domingo, julho 25

Óculos de ver ao perto - episódios da vida real



Uso óculos desde os 10 anos. Ou melhor, usava. Já explico.

Recordo-me bem do início. Um dia, estava a brincar com a minha irmã (um ano e meio mais nova) e com uma amiga dela. O desafio, nesse dia, era piscar os olhos à vez, ora o direito ora o esquerdo. Nunca me tinha lembrado de semelhante, penso que foi a amiga da N. (a minha irmã) que teve a ideia. Ora então lá vai.

Acontece que, quando após algumas tentativas, consegui fechar o direito (o esquerdo era mais fácil, não me perguntem porquê), o mundo ficou diferente. Eu reconhecia a N. e a M. (a amiga da minha irmã), mas dava a impressão de que isso ocorria tão só porque eu sabia que elas estavam ali, mais nada. Eram baças, turvas até, não as conseguia enxergar direito (ou melhor, esquerdo). Vai na volta, resolvi ir ler um livro, um qualquer, já não me lembro. Abro a página e nada, não lia nem uma letra. Que esquisito... O meu olho esquerdo, sem o direito, não valia um tostão furado.

A minha Mãe estava a pôr um creme, preparando-se para saír para a missa. Era domingo. O roupeiro grande do quarto dela (e do meu Pai, que estava fora), tinha um espelho a toda a altura, que permitia que aquele ser gigante se visse da cabeça aos pés. Eu cheguei-me ao pé e contei-lhe a façanha.

- Ó Mãe, é verdade que a gente vê melhor de um olho do que doutro?
- Em princípio não, porque é que perguntas?
- É que eu, quando pisco o olho direito, não vejo igual como quando o tenho aberto.
- Ó filho, olha que já estou atrasada, não comeces com brincadeiras.
- 'Tou-lhe a dizer, já experimentei com um livro e não leio nada.
A minha Mãe parou de pôr o creme.
- Olha lá bem para mim, estás a ver aqui esta etiqueta? [do creme] Lê lá com o olho que dizes que vê mal aberto, e o outro fechado.
-.....
- Então?
- Não sei, acho que é a primeira letra é um M [e era, o creme era da Max Factor]. As outras não consigo ler.
- Como não consegues? Abre lá então o outro.
- .... Agora já leio tudo.
- Quando é que descobriste isso?
- Foi ontem a brincar com a N e a M., a aprender a piscar os olhos.
- Vou telefonar ao teu Pai.

O resto é uma história longa e pouco interessante. Calhava que o meu pai tinha um amigo dos tempos de escola que era oftalmologista, um tipo um ano à frente dele no Colégio dos Carvalhos, que o safava das praxes e etecetera. O sujeito, com um ar paternal e optimista, pertencia aos quadros do Exército e tinha consultório privado ali na Cancela Velha, no Porto. Já morreu. Do diagnóstico não teve dúvidas. "- O miúdo tem astigmatismo [eu durante uns anos pensava que era estigmatismo] e hipermetria, precisa de usar óculos, senão o olho esquerdo fica preguiçoso, e ainda corre o risco de ficar estrábico".

Não sem que antes o meu Pai tivesse ainda pago uma pipa de massa num outro médico, de renome ibérico, só para ter a certeza diagnostical, lá comecei a usar óculos. Usei óculos durante 34 anos.

Se querem que lhes diga, nunca notei diferença nenhuma. Dizem-me, e acredito, que aquilo (os óculos) me evitou a tal estrabia, mais alguns problemas de equilíbrio - o que me estaria fadado pela enorme discrepância entre a visão de um e outro olho - e mais não sei quê. Soube depois que tenho a agradecer a esse olho malandro o facto de o outro ser de primeira classe. Os olhos, ao que parece, são de uma solidariedade extrema, tipo proto-comunista, e quando um não presta o outro dá o litro. Na tropa, foi engraçadíssimo. Diz-me o médico da Junta: "- O meu caro amigo tem um olho de atirador especial e outro de varredor de parada; mas como para atirar tem de fechar o que vê mal, está apurado". Como no meu tempo, e no meu meio, não ficar 'apurado' para a tropa era desonra, disse bem dos olhos que tantas chatices me deram na adolescência.

(continua)


6 Comments:

(continua)? Não me digas que ainda vais falar de mais algum olho?

By Blogger Alfredo F., at julho 25, 2004  

Os médicos da junta na especialidade de oftalmologia são sempre se uma sapiência extraordinária. Também eu, após exames e viagens ao Hospital Militar da Estrela, fui dado como apto para todo o serviço. Mas ó Clark, no seu tempo não ficar apurado era desonra? V. é de que década?

By Blogger pedro guedes, at julho 25, 2004  

Pedro: Sou da década seguinte à última na qual você poderá estar hipoteticamente a pensar. Sou dos últimos que vestiram farda nº2 verde. Sou daqueles que não acham que a honra de servir terminou algures entre uma crise petrolífera mundial e a uma alteração política doméstica.

PS - Agora a brincar. Se você andou no Exército depois de meados de 80, vestiu aquelas fardas ridículas cor de terra (outros acham que é cor de... adiante) :)

By Blogger clark59, at julho 25, 2004  

Erro no post anterior: onde se lê 'farda nº 2' deve ler-se 'farda nº 3'.

By Blogger clark59, at julho 25, 2004  

Estou a ver. É da década das minhas irmãs.

By Blogger pedro guedes, at julho 26, 2004  

Eu bem tinha razão...
Estão a ver como ha gente que, com um olho, vê mais que muitos com os dois??!!

By Blogger CotadaEmBolsa, at julho 26, 2004  

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Comments:
(continua)? Não me digas que ainda vais falar de mais algum olho?
 
Os médicos da junta na especialidade de oftalmologia são sempre se uma sapiência extraordinária. Também eu, após exames e viagens ao Hospital Militar da Estrela, fui dado como apto para todo o serviço. Mas ó Clark, no seu tempo não ficar apurado era desonra? V. é de que década?
 
Pedro: Sou da década seguinte à última na qual você poderá estar hipoteticamente a pensar. Sou dos últimos que vestiram farda nº2 verde. Sou daqueles que não acham que a honra de servir terminou algures entre uma crise petrolífera mundial e a uma alteração política doméstica.

PS - Agora a brincar. Se você andou no Exército depois de meados de 80, vestiu aquelas fardas ridículas cor de terra (outros acham que é cor de... adiante) :)
 
Erro no post anterior: onde se lê 'farda nº 2' deve ler-se 'farda nº 3'.
 
Estou a ver. É da década das minhas irmãs.
 
Eu bem tinha razão...
Estão a ver como ha gente que, com um olho, vê mais que muitos com os dois??!!
 
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