sexta-feira, agosto 13

O estranho caso do campeonato regional



Este meu amigo, a quem faço a devida vénia, lembrou um dia destes a questão dos senhores do Norte que não se dão bem com os ares do Sul, ou melhor, que se queixam insistentemente que os problemas da parte setentrional do País são culpa de quem vive na capital do mesmo. O meu amigo, nortenho de gema mas com conhecimentos vastos do mapa de Portugal, insurgiu-se contra o coro do choradinho do costume. Só não digo que não podia estar mais de acordo com ele porque na realidade posso. E vou demonstrá-lo.

Para começar, e só para me situar perante os putativos leitores, lá lhe comentei no seu sítio mais ou menos isto: Sendo eu um rapaz que já viveu no Interior e no Litoral, tendo passado temporadas demoradas no Norte, no Centro e no Sul do país, tendo trabalhado no Porto e em Lisboa e tendo comido a maior parte das gajas no Algarve, tenho tido ao longo da vida algumas dificuldades em perceber essa história do bairrismo, ou seja, aquele discurso que os do Norte são melhores do que os do Sul ou vice-versa.

Acho que esta questão regional, que ainda hoje dá frutos na Madeira (embora o Alberto João já me tenha confidenciado – e tenho testemunhas – que só usa isso para ganhar votos, já que o que ele adora mesmo é vir a Lisboa e falar às escondidas com jornalistas da capital), não tem pés nem cabeça num País como o nosso, com uma unidade linguística, nacional e geográfica rara na Europa e no Mundo.

Eu conheço gente capaz que acha que todos os problemas radicam no Terreiro do Paço. Mentira. A maior parte dos espertos usa isso em causa própria para não descontar impostos, fugir à Segurança Social e pagar ordenados de miséria a trabalhadores inqualificados.

Passemos então a desfazer mitos.

Primeiro mito desfeito: O distrito de Lisboa é o que cria maior valor acrescentado bruto, aquele onde as pessoas trabalham mais e a produtividade é mais alta. Não é aquele em que a qualidade de vida é mais elevada.

Segundo mito desfeito: O Algarve não é a região onde o Turismo dá mais dinheiro. Lisboa dá mais.

Terceiro mito desfeito: Os alentejanos não são os trabalhadores mais madraços do país. As pessoas que trabalham menos horas por ano em Portugal são os açorianos e os algarvios.

Quarto mito desfeito: Os durienses e os minhotos são, a par dos cidadãos do distrito de Aveiro, os menos cumpridores das suas obrigações fiscais, sendo dos primeiros, no entanto, a sugar subsídios da União Europeia e do Estado português.

Quinto mito desfeito: As pessoas do distrito de Bragança são as menos ricas do País mas são as que menos se queixam do poder central. Não são as mais incultas.

Estas afirmações que acima fiz baseiam-se em estatísticas. A partir de agora baseiam-se em opiniões minhas.

O mito das gajas: Há vários anos que as mulheres do Porto deixaram de ser frígidas. Entre Campanhã e a Foz, há muita racha que se porta condignamente. As mulheres de Lisboa estão a ficar vítimas da bichice reinante e topam a todas, a ver se dá.

O mito da borga: Há vários anos que em Bragança, na Guarda ou em Portalegre se podem encontrar mais bêbados per capita do que em Lisboa ou no Porto.

O mito do estudo: A universidade de Coimbra está em plena decadência. A de Aveiro é bem melhor e a melhor de todas é a de Lisboa.

O mito da religião: Os portugueses já não cumprem nem o mandamento que intenta ‘santificar domingos e festas de guarda’, quanto mais o que diz que se deve ‘guardar castidade nos pensamentos e nos desejos’. Felizmente que o ‘não matarás’ ainda vai estando presente.

Se os meus amigos me puderem favor um favor, agradecia o seguinte: passem quinze dias de férias em Portugal, seguindo uma volta ziguezagueante ou longitudinal, e depois digam-me onde é que não se sentem em casa. Com franqueza, eu sinto-me bem em todo o lado. Gosto da diversidade, laracho com a diferença, adoro a gregaridade.

Há uns anos, uma nortenha que estimo, de nome Elisa Ferreira, sustentou que às vezes os seus mais próximos pareciam uns Calimeros. A minha costela nortenha não admite menoridades. Na capital do meu País, sou tão bom como os melhores. Qual é a dúvida?

