quinta-feira, julho 29
Os meus amigos (IV)
Depende da perspectiva. Quantificando as referências, o B. vive no passado. Não acredita em quase nada, ele próprio assume que é pessimista. Mas como luta, este homem aparentemente derrotado pela História! E luta porquê? Para que no futuro haja muitos como ele? Não necessariamente. Luta mais para que o futuro pertença aos que como ele são. Se tiverem que ser muitos, tanto pior, que sejam! Que seja mandado ser como ele quiser! É quase uma religião...
Falar de uma personalidade complexa, e pouco encaixotada em estereótipos como a do B, é fácil: só conta a minha opinião. Conheci-o rapaz, que ele segue-me na idade a pouco menos de uma década de distância. Empenhado desde sempre em fazer qualquer coisa, na altura não fazia nada. Mas, como diz um amigo dele, embrenhava-se então na perversão do prazer do espanto que era ser detective do seu próprio acaso. Ele não fazia nada mas sabia desse tempo o pouco a que sabia. «Um destes dias vou trabalhar, e depois é pró resto da vida, por isso agora aproveito», dizia ele.
Nascido nas mãos da indústria, uma das coisas que mais lhe custou foi deixá-la. Ainda me lembro dos olhos cintilantes com que me mostrou, explicando-a, a obra de pais e avós. No papel não ficou, mas é no papel (mesmo que virtual) que deixa obra. E das grandes, assim não lhe doa a mão nunca.
Em termos culturais, o B. é daqueles que era capaz de se distanciar, por pura diletância estética, se lhe encomendassem a revisão estilística e gráfica da sua biografia não autorizada. O prazer que sente na Língua é completo, vai da leitura à produção literária, da exegese ao panfleto, do convívio com os mestres até à retórica e à polémica verbal onde ela se apresente. Se querem ver o B. contente dêem-lhe um livro para ler, que ele é incapaz de não o fazer.
Quando está fora das artes e da política (acontece, juro), o B. é possantemente doce. É vê-lo a falar com mulheres. Não abjura de nada e mesmo assim dá-lhes a volta. Ou ouve-as. Ou até – eu já vi – é carinhoso. Mas sempre numa perspectiva máscula. É assim um D. Quixote que se preza de não deixar Dulcineia nas mãos dos salteadores, mas que não perde tempo com moinhos de vento. Quando me dá para lhe adivinhar a índole, nunca sei se anda de mão dada com Hemingway ou na orla de Primo de Rivera.
Neste dia em que comemora um aniversário que eu não digo, quero dar ao B. um daqueles presentes ambíguos: ‘El camino se hace andando’.
E a discussão, amigo, fica para mais logo.
4 Comments:
O B. é realmente um grande 'cromo'. Uma das caracteristicas que lhe acho mais piada, é a capacidade de estar uma noite inteira a ouvir uma conversa que não lhe interessa a 'ponta de um corno'. Impávido e sereno, como se nada fosse, ali está em modo 'stand-by', mas suficientemente atento, para amiúde rematar a conversa com uma piada certeira.
By Alfredo F., at julho 29, 2004
El camino se hace andando...de Cara al Sol!
É um felizardo este Bruno, assim com bons amigos.
Legionário
By , at julho 29, 2004
O que se aprende a ler este cantinho... temos então um joseantoniano carinhoso!
E se é caso para lhe dar hoje novamente os parabéns... cá vão: parabéns!
By pedro guedes, at julho 29, 2004
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
By PluribusUnum, at julho 31, 2004
É um felizardo este Bruno, assim com bons amigos.
Legionário
E se é caso para lhe dar hoje novamente os parabéns... cá vão: parabéns!
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