sábado, agosto 28
Em deslouvor da Pátria porca
Sejamos sinceros: se fosse comigo merecia cadeia, porque eu, mesmo sem álcool, sou um desatinado do caraças, e aposto que, se tivesse carta de condução (coisa que não tenho), era daqueles que andava ao murro na Rotunda do Marquês, ao primeiro patego de barba por fazer e traque ligeiro que não fizesse pisca para descer a Avenida da Liberdade. Mas com a minha amiga é diferente.
A citada Senhora (com S grande) é das melhores condutoras que conheci na minha vida, eu que passei a vida a ser conduzido. Nunca teve um acidente e já evitou umas centenas. É atenta, educada, boa nos pedais, com muita experiência. Nunca espevita quando aparece um marmanjo a querer 'medir forças' (também os 130 cavalos que monta ultimamente não dão muito azo a que os otários se metam).
Mas é humana. Ontem, foi aos anos do nosso amigo e comentador residente Alfredo F. e 'puxou-lhe' um bocado no tinto. Ia a 80 na 24 de Julho quando 12 (!) polícias a mandaram parar. Soprou no balão. Deu asneira.
Cumpridora da lei que até chateia, a minha amiga não fez ondas. Nem eu. Até que os gajos da Régua lhe solicitaram que entrasse num carro celular e os acompanhasse à esquadra. Com a maior das calmas, fui entrando com ela. Uma Senhora, que eu saiba, não vai com marmanjos que coçam os colhões em público sem estar escoltada por gente que toma banho diário.
Mas não é bem assim. Segundo a lei portuguesa - pelo menos aquela que vigorava ontem em Alcântara, Lisboa, capital de Portugal - a cidadã em causa vai para a esquadra sozinha. Ainda argumentei que as pessoas que se dirigem às esquadras portuguesas devem ter testemunhas, até para o caso de serem decapitadas ou coisa no género, mas a 'letra' só não me valeu voz de prisão porque mostrei um cartão ao moina que o pôs a pensar duas vezes. E, para além do mais, os gajos hoje em dia só dão dez tiros na recruta, nem já a tropa têm de ter cumprido, pelo que ele deve ter ficado na dúvida se eu não lhe sacava a pistola com um murro nos olhos antes que tivesse tempo de dizer qualquer coisa no espanhol de Foz Côa que balbuciava amiúde.
Não sei quem foi o maçon, facho ou paneleiro que inventou esta lei de que uma Senhora tem de ir sozinha de noite para uma esquadra de polícia, acompanhada por papalvos fardados com o 9º ano incompleto. Mas sei que se passa em Portugal. Depois de a fazerem esperar duas horas antes da contra-prova (soprar no balão outra vez, preencher papéis, dizer o nome da Avó...) mandaram-na para casa, sem que alguém ficasse a tomar conta do carro que, graças a Deus, hoje de manhã estava inteiro. Mas se não estivesse tanto se lhes dava, eles são uma autoridade, querem que os bens dos cidadãos que lhes pagam os torresmos de que se alimentam se fodam.
A citada Senhora, que se deitou pelas 7 da manhã, foi intimada a dirigir-se a tribunal (com letra pequena) pelas 10 horas. Lá estava. Cerca das 14h30 foi ouvida por um juíz (com letra pequena), sem comer nada de jeito, sem dormir, sem ter da vida outra noção que não fosse a da bandalheira que este país boçal atravessa. Mas aguentou. Porque ela é assim, corajosa, cumpridora.
Obviamente, isto não fica assim.
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Um dos problemas da 'lei igual para todos' é que corta a direito, sem olhar a quem. Tenho a certeza de que a minha amiga, se um dia calhasse de estar a caír de bêbada (hipótese na qual usaria um táxi, mas enfim), não provocaria qualquer acidente, porque o civismo perene que lhe conheço é para ela mais forte do que o tinto de ocasião. Mas não é assim que a sociedade se organizou.
Segundo estatísticas da Direcção Geral de Viação, 23% dos acidentes são provocados pelo álcool. Ou seja, 77% são provocados pelos cabrões que só bebem água. A diferença não está aí. Está no civismo, no auto-domínio, na capacidade de conduzir, na adaptação da condução às condições da estrada, do trânsito, do automóvel, enfim, daquilo que se bebeu, se for caso disso.
Não é dificil estabelecer uma estatística sociológica sobre quem são as luminárias que mais provocam acidentes na estrada. De cor, mas com sentido empírico e do alto dos meus 45 anos, aposto que têm fios de ouro ao pescoço e cheiram a Aramis ou bedum de piça, o que é quase a mesma coisa. Tratando-se de gajas, têm as unhas compridas, saltos altos e joanetes. Não tenho esperança de que um dia alguém passe a estar atento à realidade que aqui descrevo. Entretanto, o País vai estar privado durante um mês da condução preclara e atenta da minha amiga, que ainda por cima é voluntária do 112 para denunciar anomalias na estrada.
Mas julgam que é já amanhã que ela começa a cumprir a sentença? Estão muito enganados! É só quando acabarem as férias judiciais, lá para 15 de Setembro, porque só então regressa do Meco um togado tisnado e bichento para redigir a sentença. Nos entremezes, a minha amiga pode continuar a conduzir. Bêbada que nem um carro, se lhe apetecer.
Dá vontade de quê, esta merda toda?
2 Comments:
Imagino caro Clark que, os agentes de Alcântara também eram benevolentes, como os que apanhei na Ferreira Borges. É que, se bem te conheço, se assim não fosse, lá se iam as baleares. Deve ter sido bonito, deve...
By Alfredo F., at agosto 28, 2004
Olá Clark... Este país tem leis rigorosas e depois costumes judiciais e policiais de se tirar o chapeu! A tua amiga está Bem não está? Isso é o que interessa... Da minha janela, bom fim de semana. ( não sou anónimo. sou o azenhas do http://azelhasdomar.blogs.sapo.pt )
By , at agosto 28, 2004
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