quarta-feira, junho 2
Portugal, lugar para todos
A uma senhora que não conheço, lida no BOS, de nome Fernanda Leitão:
Minha Senhora:
Se era, e é, mais velha do que o Rodrigo Emílio de Melo, que Deus o tenha, tem portanto pelo menos idade para ser minha mãe. Vou tentar – sendo certo que eu desajusto um tanto do que me revela ser o seu pensamento - tratá-la como tal.
Não é a saudade que nos mata. O que nos mata é sermos humanos, demasiado humanos. E, como tal, imperfeitos. Todos caminhamos para o mesmo. Mas uns esgaçam e partem. Outros aguentam e calam. Outros ainda sentem-se adiados. E há, todavia, os que nunca fogem do combate.
Sou, como todos os que me conhecem sabem, um crítico (às vezes feroz) das coisas que se passam no meu País. Mas nunca disse que não era Pátria a terra que me viu nascer. Nunca disse que, por causa do momento histórico, se tornasse menor o Estado por via da diferente geografia que foi tomando. Porque português ele era, e ainda é. E isso me basta.
Diz a senhora que pediu asilo político no Canadá (bom país, gosto do pouco que conheço) e que nunca mais voltou, ou, se volta, é para ver se por aqui «ainda há ponta por onde se lhe pegue». Garanto-lhe que há. Digo-lhe que há gente que luta nas empresas e que canta «A Portuguesa» (o hino do seu País). Digo-lhe que há quem escreva na língua de Camões e que não admite, por um ano sabático que seja, ficar sem nela se exprimir. Digo-lhe que há quem pegue toiros e não se rebaixe a nenhum ‘olé’ de Castela. Digo-lhe, por exemplo, que nunca como nesta República as mulheres tiveram o seu quinhão de forro e cidadania. Digo-lhe que fazemos coisas, os dias todos, das estradas que já temos ao caminho que ainda falta, da ciência que conquistámos à que ainda não anuímos a conhecer. Digo-lhe por fim que não há pinta de ressentimento por quem não perfilha a cartilha da República.
Mas não lhe minto. Há tanta coisa por fazer! Pior do que hoje, contudo, estávamos no tempo em que, adivinho, nos deixou. Em Portugal, hoje por hoje, há lugar para quem tem força. Eu diria: Só há lugar/necessidade para esses. Porque não volta?
E escreva, e proteste, e diga mal. Qual é o mal? Garanto-lhe que não vai presa, coisa que noutros tempos era imprometível.
E, se um dia lhe aprouver, diga bem.
Melhores cumprimentos
Clark59
Minha Senhora:
Se era, e é, mais velha do que o Rodrigo Emílio de Melo, que Deus o tenha, tem portanto pelo menos idade para ser minha mãe. Vou tentar – sendo certo que eu desajusto um tanto do que me revela ser o seu pensamento - tratá-la como tal.
Não é a saudade que nos mata. O que nos mata é sermos humanos, demasiado humanos. E, como tal, imperfeitos. Todos caminhamos para o mesmo. Mas uns esgaçam e partem. Outros aguentam e calam. Outros ainda sentem-se adiados. E há, todavia, os que nunca fogem do combate.
Sou, como todos os que me conhecem sabem, um crítico (às vezes feroz) das coisas que se passam no meu País. Mas nunca disse que não era Pátria a terra que me viu nascer. Nunca disse que, por causa do momento histórico, se tornasse menor o Estado por via da diferente geografia que foi tomando. Porque português ele era, e ainda é. E isso me basta.
Diz a senhora que pediu asilo político no Canadá (bom país, gosto do pouco que conheço) e que nunca mais voltou, ou, se volta, é para ver se por aqui «ainda há ponta por onde se lhe pegue». Garanto-lhe que há. Digo-lhe que há gente que luta nas empresas e que canta «A Portuguesa» (o hino do seu País). Digo-lhe que há quem escreva na língua de Camões e que não admite, por um ano sabático que seja, ficar sem nela se exprimir. Digo-lhe que há quem pegue toiros e não se rebaixe a nenhum ‘olé’ de Castela. Digo-lhe, por exemplo, que nunca como nesta República as mulheres tiveram o seu quinhão de forro e cidadania. Digo-lhe que fazemos coisas, os dias todos, das estradas que já temos ao caminho que ainda falta, da ciência que conquistámos à que ainda não anuímos a conhecer. Digo-lhe por fim que não há pinta de ressentimento por quem não perfilha a cartilha da República.
Mas não lhe minto. Há tanta coisa por fazer! Pior do que hoje, contudo, estávamos no tempo em que, adivinho, nos deixou. Em Portugal, hoje por hoje, há lugar para quem tem força. Eu diria: Só há lugar/necessidade para esses. Porque não volta?
E escreva, e proteste, e diga mal. Qual é o mal? Garanto-lhe que não vai presa, coisa que noutros tempos era imprometível.
E, se um dia lhe aprouver, diga bem.
Melhores cumprimentos
Clark59