terça-feira, junho 15

O Governo

Neste dias de ressaca pós-eleitoral, anda meio mundo a tentar perceber a razão da derrota governamental. Dito por outras palavras, trata-se de descobrir em que é que o Governo errou para merecer tal desconsideração por parte dos eleitores, que aplicaram às forças políticas que o compõem a maior derrota de sempre.
Não conheço o povo, por isso não vou falar por ele. Mas, por mim, penso que o país melhorava (e, por tal, o Governo seria mais popular) se pensasse nisto:

- Em primeiro lugar, a máquina pública vive de impostos. Que têm de ser cobrados. Por isso, o investimento na fiscalização é primordial, e não está, minimamente, feito. Para obter justiça fiscal (pôr toda a gente a pagar com equidade) é preciso fiscalizar, coisa que não existe, de todo, em Portugal. Pedir ao povo que aperte o cinto quando o mesmo povo vê, todos os dias, o vizinho a prosperar e a não pagar, não só é evidentemenete injusto como não ‘cola’. Enquanto isto não estiver resolvido, Portugal não passa de um País do terceiro mundo.

- Em segundo lugar, a justiça. Tudo em Portugal mudou um pouco, nos últimos anos (às vezes, calculem, para melhor!...), menos a justiça. Continua arbitrária e errática, lenta e autoritária. Não presta absolutamente para nada. Governo que não consiga dar uma vassourada naquilo não vai a lado nenhum. Uma nota: convém lembrar que a justiça não foi inventada para servir advogados e juízes, mas que estes, bem pelo contrário, foram inventados para a servir.

- Em terceiro lugar, a educação. Estamos mais massificados mas mais burros que há trinta anos. Assim não vale. O professor deixou de ter autoridade. Os alunos estudam o dobro do que se estudava no meu tempo e sabem (quando muito) metade. As empresas pedem pessoas x para trabalhar e as universidades formam pessoas y.

- Em quarto lugar, a saúde. Não há nada que mais acalme o povo que saber que, se tiver um ataque cardíaco, existe uma máquina de ressurreição e outra de desfibrilhação num raio de 10 quilómetros. O fatalismo lusitano mudaria muito se as pessoas não andassem ansiosas com cuidados de saúde precários.

- Em quinto lugar, a política de emprego. É aberrante o número de desempregados que existe em Portugal, Um adulto com emprego, não só paga impostos como anda contente. No entanto, a única polítca que se vê neste sector é o ataque ao subsídio de desemprego. Talvez não exista nada mais demonstrativo da ideia negativa que a direita tem dos homens do que a política seguida por Bagão Félix.

- Em sexto lugar, os transportes. O tempo que as grandes massas passam a ir do emprego para casa e de casa para o emprego é outras das aberrações nacionais. Investiu-se demasiado em auto-estradas e o comboio foi esquecido. Os parques de estacionamento e os inter-faces parecem coisa esdrúxula, só ao alcance de serem planeados por génios. Não é verdade. E o metro de Lisboa continua a inexistência que sempre foi. Ora aqui está um investimento público reprodutivo a todos os níveis.

- Em sétimo lugar, a lei de arrendamento urbano. É inadmissível que existam em Lisboa (não tenho números para outras cidades) quase 100 mil casas devolutas. Ou seja, dá para meter na capital, sem grande esforço, mais 300 ou 400 mil pessoas. O impacto económico que isso teria é enorme. Só dois exemplos: a indústria de reconstrução teria um impulso enorme, e a factura do petróleo diminuiria consideravelmente, dado o menor nível de deslocações das pessoas.

- Em oitavo lugar, a agricultura. Não percebo qual a razão porque uma vaca alentejana, criada por um holandês, dá lucro, enquanto se for propriedade de um português, dá prejuízo. Tudo isto tem muito a ver com educação e com políticas activas de rotação de propriedade. Ou seja, dar oportundiades de negócio a quem tem unhas para tocar guitarra. Não há nada de mais social-democrata.

E por aqui me fico.

PS - Não acham engraçado que o Governo tenha anunciado que vai proibir o consumo de tabaco em todos os locais públicos e que a seguir se engasque com a maior derrota eleitoral de sempre? Eu cá acho...

2 Comments:

Para ser breve, perderam porque são maus, incompetentes.
Porque ninguém acredita neles. Porque os Portugueses, que apenas tiveram direito a uns laivos de estado social, 40 anos depois de todos os outros europeus, odeiam a ideia de que lhe vão arrancar esse pouco de estado social que tinham.
E, ainda por cima, sem que nada lhe ofereçam em troca...

By Blogger PluribusUnum, at junho 15, 2004  

... é verdade, acho que o tabaco nada tem que ver com o engasgamento do Governo. Eles engasgaram-se sozinhos. E nós vamos continuar engasgados por mais dois anos. Só dois anos?

By Blogger PluribusUnum, at junho 15, 2004  

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Comments:
Para ser breve, perderam porque são maus, incompetentes.
Porque ninguém acredita neles. Porque os Portugueses, que apenas tiveram direito a uns laivos de estado social, 40 anos depois de todos os outros europeus, odeiam a ideia de que lhe vão arrancar esse pouco de estado social que tinham.
E, ainda por cima, sem que nada lhe ofereçam em troca...
 
... é verdade, acho que o tabaco nada tem que ver com o engasgamento do Governo. Eles engasgaram-se sozinhos. E nós vamos continuar engasgados por mais dois anos. Só dois anos?
 
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