quarta-feira, setembro 29

Guess what: sobrevivi.

Entre chatices várias (das grandes), que incluem a necessidade de ocupação do computador cá de casa pela dona de 50% da quota social, estive privado da escrita.

Mas regresso um dia destes. Talvez amanhã, quem sabe.

sábado, setembro 25

Bon soir, tristesse

«J'ai toujours aimer tenter le diable»


Ao fim da noite de ontem morreu Françoise Quoirez, mais conhecida por Françoise Sagan. Morreu mais um pedaço da minha vida. Este artigo do Le Figaro dir-vos-á quase tudo sobre ela.
Só não dirá que, se ainda hoje escrevo, a ela em grande parte o devo. Quando, com os meus 15 anos (hélas), li 'Um Raio de Sol na Água Fria' escrevi logo em seguida:

'Sabes? Fecharam a emigração para o pôr-do-sol'

Agora fechou de vez. Também já não vale a pena

sexta-feira, setembro 24

Tema do dia

Hoje tenho cinco temas alternativos

1 - Serviço Militar Obrigatório

2 - Depilação feminina

3 - Mulheres e maternidade

4 - A Caixa da Celeste

5 - Cadeiras de rodas dos para-olímpicos

Mas, como não me apetece escrever, caguei, escrevam vocês se for caso disso.

terça-feira, setembro 21

Lapso e pedido

Por lapso informático, este post aí em baixo saiu três evzes. Como a primeira 'versão' não tinha comentários apaguei-a.
Mas li outra vez e não gosto do que esvrevi. Será apagado na íntegra. Só não o faço já porque aguardo que os meu comentadores me dêem autorização para tal, já que os seus comentários desaparecerão com o texto, e eu, em princípio, não apago comentários. É óbvio que sem texto os comentários deixam de fazer sentido, mas mesmo assim não gosto de tomar decisões sobre o que é dos outros.
Agradeço que passem por cá e respondam ao meu pedido.

Os meus quinze anos

Depois do BOS sacanear toda a malta do meu tempo, está na hora de dizer algo sobre o assunto. Ou melhor, caguei na malta, vou falar de mim.

Sobre a democracia: está visto que o sistema não tem culpa. O edema és tu mais a companha dos interesses. Imagina que o rei (o teu, seja ele qual for) vai nu: fazes-lhe a cruz dos Templários? Ou resolves a saúde, a educação, eu sei lá?! Fazes nada, é mais o teu género. Ou julgas que o Estado é soberano? Pobre de espírito….

Eu, quando com outros me ajuntei ao monte da esperança, fui sempre crítico. Imagina-me como o Ferro, de que gostas, a lutar para que o Estado Novo não descambasse na ideia idiota e pobre onde se afundou.

Depois, a verdade é que ninguém timbrou de forte. Eu tentei, juro. Mas fui o único. Estou por isso me cagando para as falhas dos 15 anos, ou mesmo depois.

Há tanta coisa que podia ter sido feita, no tempo que nada foi. Mudar a propriedade, por exemplo. Não fizémos. Pôr em prática a educação dos pobres. Não fizémos. É disso que falas? Duvido...

Mas há também outras coisas que mudaram. As mulheres, por exemplo. Onde obtinhas tu uma cona disponível (desde que gostasse de ti) antes do casamento, em mil nove e setenta e três? Quase impossível. Agora é fácil. Ainda bem, mesmo com a Sida à porta.

Reconheço que a minha geração não foi além da Taprobana. E poderia? Acho que não. Num País onde o tempo não tem nome e onde as ideias se propagam mal, o que é que faria um jovem de 15 anos? Revolução?

Nem pensar.

Mas custa ser e não ser!

A questão é ser português, e nisso estou contigo.

Um abraço

PS- Quanto aos Euricos e aos Lencastres, perderam as terras dos vóvós, foi, meus lindos? Que pena! Foram parar às mãos dos comunistas, foram!? Que chatice….. Bem que vocês teriam feito daquilo o melhor possível, não era? Cabrão do Vasco Gonçalves.. Tch, tch. Vão-se catar, novecentos anos de direitas não nos puseram em melhor lugar.

Os meus quinze anos

Depois do BOS sacanear toda a malta do meu tempo, está na hora de dizer algo sobre o assunto. Ou melhor, caguei na malta, vou falar de mim.

