terça-feira, novembro 30

Peço desculpa

Os meus leitores vão-me desculpar. Sou um péssimo analista político. Essa aí em baixo de ter dito que o Governo ia caír entre quarta e quinta-feira é de palmatória.

L'Air du Temps *



Na República das Tonturas, um protectorado dos Estados Unidos da América do Sul (EUAS), situado no Golfo do Xémico, passam-se as coisas mais raras. À laia de introdução, é preciso que se diga que o país em si é uma lástima. Cingir-me-ei hoje às questões da justiça.

Nas Tonturas, é possível acusar um fulano qualquer com base numa prova testemunhal. Porque o sistema foi concebido por néscios, que a mais não alcançavam, ou que tinham sobre a prova material algum asco ou indiferença? Nada disso. Nas Tonturas, quem pensou o processo penal sabe que a prova testemunhal é fácil de destruir, pelo que os arguidos assim acusados se safam pela certa.

Nas Tonturas, a prescrição de crimes hediondos é mais célere que a caducidade das multas de estacionamento ou que a do furto de gado bovino. Porque o Poder Legislativo é de acesso restrito a pessoas sem noção da hierarquia ética dos delitos e respectiva censura social? Nada disso. Nas Tonturas, quem pensou a lei quer que ela seja de aplicação restritiva, não tendo por alvo os vícios de uma classe social acima de qualquer suspeita.

Nas Tonturas, o acesso dos jornalistas aos processos judiciais é coado por fontes altamente colocadas e impossíveis de ser citadas. Porque as Tonturas são uma ditadura onde todos os jornalistas são comprados? Nada disso. Porque assim só sai na Comunicação Social aquilo que o poder instituído quer que se saiba.

Nas Tonturas, dizem as más-línguas, reina um acordo fáctico entre alguns jornalistas e fontes, que consiste em contar uma verdade quando, e só, a verdade já não causa dano, ou ele é delimitado a quem se quer mal. Isto permite ao jornalista brilhar, publicando uma história insofismável, e à fonte resguardar-se, ou resguardar os amigos, que sairão ilesos da polémica que, contada noutro tempo anterior, os traria para o mesmo lodo dos restantes prevaricadores. Isto, diz a mesma vox populi eventualmente mal-intencionada, seria combinado com requintes de malvadez, do tipo ‘não faças mais isso, que eu vou contar ao jornalista fulano-de-tal e, se continuas a fazer, cais na alçada da justiça’.

Nas Tonturas, como em todo o lado do Mundo, existe justiça e injustiçados. Estes, às vezes, acreditam que aquela é possível de ser realizada e, enchendo-se de coragem, atiram à praça a sua dor. Mal aconselhados ou, pior, enganados, lá vão uma segunda vez ao altar do sacrifício. Da primeira, chama-se ao mal que lhes fizeram crime. Da segunda chama-se justiça. Diz-se nas Tonturas, como em todo o lado do Mundo, que à segunda dói mais.

Sem ironia.

* Não dispensa a consulta regular de blogues bem intencionados, linkados aí ao lado. Como dizia o outro, vocês sabem do que eu estou a falar

segunda-feira, novembro 29

Soltas

- A extinta Central de Informação do Governo continua em funções, apesar de nunca ter tomado posse.

- O Governo não deverá caír antes de quarta-feira à tarde nem depois de quinta-feira ao meio-dia. A razão prende-se com problemas de paginação do Expresso.

- PSL resolveu juntar-se a Saramago e tentar reescrever o Evangelho. Na nova versão. Deus disse: «Muitos são os mal-amados mas poucos os demitidos». Arnaut agradeceu e vai a Fátima (não, não é essa Fátima, é a da Capelinha das Aparições!!!)

domingo, novembro 28

Pau(lo) nele

Nesta coisa dos blogues, realidade ainda nova mas pujante (que linda frase...), às vezes encontramos coisas que se confundem, mas também objectividades que são únicas. De entre estas últimas, se a perspicácia não me falha, há uma pela qual tenho - digamos - carinho crítico. Acontece que 90% das vezes estou em desacordo com ela, mas gabo-lhe o senso e o sentido de missão. É bonita.

Por isso, ó JSarto, depois desta bajulice metódica, far-me-á o meu amigo o favor de requerer ao Altíssimo, do qual o meu amigo muito mais perto andará do que este humilde pecador (preferências: 6º e 9º mandamentos da Lei), a proibição de voltar a permitir que o Marco Paulo (ou quejando) arengue na televisão que esteve na Capelinha das Aparições a cantar para 60 mil pessoas? Eu até nem sou grande 'fã' (desculpe-me o termo) de Nossa Senhora de Fátima, e muito menos do lúgrube santuário onde é venerada; mas dá-me pena esta coisa. Como sei (ou imagino) que desta vez estaremos de acordo, interceda lá para que um raio (que não o parta) impeça o Marquinho de fazer tal coisa outra vez.

Agradecido, e sempre a reconhecê-lo (que não a recomendá-lo).

Clark 59

Esta gente

1 - Henrique Chaves é apenas a última vítima de um Governo sem rumo, sem alma, sem crédito e sem honra. A verdade é que desta gente não havia a esperar melhor. Aqui se puseram dúvidas, quando Jorge Sampaio resolveu (?) dar continuidade à legislatura, em vez de criar o incidente de eleições legistativas antecipadas. Está mais que visto que fez mal. Vai a tempo de emendar a mão, correndo com Santana Lopes e seus muchachos logo que a trapalhada orçamental se resolva; se não tiver se ser antes.

2 - A demissão do Governo, agora mais óbvia (mas amanhã, temo, mais óbvia que hoje, e assim por diante), deve ocorrer rapidamente. Apesar da arquitecta Helena Roseta(uma sofrível autarca no passado, tendo sido esse, malgré, o posto que melhor ocupou) ter dito este fim-de-semana que o PS não está preparado para governar, não resta a José Sócrates outra hipótese senão queimar etapas e passar aos actos. Ou seja, preparar-se para ser primeiro-ministro.

