segunda-feira, setembro 20
Os meus amigos (VI)
A V. tem um problema grave: é uma das mulheres mais bonitas que eu conheci na minha vida. Pode-se gostar da V. por várias razões (e há várias razões para gostar), mas quando se vê a fulana pela primeira vez acontece sempre isto: olha-se demoradamente.
Por via da profissão, eu já conhecia a V. pelo telefone. Um dia vi-a ao vivo. Recordo o momento como um dos quatro ou cinco na minha vida em que literalmente me caiu o queixo por causa do que o olhar reflectia. À minha frente estava um dos mais belos exemplos da raça humana que alguma vez me apareceu defronte. E nem se pense que era cuidada por aí além. Não. Sapatilhas e jeans, cabelo penteado à pressa, maquilhagem nem pensar (também os 23 anos da miúda não precisavam de mais).
Depois a V. foi para o Inferno. Andou por lá muito tempo e eu sem saber dela. Um dia fez tensões de voltar, e rais me parta se não ajudei a tirá-la de lá. É uma das poucas coisas na vida que tenho a certeza de que fiz bem.
Esse tempo posterior é aquele em que ficámos amigos. O que não é fácil. Ficar amigo da V. é quase como domar um gato selvagem. Não há reciprocidade garantida. Ela arranha, a gente bate. Ela mia, a gente faz festas. E há um dia em que, sem perder o ar desconfiado, o ‘bicho’ nos vem ter ao colo.
A certa altura da vida, a V. andou tão perto de mim que cheguei a duvidar do tipo de relação. Mas foi sol de pouca dura. Ainda bem.
Um dia, já menos íntimos, a V. (como tantas vezes) desafiou-me para uma noitada, daquelas em que discutíamos tudo, incluindo coisas abaixo da cintura que a ela naturalmente lhe aconteciam, e que a mim, pela experiência, pouca novidade traziam, o que a fazia (e faz) sentir segura (a V. é mais nova que eu um par de anos bem medido). Nesse dia, olho para ela e digo: ‘Estás grávida!’ ‘Como sabes, nem eu tenho a certeza, vou fazer o teste amanhã…’ ‘É que tens mais 200 gramas de gordura aí na anca, só pode ser isso…’ ‘Foda-se lá para o homem, olho do caraças!’.
No dia seguinte era verdade. Teve sorte. Um alemão seráfico, no meio de uma noite clara, tinha vertido nela um Algarve veranejo em fantasia total. O gajo alinhou e veio viver com ela. Ainda lá está.
Eu não precisava disto (a festa de anos) para me lembrar da V., mas já que calhou aqui vai. Gosto dela.
3 Comments:
Fiquei agora a saber que a V. é mais velha que eu. Julgava-a mais nova, vê lá tu...! Tens a certeza de que não te enganaste na idade dela? (Proponho que a seguir escrevas sobre a J. — e aí vão duas grávidas de enfiada...)
By Bruno Santos, at setembro 20, 2004
A mim produziu-me exactamente a mesma impressão. Deve ter sido em 1988, porque foi um ou dois meses antes de entrar para a chafarrica onde ainda me encontro a trabalhar.
Paralisei uns cinco segundos. Continuam perfeitamente gravados na memória. 37? Então ela teria 20, talvez...
By PluribusUnum, at setembro 20, 2004
BOS: a nossa J. há-de ir um dia destes, quando me der jeito
Pluribus: É um espectáculo, não é?
By clark59, at setembro 20, 2004
Paralisei uns cinco segundos. Continuam perfeitamente gravados na memória. 37? Então ela teria 20, talvez...
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