Sobre a democracia: está visto que o sistema não tem culpa. O edema és tu mais a companha dos interesses. Imagina que o rei (o teu, seja ele qual for) vai nu: fazes-lhe a cruz dos Templários? Ou resolves a saúde, a educação, eu sei lá?! Fazes nada, é mais o teu género. Ou julgas que o Estado é soberano? Pobre de espírito….

Eu, quando com outros me ajuntei ao monte da esperança, fui sempre crítico. Imagina-me como o Ferro, de que gostas, a lutar para que o Estado Novo não descambasse na ideia idiota e pobre onde se afundou.

Depois, a verdade é que ninguém timbrou de forte. Eu tentei, juro. Mas fui o único. Estou por isso me cagando para as falhas dos 15 anos, ou mesmo depois.

Há tanta coisa que podia ter sido feita, no tempo que nada foi. Mudar a propriedade, por exemplo. Não fizémos. Pôr em prática a educação dos pobres. Não fizémos. É disso que falas? Duvido...

Mas há também outras coisas que mudaram. As mulheres, por exemplo. Onde obtinhas tu uma cona disponível (desde que gostasse de ti) antes do casamento, em mil nove e setenta e três? Quase impossível. Agora é fácil. Ainda bem, mesmo com a Sida à porta.

Reconheço que a minha geração não foi além da Taprobana. E poderia? Acho que não. Num País onde o tempo não tem nome e onde as ideias se propagam mal, o que é que faria um jovem de 15 anos? Revolução?

Nem pensar.

Mas custa ser e não ser!

A questão é ser português, e nisso estou contigo.

Um abraço

PS- Quanto aos Euricos e aos Lencastres, perderam as terras dos vóvós, foi, meus lindos? Que pena! Foram parar às mãos dos comunistas, foram!? Que chatice….. Bem que vocês teriam feito daquilo o melhor possível, não era? Cabrão do Vasco Gonçalves.. Tch, tch. Vão-se catar, novecentos anos de direitas não nos puseram em melhor lugar.

O momento político



As rendas de casa
As idas ao hospital
Os passes sociais
Os Planos de poupança


Estou preocupado com este Governo. Aparentemente, este é um Governo que só olha pelos pobres. Acontece que eu não sou pobre, sou remediado. Daí a minha preocupação.

1 - Este Governo vai mudar a lei das rendas de casa. Óptimo, o País espera por essa medida há 50 anos. Trata-se de um dos problemas estruturais da Nação. Se as rendas de casa forem moralizadas, resolvem-se duma assentada vários problemas. Por exemplo, o êxodo para os arredores das pessoas que, em princípio, poderiam e deviam viver no seio das grandes cidades. Com isto, a classe média gastava menos tempo nos transportes e a factura energética (leia-se, gasolina gasta), que é o item da balança de pagamentos que mais pesa no défice, ficava mais leve. Isto para não falar da maior apetência para o consumo inteligente (teatro e cinema a horas decentes, por exemplo) que dessa poupança adviria.

Mas este Governo já disse: os pobres são inamovíveis e até beneficiam de subsídio. Está tudo estragado outra vez: quase todas as pessoas que vivem no centro da cidade, em palácios ou tugúrios a precisar de obra, têm maneira de demonstrar que são pobres (alguns são-no mesmo). A lei não vai mudar nada. Estou mais descansado, por momentos até pensei que o Santana Lopes fosse gente de bem.

2 – Este Governo vai moralizar os gastos com a saúde pública. Como? Pedindo a declaração de IRS ao pessoal que precisar de internamento hospitalar ou consultas de urgência. Assim, impede os ricos de entupirem as filas do Serviço Nacional de Saúde sem pagarem nada. Qualquer pessoa que se dirija a um hospital do Estado sabe que as salas de espera tão atafulhadas de malta com malas da Louis Vuitton e sapatos da Sebago.

O que é que vai acontecer? Vai haver mais óbitos entre a classe média-baixa – a que mais utiliza os serviços públicos de saúde, porque os pobres morrem em casa, de indigência pura e simples -, já que a malta, antes de ir ao hospital, vai pensar duas vezes se aquela dor de barriga não será passageira. Se for uma apendicite aguda, morre na boa, mas não paga taxa.