3 - Será tempo, então (já que não vejo que antes haja coragem política e judicial) de investigar aqueles de quem se diz, à boca pequena e num silêncio ensurdecedor, que não têm espinha dorsal (para não falar em cadastro) para exercer funções ao mais alto nível do Estado. Rua com eles, primeiro. Investigação judicial, no dia seguinte.

sábado, novembro 27

Profundo

Este blogue contabilizava, há minutos atrás, 111.829 visitas (cá por casa já foi tempo em que se contaram, depois desisti, talvez um dia destes reponha). Não sei se ele tem sempre razão, mas sei que agita bandeiras de excelência. E é bravo!

Nada menos que um herói

(para o Rodrigo Emílio de Melo)

Ouvimos a voz das sereias nas escarpas algarvias
ouvimos
Ficámos em parte atentos e logo após curiosos
ficámos
Estudámos à vez o escuro do mar e a sorte
estudámos
Partimos como quem tem certezas num céu de dúvidas
partimos
Voámos num vento azul rumo aos cais que vislumbrámos
voámos
Chegámos num dia em sol de velas já bem cansadas
Mas chegámos

Logo após entre nós se discutia que fazer com esta sorte
- Não estava escrito, escrevemos!
Pior morte que deixar pecado não existe e por isso
Algo fizémos...
Mas desta arte tudo escrito está,
Não vou cuidá-la

Falo antes dos aspirantes a oficial miliciano
que lá andaram a tirante de alma e espada,
Os que foram de conscritos
Como os que de amor por lá estiveram
- São iguais!
Nada menos do que heróis de barba escassa,
Comandaram homens bons e rudes.
Muitos morreram
Porque eram barrigudos
E usavam óculos, mesmo se os galões ficavam na caserna

Um dia eles voltaram
Tu não!
Ficaste ao serviço do Império, guarda avançado
De um real posto que morria
Perdeste emprego, não coragem
De defender o que bem fundo acreditavas

Aspirante a oficial miliciano!
Já não és preciso
Mudam-te a farda, a intendência
O País e a incumbência de tomares conta
Dos teus homens
Aqueles, iguais a ti,
Só com menos estudo ou atitude perante a vida
Que Deus quer ou manda

Já não és preciso...
Porquer não haverias de morrer?

quinta-feira, novembro 25

Afagando

Anda para o meu colo, vá.
Pode parecer-te incompleto
Vago regaço negligente
Apenas à vez atraente
Ou sossegado

Mas digo-te que tem arte.
Afaga o corpo, minora a dor
É competente e poliglota
Nas várias traduções
De que a alma necessita

Anda para o meu colo, já.
Amanhã a desdita vai-se embora
E o prazer vem resgatar-nos.
Pode parecer-te incompleto
Mas tem espaço só para ti

Este regaço tem memória
E saudades do futuro
Não te apartes, não mereces
Nem ele tem pecado mortal

Anda para o meu colo, vá lá...

As voltas que o Libelinha dá

Os meus confrades já sabem como é o Libelinha. Um mentiroso com pernas, um adepto da teoria da conspiração com olhos. Mas desta vez excedeu-se. Vejam lá com que é que ele me veio ontem à noite.

- Ainda ninguém percebeu a profundidade desta história dos media, do Marcelo e do DN.
- Ninguém, vírgula! Tu já percebeste, aposto...
- Pois não é que estás cheio de razão?!
- Então partilha lá comigo a tua sapiência.

(o Libelinha adopta uma pose grave e inclina-se para a frente, quase em tom de segredo)

- O Marcelo zurziu no Governo do Santana desde o primeiro dia, certo?
- Certíssimo.
- Ele sabe que aquela gente é burra e dói-se ao mínimo toque.
- Será...
- O Marcelo sabe que o grupo da TVI estava dependente da PT como de pão para a boca, para abrir os novos canais por cabo.
- É o que se diz por aí.
- E também sabe que o Balsemão não vai poder comprar parte da Lusomundo - DN, TSF, etc. - nos próximos tempos, já que antes tem de desembolsar uma pipa de massa para comprar a posição do BPI na SIC.
- Porventura, mas não sei se te estou a acompanhar.
- Espera aí. O Balsemão e o Marcelo são amigos...
- Já foram mais, ouvi dizer...
- Mas são. E o Marceloo não confia no Pais do Amaral para chefiar um grupo que inclua o DN e a TSF, partia aquela merda toda num instante.
- Já está um bocado partida, por sinal...
- Pois, mas é preciso recuperar e não deixar ir ainda mais abaixo. Agora ouve. 'Toda a gente' sabia que o Pais do Amaral era, até ao escândalo Marcelo, o mais bem posicionado para compar a Lusomundo. Tinha cash, não padecia dos problemas do Balsemão e era bem vindo, ao contrário do outro interessado, o Paulo Fernandes.
- E então?...
- O escândalo com o Marcelo atrasou, ou talvez tenha mesmo inviabilizado, a compra da Lusomundo pela Media Capital, a empresa do Pais do Amaral.
- Acredito, um gajo que é acusado de ceder a pressões não vai tomar conta de um grupo que se quer livrar de pressões.
- Ora estás a ver como tu lá chegas?! 'Toda a gente' achou que o Marcelo tinha batido com a porta muito a correr. Mas aquilo foi que nem ginjas! O palerma do Rui Gomes da Silva fez aquela borrada, o Pais do Amaral acusou o toque (não percebe nada de jornais) e a 'bernarda' estava montada.
- Está bem, ams o que é que se ganha com isso?
- Não estás a ver? Daqui a um ano e meio o Balsemão já tem dinheiro outra vez para ficar com a Lusomundo, até porque a SIC agora já está a dar lucro e ele encaixa não 51%, como agora, mas quase 100%, após comprar a parte do BPI. Afastam o Pais do Amaral do negócio e ficam com aquilo. O Balsemão sempre disse que não havia de morrer sem ter um jornal diário e uma rádio.
- Mas então como é que se percebe que o Saraiva do Expresso ande a dizer que o DN está moribundo?
- Para pôr aquilo mais barato, ó estúpido, e para depois o grupo dele aparecer como salvador do jornal centenário, blá, blá, blá.
- Achas que o Marcelo anteviu essa coisa toda?
- Não sei. Mas sei que se chegou a falar nele para director do DN. Vai por mim e espera sentado!



Este Libelinha não tem emenda. Eu, por mim, não acredito numa linha do que ele diz.


A Rosa do Arno

Acto I
Cena 2

(No aeroporto de Lisboa, de mala-troley atrás, Rosa Streppaforti procura a saída para os táxis)

- Que grande fila! Olha, os táxis já não são verdes e pretos como aqui há uns anos! Que cor de caca! Será que isto aqui também já está mudado?

