sábado, julho 17

Os meus amigos (I)

Não estou com o Z. há imenso tempo. Primeiro foi ele que emigrou para um doutoramento inglês, mais a mulher. Depois fui eu que desci para Lisboa. Do costume de nos vermos amiúde sobrou esta felicidade brevíssima de cruzamentos avulsos, em festas de amigos uma vez por ano. A culpa é mais minha que dele.
 
O Z. é talvez a minha referência mais antiga. Conhecemo-nos no liceu, primeiro ano, e começámos aí o percurso. Ou os percursos, direi melhor, porque a partilha ia da aula às miúdas, da música ao futebol, das férias ao campo nunca neutro das ideias. O Z., para que conste, era uma artilharia de cérebro num corpo de três arrobas. Não mudou muito.
 
Depois do 25 (que a bem ou a mal nos marcou a todos, embora de modos diferentes), o Z., intelectual, não foi dos primeiros a tomar partido. Andou a estudar a coisa, não foi de maoísmos, nem de parte incerta. Tentou a via do pai, que era socialista, mas tal não lhe acrescentou nada à essência e desistiu depressa.
 
O Z., no final da adolescência, ainda franzino mas afirmativo, se nunca foi líder tornou-se necessário. A gente da terra conhece-o melhor se eu falar dele como xadrezista. Dos bons, dos muito bons. Para mim não é só. É também o artolas que ficava a ouvir-me pela noite dentro, como se eu fosse melhor do que ele, só porque a verve nunca me faltou e ele era mais de medir palavras. Vai daí foi para psicólogo.
 
Não pensem que o conheci santo. Longe de ser George Clooney, é um cabrão a engatar miúdas. Desenvolveu uma técnica simples: quando as quer, diz-lhes que as ama. A fêmea lusitana por norma aceita. E ele não se faz rogado.
 
A páginas tantas casou bem e tem dois miúdos. Sofreu há pouco uma perda irreparável.
 
O Z. faz-me falta. Não é de conselhos, é de nos pôr a pensar. Não mete medo a ninguém e isso impõe respeito. É meu amigo.

5 Comments:

("Pleased to meet you, hope you know my name" (Mick Jagger) - p/fundo musical.)
A tua descrição está genial. Há pessoas q ladeam os nossos caminhos; outras q o trilham connosco: são essas as nossas pessoas. Esse Z. é carismático.
Kisses da baby

By Anonymous Anónimo, at julho 17, 2004  

O pai do Z. não é socialista. Bacoreja-se lá na terra que foi pelo costume de te ficar a ouvir pela noite dentro que o Z. decidiu ser psicólogo. Na última vez em que estive com ele, perdi uma Escandinava de brancas (dois erros seguidos no meio-jogo...)

By Blogger Bruno Santos, at julho 17, 2004  

Gostei muito do teu post :)

By Blogger Fata Morgana, at julho 18, 2004  

Caro BOS, embora tu sejas notoriamente melhor xadrezista do que eu, para perder com o Z. não é preciso cometer erros. A questão é que ele joga melhor. Rectifico, o Pai do Z. pertenceu a muitas listas camárias socialistas
Ah, e espera pela tua vez!.....

By Blogger clark59, at julho 18, 2004  

"E espera pela tua vez"... eu quero ver isso!

By Blogger pedro guedes, at julho 19, 2004  

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Comments:
("Pleased to meet you, hope you know my name" (Mick Jagger) - p/fundo musical.)
A tua descrição está genial. Há pessoas q ladeam os nossos caminhos; outras q o trilham connosco: são essas as nossas pessoas. Esse Z. é carismático.
Kisses da baby
 
O pai do Z. não é socialista. Bacoreja-se lá na terra que foi pelo costume de te ficar a ouvir pela noite dentro que o Z. decidiu ser psicólogo. Na última vez em que estive com ele, perdi uma Escandinava de brancas (dois erros seguidos no meio-jogo...)
 
Gostei muito do teu post :)
 
Caro BOS, embora tu sejas notoriamente melhor xadrezista do que eu, para perder com o Z. não é preciso cometer erros. A questão é que ele joga melhor. Rectifico, o Pai do Z. pertenceu a muitas listas camárias socialistas
Ah, e espera pela tua vez!.....
 
"E espera pela tua vez"... eu quero ver isso!
 
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