3 – Este Governo vai impedir as pessoas com rendimentos altos (aí uns 150 contos por mês) de comprar passe social de transportes a preços abaixo do valor de mercado. Faz muito bem. A maior parte dos pobres continua a pagar o mínimo, mas também outra coisa não houvera de ser, porque como não têm carro não têm outra solução; ou então têm, mas são Opel Corsa de 1989, a cagar poluição por tudo o quanto é buraco de escape, e se o passe ficar mais caro lá vem o carrito de Massamá para a cidade, para a Sra. Maria fazer a limpeza da AXA e da EDP no Marquês de Pombal.

Quantos aos outros (poucos) que ainda aturam a Carris e a CP, sabe-se lá porquê, se a factura começar a ser pesada metem-se no Xara em segunda mão que compraram ao negociante da Amadora que vai comprar carros à Bélgica, e vai daí engrossam as filas para o Beato ou a Rua de S.Paulo, onde começaram como marçanos e agora são gerentes de loja.

4 – Este Governo vai mudar os incentivos fiscais aos planos de reforma. Está certo. O pessoal que paga impostos (os trabalhadores por conta de outrem que ganham mais de 150 contos por mês) tem a mania de, no ano bissexto em que não vai passar férias para a Caparica, juntar o 13º para fazer a aplicação que o Totta lhes recomendou. Até se poupa algum nos impostos, diz o banco, e a malta acata. É uma pura sandice, que defrauda os cofres do Estado.

Com esta medida, o Governo baralha (por pouco tempo) a cabeça do pagode, que terá uma propensão imediata para trabalhar ainda menos, já que nem a reforma suplementar lhe deixam por conta. ‘Quero que esta merda se foda’ vai ser ainda mais audível que hodiernamente. Mas o Estado está convencido que encaixa mais uns cobres, sempre à custa dos mesmos, que são os que já pagam bastante.

Tal como sempre me pareceu, este Bagão é um génio.
Terá a Mãe dele culpa?
Volta, barco holandês, estás perdoado!!

segunda-feira, setembro 20

Eu não desisto mas já não invisto



foto roubada àquela miúda baixinha do Porto

Eu confesso que devia ter avisado, mas ontem, quando fui ao jantar dos blogues, superiormente organizado pelo Zeca (a comida era uma merda, mas adiante), levei escondido o Libelinha.
O Libelinha, é bom que se saiba, é amigo da maior parte da gajada do 'Jet 7', e tem uma colaboração com uma revista da moda, da qual eu só não divulgo aqui o nome por mero pudor e porque o tratante me pediu o anonimato.

No entanto, tive acesso em primeira mão ao artigo que o meliante vai escrever sobre o repasto acima descrito. É assim:

'A blogosfera está um must. Num restaurante da Expo reuniram-se ontem cerca de 50 pessoas do melhor, com vista a conhecerem-se de viva voz e olhar, eles que já flirtavam amiúde uns 'cus' outros.

A 'Passo a Passo' estava fantástica. Com seu 'corset' explícito, que contracenava com o cabelo 'blasé' a preto e branco, usava nas unhas a cor das rosas vermelhas que tão bem, em tempos, mostrou no seu blog.

A 'Pandora' vestia uma blusa que ocultava o tamanho da honraria por de baixo da atitude. O sotaque meridional calhava de conta com o trejeito do cabelo, e o efeito era por demais evidente.

A 'In-quietude' formal, apenas aparente, disfarçava a barriguita de mãe numa alocução de miúda. Firme como poucas, é pessoal e intransmissível dizer que lhe cabe a mão na procedência.

A 'Baby Lónia', adatioc, àj evet serohlem, sam adn dcjetams optiahj diisctlti. Jólaptre, uqanbdo.

A 'Sei Lá' nâ merecia, no meio desta conversa, post que se lhe colasse. Mas a 'velha' é tão gira que não me deixa outra hipótese. Ainda gasta meias solas, sei lá!

A 'Código de Santiago' é gira, é gira, é gira. Não fora a saia a despropósito, que lhe mostrava demais o que tinha para esconder, e seria a miúda mais 'cara' da função.

A 'Objectiva 3', que me perdoem, era a coisa mais linda em presença. Não porque o fosse realmente. Mas parecia. Basta.

A 'Puta de Vida' é um trauma em forma de boa. Quem é ela? Será gente? Chuva não é certamente mas gaja não bate assim.'

E assim o Libelinha vai escrever amanhã, sobre nós, numa revista perto de si. Ainda estamos a tempo de lhe embargar a função e de o meter em Tribunal. O cabrão não tem modos, essa é que é a verdade.

