sexta-feira, junho 11
Uma questão de justiça
'Exmo. Senhor
Provedor de Justiça
Dirijo-me a Va. Excia sem qualquer esperança de que o meu problema encontre nos serviços que Va. Excia superiormente dirige qualquer eco. Não acredito na defesa da cidadania que Va. Excia deveria representar, não porque a personalidade de Va. Excia me cause algum engulho (nem sequer sei como é que Va. Excia se chama), mas apenas porque se trata concerteza de um português médio dirigindo uma instituição de fachada, e como tal indivíduo sem ferramentas nem muletas para manter a espinha direita e ao serviço da Pátria e de quem por cá vive (talvez um preto ou outro, quando muito).
Serve, portanto, a missiva essencialmente como desabafo.
Acabo de ser esportulado, por um consórcio a que pertencem a TMN, os tribunais cíveis de Lisboa e o Banco Totta, em 1.000 euros. Não entendi totalmente o porquê do roubo (não me estou a ver a ler dezenas de páginas de um processo judicial de que fui alvo, nem mesmo a levantar a desoras um papel qualquer que o citado banco me mandou, mas a que eu não tive acesso, porque a merda dos correios nunca estão abertos à hora a que eu posso lá ir, ou seja, entre as 11 da noite e as 5 da manhã), mas suponho que se trate de uma coisa velha, em que a citada TMN me acusava de ter ficado a dever uma quantia pr'á aí de 60 contos dos antigos. Não faço a mínima ideia de como poderia ter eu ficado a dever a essa agremiação telefónica fosse o que fosse, já que nunca fui associado dela. Os telemóveis que tive, e tenho, são de carregamento por multibanco, genial invenção portuguesa (que também as há), cuja vantagem é de só se poder efectuar telefonemas se houver dinheiro na conta. Ou seja, nunca se fica a dever um pintelho.
Com o esgar que me é típico, abri hoje um folheto execrável que o citado banco me manda de vez em quando, e vi lá o saque de 1000 euros da conta. Coincidia com outro papel que a TMN mandou para a minha antiga morada (e a que eu tive acesso tardio), em que me condenava ao pagamento dos referidos 1000 euros. Eu pergunto: cum caralho de autoridade é que o banco deixou que uns palermas quaisquer da maior agremiação de bandidos existente neste País (leia-se, aparelho judicial) levantassem 1000 euros da minha conta, sem eu nunca ter sido julgado, nem apresentado contestação, nem saber a que horas, que dias, que sítio me estavam a fazer a folha? Como posso ser condenado sem ter defesa e advogado bastante? E agora, presumindo eu que Va. Excia vai mandar esta carta pr'ó lixo, dirijo-me a quem? Ao Jesse James? Ao Don Corleone? E por que raio uma inexistente, nunca provada, dívida de 300 euros dá lugar ao pagamento de 1000? Será o suprimento da multa maior que a hipopatética dívida?
Gostaria, finalmente, que Va. Excia me aconselhasse numa coisa: como devo defender os meus direitos? Um Colt 45 ou uma Smith & Wesson 38? Ou uma G3?
Eu tinha, concerteza, outra hipótese. Devia ter contestado a TMN, o que equivaleria a passar horas em tribunal (faltando ao trabalho, por causa de sessões que seriam adiadas vezes sem fim), pagado a um advogado (o que se calhar me sairia mais caro que a sentença) e, com um bocado de sorte, dez anos depois, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) dar-me-ia razão, ou não, sobre tão delicado assunto essencial à Nação, como seja o pagamento de uma conta de telemóvel.
Sem respeito nenhum
(Assinatura)
PS. Sem o saber, o dito consórcio acaba de me resolver um problema: os 1000 euros estavam destinados a comprar um móvel pr'á sala, que eu hesitava em escolher. Agora está decidido.'
PS. só entre mim e um homem que eu admirei muitíssimo, mas que cometeu um erro grave: 'Pai, porque é que me convenceste, aos 17 anos, a ficar por cá em vez de emigrar para um sítio decente?'
6 Comments:
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By PluribusUnum, at junho 11, 2004
"Increible!", como diria, no seu português cervantino, o José António Camacho. Pelo menos esse já se safou daqui para um sitio decente. Mais decente que este, não tenho dúvidas...
By PluribusUnum, at junho 11, 2004
Ai,ai Clark. Limpa já as tuas contas bancárias. Guarda o dinheiro debaixo do colchão (não sei porque é que se perdeu este sensato e velho hábito) porque, a indeminização, por atentado ao pudor ao Provedor da Justiça, é de pelo menos 5000 Euros.
Que tal pedires um parecer a um Professor Catedrático, sobre este assunto? De seguida assaltas o Totta (eu posso ajudar-te em troca de 50%), munido do respectivo parecer. Não se poderão queixar, o procedimento é igual.
By Alfredo F., at junho 11, 2004
É a carta "mai linda" que já li...
vale perfeitamente os 1000 euros cativos, sem eles, dificilmente teria acesso a tão...orgastica leitura...
Clark,...arranje, JÁ, um advogado!
Pode custar mais de 1000 euros mas garanto que lhe vai dar equivalente valor em "gozo".
By CotadaEmBolsa, at junho 11, 2004
isto realmente é uma ROUBALHEIRA! Estado de Direito o tanas!!
A nossa democracia é uma democracia 'de funil': larga para uns, estreita para outros.
.....que os pariu!
ass. Buiça
By vs, at junho 11, 2004
Clark: temos de proteger os centros de decisão nacionais... Colabora!
By António Balbino Caldeira, at junho 11, 2004
Que tal pedires um parecer a um Professor Catedrático, sobre este assunto? De seguida assaltas o Totta (eu posso ajudar-te em troca de 50%), munido do respectivo parecer. Não se poderão queixar, o procedimento é igual.
vale perfeitamente os 1000 euros cativos, sem eles, dificilmente teria acesso a tão...orgastica leitura...
Clark,...arranje, JÁ, um advogado!
Pode custar mais de 1000 euros mas garanto que lhe vai dar equivalente valor em "gozo".
A nossa democracia é uma democracia 'de funil': larga para uns, estreita para outros.
.....que os pariu!
ass. Buiça
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