 2004
Por acaso o DN é o único jornal diário que eu compro. E naturalmente porque me parece ser feito, na sua maioria, por profissionais de qualidade. Exactamente por serem de qualidade é que me parece que o DN vai "dar a volta por cima", como se diz por aí. Mas que a concorrência parece preocupada, lá isso parece.
By pedro guedes, at novembro 09, 2004
Pois vai, cá dos altos mares, uma chapelada pelo artigo, verdadeiro exemplo de serviço público, sem espinhas mas cheio de 'sustância' e tempero!
Vemos, ouvimos e lemos... há-de servir-nos para alguma coisa, porra!
Um abraço.
By Jorge Castro (OrCa), at novembro 15, 2004
Este comentário foi removido pelo autor.
By Unknown, at setembro 27, 2011
Este comentário foi removido pelo autor.
By Unknown, at setembro 27, 2011
E que tal regressares??? Não vai sendo tempo?
By , at setembro 27, 2011
Quanto ao subscritor do post, chegou agora a minha vez de elogiar...Quem escreve assim é um verdadeiro profissional!um abraço.:))
De qualquer forma, deixa-me dizer-te que de tão habituado estás à turbulência que já te parece normalizada a situação quando sismo é apenas de grau 5. Mas a terra ainda treme...
Isso só aconteceu nos filmes de Hollywood que, como se sabe, desvirtuam tudo por mais um punhado de dólares...
Antes a kryptonite!
2 - Clap, clap, clap!!! para o texto...
3 - ... menos o penúltimo parágrafo. Porque realmente contradiz tudo o que está para trás.
A Redacção do DN teve a clarividência e a força para tomar as decisões que devia no momento mais apropriado, ou seja, quando a conjuntura o permitiu. Soube ver a onda [levantada pela carta da Mme. Ferreira Alves] e cavalgou-a no momento certo. Maximizou o efeito. Esteve muito bem.
Antes, não teria porventura obtido qualquer ganho em tomar uma posição, depois já teria sido tarde.
O que quer que seja que os de fora pudessem ter dito ou deixassem de dizer pura e simplesmente não contava para o totobola...
4 - A tua carteira profissional tem um número muito alto. És um puto. Mas deixa lá, que neste momento elas já ultrapassaram os 11.000!...
Vemos, ouvimos e lemos... há-de servir-nos para alguma coisa, porra!
Um abraço.
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