Eu, por mim, não desisto, mas também já não invisto.

Os meus amigos (VI)

A V. faz anos hoje. 37.
A V. tem um problema grave: é uma das mulheres mais bonitas que eu conheci na minha vida. Pode-se gostar da V. por várias razões (e há várias razões para gostar), mas quando se vê a fulana pela primeira vez acontece sempre isto: olha-se demoradamente.
Por via da profissão, eu já conhecia a V. pelo telefone. Um dia vi-a ao vivo. Recordo o momento como um dos quatro ou cinco na minha vida em que literalmente me caiu o queixo por causa do que o olhar reflectia. À minha frente estava um dos mais belos exemplos da raça humana que alguma vez me apareceu defronte. E nem se pense que era cuidada por aí além. Não. Sapatilhas e jeans, cabelo penteado à pressa, maquilhagem nem pensar (também os 23 anos da miúda não precisavam de mais).

Depois a V. foi para o Inferno. Andou por lá muito tempo e eu sem saber dela. Um dia fez tensões de voltar, e rais me parta se não ajudei a tirá-la de lá. É uma das poucas coisas na vida que tenho a certeza de que fiz bem.
Esse tempo posterior é aquele em que ficámos amigos. O que não é fácil. Ficar amigo da V. é quase como domar um gato selvagem. Não há reciprocidade garantida. Ela arranha, a gente bate. Ela mia, a gente faz festas. E há um dia em que, sem perder o ar desconfiado, o ‘bicho’ nos vem ter ao colo.

A certa altura da vida, a V. andou tão perto de mim que cheguei a duvidar do tipo de relação. Mas foi sol de pouca dura. Ainda bem.

Um dia, já menos íntimos, a V. (como tantas vezes) desafiou-me para uma noitada, daquelas em que discutíamos tudo, incluindo coisas abaixo da cintura que a ela naturalmente lhe aconteciam, e que a mim, pela experiência, pouca novidade traziam, o que a fazia (e faz) sentir segura (a V. é mais nova que eu um par de anos bem medido). Nesse dia, olho para ela e digo: ‘Estás grávida!’ ‘Como sabes, nem eu tenho a certeza, vou fazer o teste amanhã…’ ‘É que tens mais 200 gramas de gordura aí na anca, só pode ser isso…’ ‘Foda-se lá para o homem, olho do caraças!’.
No dia seguinte era verdade. Teve sorte. Um alemão seráfico, no meio de uma noite clara, tinha vertido nela um Algarve veranejo em fantasia total. O gajo alinhou e veio viver com ela. Ainda lá está.

Eu não precisava disto (a festa de anos) para me lembrar da V., mas já que calhou aqui vai. Gosto dela.

domingo, setembro 19

Doença verdadeira

O Diário de Notícias de hoje, em editorial (ler também em a Grande Loja), cita um estudo internacional no qual se defende que Portugal é um dos países europeus onde o absentismo por doença é menor. A confirmar-se, isto vem mudar radicalmente a 'verdade' oficial, que 'mostra' que os portugueses em geral vigarizam a Segurança Social, através de baixas fraudulentas. É esta 'verdade', aliás, que subjaz à nova lei de subsídio de doença, uma norma que configura um ataque violento a um dos mais elementares direitos individuais numa sociedade moderna e integrada: o estar doente e tratar-se.

Disse na altura que a lei só fazia sentido porque o Estado tem que poupar dinheiro seja lá por onde for. Como não tem, ou não quer ter, capacidade para inspeccionar as baixas fraudulentas, limita o subsídio de uma forma geral, o que tem como consequência penalizar apenas aqueles que estão realmente doentes.

Já escrevi que o que vai acontecer é a malta pensar duas vezes se não há-de apresentar-se no emprego com 38 graus de febre, aí com dois ben-urons no bucho, transformando muito rapidamente em epidemia a infecção de que padece. No Japão, por exemplo, é estritamente proibido ir trabalhar quando se tem uma doença cujo contágio se propaga pelo ar, como é o caso da mais elementar gripe.