(Rosa estremece. Por um momento pensa que aquela terra caótica de que tanto tinha gostado já estava tão civilizada como a Florença natal que para trás deixara)

- Ó patroa, vai para onde?

- Para Marquês.

- Bora aí. Você não é de cá, tem um sotaque...

- Si

- Tá bem entre...

(O taxista fez um trejeito de satisfação. Uma 'camone' a meio do dia dá sempre jeito para melhorar a folha)

- Então o que a traz por cá?

- Venho viver per qui

- A sério?... Você é o quê, espanhola?

- No, sono italiana.

Ah, está bem.

(deve dar para sacar algum, se bem que os italianos são tão aldrabões como a gente)

- Já tem hotel?

- Si

- E sabe de que lado do Marquês é que é?

- Sinistra a la Avenida

- Sinistra.... esquerda, já percebi

(Perto das Olaias, para onde tinha divergido, o taxista diz)

- Está um trânsito lixado

- Come?

- Trânsito.... molto

- Marquês é stresso.... no ai qui mendicare.

- Tá bem, já lá vou

(italianos é sempre a mesma merda, têm a mania que são espertos)

- Já estamos perto

- Va bene

- São nove euros e cinquenta

- Te dono octo euros

- Ó messa, isto marca nove e cinquenta!

- Tu sai perqué. Prendalo!

(sai de rajada e pega na mala)

- Ó 'miss', isto não chega, olha a gaja!?

- Va fare un culo!!!





quarta-feira, novembro 24

A mulher doente

Para mim, tudo visto e revisto, o que permanece perene de todas as alterações e revoluções ocorridas no século XX, no que à sociedade ocidental diz respeito, é a desconexão da mulher com o trabalho doméstico. Para o bem e para o mal, a vida das nossas avós, ou mesmo das nossas mães, não tem nada que ver com a maior parte da das nossas irmãs, mulheres ou amigas, com todas as influências que isso tem de positivo ou negativo - em suma, de diferente - para a vida de todos nós. Não descortino nada de mais formativo e impossível de inflectir, na sociedade actual, de que as novas formas de intervenção cívica, política e - essencialmente - profissional que as mulheres tomaram para si. Mesmo que as circunstãncias às vezes tenham andado à frente das suas vontades legítimas, e tenham, por si só, adiantado um processo que, em termos optimizados, deveria ter demorado mais tempo.

Digo isto hoje, e não há mais tempo, porque comigo ocorre, neste momento, uma experiência doce. A minha mulher que, assumo, tem um pouco mais dos 50% exigíveis das responsabilidades domésticas, está doente. Isso exigiu-me, nos primeiros dias da sua incapacidade, um esforço redobrado mas também aliciante de substituição de funções. Nos últimos dias, no entando, o 'bicho' está com a força toda e declinou na cozinha a sua força (que é muita) não executada no trabalho exterior O qual ainda não está habilitada a exercer.

Pois ó meus amigos! Tenho comido que nem um Rei! Desde sempre com jeito para o tempero, a mulher nem todos os dias tem tempo para a arte associada à alimentação. Porque chega tarde, porque não tem paciência, porque está cansada. Mas, honra lhe seja feita, sempre vai fazendo o que pode. Só que agora - só aparentemente sem sentido - pode mais. E vai daí deita-se aos tachos como artista que sempre foi e quase nunca pudera ter exercido na sua plenitude. Encarcerada em casa, vai-se mexendo como Deus quer e a cozinha é que apanha por tabela da sua impossibilidade profissional. É assim como um complemento da imensa actividade que lhe foi vedada nestes dias de convalescença.

E agora, interesseiro, digo eu: que doençazita pacata lhe conseguirei arranjar depois desta? Uma coisa que não a magoe, mas que a ponha em casa em repouso e que me excite de paladares.

Ela que perdoe, e já agora as senhoras que tanto fizeram por nos fazer companhia nesta saga moderna de levar o mundo pr'a frente. Mas lá que o meu Pai teve sorte...

terça-feira, novembro 23

Nada como o sol

Lisboa, por estes dias, só não faz confusão a quem está habituado. É isso, vou falar do tempo, esse assunto que tapa buracos de conversa quando outra conversa não há.

Pouco viajados, os alfacinhas hodiernos não sabem a sorte que têm. Por esta altura do ano, andam suíços e suecos, franceses e alemães de capa às costas, camisolas várias e chapéu que tape as orelhas, para prevenir otites que vêm com o vento gelado. Por cá, é mas é mangas de camisa, mais uma abafozito quando o sol se põe. Privilégios de quem vive ao Sul.

E que fizémos nós para merecer isto? Nada, digo eu. Se dependesse dos nossos políticos e empreários, já o sol se tinha apagado e o mar secado. Mas só para ter uma ideia economicista do que o Sol nos traz, fiquem Vas. Excias a saber que Lisboa é já, neste momento, a quinta cidade europeia em turismo de negócios, congressos, etc.. Porque os nossos equipamentos são de ultra-luxo e a preços módicos? Em parte. Mas principalmente por causa do Sol. Ponto final.

Dêem graças a Deus.

segunda-feira, novembro 22

PRODUÇÕES CLAQUE QUENTE
APRESENTAM



A Rosa do Arno
(teatro de inspiração popular)




ACTO I
Cena 1

(Rosa está sentada num banco de jardim, folheando um jornal. De repente, num gesto brusco, atira o periódico ao chão e levanta-se)

- Nesta terra que me calhou em sorte habitar, não há emprego que jeito tenha para uma mulher como eu. Pedem currículos, pedem concursos, referências, experiência anterior. O raio que os parta! Renego-te, Florença, a grande terra do saber e das artes. Merda! Num país onde toda a gente dá um jeito e o compadrio é quase regra, eu tinha que vir calhar na mais civilizada das cidades, onde todos se consideram superiores. Regras e mais regras… Mais me valia ter nascido alemã!

(volta a sentar-se, pensativa e irritada)

- Para que é que tenho um corpo destes? Para um dia destes casar com um pobre diabo qualquer, com mais sorte que os outros e que me apanhe o coração desprevenido… (levanta-se outra vez) Era só o que faltava! Nessa não caio eu. Isto aqui (e meneia-se) há-de servir para mais do que isso.