7 Comments:

Olha Clark, agora não só podes incluir nas estatísticas, como podes considerar uma opinião pessoal: eu gosto de todos os cantinhos deste país, mas enquanto li o teu blog, não comi ninguem. Portanto podes registar, quecas com o portátil em frente, não obrigado.

By Blogger PreDatado, at agosto 13, 2004  

Caro Clark, alguns comentários aos mitos:
1º - Lisboa e Vale do Tejo tem maior produtividade porque é nessa região que se concentram indústrias mais capital-intensivas, em que cada hora trabalhada rende mais. Intalassem-se mais empresas dessas noutros pontos do país e a produtividade aí cresceria quase de modo automático.
2º - Lisboa passou à frente do Algarve em receitas de turismo apenas neste ano e obviamente por causa do Europeu (7 jogos disputados na capital). Lisboa tem também muitas receitas hoteleiras por tser sede de muitas multinacionais e haver muito movimento de quadros.
3º - Com o desastroso Rendimento Mínimo Garantido muitos alentejanos preferem ficar em casa e agora temos levas de eslavos na agricultura. Um absurdo.

By Blogger Flávio Santos, at agosto 13, 2004  

O facto de o país ser pequeno não deve obstar a que se critique o facto de algumas regiões serem praticamente votadas ao abandono.

By Blogger Flávio Santos, at agosto 13, 2004  

A observação da Elisa Ferreira sobre os Calimeros do Norte foi feita à minha frente, numa conferência de Imprensa. Visava o Nuno Cardoso, então presidente da Câmara do Porto e tinha toda a razão...
Nasci no Funchal, cresci em Espinho estudando no Porto, vivi sete anos de Lisboa, seis anos em Caracas, três em Bruxelas, mais 18 em Espinho (onde resido) e Porto (onde trabalho) e concordo absolutamente com o Clark.
E os Calimeros só demonstram sofrer de provincianismo quando protestam contra Lisboa.
Mas os lisboetas são os mais provincianos de todos os portugueses, porque, na generalidade, desconhecem absolutamente tudo aquilo que esteja para lá das suas fronteras restritas, que são mais ou menos coincidentes com a zona saloia.
Para a maioria dos lisboetas, aquilo que está para além de Mafra e da Chamusca é algo tão indefinido como o espaço exterior para a generalidade dos humanos - sabemos que está lá e pouco mais!
Mais ou menos como os norte-americanos relativamente ao resto do mundo...
Trabalho numa grande empresa de comunicação social - a maior de todas - e verifico que a esmagadora maioria dos meus colegas de Lisboa nunca veio ao Porto, nem a Aveiro, nem Braga, Bragança, Chaves, Vila Real ou Viseu. E são jornalistas, uma ocupação que normalmente obriga a uma mobilidade superior ao normal e que, pela sua própria natureza, deveria levar os seus profissionais a procurar conhecer bem toda a realidade nacional...!!!
Se são raríssimos os lisboetas que vieram ao Porto, hoje em dia é praticamente impossível encontrar um portuense médio que não se movimente à vontade em Lisboa.
Por isso, tenho para mim que, sendo os Calimeros do Norte confrangedoramente toscos e provincianos, patéticos, os lisboetas, sob a aparência blasée, são-no ainda mais....

By Blogger PluribusUnum, at agosto 13, 2004  

O FG Santos refere que em Lisboa e VAle do Tejo se concentram as indústrias com grande capital intensivo. Tem alguma razão mas não toda. Em Lisboa e vale do tejo concentra-se a mais bem gerida indústria nacional, fruto de vicissitudes várias entre as quais a roubalheira das nacionalizações de 1975, que, ao menos isso, fez com que os novos empresários, se tornassem melhores gestore, sobretudo no que diz respeito aos recursos humano. Um operário não especializado (menos de um ano de serviço) na minha empresa, ganha 50% mais que um operário têxtil do vale do Ave com vários anos de casa.
Este assunto é um bocado complexo para um comentário, mas será objecto de um postal nomeu blog.

By Blogger Luís Bonifácio, at agosto 13, 2004  

FG Santos,essa dos alentejanos por via do rendimento minimo não trabalharem,é suja,rasteira,e configura uma mente esdrúxula!!!