O estudo citado pelo DN tem ainda outra dimensão. Sabe-se que a produtividade em Portugal é de um modo geral fraca. As razões apresentadas são várias, e o absentismo está sempre entre elas. Com mais esta 'machadada' na verdade oficial, ainda vão chegar à conclusão (um dia, que a esperança é a última coisa a morrer) que as razões principais para essa produtividade baixa são:

1 - A falta de capacidade de gestão e organização dos quadros dirigentes e dos patrões em geral;
2 - A falta de incentivos aos trabalhadores (e não estou só a falar de dinheiro), e e inexistência, em muitos casos, de um quadro de objectivos claros que os que querem trabalhar possam cumprir;
3 - A falta de oportunidades para quem se quer estabelecer por conta própria, motivada também pela fraquíssima rotatividade da propriedade que há séculos grassa em Portugal;
4 - A amálgama rota que é o sistema nacional de educação, que não forma ninguém para coisa nenhuma.

PS - A que horas é que dá o Benfica?

sábado, setembro 18

O valor do silêncio

Nunca me habituei ao silêncio. Em criança, rodeado amiúde de sete primas mais novas, sempre tive de gerir algazarras. Mesmo a força da montanha sobranceira à casa dos meus pais não abafava o barulho de uma rua principal. Nela, os camiões carregados de madeira e cortiça faziam o vaivém entre a aldeia e a cidade grande, lá nos confins do Douro, onde o porto de mar as levava para longe.

O cosmopolitismo sempre me fez bem. Aos doze anos não chorei pelo Interior deixado para trás, rumo a um Litoral que me cheirava a mar - eu, nesse tempo transmontano sabia a que é que o mar cheirava, agora não, estou sempre perto dele, habituei-me.

Pela vida fora o ritual da fala, seja ou não musicada, sempre me adoçou a alma. Falar, cantar, ouvir falar e cantar, eis-me completo. E, depois, o barulho da cidade adormecia-me. O silêncio não. Fugia dele com medo, irmão da solidão que ele é.

Agora estou a aprender o valor do silêncio.

sexta-feira, setembro 17

BOS de burro não chegam ao céu

O BOS ressentiu-se. Ainda bem. A causa foi um comentário que lá lhe pus no blog, a propósito de um poema indigno dele (mas dele), em que pela enésima vez o camarada dizia mal da Pátria que o pôs a ele, e a mim, neste tempo. Sabendo o BOS (não pode deixar de saber) das críticas que faço ao meu mundo próximo (que é também o dele), só por pirraça ou descuido poderia tomar por mote a minha embirração com o poema para discorrer o que disse. Mas adiante: já vi poetas de eira falarem no milho verde quando o que lhes interessava era os olhos da gaiata que descascava a maçaroca. É assim como uma finta à Simão Sabrosa, que não tendo a quem passar a bola, chuta directo à baliza. Às vezes até dá golo. Não foi o caso.
O BOS, todo o mundo sabe, invectiva o presente com base no passado recente, tomando por melhor mundo o passado mais longínquo. Depois, às vezes, por arte, vai lembrando que o de antes nem era assim tão fecundo, que é para não lhe chamarem reaccionário tout court. É uma amálgama fraca, indigna da cabeça que a pare.
Sei que o BOS gostava (e se calhar tem razão) de ter uma outra Cidade. Como não tem vai lavando as mágoas no rio de outrém. Hoje calhou a vez aos gajos da geração de 70. Calhou-me a mim.
Eu não tenho da minha história nem um ideia heróica nem uma ideia indecente. Não perdi e não ganhei, nem fiz por ambas por isso. Gostava de estar melhor, nem só por mim, mas por todos os que me afagam, me móem o toutiço, ou até pelos que não conheço mas têm igual razão de ser. Democracia, dirás tu. E é verdade que é.
Agora ir-me ao juízo porque a virtude vai mal... tem dó, menino, a culpa tem mais nubentes - trinta anos, em mil anos, que a ti não te saberiam melhor se os vivesses.
A culpa, sabes, é nossa, minha e tua e a dos nossos. Do Botas já nem me lembro, quanto mais tu que és miudo.
Estás mal? Que chatice! Põe-te bem que eu agradeço.
Mas não me fodas o toutiço.

Um abraço

O jantar

1 - Já nem sei como começou, mas a verdade é que o Tadechuva tomou conta da função. E bem. Esta é talvez uma das maiores blind dates da história da Lusitânia. Como todas, tem 90% de hipóteses de dar errado. E no entanto... é também por isto que eu gosto de ser humano. O risco.