(vai para a parte de trás da cena e debruça-se sobre aquilo que parece ser uma cerca a dar para um leito de água)

- Rio Arno, rio Arno, para onde corres tu? Para onde me levas, desde que seja daqui para fora?! És pequeno e estreito como a cabeça desta gente que me rodeia.

(virando-se para a boca de cena)

- Eu nasci para espaços maiores! Onde a água seja a perder de vista! Aqui sufoco no meio das pedras centenárias, todas alinhadas e limpas. Eu quero da luz a escuridão. À perseverança prefiro a audácia, ao certo o desacerto, à inteligência a esperteza. É aí que eu me dou bem.

(ri-se e dança sozinha)

- Ainda me lembro daquele professor na Faculdade que me queria dar negativa, lá a uma porra de uma disciplina que eu até já esqueci o nome. Epistemologia, ou o caraças. Saí de lá com um 4 e ele também não se saiu mal, o estupor. (gestos sensuais).

(mais séria, virando-se para a plateia)

- Eu gosto de comunicar. Cada um comunica como pode e gosta. Acho uma parvoíce esta moda agora de que toda a gente tem que ter cérebro de Einstein para subir na vida. (meneia-se de forma ordinária). Eu cá tenho cu de Marilyn e mamas de Madona. Qual é o mal?

(volta-se outra vez para o rio)

- Te juro Arno, não vou morrer a olhar-te. Se aqui não há lugar para mim, outros me hão-de admirar.

(corre para a boca de cena)

- O Tejo… É isso! Aquele rio enorme que banha Lisboa. As férias que eu lá passei! (mais pensativa) Gente engraçada aquela. Já li algures que ainda são mais desorganizados que os meus patrícios do mezzogiorno.

(mais alegre)

- Lá é que eu ia longe. As tipas, em geral são feias e pouco atrevidas. E ouvi dizer que lá tudo o que é estrangeiro pega…

(cada vez mais animada)

- É isso, vou-me ao Tejo, grande, grande rio! Próprio para corpos a rebentar por dentro e cabeças ágeis como a minha. Adeus Arno, aqui a Rosa vai mas é para Lisboa!



sábado, novembro 20

Não são todos iguais

Se há coisa em que sou ferozmente xenófobo é na comida. Em termos globais, a portuguesa é a melhor do Mundo, ponto final, não admito discussões. Não que não haja um prato ou outro de outras paragens que me encha o goto. A 'pescada à basca', o 'bóbó de camarão' da Baía, as 'almôndegas' suecas ou alguns belos queijos suíços e do Norte de Itália. Mas a minha Pátria é o cozido à portuguesa, com licença do Pessoa.

Serve este intróito para referir que não sou avesso a, uma vez por outra, entrar num restaurante chinês, desses que há para aí aos quilos, até porque fica em conta e a comida é, as mais das vezes, bastante digestiva. Ideal para comer antes de uma ida ao teatro, em que à força de estar sentado não me cai bem a peça se a barriga não estiver sossegada.

O problema com a comida chinesa que por cá se faz (a maior parte dela macaense ou limítrofe, por isso também influenciada por nós, durante cinco gloriosos séculos) é que é toda igual, parecendo oriunda de um 'McDonald's' de sub-cave, onde chinesinhos aos montes a confecionam em regime de franchising para todos os irmãos amarelos que decidiram viver neste canto da Europa. Eu tenho preferência por um ali na Rua da Misericórdia, porque é asseado, outro ao pé do 'Maria Matos', porque tem alguma sofisticação, e outro ali ao Marquês, porque fica à mão para almoços de trabalho. Mas confesso que, de olhos tapados, não lhes notava a diferença de sabores ou esmero de confecção.

Então isto para contar que ontem me aconteceu algo. Com a mulher meia acamada, e em eu tardando a chegar a casa, teve a dita a lembrança de pegar num folheto que a empregada tinha deixado lá em casa com o contacto de um chinês de Linda-a-Velha que faz entregas ao domicílio. Depois de um breve telefonema, combinámos 'família feliz' para os dois, mais o 'porco doce' que ela não dispensa.

E ó meus confrades! Aquilo estava de se lhe tirar o chapéu! Este que aqui vos conta comeu e chorou por mais. Tinha todos os matadores, desde os cogumelos chineses até aos rebentos de bambú, as pontas de espargos e a soja rija, a carne era de primeira e os camarões muito decentes. O tempero era uma coisa que não encontrava recordação gustativa. Único e precioso.

Moral da história: o PCC que tenha cuidado. Ontem aprendi que os chineses não são todos iguais.

sexta-feira, novembro 19

Revisto e aumentado

Há acrescentos nos óscares. Era imperdoável não citar a Grande Loja e o Portugal Profundo (links aí ao lado).

quinta-feira, novembro 18



Não conheço melhor aplicação da ciência económica que aquela que permite criar empregos

John Maynard Keynes 'Tract on Money Reform'

quarta-feira, novembro 17

And the oscar goes to:




Há muito, muito tempo, o Claque Quente dedicou-se a dar uns premiozitos blogosféricos Chegou a vez de rever e aumentar, sem perder as fidelidades.

Melhor blogue de texto literário

Fata Morgana

Melhor blogue de poesia

Baby Lónia

Melhor blogue de ensaio

Dragoscópio
À Espera de Godot, ou isso
The Old Man

Melhor blogue de intervenção

Do Portugal Profundo
Nova Frente
Tádechuva
SG Buíça

Melhor blogue de actualidades

Grande Loja do Queijo Limiano
Último Reduto

Melhor blogue de fotografia

Passo a Passo

Melhor blogue de entretenimento

Pandora’s Box

Melhor blogue social

Cotada em Bolsa

Prémio revelação

Blogville
Mau tempo no Canil
O Código de Santiago

Prémio especial do júri
(pelo conjunto de comentários)

Cotada em Bolsa
Objectiva 3
Nova Frente
PluribusUnum
Sete Mares

Pai

(Faz hoje 91 anos que o meu Pai nasceu. Fez há tempos nove anos que morreu).

Olha, isto tem corrido mais ou menos. Já sabes, como alarvemente te ‘prometi’ um dia, que nunca cheguei a formar-me em Direito. Eu sei que o teu amor por mim ultrapassou isso, mas lá que te custou a engolir… acho que nunca como nessa altura chegaste tão perto daquele conceito chão que reza ‘anda um homem a criar um filho para isto’.

