terça-feira, julho 20
Os meus amigos (II)
O M. era aquilo a que nós chamávamos um barraqueiro. Piadas, gags a fio, isso é que era com ele. Tinha um incontornável jeito para o palco de rua - dança, drama e percussão. E nós a ver o palhaço. Bem bom que ele era.
Agarotado por natureza, o M. também gostava de falar a sério. Ou melhor, de início achava fantástico partilhar o nosso falar a sério. Da política, do teatro e de tudo o que ele percebia mas pouco. Que daquilo que ele percebia mas muito, quase pedia para falar, e parecia que não se importava quando a gente não o deixava. Mas era mentira, importava-se. Às vezes a gente é que demorava a entender. Um dia pedi-lhe desculpa, e ele retribuiu com uma revolução.
O M. cresceu da forma mais engraçada e demorada que conheço. Até os pêlos lhe rareavam na cara. Tudo o que não lhe foi fácil aguentou firme, mostrando ser o homem que não semblava de caras. Foi à luta uma vez e outra. Ganhava guerras onde era peão e travava-as atrasado quando era general. Até parecia que lhe era difícil o mais simples que a vida lhe deu, que era o deslumbrar miúdas de quarto em quarto de hora.
O M. é o macho mais fêmea que eu conheço. Tem tudo de ambos. Força, sensibilidade, utopia e aparência. Por isso é difícil de entender. Mas quando se lhe chega perto, quer-se ficar lá por perto. Para amigo, estou longe dele há demasiado tempo.
6 Comments:
Do que me lembro de M. da primeira vez que o vi é do estrondo da sua voz de revoada e da forma como os seus olhos nos indiciavam a larga extenção do nosso anonimato. Não era agradável: fazia com que nos encolhecemos num silêncio defensivo e quase tivessemos vergonha de ter opinião - muito mais se ela era discordante. Depois aprendi a sabê-lo mais profundamente. E descobri - muitas vezes quase como que por acaso - que a voz e principalmente a lucidez dos olhos eram um dasafio. Para que não estivessemos quietos, para que nos desquitássemos, para nos irritar até ao ponto de nos obrigar a ser. A ser qualquer coisa, não tinha importância o quê, mas qualquer coisa. Ajudava-nos a crescer, no que era imensamente diferente dos restantes. Para muito melhor. E depois havia a forma desabrida como M. esbracejava - com gestos largos e com remoinhos do intelecto - que nos revelavam outro o lado: o lado da coragem muitas vezes demasiado grande com que enfrentava os mundos, principalmente aqueles que não prestam e que só existem para os abatermos. E também nos ensinava isso: a abater os mundos que não prestam como se isso fosse uma decição fácil, quase óbvia, quase impossível de não ser assim. E não é - é essa a lição. Tenho saudades de M. porque já não o vejo há muito tempo e porque a lucidez dos seus olhos duros e a justeza dos seus gestos enormes me fazem falta todos os dias. Um abraço enorme - e já agora que M., se for caso de ler isto, não ache a coisa demasiado apaneleirada. A.F.S.
By , at julho 20, 2004
Para o AFS: não estamos, obviamente, a falar do mesmo M.. Se eu vir esse, de que falas, aviso-o da tua opinião. E acho que ele também manda saudades
By clark59, at julho 20, 2004
Novo post delicioso, a fazer jus ao mais divinal M. de carne e osso q me foi dado conhecer! (q outros, irreais, fabulados e distantes, só os conheço do ecrã...) "quando se lhe chega perto, quer-se ficar lá por perto"!!!
Penso q o AFS, se se referia a quem eu penso, concordará comigo se acrescentar que é excelente pra incendiar ânimos, pra vibrar em apalpões, pra acompanhar nos copos, pra devorar noites sem limite de conversa, pra delirar e extrapolar realidades.... mas não foi talhado pra fidelidades! A lealdade não o deixa.. ;)
Kisses da baby
By , at julho 20, 2004
Para o outro M.: sempre não estou tão tolo quanto isso (ou seja, ainda não confundo M's), mas a criar confusão continua a ser um dos meus grandes divertimentos.
Para a baby (F?): deixa lá o rapaz fruir por aí, que já não há muitos como ele.
AFS
By , at julho 20, 2004
Estes comentários estão cada vez mais confusos, o que é excelente. Ó AFS, a baby não é a F.!
By clark59, at julho 20, 2004
e se fossem todos beber umas bjekas
By , at julho 23, 2004
Penso q o AFS, se se referia a quem eu penso, concordará comigo se acrescentar que é excelente pra incendiar ânimos, pra vibrar em apalpões, pra acompanhar nos copos, pra devorar noites sem limite de conversa, pra delirar e extrapolar realidades.... mas não foi talhado pra fidelidades! A lealdade não o deixa.. ;)
Kisses da baby
Para a baby (F?): deixa lá o rapaz fruir por aí, que já não há muitos como ele.
AFS
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