2 - Alguns confrades lá vão. Confrades lhes chamo eu, outros lhes chamam irmãos, fregueses, comparsas, companheiros e sei lá mais o quê, a provar que ainda não existe costume nesta aventura moderna que é a blogosfera. Como é bom andar na ponta! Eu sei que sinto.

3 - Falou-se por aí de ir de traje alusivo ao personagem que cada um inventou. Uma perversão, digo eu, porque se vos cai a máscara ao encontrar-se com outros, para que vos serve o hábito? Mas não sou contra.

4 - Criado de Thor e filho de Deus, acredito que o Uno existe. No fim da noite não quero ver cartões de visita, nem promessas para uma outra vez. Quero ver saudade e uma praia da Dinamarca coberta de espuma e sóis radiantes, com gente de enleio.


quinta-feira, setembro 16

As minhas viagens com os Silvas

Personagens:

Nónio Silva
Sina Silva
Fada Silva

Participação especial:

Clark ‘59’ Kent



Num dia há tempos atrás, já a noite ia avançada, Fada Silva teve a ideia: ‘Ó Clark, e se desta vez levássemos os meninos connosco?’
Fada Silva e Clark Kent não têm filhos. Os meninos de que falava a pressurosa eram dois piolhos solteiros, amigos já bem graúdos, que amiúde salpicavam por perto a sua tinante razão de estar no Mundo. Cada um à sua maneira, Nónio Silva e Sina Silva eram amigos do casal terráqueo-kriptoniano. A coisa arriscada – casal mais dois solteiros de férias – parecia ter piada. Clark anuiu, até porque gostava deles.

O Nónio Silva é um rapaz dos seus trinta e tais, esperto mas não travesso, culto nas horas várias, um turbilhão de veneta. Hesita entre um corpo de boxeur e uma alma genuína, que tanto lhe dá paixão como arte para o azar. Páginas tantas, é honesto e bom trabalhador.
A Sina Silva, um pouco mais nova, é um bichinho-de-conta em sombra chinesa, que às vezes troveja em gargalhada geral quando lhe dá para o palco e para o chinelo. Sem sorte na vida tem vida que sobre. É um pouco humindecente, mas tem piada por isso.

A Fada Silva tinha-a toda estudada, que ela goza de adianto. Menorca era o sítio eleito. Fez o trabalho de casa, e os meninos mais o Clark só tiveram que pagar a conta e pôr-se a fancos para a ilhota do mare nostrum. Bem bonita que ela é.

(Menorca, para quem não viu, põe a geologia de rastos e a botânica em stress. Ferro aqui, calcário ali, a cinco quilómetros de distância. Um Cabo é de ardósia, outro é rocha metamórfica. Aqui temos praia branca, ali ao lado terrosa. Vermelha fica nos pés, ou preta, tanto faz, e isto vizinha da outra, caleidoscópica. A arte de Lineu aqui é tudo menos vulgar. Mil arbustos, mil herbáceas, cheiros a dar com um pau de madeiras invulgares).

- ‘Pois o Nónio escolhe o caminho. Aqui há tanto que ver que o carrito tem de servir para alguma coisa’. Isto disse o Clark mal chegou, distribuindo a tarefa que faltava, porque da merenda a Fada não abre mão, e da algazarra a Sina prometia dar conta. A ele, Clark batido, bastava a visão da gente e a cura das feridas de Inverno.

Calharam num sítio giro, praia a perder de vista... com poucas vistas para o Nónio e pouca parra para a Sina. Aos meus meninos solteiros, cheios de sangue no olho, pouca parecia a oferta de sol, mar e jacuzzi que estava paga na agência.

A ilha é de volta fácil, fazendo jus ao apelido. Em dez dias se conhece o quase tudo de um roteiro elaborado com método, mesmo ao sabor de um Nónio que não adivinha o tempo. Várias vezes se mudou de praia, não para que conste de memória futura mas porque teve que ser. É que, numa ilha tão pequena, doze ventos competem na Rosa dos ditos, alterando em momentos o altar do rito devido a Vaíu.

Nónio Silva e Sina Silva não param quietos um momento. Nónio leva a peito a competência delegada para a estrutura da rota. Trota por tudo o que é canto, e acaba a noite solista de uma trova sem bordão.
Sina marca a diferença. Crente de coisas singelas, por dá cá aquela palha faz tremer toda a ribeira. Vai da Irlanda à Argentina como quem conhece o mapa, e tropeça em cada dança um compasso, que ora desdenha ou cobiça.