Como sabes, ando pelos jornais. Não é vida que se recomende, mas não estou arrependido da escolha. É lixado é nas horas de comer e de ir para a cama. Não dava para ti, que jantavas sempre às oito e ias dormir depois do Jornal da Noite.

Tenho subido na vida como Deus manda e os homens deixam, ou seja, de maneira honesta e devagarinho. Não tenho processos em Tribunal e desmentidos tão pouco. Às vezes há uns ‘artistas’ que tentam umas brincadeiras intimidatórias, mas até este pamonha que não ia para a rua antes de fazer os deveres da escola aprendeu a ser fino. Tem que ser.

Casei-me com a última que conheceste. Não, não era aquela do Belenenses que se sentava ao teu colo, nem tão pouco a outra mais tímida dos olhos verdes. É aquela de Lisboa, com curvas, já tu estavas doente quando ela começou a aparecer lá por casa. Calcula a sorte: estava a meia-hora de ir com ela de férias, para o sul de Espanha, quando a Mãe telefonou. Mais um pouco e não me apanhavas. E nesse tempo eu nem sequer tinha telemóvel. Fizeste de propósito? Se assim foi ainda bem, eu é claro que me queria despedir de ti. Fui de férias a seguir, o que é que achas?

Já tenho uma casa maior que a tua. Claro que não está paga, hoje em dia toda a gente faz isso, quem vier atrás que feche a porta. Olha lá se tu tinhas pensado assim!? Ficava eu sem a entrada que me deixaste para a escritura! Mas também não tenho filhos, não calhou, e agora também já não quero, não estou para que me digam que sou avô dos miúdos, o que a ti te acontecia às vezes. Está bem que é giro ter um Pai maduro, é mais calmo, aprende-se mais, mas depois é foleiro vê-lo partir tão cedo. Apesar de que, para quem fumava como tu, até duraste mais que a conta.

Como sabes, herdei quase tudo da Mãe menos a beleza. Nervos, sensibilidade, jeito para as artes. De ti tenho, dizem, a grandeza no olhar. E a convicção da independência.

Gosto de Lisboa e vou às vezes lá à terra. Está bonito aquilo, ias gostar de ver. E já não descemos de divisão há quatro anos!

E tu como estás? Calculo que aí por cima te tenham dado um cargo que te permita investigar vigaristas e apanhar infractores. Isto apesar de que, segundo contam à gente, aí está tudo apartado, os bons para um lado e os maus para o outro. Parece o final de um filme de cowboys. Se é assim, como é que passas os dias?... Havias de ver o que vai cá por baixo. Está pior do que no teu tempo.

Para o ano que vem escrevo-te outra vez.

Beijos

M.

Alteração das circunstâncias

A programação da RTP 1 para esta noite, logo após o digestivo 'Quem quer ser Milionário?', prometia a habitual 'Grande Entrevista', dirigida por Judite de Sousa. Convidado: Pedro Santana Lopes.

Para quem não esteja a ver, o que está a dar 'em vez de', no canal público, é um daqueles filmes em que Dirty Harry (o grande Clint Eastwood) dá caça a todos os malandros da West Coast.

Só para connaisseurs: alguém se lembra do Danny Kaye?

terça-feira, novembro 16

É dar-lhes!!!

Não sei se este distintíssimo bloguista, tão pouco cá de casa, tem tido tempo para ler o jornal que lhe paga as contas, tão aterefado andou, nos últimos tempos, a encontrar piolhos no cu dos outros. Não querendo entrar em erudições excessivas, nem com tempo para primores de estilo, cá vai a cru: quem cospe para o ar cai-lhe na testa.

A verdade de um jornal realmente independente é esta: a terceira notícia mais importante do dia, com respectiva chamada à primeira página, é hoje titulada 'Sonaecom lança telefone fixo sem assinatura mensal'. Isto mesmo, logo abaixo de um desagrado qualquer entre os parceiros da coligação que nos governa e - hélas - a demissão de José Rodrigues dos Santos. Mais importante, pois, porque com mais espaço de chamada, do que 'Colin Powell anuncia demissão do Governo Bush', ou 'Funcionária da PGR acusada de seis crimes', ou ainda 'Ministério vai criar nova instituição para a divulgação científica'. Isto para só citar outras chamadas de primeira página, não pondo em causa os critérios que levaram à decisão.

Mas mesmo com memória curta, e folheando apenas a colecção de Novembro (ainda o mês vai a meio), pode encontar-se, no jornal do dia 2, uma primeira página que alerta para o facto de que os 'Lucros da Sonae Indústria aumentaram 58 por cento'. Para além de ser inexacto (o que aumentou 58% foi o cash-flow operacional), é preciso dizer que a Sonae Indústria nem sequer integra o núcleo das 30 empresas mais importantes da bolsa nacional.

Passando ao jornal de 12 de Novembro, e logo abaixo de uma garrafal e óbvia manchete sobre o funeral de Arafat, lá está a chamada: 'Combustíveis: Limitações a postos nos hiper custa 200 milhões de euros aos consumidores'. Se calhar é verdade, mas há outras verdades por contar. Por exemplo, como é que é aferida a qualidade dos combustíveis nos postos dos tais hiper. Um dia destes falamos disso.

E já nem falo de quando a concorrência se põe a jeito. Aí é dar-lhes (que é o que eu estou a fazer aqui, seguindo uma velha máxima de uma cultura pouco cristã, mas ainda assim muito enraízada na contemporaneidade, que metia olhos e dentes). Falo da chamada de primeira página do passsado dia 5 - um vigoroso trabalho de investigação assinado por um sub-director e um editor do jornal -, que deu para explicar que a 'PT tem acordo para comprar jornal de Luís Delgado'. É dar-lhes!!

segunda-feira, novembro 15

Conversa da treta

Ainda me apeteceu contar aquela 'vocês sabem porque é que a vagina não passa de moda? - porquê? - porque tem um corte clássico!', mas calculei que já toda a gente conheça a anedota e pronto.
É que isto anda mesmo sem graça. Quando este Governo estava em formação, e mesmo pouco depois da sua tomada de posse, uns amigos meus muitos dados à análise política fartavam-se de rir a toda a hora. Conheço-os há anos e nunca os tinha visto assim. Agora nem eles. A realidade não é anedótica, é patética.



