sexta-feira, outubro 1
De regresso aos assuntos, já agora a Lusitânia
Acontece que eu tenho opinião sobre os assuntos. A Código de Santiago já deu mui douta ideia sobre o assunto número 2 (sobre que mais poderia ter sido?), tendo também alinhavado saliva sobre outros (sem senso mas com graça). Por isso, aqui me cabe dizer ao que vinha (vou).
1 – O Serviço Militar Obrigatório (SMO)
Peço desculpa aos incautos, que são quase todos, mas o SMO é das mais democráticas e imprescindíveis instituições da República onde vivemos.
Lembremos a história. Por razões diversas, entre as quais avulta a (ainda recente) guerra colonial, a maior parte dos cidadãos, fêmeas ou machos, invectiva o SMO. Não vou por aí.
O que me interessa é saber a quem cabe a defesa da Pátria: se aos sargentários profissionais da guarda pretoriana, ou se aos cidadãos civis armados que prestam serviço temporário pela mesma. A mim interessa-me saber se a tropa vive na entropia da sua própria essência corporativa ou se aceita ser tocada pelos ventos da sociedade civil que é suposto servir. A mim interessa-me saber se os melhores espíritos de cada tempo têm, ou não, o direito de influenciar os homens cuja missão, nobre e soberana, é a defesa da independência, da liberdade e da segurança. A mim interessa-me saber se, em vez disso, deixamos essas funções constitucionais nas mãos de um rancho de soldados a soldo.
Falo do que sei. Sei como é chato estar à beira da vida real e ter de amouchar 18 meses no Exército, à sombra e ao sol, à chuva e às ordens de quem faz a guerra. Mas conheço um monte de vice-presidentes de conselhos de administração (gente do meu tempo) que passou pelo mesmo. Perguntem-lhes (em privado) se gostaram desse tempo; vão dizer que não. Perguntem-lhes se o deram por perdido; vão dizer que não. Por duas razões, que às vezes se sobrepõem: primeiro, foi a oportunidade que tiveram aos vinte e poucos anos de dar de caras com um punhado de homens bem mais rudes que eles, a quem tiveram que conhecer e estimular – nada de que a vida posterior os tenha preservado. Depois, esse tempo deu-lhes a ideia de como funciona um dos poderes fáticos com que eles, se ascenderem aos mais altos postos da Nação, um dia se terão de confrontar: os homens armados.
Com desculpa às senhoras, a tropa ensinou-me ainda uma arte bem distante do meu tempo, a qual seja matar o inimigo com recurso a instrumentos básicos; por exemplo os dedos da mão, folhas de pinheiro ou uns óculos de sol. Estou grato também por isso.
No SMO passei alguns dos piores, e também dos melhores, momentos da minha vida. Não fui à guerra (graças a Deus) e por isso tenho pudor de falar das marcas que tenho no corpo para o resto da vida, e que lá ganhei. Podia ter feito como tantos outros, que no meu tempo usaram um truque chamado ‘Objecção de Consciência’ para escaparem ao dever. Podia-o ter feito com a maior das facilidades. Mas não. Quem quiser que (me) julgue.
O fim do SMO é só mais um passo para o relaxe social a que por cá chegámos. Ao que parece, ninguém estuda história. Estamos cada vez mais à mercê da mesma sorte dos ‘impérios’ quando desistem de o ser: ser invadidos pelos Hunos.
E, se Deus não vai ter piedade de nós, os partidos do(s) Governo(s) vão concerteza ganhar votos nas camadas jovens.
Ainda bem que nem tudo é negativo...
5 Comments:
Ora aí está uma experiência, o SMO, que muito me aprazeria ter tido. É certo que à época dos meus 18 anos era violentamente contra. Mas porque era ainda só uma jovem inconsciente, abonada e sem visão de futuro.
Se tivesse feito o SMO, para além, sem dúvida, das muitas experiências logo ali in locco para hoje recordar, teria certamente também hoje - em que não sou mais jovem, nem abonada, nem tenho nenhum futuro para ver... - uma agenda muito mais recheada de números de telefone para usar e tentar abusar. Entre mortos e feridos, ainda deveria haver uns assim-assim, concorda Senhor Clark?
By Mata Hari, at outubro 01, 2004
Claro, Mata Hari
(Vai dormir)
By clark59, at outubro 01, 2004
E não é que o malandro voltou a trabalhar! :)
Até nem discordo totalmente de ti, caro Clark. Mas também não é menos verdade que, com SMO ou não, a nossa força militar vale pouco mais que zero. Integrados na NATO, temos que ter uma participação efectiva, com os meios mais avançados que existam. Já lá vai o tempo das guerras com uma pá. Tem é que estar dimensionada ao nosso país. Quanto a quem nos possa defender, acredito tanto em recrutas como tu, como num qualquer rambo produzido por uma profissionalização militar - para que conste o meu grau de confiança é de para aí 0,001%. Num caso extremo conto comigo e já chega. Desde que, caramelos como tu fizeram o favor de dimensionar este país a este rectângulo à beira mar plantado que, com um bocado de sorte podemos declarar guerra para aí ao Lichenstein :)
By Alfredo F., at outubro 01, 2004
Voltei...;)
:)
By Escape, at outubro 02, 2004
As saudades que eu já tinha, da sua alegre casinha, depois do terramoto...
Continue nesta "onda cool", fardado ou não, a bem da saúde de todos nós que o amamos.
By CotadaEmBolsa, at outubro 03, 2004
Se tivesse feito o SMO, para além, sem dúvida, das muitas experiências logo ali in locco para hoje recordar, teria certamente também hoje - em que não sou mais jovem, nem abonada, nem tenho nenhum futuro para ver... - uma agenda muito mais recheada de números de telefone para usar e tentar abusar. Entre mortos e feridos, ainda deveria haver uns assim-assim, concorda Senhor Clark?
Até nem discordo totalmente de ti, caro Clark. Mas também não é menos verdade que, com SMO ou não, a nossa força militar vale pouco mais que zero. Integrados na NATO, temos que ter uma participação efectiva, com os meios mais avançados que existam. Já lá vai o tempo das guerras com uma pá. Tem é que estar dimensionada ao nosso país. Quanto a quem nos possa defender, acredito tanto em recrutas como tu, como num qualquer rambo produzido por uma profissionalização militar - para que conste o meu grau de confiança é de para aí 0,001%. Num caso extremo conto comigo e já chega. Desde que, caramelos como tu fizeram o favor de dimensionar este país a este rectângulo à beira mar plantado que, com um bocado de sorte podemos declarar guerra para aí ao Lichenstein :)
Continue nesta "onda cool", fardado ou não, a bem da saúde de todos nós que o amamos.
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