Fada Silva não descansa. Tem na mão a companhia que inventou, do palco é ela que trata. Sem aparecer - como gosta - vai dando o mote à função.

A Clark o mundo não mente, já não, mas ele ainda lhe nota a diferença. Vê a lésbica indicada no dedo da companheira fazer ronrom dedicada num fim de praia e de dia. Vê o charro dar efeito nuns adolescentes lindíssimos, que sem perder tempo ou maneira vão de língua estrada fora. Vê uns meninos de tenda posta na praia de frente a um lago a intervir um no outro como quem descobre a Taprobana.

Vê a fila em Ciutadela no restaurante da fama e o Casino maneiro, longe de fechar cheio, lá no Porto de Mahon. Vê cavalos de encantar, que na praça volteiam com o povo bem por perto. E um atravessa a sacada e dá um coice na sorte, que só não provoca a morte porque Espanha condescende. Mas sangue jorra no chão, e a banda em passo-doble.

Em menos de uma quinzena, Sina Silva já não cai na história da carochinha. Não confunde alma e lama, e dá novos mundos ao medo. Nónio Silva persistente entende a verdade Fada e acata perdurar filho da mulher do presidente.

Ao sol de um mediterrâneo, amigos são sempre iguais. Agora já se acabou a estrela de Bini e Callas. Menorca fica para trás e a vida muito nos traz.

Com El Toro por detrás, a Sina chama-lhe um figo. O Nónio inventa, a Fada replica. E um Clark na espuma dos dias dá por bem entregue a agenda.

Boas férias.

quarta-feira, setembro 15

Impostos

Aqui chegado, após duas semanas 'abroad', deparo com mais uma aplicação de uma recente invenção da moda: os remediados que paguem a crise. Agora chegou a vez à saúde. É o Governo que o diz.

O estado a que atracou o dito é inaudito. Por exemplo, Bagão Félix. O homem quer que a gente acredite que vai dar abébias aos desfavorecidos, 'obrigando' os outros a pagar mais pelas apendicites. Mentira. E porquê, perguntam os meus plausíveis leitores?!

Bagão Félix, aberração opusdeica de um Governo sem leme, decidiu por si só, ou mal acompanhado, que os cofres do Estado não aguentam mais tentativas de encaixe. A cobrança de Estado é o que é, o Bibi também, os filhos do Damásio idem aspas. À Suécia disse nada. Capitulação decidida, que fazer? Hipótese única, foder quem (já) paga.

Por isso, com pio prazer, decidiu pôr os que pagam a pagar mais. Porque é justo? Não, porque é possível.

Já perdi a esperança de que a máquina do Estado se ponha em campo para descobrir quem não paga impostos. É demais para Bagões e companhia. Por isso até aceito a ideia: quem ganha mais de 200 contos por mês (os ricos...) paga o certificado de doença, o fumo do tabaco a preços de droga ilícita, a utilização da educação, etc..

Tudo isto subjaz a uma vil mentira. Os portugueses que pagam vão ser sacrificados, e os que não pagam riem e arrotam. O Estado não tem (não quer ter) máquina fiscalizadora, e por isso arrebanha de mão os que já estão no sistema. É fácil, é barato, paga os excedentes da Função Pública.

E perguntarão vocês: porque é que eu voltei?




Pop

Eu sei que a Madonna dá bons concertos, mas eu gosto bastante mais dela quando se dedica à literatura.



Não tenho a menor dúvida de que o livro 'Sex', de 1992, é a sua melhor obra. Este excerto aí em cima é só uma amostra. 'Like a virgin', topas?!

PS - É verdade, voltei...

quarta-feira, setembro 1

O direito à vida e a razão do príncipe

Dentro de algumas horas, os jornalistas franceses Christian Chesnot e Georges Malbruno podem já não pertencer ao mundo dos vivos. Porque uma precipitada e discutível lei francesa proibiu os símbolos religiosos nas escolas? Não. Porque a raiva dos homens, que insiste em confundir Deus com o diabo, assim determinou.

A vida destes dois camaradas não vale nem mais nem menos que as dezenas ou centenas que diariamente são ceifadas por esse Mundo fora em teatro de guerra. Sempre assim foi. Por deleite de ditadores, por causa de uma crença levada ao extremo, por ganância imperial ou demência pura e simples. No ambiente mediatizado que se vive, contudo, os correspondentes de guerra são símbolos de resistência do humano contra a noite em que muitos pretendem que vivamos.