Depois do episódio Marcelo e do 'caso DN' chegou agora a vez de a RTP entrar na dança. Como os leitores habituais já sabem, o Libelinha é muito mentiroso e tem uma grande lata. Encontrei-o hoje ao jantar e lá veio ele com a ideia:
- Sabes que esta história da demissão do 'Orelhas' está mal contada.
- É capaz, é o costume em histórias destas. Com o tempo vai-se descobrindo a verdade.
- Pois é, mas eu estou em condições de te fazer poupar tempo. Sei tudo tim-tim por tim-tim.
- O grande investigador solitário...
- Ri-te, ri-te, mas esta é das antigas!
- Conta.
- É assim: o Rodrigues dos Santos abriu concurso interno para correspondente, ou delegado, ou lá o que é, na Eslovénia.
- Sim, e?...
- Concorreram uma série de macacos e o júri deu notas. Agora adivinha quem é que ficou com o lugar?
- Vais-me dizer que não foi o primeiro classificado...
- És um génio! Foi o quarto, aliás a quarta, classificada.
- Ah, é uma fulana?!...
- ... que a última vez que dormiu com um ministro não foi ontem nem anteontem.
- Ai não? Foi quando?
- Foi antes de anteontem, ó palerma!! Não vês que o ministro foi ao Congresso a Barcelos?
(e o Libelinha ria a bandeiras despregadas com a minha ingenuidade)
- Pronto, lá tinha que vir a história de cama. É sempre a mesma merda! Tens a certeza?
- Eu não, não dormi com eles! Mas toda a gente sabe!
(esta história do 'toda a gente' é deliciosa, passa-se em Lisboa desde o tempo em que o Fernão Lopes era uma espécie de presidente do Sindicato dos Jornalistas. 'Toda a gente' quer dizer pr'aí 500 pessoas, que são as que frequentam o bar do Parlamento, mais os jornalistas de política e meia dúzia de amigos destes que gostam de ser vistos com pessoas influentes. A maior parte dos jornalistas já vai pagando os copos com dinheiro do seu bolso, mas há tradições que não se perdem facilmente...)
- Olha, ao menos o Rodrigues dos Santos parece que os tem no sítio. Eu vi logo que numa casa daquelas não durava muito.
- Ao menos dá para mudar de assunto, aquela novela do DN já não rende e o Marcelo anda arrediço.

(..........)

Agora a sério. Será que os patetas não percebem? Será que, de uma vez por todas, não aprendem a lidar com a comunicação social? Será que não vêem que quem perde crédito são eles e os OCS que tentam manipular?

No Congresso de Barcelos, volta não volta lá ia um pateta à tribuna queixar-se da comunicação social. Não há pachorra.

A informação da RTP há muito que não era tão boa como nos últimos tempos. Vamos lá a ver o que nos sai agora na rifa.

domingo, novembro 14

Às vezes

Às vezes acontece-me isto. Não querer escrever. Desta vez foi pior. Juntou-se o inútil ao desagradável. Fiquei sem teclado (é verdade), a musa foi-se e, para florear o ramalhete, a mais-que-tudo foi à faca. Estou 24 horas por dia de piquete, numa efectivação evidente do juramento 'na saúde e na doença'. Aprender a lavar os pés de outrém, com esta idade, é uma provação que considero positiva.

Surgiram-me, neste tempo, várias ideias para escrever. Já não importam. Sobre Juan Manuel Serrat, por exemplo, o primeiro humano que me deu a noção de que País pode não querer dizer Nação. E a sorte que nós, portugueses, temos nesse aspecto.

Apeteceu-me também, como a tantos de vós, escrever sobre Arafat. Nunca gostei do homem, paz à sua Alma. Mas fui mais além: perguntei-me como foi possível a uma gente (os muçulmanos) que dominou o Mundo durante séculos atrasar-se tanto (porque o atraso deles é sobretudo tecnológico) que viesse a pôr em causa não só a sua própria decência como povo, mas também a segurança do Mundo. Basta ir a Córdoba para perceber o que eu digo.

Talvez devesse ter escrito, também, sobre hospitais. Uma vez na vida passei lá dois ou três dias, por causa de uma apendicite duvidosa. Abriram-me um buraco que à época já não se usava, para prescrutar isso mesmo, uma apendicite ou talvez não. O estagiário que, sob a égide do catedrático, presidiu à função, cortou que se fartou. Soube mais tarde que fui alvo de uma inspecção geral de saúde abdominal, que vistoriou fígado, rins, estômago e intestino, pelo menos. À época, o que estava mal mesmo, e só, era o apêndice. Mas o que conta é a intenção.

A sócia teve mais sorte. Já acamou duas vezes, mas sempre em hotel de cinco estrelas. Desta vez foi a safena (veia da perna), porque geneticamente é mesmo assim, e porque da boca não tira nada. Correu bem.

Podia também falar sobre a visita de Sampaio ao sucessor de S.Pedro. Tenho sobre o assunto um pudor a sério. É preciso ter muita fé para acreditar que o polaco ainda representa Deus na Terra. Já quanto ao 'cenoura' é para estas coisas que o gajo tem jeito. Mesmo ateu tem graça.

No jornal da Avenida da Liberdade, as coisas vão andando com calma. Como dizia o MS, aí mais abaixo, a turbulência ainda não terminou. Mas vai lá com tempo.

Termino com uma citação de letra de uma canção de Pi de la Serra, catalão como Serrat: 'Si les fils de puta volassem non verriam plus el sol'.

Take care!

domingo, novembro 7

Contributos para aclarar uma história mal contada

Um sujeito com memória, militante do PSD, lembrava, poucos dias após a vitória de Durão Barroso nas eleições de 2002, a má relação dos Governos de Cavaco Silva com os órgãos de comunicação social (OCS). Retirava daí, até, a ilação de que uma das causas – se não a principal – do afastamento do Professor e posterior derrota do PSD nas urnas, tinha sido essa dificuldade permanente em fazer passar na imprensa, na rádio e na televisão que Portugal vivia no melhor dos mundos e que o ‘homem do leme’ zelava por isso. O tal militante afirmava ter aprendido a lição e jurou a pés juntos, com os pés agora novamente no Poder, que tal não ia acontecer de novo.

