segunda-feira, julho 19

Carta aberta a Jorge Jardim Gonçalves

Senhor engenheiro:
 
As nossas histórias, aquelas que o meu círculo restrito de mim conhece, e aquelas que de si são públicas, davam para encher um livro -  a bem dizer, três quartos seriam seus e eu ficaria com uma assoalhada. Não vou começar por essas, mas sim por uma pessoal, que são duas.
 
Conhecemo-nos pessoalmente em 1994, por alturas da compra do BPA. Lembra-se? Foi uma das mais notáveis sagas da iniciativa privada das últimas décadas. Coitado do BPA, que por tanto já passou, mas adiante.
 
Por essa época, andava o senhor em plena actividade de marketing, convidando jornalistas por tudo e por nada, tentando fazer esquecer as campanhas (algumas maldosas, outras na mouche) que o davam como esclavagista-mor do ‘Reino’, misógeno inultrapassável e sei lá que mais.
 
Na Madeira, terra que o viu nascer, lembro-me do seu approach: - ‘E o M. (meu nome), está com que idade? – 34, senhor engenheiro. – E é casado? – Não, senhor engenheiro’. (fim da conversa).
 
Passados três anos, com algumas conferências impessoais pelo meio, voltámos a ficar cara-a-cara. ‘E o M. (meu nome), está com que idade? – 37, senhor engenheiro. – E é casado? – Sim, senhor engenheiro. – E tem filhos? – Não, senhor engenheiro. (fim da conversa).
 
Foram estas as duas únicas vezes que referiu o meu nome em privado. As outras vezes que nos vimos, estava muita gente em volta.
 
O senhor teve um sonho; eu diria, imaginou uma missão. Daquelas de acordo com a sua ideossincrasia e os seus medos, com essa coisa inenarrável a que pertence, que nem eu, que tudo ouço, consigo compreender. O senhor imaginou-se fazedor do maior banco português. Para isso não olhou a nada. Pediu dedicação para além do que é humano a todos os seus colaboradores, pediu-lhes coisas que o seu juízo final não perdoaria (talvez Ele perdoe), sentou-os a vender o invendável, indicou-lhes o caminho do pecado. Queria mais alto e Balaguer estava de olho em si.
 
A certa altura, pareceu que conseguiu. A Forbes dizia, a Fortune reiterava: o seu banco era o maior de Portugal.
 
Depois começaram a aparecer aquelas coisas chatas da contabilidade, os auditores que não vêem, os accionistas que saem, a solvabilidade assim, a cotação assado…
 
O grande grupo tinha, finalmente, os pés de fora. Fora depressa demais, fora ao arrepio da conjuntura. Cresceu como Hidra. Refém da sua lógica, teve que vender. O quê primeiro? O grupo segurador. Porquê? Para obter rácios mais consentâneos com os de um grande grupo. E o que é isso? Não sei, ninguém sabe, mas o senhor engenheiro obedece. São as leis de mercado. Não foi para elas que sempre viveu? Aguente-se.
 
Um homem  da sua idade,  que nada usufruiu da vida, não devia andar a fazer reuniões até altas horas de sexta-feira. Até porque os seus colaboradores têm que ir para casa, para as famílias deles, ou beber um copo, para descontrair, ou ir ao cinema e ao teatro, que é lá que se ganham ideias e coragem para um novo dia. Mas não. Era meia-noite e nada. Deixou para segunda-feira.
 
Nos últimos anos, pensava a gente, o homem (o senhor) andava mais calmo, até já pensava em dar a sucessão. Até achavam que você tinha a dimensão de um Santos Silva. Engano. Às portas de um problema grave (?), Jardim Gonçalves é igual a si próprio. E convoca uma conferência de Imprensa para as 7h45 da manhã, para poder revelar ao mercado coisas miúdas que a ele o atormentam. Antes da Bolsa abrir, que é para a CMVM não lhe interromper a cotação. É ridículo. É verdade.
 
Como a minha colega que lhe segue os passos (coitada) está de férias (esperta), calhou-me a mim ir ouvir-lhe as dissonâncias. Inicialmente convocou-nos para as 16h30. Depois, a um domingo à tarde, manda dizer a nova hora.
 
Manda? Manda em sua casa, se mandar, o meu amigo. Eu não vou estar lá. A essa hora estou a dormir, como qualquer pessoa sensata.
 
Na esperança de que ainda um dia ouça a voz da razão, sou de Va. Excia, atenciosamente

 
Clark 59 (o M.) 


4 Comments:

Presunção e prepotência cada um... ai acho que não é assim o ditado, mas deixa estar, pelo menos corresponde melhor.

