quarta-feira, setembro 1

Código da Estrada nova



Há uns anos a esta parte inventou-se uma nova espécie de romance, a qual consiste em misturar realidade com ficção, fazendo crer que a primeira existe apesar (e antes) da segunda, sendo esta apenas uma parte excrescente da razão de ser do livro em causa. Há vários truques para fazer isto: podem, por exemplo, fazer-se referências várias à realidade que subjaz ao enredo (como se tal fosse preciso), sendo a mais convicta e anacrónica das etapas aquela que quer fazer crer ao leitor que não está, propriamente, a ler um romance, antes tem defronte uma verdade insofismável, enredada em prosa ficcionada por mero acaso. Estamos, obviamente, perante uma questão nova, que merece ser escalpelizada.

A maior parte, ou mesmo a totalidade, dos que assim escrevem, não têm como pulsão inicial a escrita. São jornalistas, sociólogos, politólogos, escribas das mais diversas profissões, que descobrem o filão do romance, ou - não conseguindo provar as suas teses - optam por ele para fazer ruído. Têm por sinal aglutinador o serem interessantes do ponto de vista fílmico e muito mal escritos.

Mais modernamente, os escribas em causa funcionam com um verdadeiro filme de Hollywood. Dezenas de pesquisadores, força de vendas antes do manuscrito estar available, etc..

O último espécime que li (até à página 30 com espanto, até à 50 com pudor, até à 100 por dever de crítica) foi o Código da Vinci. Excepcionalmente mal escrito, pedante até à irracionalidade e - last but not the least - muito mal traduzido, este livro tem recebido os maiores encómios da crítica literária norte-americana (de onde é oriundo). Não presta para nada.

Penso, e a isso sou obrigado, que este género de coisas escritas (ia a dizer literárias, mas não me atrevo) falha na erudição excessiva, perde na falta de veracidade (de tanto usar a realidade como enredo) e acaba por arredar o leitor, que facilmente percebe a plêiade de más verdades onde o tentam enredar.

Mas lá que vai dar filme vai. Só os norte-americanos para acabar de vez com o romance.

Viajando pela Internet, encontram-se dezenas de sites discutindo o livro. Discutindo o quê? O estilo, a trama? Não: falando sobre a 'realidade' que lhes está subjacente. É uma pena.


2 Comments:

Tem V. Excia. toda a razão. O livro em causa é de facto muito mau. A mistura entre os géneros polícial e mundano - como se Hercule Poirot pedisse em casamento Margarida Rebelo Pinto - é não apenas uma espécie pretensamente sofisticada de lixo (não) literário, como também uma poluição desnecessária. A questão é saber-se o que faz correr os críticos, que tão saloiamente contribuem para picos de vendas de obras que não deviam sair do fundo das prateleiras das papelarias (note que não me atrevo a escrever livrarias). O que aborrece não é a triste obra em causa vender tanto; terrível é servir de tampão - porque, entre outras razões, não há dinheiro para tudo - à verdadeira literatura. Pior: pelos vistos, está a criar-se a tradição de, todos os verões, sair uma obra do género, com as vendas a disparar para cima e a qualidade literária a disparar para baixo. Um abraço. A.F.S.

PS
Quanto às férias, continuo à espera que passe por cá.

By Anonymous Anónimo, at setembro 01, 2004  

Pois, também achei que o livro não prestava para nada. É verdade que nos atira com ficção como se fosse verdade e é tudo para fazer número (de exemplares vendidos, claro) e deixar os menos esclarecidos de boca aberta, a fazer uma pasmadíssima propaganda ao livro.

By Blogger Fata Morgana, at setembro 04, 2004  

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Comments:
Tem V. Excia. toda a razão. O livro em causa é de facto muito mau. A mistura entre os géneros polícial e mundano - como se Hercule Poirot pedisse em casamento Margarida Rebelo Pinto - é não apenas uma espécie pretensamente sofisticada de lixo (não) literário, como também uma poluição desnecessária. A questão é saber-se o que faz correr os críticos, que tão saloiamente contribuem para picos de vendas de obras que não deviam sair do fundo das prateleiras das papelarias (note que não me atrevo a escrever livrarias). O que aborrece não é a triste obra em causa vender tanto; terrível é servir de tampão - porque, entre outras razões, não há dinheiro para tudo - à verdadeira literatura. Pior: pelos vistos, está a criar-se a tradição de, todos os verões, sair uma obra do género, com as vendas a disparar para cima e a qualidade literária a disparar para baixo. Um abraço. A.F.S.

PS
Quanto às férias, continuo à espera que passe por cá.
 
Pois, também achei que o livro não prestava para nada. É verdade que nos atira com ficção como se fosse verdade e é tudo para fazer número (de exemplares vendidos, claro) e deixar os menos esclarecidos de boca aberta, a fazer uma pasmadíssima propaganda ao livro.
 
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