Acredito que o homem tenha identificado o problema com mediana clareza. É verdade que, por vezes, Cavaco Silva tinha dificuldades em fazer passar a mensagem pretendida (mas é altamente duvidoso que isso fosse a causa principal da derrota do PSD nas urnas). A questão, aliás, não é ‘propriedade intelectual’ de nenhum Governo em concreto. Quase todos se queixam do mesmo, e todos, sem excepção, gostariam de ter mais poder nos media. Ora o ‘problema’ é que cabe a estes últimos, em primeiro lugar, identificar a tempo e com precisão as maleitas da causa pública. É essa, aliás, uma das razões que leva os cidadãos a querer informar-se. Estes acreditam que estabelecem uma relação de verdade e de alerta com um grupo de profissionais – os jornalistas – cuja missão é precisamente, antes do mais, mostrar o que vai de errado numa determinada realidade.

O militante que aqui se usa como jogral desta peça dramática teve então o seu momento de falta de lucidez dialéctica. ‘Se os media estão contra nós, há que ter sobre eles maior controle’, pensou. Ou seja, achou que era possível fazer passar por parvos a classe de cidadãos mais inteligente e culturalmente superior da Nação, que são precisamente aqueles que lêem, vêem e ouvem os mais influentes OCS do País. Sendo uma tarefa deplorável, ela é também contraproducente. Os cidadãos, ao notarem que determinado media está a ficar mais alinhado com o poder, desinteressam-se por ele e vão procurar informação noutros lados que lhes pareçam mais credíveis. Aliás, esta é uma questão bem portuguesa, já identificada em estudos académicos. Portugal não tem espaço para OCS alinhados com determinada facção ideológica ou política. Os que o fazem, ou tentaram fazer, surgem nas franjas das audiências ou estão, positivamente, condenados ao fracasso.

O Governo de António Guterres, sob a tutela sectorial de José Sócrates, deu aval positivo (as más línguas dizem que incentivou) a um dos mais formidáveis negócios ocorridos na comunicação social deste País. Falo da transferência do grupo Lusomundo, propriedade então da família Bordallo da Silva, para o universo da Portugal Telecom (PT). Para muita gente, o negócio fazia sentido. Um grupo sólido, como a PT, podia investir e alavancar sinergias numa empresa prestigiada como era a Lusomundo, detentora, entre outros, da TSF, Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Grande Reportagem, etc.. A verdade é que, cerca de uma década depois da controversa passagem da esfera pública para as mãos de Luís Silva, o saldo na Lusomundo era positivo. O DN vendia mais que o seu rival Público, o JN liderava o mercado de diários de grande informação (nomeadamente batendo o Correio da Manhã), a TSF não tinha paralelo nas rádios de prestígio informativo em Portugal. A PT tinha tudo para entrar num negócio ganhador.

Identificados alguns problemas na empresa – a maior parte dos quais tinham que ver com arcaísmos na condução do negócio, próprios de uma sociedade quase familiar -, a PT cedo perdeu o estado de graça. E começou a olhar para a Lusomundo como aquilo que esta parecia ser: uma pequena fatia da sua conta de resultados. Com o esvaziar da bolha tecnológica em 2000/2001, as sinergias de grupo passaram a fazer menos sentido. E em breve a PT desistiu de ganhar a vocação para gerir o negócio. Pôs-se à procura de quem lhe comprasse ‘aquilo’.

Todavia, o problema, para uma empresa cotada em bolsa, era enorme. É que a diferença entre o que tinha pago pela Lusomundo e o que esta valia nos finais de 2001 (depois da ‘bolha’) era de vulto. Após uma plausível venda, isso reflectir-se-ia nos resultados consolidados da PT, numa altura em que a Lusomundo começava a dar sinais de deficitária. Iniciou-se então um processo de ‘emagrecimento’, tão peculiar em épocas de crise, que pudesse tornar a Lusomundo mais atractiva. Neste compasso, já perdi a conta às centenas de trabalhadores que abandonaram a empresa, quase sempre amigavelmente, é certo, mas com enorme peso nas contas da Segurança Social. Ficará para outra ocasião – e provavelmente para outra pena – contabilizar em que é que as reformas antecipadas dos últimos anos penalizaram o erário público.

Faz-se aqui um parêntesis para lembrar que a PT não é uma empresa que se possa dizer privada. O Estado tem nela assento e privilégios vários. O Estado convive, na administração da PT, com alguns grandes grupos empresariais nacionais, que interagem com o erário público das mais diversas formas. E é preciso não esquecer que o Estado português ainda é o maior empregador e sub-contratante da economia nacional.

Em meados de 2002, dois factores se conjuraram para que se iniciasse um processo nefasto para o grupo Lusomundo. Em primeiro lugar, a quebra das receitas de publicidade, inerentes a qualquer época de crise económica. E, em segundo, a chegada ao poder do PSD; o PSD daquele tal militante que tinha memória.

O Diário de Notícias era (é) um dos mais influentes órgãos de comunicação social escrita do País, a par do Público, do Expresso e de algumas publicações da área económica. Marca agenda política, tem um quadro redactorial de gente avisada e profissional. Mantém uma longevidade ímpar entre os jornais portugueses, tendo sobrevivido às mais diversas crises políticas e sociais que assolaram o País nos últimos 140 anos. Tem uma carteira comercial invejável. No grupo Lusomundo, a sua influência nos meios políticos e económicos não tem comparação com os outros OCS.

Num processo que os mais antigos admitem não ter precedentes (mais pela forma do que pelo conteúdo, dizem), o Verão de 2002 serviu à Direcção do DN para estabelecer mudanças nas chefias intermédias do jornal. Trocado por miúdos, e não entrando em rigores técnicos, uma redactora considerada próxima do PSD substituiu um outro que se dizia próximo do PS. Dava a ideia que o director do jornal, que tinha liderado todo o processo de recuperação do DN ao longo da década de 90, fazia aquilo a contragosto.

As Redacções dos jornais não albergam santos. Aquilo é gente habituada como poucos a sentir o ‘air du temps’. Chama-se a isso ‘faro jornalístico’, é indefinível, mas para mim trata-se dos célebres 10% de inspiração e 90% de transpiração que levam ao sucesso em muitas outras profissões. Ou seja, conquista-se na vida através de muito trabalho e argúcia quanto baste. Digo isto porque a partir desse dia o ambiente no DN nunca mais foi o mesmo. Sentia-se nas pessoas.