By Blogger daniel tecelão, at agosto 14, 2004  

Tecelão, passando por cima dos seus adjectivos, só lhe posso dizer que o que refiro (e escrevi "muitos alentejanos", não "os alentejanos") é um facto, a imprensa já a ele se referiu amiúde.

By Blogger Flávio Santos, at agosto 14, 2004  

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Comments:
Olha Clark, agora não só podes incluir nas estatísticas, como podes considerar uma opinião pessoal: eu gosto de todos os cantinhos deste país, mas enquanto li o teu blog, não comi ninguem. Portanto podes registar, quecas com o portátil em frente, não obrigado.
 
Caro Clark, alguns comentários aos mitos:
1º - Lisboa e Vale do Tejo tem maior produtividade porque é nessa região que se concentram indústrias mais capital-intensivas, em que cada hora trabalhada rende mais. Intalassem-se mais empresas dessas noutros pontos do país e a produtividade aí cresceria quase de modo automático.
2º - Lisboa passou à frente do Algarve em receitas de turismo apenas neste ano e obviamente por causa do Europeu (7 jogos disputados na capital). Lisboa tem também muitas receitas hoteleiras por tser sede de muitas multinacionais e haver muito movimento de quadros.
3º - Com o desastroso Rendimento Mínimo Garantido muitos alentejanos preferem ficar em casa e agora temos levas de eslavos na agricultura. Um absurdo.
 
O facto de o país ser pequeno não deve obstar a que se critique o facto de algumas regiões serem praticamente votadas ao abandono.
 
A observação da Elisa Ferreira sobre os Calimeros do Norte foi feita à minha frente, numa conferência de Imprensa. Visava o Nuno Cardoso, então presidente da Câmara do Porto e tinha toda a razão...
Nasci no Funchal, cresci em Espinho estudando no Porto, vivi sete anos de Lisboa, seis anos em Caracas, três em Bruxelas, mais 18 em Espinho (onde resido) e Porto (onde trabalho) e concordo absolutamente com o Clark.
E os Calimeros só demonstram sofrer de provincianismo quando protestam contra Lisboa.
Mas os lisboetas são os mais provincianos de todos os portugueses, porque, na generalidade, desconhecem absolutamente tudo aquilo que esteja para lá das suas fronteras restritas, que são mais ou menos coincidentes com a zona saloia.
Para a maioria dos lisboetas, aquilo que está para além de Mafra e da Chamusca é algo tão indefinido como o espaço exterior para a generalidade dos humanos - sabemos que está lá e pouco mais!
Mais ou menos como os norte-americanos relativamente ao resto do mundo...
Trabalho numa grande empresa de comunicação social - a maior de todas - e verifico que a esmagadora maioria dos meus colegas de Lisboa nunca veio ao Porto, nem a Aveiro, nem Braga, Bragança, Chaves, Vila Real ou Viseu. E são jornalistas, uma ocupação que normalmente obriga a uma mobilidade superior ao normal e que, pela sua própria natureza, deveria levar os seus profissionais a procurar conhecer bem toda a realidade nacional...!!!
Se são raríssimos os lisboetas que vieram ao Porto, hoje em dia é praticamente impossível encontrar um portuense médio que não se movimente à vontade em Lisboa.
Por isso, tenho para mim que, sendo os Calimeros do Norte confrangedoramente toscos e provincianos, patéticos, os lisboetas, sob a aparência blasée, são-no ainda mais....
 
O FG Santos refere que em Lisboa e VAle do Tejo se concentram as indústrias com grande capital intensivo. Tem alguma razão mas não toda. Em Lisboa e vale do tejo concentra-se a mais bem gerida indústria nacional, fruto de vicissitudes várias entre as quais a roubalheira das nacionalizações de 1975, que, ao menos isso, fez com que os novos empresários, se tornassem melhores gestore, sobretudo no que diz respeito aos recursos humano. Um operário não especializado (menos de um ano de serviço) na minha empresa, ganha 50% mais que um operário têxtil do vale do Ave com vários anos de casa.
Este assunto é um bocado complexo para um comentário, mas será objecto de um postal nomeu blog.
 
FG Santos,essa dos alentejanos por via do rendimento minimo não trabalharem,é suja,rasteira,e configura uma mente esdrúxula!!!
 
Tecelão, passando por cima dos seus adjectivos, só lhe posso dizer que o que refiro (e escrevi "muitos alentejanos", não "os alentejanos") é um facto, a imprensa já a ele se referiu amiúde.
 
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