Possa a sua vida ser poupada.

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A este propósito, duas coisas me ocorrem:

1 - A profissão de jornalista há-de sempre ser perigosa. Mesmo os que não andam na 'ponta da espingarda' hão-de sempre ter um ministro, um empresário, um juíz ou um tratante que gostaria de calar o homem da caneta. Porque não fazer um debate, a sério e internacional, sobre os limites da profissão? Proponho - como já propus em outras ocasiões - que os jornalistas em teatro de guerra tenham formação militar e estejam habilitados com porte de arma. E, em casos extremos, com segurança privada.

2 - À messieur Jaques Chirac, Président de la République Française:

Excellence

Je ne sais pas qu'est ce vous entend de vôtre position à cause de la securité des citoyans français. Pour moi, si j'étais français, vous ne vous asseyerez pas dans cette chaire à cause de mon vote. Mais je sens que vous êtes un homme pour faire bluff.
Ce que je vous propos c'est très simple: dérogez vous la loi qu'interdit le voile et libére les deux journalistes; aussitôt qu'ils sont saufes, fait ce que votre Excellence veut.

Avec égard

NM,
Florence

O meu Governo cuida de mim

O Governo devolveu-me hoje o empréstimo que todos os anos lhe faço (sem olhar a cores políticas). Chamam-lhe, na gíria, 'devolução de IRS'. Este ano foi um bocadinho mais do que o costume, visto que comecei a pagar uma casita. Claro que não se pode ter tudo, e por isso hoje até esqueço o dinheiro que a Segurança Social me deve há oito meses.

Mas isto para dizer que a contribuição da D.Manuela Ferreira Leite (sim, foi no seu esforçado consulado que eu ganhei direito a esta devolução, e não no deste renegado beato benfiquista que agora ocupa o lugar) me vem ajudar, e de que maneira, a passar melhor duas semanas num sítio assim parecido com esse aí debaixo.

Então adeusinho e até breve.


Código da Estrada nova



Há uns anos a esta parte inventou-se uma nova espécie de romance, a qual consiste em misturar realidade com ficção, fazendo crer que a primeira existe apesar (e antes) da segunda, sendo esta apenas uma parte excrescente da razão de ser do livro em causa. Há vários truques para fazer isto: podem, por exemplo, fazer-se referências várias à realidade que subjaz ao enredo (como se tal fosse preciso), sendo a mais convicta e anacrónica das etapas aquela que quer fazer crer ao leitor que não está, propriamente, a ler um romance, antes tem defronte uma verdade insofismável, enredada em prosa ficcionada por mero acaso. Estamos, obviamente, perante uma questão nova, que merece ser escalpelizada.

A maior parte, ou mesmo a totalidade, dos que assim escrevem, não têm como pulsão inicial a escrita. São jornalistas, sociólogos, politólogos, escribas das mais diversas profissões, que descobrem o filão do romance, ou - não conseguindo provar as suas teses - optam por ele para fazer ruído. Têm por sinal aglutinador o serem interessantes do ponto de vista fílmico e muito mal escritos.

Mais modernamente, os escribas em causa funcionam com um verdadeiro filme de Hollywood. Dezenas de pesquisadores, força de vendas antes do manuscrito estar available, etc..

O último espécime que li (até à página 30 com espanto, até à 50 com pudor, até à 100 por dever de crítica) foi o Código da Vinci. Excepcionalmente mal escrito, pedante até à irracionalidade e - last but not the least - muito mal traduzido, este livro tem recebido os maiores encómios da crítica literária norte-americana (de onde é oriundo). Não presta para nada.

Penso, e a isso sou obrigado, que este género de coisas escritas (ia a dizer literárias, mas não me atrevo) falha na erudição excessiva, perde na falta de veracidade (de tanto usar a realidade como enredo) e acaba por arredar o leitor, que facilmente percebe a plêiade de más verdades onde o tentam enredar.

Mas lá que vai dar filme vai. Só os norte-americanos para acabar de vez com o romance.

Viajando pela Internet, encontram-se dezenas de sites discutindo o livro. Discutindo o quê? O estilo, a trama? Não: falando sobre a 'realidade' que lhes está subjacente. É uma pena.


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