By Blogger PreDatado, at julho 19, 2004  

Meu caro amigo, é com tristeza que lhe revelo que a culpa é dos seus país. Isso mesmo, leu bem. Se os seus progenitores tivessem tido o elementar cuidado de o inscrever, ainda em idade tenra (meu Deus), no Vega Clube, já não teria qualquer dificuldade em levantar-se a tempo de estar numa conferência de Imprensa às 7h45 da manhã. Para mais, teria tido oportunidade de encontrar o sr. Eng. muitas mais vezes, de conhecer-lhe os filhos, a mulher, os primos, os sobrinhos, os netos, os piriquitos e o que mais possa imaginar. E de ser próximo do pensamento desse grande pensador - passe a expressão - o monsenhor, que podia não gostar de mulheres (achava-as próprias para trabalhos secundários de trazer por casa), mas era um grande banqueiro (tanto, que pagou ainda em vida a beatificação, por via do que agora se poderia chamar a retribuição aos accionistas, para usar uma linguagem que se entenda). E ainda, como bonus, de ter privado com o Prof. Carvalho Guerra e sua extensa e algo amalucada prole. E tantos outros de que me esqueço o nome, não porque a minha memória ande má, mas porque me esforço por esquecê-los. Um grande bem-haja para si também. A.F.S.

By Anonymous Anónimo, at julho 19, 2004  

É fácil, acabas a edição do blogue um pouco mais tarde e sais directamente para a conferência de Imprensa.
Mas vai com tempo, para que possas passar pela Igreja e pedir uma justificação ao padre (como fazíamos na Estação quando o comboio chegava atrasado, para entregar no quartel) e entregas ao engenheiro, para ele ver que se aos 45 anos ainda não tens filhos, não é porque não os peças todos os dias a Deus Nosso Senhor...

By Blogger PluribusUnum, at julho 20, 2004  

Lamentável mas previsível.

Mais uma vez se contacta que as aparências iludem...e que o senhor deste mundo é o dinheiro.
Não se olha a meios para atingir fins, heim?

OPUS DEI? Qual DEI? Qual OPUS?
GANÂNCIA e CORRUPÇÃO é o que é!

E também HIPOCRICIA e FALTA DE RESPEITO pelos cidadãos...encoberta por uma "religiosidade" doentia...valha-me DEUS!

Não se lembram do ditado popular: "Cá se fazem, cá se pagam".
E vivem como se não soubessem o que é a Lei do Retorno...

Deus lhes dará o dobro daquilo que deram...certamente!

By Anonymous Anónimo, at outubro 23, 2007  

Post a Comment

Comments:
Presunção e prepotência cada um... ai acho que não é assim o ditado, mas deixa estar, pelo menos corresponde melhor.
 
Meu caro amigo, é com tristeza que lhe revelo que a culpa é dos seus país. Isso mesmo, leu bem. Se os seus progenitores tivessem tido o elementar cuidado de o inscrever, ainda em idade tenra (meu Deus), no Vega Clube, já não teria qualquer dificuldade em levantar-se a tempo de estar numa conferência de Imprensa às 7h45 da manhã. Para mais, teria tido oportunidade de encontrar o sr. Eng. muitas mais vezes, de conhecer-lhe os filhos, a mulher, os primos, os sobrinhos, os netos, os piriquitos e o que mais possa imaginar. E de ser próximo do pensamento desse grande pensador - passe a expressão - o monsenhor, que podia não gostar de mulheres (achava-as próprias para trabalhos secundários de trazer por casa), mas era um grande banqueiro (tanto, que pagou ainda em vida a beatificação, por via do que agora se poderia chamar a retribuição aos accionistas, para usar uma linguagem que se entenda). E ainda, como bonus, de ter privado com o Prof. Carvalho Guerra e sua extensa e algo amalucada prole. E tantos outros de que me esqueço o nome, não porque a minha memória ande má, mas porque me esforço por esquecê-los. Um grande bem-haja para si também. A.F.S.
 
É fácil, acabas a edição do blogue um pouco mais tarde e sais directamente para a conferência de Imprensa.
Mas vai com tempo, para que possas passar pela Igreja e pedir uma justificação ao padre (como fazíamos na Estação quando o comboio chegava atrasado, para entregar no quartel) e entregas ao engenheiro, para ele ver que se aos 45 anos ainda não tens filhos, não é porque não os peças todos os dias a Deus Nosso Senhor...
 
Lamentável mas previsível.

Mais uma vez se contacta que as aparências iludem...e que o senhor deste mundo é o dinheiro.
Não se olha a meios para atingir fins, heim?

OPUS DEI? Qual DEI? Qual OPUS?
GANÂNCIA e CORRUPÇÃO é o que é!

E também HIPOCRICIA e FALTA DE RESPEITO pelos cidadãos...encoberta por uma "religiosidade" doentia...valha-me DEUS!

Não se lembram do ditado popular: "Cá se fazem, cá se pagam".
E vivem como se não soubessem o que é a Lei do Retorno...

Deus lhes dará o dobro daquilo que deram...certamente!
 
Enviar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

´ BlogRating