É preciso que se diga que o ambiente no DN era, até àquela data, de uma transparência notável. Só para se ter uma ideia, um dia alguém mais timorato me disse que eu nunca conseguiria escrever determinada notícia sobre a PT, pelo menos do modo como tinha em mente fazer. A notícia saiu no dia seguinte, com chamada de primeira página, citando fonte da Administração, que aliás se prontificou a falar comigo. Podia dar mil exemplos.

A partir desse citado dia não digo que tudo passou a ser diferente, mas foi-o em proporção suficiente para chegarmos onde chegámos. Por via de variadíssimos ‘tiros no pé’, absolutamente impossíveis de acontecer anteriormente, o DN foi quebrando essa linha fina que se estabelece com o leitor, que é a da credibilidade. Episódios caricatos como a nomeação de um director que tinha sido assessor governamental não melhoraram esse estado de coisas.

Chegados a este ponto, nesta história que já vai longa, é preciso que se diga que a maior parte dos profissionais que fazem o DN todos os dias foram, denodadamente, alertando para esta situação. Puseram o dedo na ferida. Trabalharam, não menos que antes, para que o seu jornal fosse um produto de qualidade. E estão lá, hoje, dando notas de uma vitalidade talvez surpreendente para quem passou por dois anos de vil tristeza.

A clarificação, aliás, já se começa a sentir. Só quem não leu o DN na última semana poderá ter dúvidas sobre o paulatino regresso à norma deste jornal. Presumo eu que a Administração teve, pela primeira vez, noção das consequências das políticas erradas. E teve medo. É que a erosão da base de leitores do DN é real.

Não temos, portanto, dentro do DN, nada a agradecer ao tal militante do PSD que pôs em causa o rigor informativo e as escolhas internas do jornal. Mas neste momento em que parece que o DN voltou aos eixos (dos quais nunca devia ter saído), só lhe quero deixar daqui um ‘bem haja’. Ao menos terá servido para demonstrar, uma vez mais, que não se pode mandar calar aqueles cuja função é mostrar e não esconder. Os leitores não deixam. A realidade idem. E os jornalistas, na sua esmagadora maioria, também não.

No meio de tudo isto, ficam homens e mulheres que sempre lutaram para que o esforço que agora vai ser necessário empreender para mudar de rumo não fosse tão gigantesco. Muitos dos que tiveram cargos directivos e de administração na Lusomundo quiseram remar contra a maré. Se a uns faltou talento e a outros faltou coragem, outros há a quem unicamente faltou o tapete debaixo dos pés.

Mas o mais revelador desta história que espero tenha um final feliz é o ataque que - precisamente neste momento que se sente ser de viragem - está a ser feito ao DN. Muito pouca ou quase nenhuma gente veio à praça para alertar para os desvios que o DN estava a sofrer nos últimos tempos. Pelo contrário, é agora, que o jornal dá sinais de um vigor renovado, que lá vêm ao assassinos de circunstância ajudar a um funeral que eles temem menos próximo do que desejavam.

Ou eu me engano muito ou cometeram um pecado mortal: chegaram atrasados! E isso, no jornalismo, faz perder a notícia.


PS. – Os textos normalmente escritos neste blog são da autoria de um cidadão anónimo, que dá pelo nome de Clark 59. Calmos ou tonitruantes, a tempo ou infelizes, perspicazes ou patéticos, os escritos que por aqui têm aparecido, desde Março do corrente ano, só a esse sujeito, mais ao seu fiel Libelinha, dizem respeito.
Não é o caso do texto que acima se publica. Esse é da autoria de Márcio Alves Candoso, jornalista do Diário de Notícias, com carteira profissional nº 2629.


sábado, novembro 6

DN para sempre

Há quem tenha querido distorcer a maneira de ser do Diário de Notícias. Há quem tenha querido tomar a parte pelo todo. Não vão lá. Os profisssionais do DN não deixam. Continua, se Deus quiser, a ser uma refereênca do País.Para sempre.

quarta-feira, novembro 3

And the winner is...

1 - Os estadunidenses* votaram como nunca. Mais de 121 milhões de eleitores foram ontem às urnas. É sempre bom saber que o pessoal que vive lá no grande império não se coíbe de exercer os seus direitos constitucionais.

2 - Uma hora ou duas depois de se ter confirmado que Bush venceu, a Reuters noticiava que as acções das empresas ligadas à indústria farmacêutica, ao petróleo e ao armamento estavam em alta, enquanto que as Obrigações do Tesouro tinham descido. Muita gente acha os dois candidatos à presidência dos EUA bastante parecidos. Wall Street, pelos vistos, sabe que não é verdade.

* Os meus amigos canadianos ensinaram-me que não se chama norte-americanos aos habitantes dos EUA

Amar final

Um dia, meu amor, quando me cansar
de seguir este rasto vago, estarei contigo,
e da nossa porta veremos florir sonhos comuns
que serão vulgares e nossos.
Encherei o peito só de felicidade fidelíssima
e o teu amor, frágil suporte de mulher,
estará sempre ali, tão permanente...

Um dia, quando me cansar da dúvida
e me bastar toda a inconclusão
poderei sentir-te perto, presente, minha...
Quando aceitar que adormeça
esta diferença infeliz, tortura das noites e vácuo dos dias
que faço de conta que passo contigo,
baterei à tua porta, onde quer que estejas,
para bebermos juntos sonhos brancos,
para me rir das anedotas que ainda me não contaste
e levar-te a ti e aos miúdos ao cinema

Um dia, quando adornar de ti apenas
todas estas paixões pelos outros
por todos os que aqueço, me aquecem,
por todos os que sofro ou mesmo p'los que não suporto,
o que é apenas uma maneira mais louca de lhes perseguir o amor,
nesse dia - então - pintarei a nossa casa
e adormecerei nos teus braços tantas vezes
quase tantas as que farei amor contigo

Um dia, nesse dia ansiado e temido
em que eu mudar, sem tortura
amar o dia que vivo, tiver culpa e me desculpar
errar e for humilde, e for até melhor que os outros
sem que eles se esforcem nada por isso
Um dia, quando já nada me protelar o descanso
deste jardim e varanda,
nesse dia, amor, terei tempo para ser feliz
e juro que serei feliz contigo.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

´ BlogRating